Arquivo da Categoria: Críticas 1992

Chet Atkins & Jerry Reid – “Sneakin’ Around”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


Chet Atkins & Jerry Reid
Sneakin’ Around
LP / CD, Columbia, distri. Sony Music



Que Chet Atkins tem um passado ninguém duvida. O homem é uma espécie de avô da “country music”. Tocou com Elvis Presley e Hank Williams e ajudou a definir o denominado “Nashville Sound”. Aconselha-se então a audição desse passado e de álbuns como “Stay Tuned” ou “Chester & Lester”.
“Sneakin’ Around”, ao contrário do anterior “Neck and Neck” (gravado de parceria com Mark Knopfler) não faz jus a esse passado. A receita “country” com um cheirinho a jazz dos anos 50 regado com “chantilly”, e contando de novo com a presença de Knopfler num par de temas, resulta aqui em enjoo “mainstream”, que nem a técnica de guitarra – irrepreensível – de Atkins e de Reed (“toca guitarra como Ray Charles tocava piano”, diz o amigo Chet) consegue tornar apetecível.
Interessantes o ambiente muito “varieté” de “Vaudeville daze” e a evocação dos grandes “westerns” de antanho do título-tema, ao estilo de “Era uma vez na América”, com a harmónica solitária da praxe. Desce-se ao execrável em “Cajun stripper”, em que o dito “cajun” se despe sobre uma batida “disco”. Shit Atkins, não! (5)

K. D. Lang – “Ingénue”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.04.1992


ÂNIMA OU (DES)ANIMUS, EIS A QUESTÃO

K. D. LANG
Ingénue
LP / CD, Sire, distri. Warner



Depois de se afirmar como um dos maiores nomes da country actual. K. D. Lang desfez todas as dúvidas e arrasou com todos os preconceitos. Para ela, Nashville e a country acabaram. “Ingénue” é um disco de emoções à flor da pele, de relações perdidas e reencontradas no deserto das grandes desolações interiores. E uma voz fabulosa embalada por arranjos capazes de provocar um pranto convulsivo nas almas mais sensíveis. “Anima” ou “animus” eis a questão.
Para K. D. Lang, é irrelevante em que lado da barricada do amor se está. O problema é a barricada dos desânimos. O problema é K. D. Lang, quando canta: “something in me puts love into fear”. Ancorando em influências como Peggy Lee, Julie London e Carmen McCrae, o ambiente de “Ingénue” só encontra paralelo recente em Mathilde Santing (de “Water under the Bridge”) ou na operacidade dramática de Marc Almond, sem esquecer Marianne Faithfull, que por vezes também chora assim. Os violinos e as cordas são cascatas lacrimejantes. Há acordeões parisienses, Marlene Dietrich, ecos de Joni Mitchell e uma “pedal steel” tão vasta e profunda como um oceano.
Orquestras de nevoeiro dão lugar a sombras “jazzy” nos bares onde a noite é mais fria. “My body’s frozen and my heart is cold” é um entre muitos versos que ajudam a compreender um álbum triste, sobre experiências amorosas ou a “ausência delas” – como refere a cantora -, o que é ainda mais triste. Um vale de lágrimas servido em cálice de cristal. (9)

John Zorn – “Film Works, 1986-1990” + God – “Possession” + The Carl Stalling Project – “Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.04.1992


A CÂMARA ASSASSINA e outros desenhos animados

JOHN ZORN
Film Works, 1986-1990 (8)
CD, Elektra Nonesuch, import. Contraverso

GOD
Possession (7)
CD, Venture, distri. Edisom

THE CARL STALLING PROJECT
Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958 (7)
CD, Warner Bros., import. Contraverso



