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Michel Redolfi e Steve Shehan – “Redolfi Apresenta ‘Jungle Sofisticada Na Estufa Fria – Na Selva, Com Chanel” (concerto | reportagem)

cultura >> quinta-feira, 20.07.1995


Redolfi Apresenta “Jungle” Sofisticada Na Estufa Fria
Na Selva, Com Chanel


“Jungle” não obedeceu às leis da selva. A “performance” multimédia criada por Michel Redolfi não soube aproveitar a excelência do local, a Estufa Fria, nem conseguiu ultrapassar os lugares comuns da música “new age”. Steve Shehan foi o único que deu vida a uma selva demasiado civilizada.



“Ganda banhada!”. O desbafo, ouvido à saída do concerto de Michel Redolfi e Steve Shehan, terça à noite, na Estufa Fria, em Lisboa, incluído no programa do Festival de Música dos Capuchos, descreve sem dúvida um certo estado de espírito que no final do espectáculo grassava entre a assistência. Mas será um pouco injusto chamar-lhe isso, na medida em que em “Jungle”, a obra apresentada, ao contrário do que é costume acontecer com outros trabalhos do compositor Redolfi, nem sequer há uma relação directa com a água.
2Jungle” prometia ser um retrato musical e olfactivo da selva amazónica, integrado no ciclo “Carnets Brésiliens”, com base em gravações efectuadas na floresta virgem pelo compositor francês. Acabou por ser uma sessão sofisticada de música “new age”, relaxante, colorida e, sem as devidas cautelas, propícia à sonolência. Em palco, apenas um músico, Steve Shehan, rodeado de uma panóplia de instrumentos de percussão. Redolfi encontrava-se no meio da sala, ao comando da consola dos sons, das luzes e dos cheiros – o tal “húmus amazónico” que acabou por soçobrar às vagas de perfume Chanel, Christian Dior e Calvin Klein que emanavam das senhoras da assistência. O marselhês não tocou sintetizadores, nem Luc Martinez flautas, como o programa dava a entender. À excepção das percussões foi tudo pré-gravado.
Luz negra iluminava motivos pseudo-amazónicos (lianas, folhas, troncos,…) espalhados pelo palco enquanto num ecrã eram projectadas imagens da floresta virgem e pinturas “naif” de Hervé di Rosa. Um cenário bem montado, exótico q.b. mas que não chegou para disfarçar a futilidade da partitura. Depois, e como bem perguntava também alguém da assistência, não teria sido mais lógico e apropriado apresentar este espectáculo no ambiente, ali mesmo à mão, da estufa, entre a flora luxuriante, em vez das quatro paredes de cimento do auditório? Porque “Jungle” é música ambiental, pano de fundo para os sentidos, espaço acústico de mimetismos tropicais e, como tal, funcionaria na perfeição naquelas condições. Assim, para um auditório especado em frente aos acontecimentos, terá sido para muitos a tal “banhada”, acompanhada pelo abandono prematuro de um número razoável de caras enjoadas e por certo arrependidas de terem largado três notas de conto na bilheteira. “É como na Igreja Universal do Reino de Deus”, ironizava um dos mais inconformados, “acaba tudo por deixar lá o seu!”.
Steve Shehan, só com as suas peles, madeiras, metais, caixas ressonantes, campainhas e chocalhos de toda a espécie, tambores de infinitos apelos e reverberações, um gongo monstruoso e outros artefactos percussivos, conseguiu manter-se desperto e fazer despertar. Desacompanhado da vertente electrónica ou imerso nas malhas sintetizadas Shehan fez jus à sua reputação de alquimista das fusões universais. Percutiu extractos da selva, fez gemer sinos com um arco de violino, obrigou os tambores a assobiar, povoou o silêncio de sonhos e revelou vazios no eterno rumor da floresta. Materializou os animais imaginários que se escondem na floresta do inconsciente primevo dos humanos. A selva – poética – foi ele. Num instante de magia, o autor de “Arrows” concentrou o Cosmos inteiro no murmúrio estelar de uma “mbira”. Atrás de si, no ecrã, a imagem de um lago de águas planas, silenciadas, sobre as quais meditavam dois flamingos quase fábula. Zen. “Jungle” acabou aqui.
Quebrado o encanto, deu para deixar o pensamento voar para o que fazer com os restos da noite, entre olhadelas para o relógio e suspiros de inconformismo pelo dinheiro gasto. Terminada a função, a facção estóica (ou mais anestesiada) do público concedeu aos músicos um aplauso polido, por obrigação. As noites de Lisboa, por muito quentes que sejam, nunca são tropicais.

Michel Redolfi – “Michel Redolfi apresenta ‘Jungle’ – Selva Para Os Sentidos”

cultura >> terça-feira, 18.07.1995


Michel Redolfi apresenta “Jungle”
Selva Para Os Sentidos


Um concerto de Redolfi é sempre algo mais do que um simples concerto. “Chrysalis”, apresentado há dois dias em Tróia, era para se ouvir e sentir debaixo de água. “Jungle”, um trabalho anterior, vai ter a fragrância de “húmus amazónico” e um ambiente a condizer: a Estufa Fria, transformada em selva tropical.

Convenhamos que não será tão incómodo como estar mergulhado numa piscina, o que aconteceu aos espectadores da obra mais recente de Michel Redolfi, “Chrysalis” – apresentada há dois anos no Festival de Música dos Capuchos -, que quisessem apreciar em profundidade, é o termo, todas as “nuances” desta ópera subaquática. “Jungle” – O Retrato Sonoro da Floresta” não obriga a tanto.
A peça, inédita entre nós, a apresentar hoje na Estufa Fria, em Lisboa, pelas 22h, num espectáculo integrado na programação da 15ª edição deste festival, é para ver, ouvir e cheirar. Vai ser espalhado no ar perfume de madeira e musgo, “húmus amazónico”, criado por Ivan Coste-Manière. Além do olfacto, também os olhos vão ser estimulados pelas pinturas de Hervé di Rosa, especialmente adaptadas às circunstâncias. A música será interpretada ao vivo pelo compositor e director musical Michel Redolfi, nos sintetizadores, Steve Shehan, nas percussões e dispositivos numéricos, e Luc Martinez, nas flautas. O resto será completado pela imaginação de cada um.
Nascido em 1951 em Marselha, Michel Redolfi, começou a interessar-se pelos “concertos submarinos” no início dos anos 80, na qualidade de compositor-residente da Universidade da Califórnia, local apropriado para este tipo de devaneios, diga-se de passagem.
Cosyumava convidar o público a mergulhar na água, em piscinas ou directamente no oceano. Os mais friorentos ou que não soubessem nadar podiam sempre optar pela audição de um disco editado nessa época com o selo Hat Hut, “Sonic Waters”, elaborado no sintetizador digital Synclavier, do qual Redolfi é considerado um dos pioneiros.
Antes, porém, de se dedicar ao meio aquático e de levar os outros com ele, Redolfi fundara já em 1969 o GMEM de Marselha, um dos primeiros centros de música experimental com localização fora de Paris. Só depois é que partiu para os Estados Unidos, onde estabeleceu um trabalho de cooperação com o Darmouth College, no campo da informática musical. Em meados dos anos 80 Redolfi dirige o Centre International de Recherches Musicales (CIRM), em Nice, onde explora, de forma sistemática, as relações da composição electro-acústica com os sons da Natureza. “Desert Tracks”, onde estrutura em forma de música as vibrações telúricas do solo do deserto californiano, e “Appel d’Air” (recenseado no suplemento Pop Rock, em 9-2-94), onde faz ouvir o som do ar, são exemplos discográficos da estratégia musical seguida por Michel Redolfi.
Embora menos conhecido, Steve Shehan é igualmente um músico notável, e sem dúvida mais seco, com ligações conhecidas ao universo da música Pop. Colaborou, entre outros, com John McLaughlin, Ryuchi Sakamoto, John Cale e Jon Hassell. Sem querer influenciar ninguém gostaríamos contudo de chamar a atenção para dois álbuns, por sinal com distribuição nacional: “Arrows”, gravado para a Made to Measure, onde Shehan toca sozinho cerca de meia centena de instrumentos étnicos e electrónicos, e “Assouf”, em duo com o alaudista árabe Baly Othmani.
“Jungle”, a peça que poderemos apreciar esta noite na Estufa Fria, com os olhos, os ouvidos e o nariz no ar, faz parte do ciclo “Carnets Brésiliens” (“Cadernos Brasileiros”), “suite” de músicas compostas a partir de gravações de campo efectuadas por Redolfi na floresta virgem.