A música de John Zorn é por natureza cinematográfica. O saxofonista e compositor inglês disseca os sons, retalha-os e reconstrói-os segundo um processo de montagem em tudo semelhante ao do cinema. Sobretudo desde “Big Gundown”, Zorn tem vindo a entregar-se a um meticuloso reprocessamento sonoro de variadíssimos estilos e “inputs” musicais que, ao invés de tenderem para sínteses aglutinadoras, disparam em vertigem centrífuga, em direcção a uma “micro-música”, chamemos-lhe assim, de ampliação e revalorização de pormenores. Como se a Zorn interessasse estudar o filme, fotograma a fotograma. Estética de fragmentação já presente em obras como o citado “The Big Gundown” (ainda sustentada pelas partituras de Ennio Morricone) e “Spillane” (outra referência explícita ao universo cinematográfico, neste caso ao “filme negro”), na longa dissertação sobre Godard incluída no álbum de homenagem a este cineasta, editado pela Nato, e finalmente levada ao extremo na autodevoração de “Naked City” e “Torture Garden”. “Film Works” reúne as bandas sonoras compostas por Zorn para os filmes “Hite and Lazy”, de Rob Schwebwr, “The Golden Boat”, de Raul Ruiz, e “She Must be Seeing Things”, de Sheila McLaughlin, e uma versão “pastische” de “The Good, the bad and the ugly” para um anúncio da Camel. As imagens sonoras de Zorn são sinónimo de agressão. O desenho da capa – uma câmara que é ao mesmo tempo um revólver (símbolo / ícone já anteriormente presente em “Spillane”, “Deadly Waepons”, com Steve Beresford e David Toop, e “Naked City”) – ilustra bem o modo como o filme roda no cérebro do seu autor. Mais próximo de “Big Gundown” e “Spillane” do que das torturas sónicas dos Naked City, “Film Works” apresenta-se ainda como uma série de exercícios exploratórios sobre linguagens musicais autónomas (blues, country, jazz, ambiental, no caso das composições para Raul Ruiz, reproduzidas sob a forma de “géneros” anedóticos e arquivadas em títulos como “Jazz oboés”, “Horror organ”, “Slow” ou “Rockabilly”), com a diferença de que aqui cada um deles se compartimenta e arruma num tema específico, com tempo e espaço. Suficientes para respirar. Como se desta feita Zorn (acompanhado pela “troupe” do costume: Robert Quine, Arto Lindsay, Carol Emanuel, David Weinstein, Ned Rothenberg, Frissell, Previte, etc.) optasse por escrever o índice completo e detalhado da sua obra, de modo a facilitar ao ouvinte a decifração do labirinto. John Zorn figura como músico convidado em “Possession”, embora em termos sonoros os God não se afastem em demasia do universo estético / terrorista dos Naked City, com quem partilham uma especial preferência pelas virtudes do sadomasoquismo. No folheto interior, entre corações de metal, máscaras e vísceras sortidas, os God deixam clara a imagem que fazem do amor: “Being person who is owned and fucked becoming someone who experiences sensuality in being possessed.” Aqui o filme é de horror e o som abrasivo, feito de massas sonoras em descargas contínuas de ódio e distorção. De “Fucked “ e “Return to hell” a “Soul fire” e “Hate meditation”, os God mostram que são feios, porcos e maus. Registe-se como curiosidade a inclusão no grupo de Tim Hodgkinson, que integrou a formação original dos Henry Cow e agora se vê metido no inferno. Antecedente principal e referência paradigmática das estratégias Zornianas, a obra de Carl Stalling prefigura-se, entre os anos 30 e 50, como uma das mais revolucionárias da época na América. Vinte e poucos anos ao longo dos quais Stalling compôs as bandas sonoras para os desenhos animados de Tex Avery para a Warner. “The Carl Stalling Project” reúne gravações originais dessa era dourada da animação. Cinco anos antes da sua morte, referia-se nestes termos ao cinema de animação actual: “Têm tantos diálogos que a música deixa de ter significado.” Entre as tropelias de Bugs Bunny e Duffy Duck, a música destas pequenas sinfonias delirantes congrega em segundos toda a história da música americana que vai de Ellington a Copland, de Ives a Cage, intercalada pelo “Mickey mousing” – termo técnico que designa os ruídos onomatopaicos que acompanham a acção e os distúrbios das personagens animadas.