Sharon Shannon, Clare, Broadlahn – “Encontros Musicais Terminaram Em Algés – Sharon Dos Sete Foles”

cultura >> sábado, 08.07.1995


Encontros Musicais Terminaram Em Algés
Sharon Dos Sete Foles


DEPOIS de uma falsa partida, os VI Encontros Musicais da Tradição Europeia terminaram em beleza no auditório do IPIMAR em Algés. Os irlandeses, para variar, fizeram miséria. Sharon Shannon, a acordeonista de Clare, e a sua banda rubricaram o final dos festejos com uma actuação onde mais uma vez ficou demonstrada a infinita vitalidade da “irish tradition”. Sharon, palmo e meio de altura, timidez nervosa, uma simpatia e sorriso irresistíveis, uma autêntica gatinha de sete foles, não deu espectáculo, no sentido teatral do termo. Apresentou rapidamente os temas, agradeceu os aplausos e tocou, de que maneira, o acordeão e o violino.
Navegando maioritariamente nos “medleys” de “reels”, mais adaptados ao fraseado intrínseco das “squeeze boxes” (como na Irlanda chamam aos acordeões, concertinas e tudo o que tem caixa e foles) o grupo fez paragens na música “cajun”, na tradição do Quebeque, no tal corridinho algarvio, numa valsa de “bal musette” e no clássico “Music for a found harmónium” dos Penguin Cafe Orchestra. Com Trevor Hutchinson, ex-Waterboys, no contrabaixo eléctrico, Donogh Hennessy, um guitarrista eficaz mas pouco imaginativo e Mary Custy, uma loura torrada pelo sol, no violino principal, a banda libertou alegria e adrenalina, mantendo um “drive” sem falhas, de verdadeiros “folk-rockers”, desenrolando o mapa de tesouros dos álbuns “Sharon Shannon” e do novo “Out the Gap”. A sala, cheia como um ovo, vibrou e exigiu dois mais do que merecidos “encores”.
Na primeira parte actuaram os austríacos Broadlahn que surpreenderam mais pelo inusitado da proposta do que propriamente pelas suas virtudes musicais. Desde o início, ao som de sirene de navio de uma trompa alpina, a estranheza instalou-se O vocalista principal, mais ou menos vestido de tirolês, foi o cicerone de uma música hibrida onde a tradição vocal do “yodelling” se combinou com um jazz farsola, a música indiana e africana e um certo humor instrumental (palmas, interjeições, uma marimba minimalista, pormenores deslocados). “Música no Coração” tocada por loucos que às vezes pareciam não saber muito bem o que fazer com os instrumentos. Entreteram, justiça lhes seja feita.
Ficou a frustração de não podermos ouvir em Algés os húngaros Mákvirag e os bascos Tomas San Miguel com Txalaparta. Se calhar até eram os melhores… Évora ainda vai poder ver hoje os Broadlahn e Mákvirag e amanhã os Frei Fado d’el Rei e Elementales. Guimarães, que este ano e com todo o merecimento voltou a ser a cidade eleita, assistirá ainda, no dia 10, aos Frei Fado d’el Rei e Mákvirag.