Arquivo da Categoria: Chamber Rock

Kronos Quartet – Estrategas Da Heresia – concerto

Pop Rock

14 de Dezembro de 1994

ESTRATEGAS DA HERESIA


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Responsáveis pelo desmantelamento de tabus culturais que recusavam a convivência de músicas tidas por parentes afastadas entre si, os Kronos Quartet, quarteto de cordas formado em 1973, tornaram-se nos últimos anos uma espécie de mensageiros que obrigam a repensar papéis e posições até há pouco tempo considerados estáveis e estanques na música deste século. Também nos últimos anos o sucesso do seu projecto tem chamado cada vez mais a atenção de músicos de diversas áreas que neles encontram um “input” formal diferente. Lado a lado com a justa popularidade do grupo e a importância da sua proposta, há evidentemente em todo este fenómeno uma quota-parte de movimentações ditadas por uma moda de momento. Estamos a recordar-nos por exemplo da opinião de um conceituado músico da cena “downtown” nova-iorquina, que há alguns anos actuou em Lisboa, sobre os Kronos Quartet, para quem escrevera uma composição. Dizia o tal músico conceituado que não gostava do grupo mas achava importante escrever para eles.
Seja como for, aos Kronos Quartet – que, se bem alguns se recordam, já tocou há uns anos em Portugal, no cinema Tivoli – se deve o derrube ou a abolição de muitas fronteiras. Servindo-se dos instrumentos de corda tradicionais de um modo revolucionário, extraindo deles sonoridades “heréticas”, obtidas tanto através dos métodos tradicionais como de outros bastante mais heterodoxos, os Kronos Quartet conseguem, a partir de um formato na aparência limitado a estilos musicais determinados, englobar na sua estética e nas suas estratégias, por vezes de guerrilha, a música de compositores tão distintos entre si como Shostakovich, Webern, Bartók, Ives, Piazolla, Cage, Raymond Scott e Howlin’ Wolf, Jimi Hendrix, Terry Riley, Witold Lutoslawski, John Zorn, Gorecki, Morton Feldman, Don Byron, Foday Musa Suso, Scott Johnson, John Adams, Philip Glass, Bob Ostertag, Pat Metheny e John Oswald, entre outros.
O Kronos Quartet é formado por David Harrington, violino, John Sherba, violino, Hank Dutt, viola de arco, e Joan Jeanrenaud, violoncelo.
Do programa fazem parte as peças “Mugam sayagi”, de Franghiz Ali-Zadeh, um compositor do Azerbeijão, “Dinner music for a pack of hungry cannibals”, “Powerhouse” e “Twilight in Turkey”, de Raymond Scott, pioneiro da música electrónica dos Estados Unidos, “Mtukwekok Naxkomao”, de Brent Michael Davis, um fusionista interessado no cruzamento das músicas étnicas com a electro-acústica, “Quarteto no. 4” de Sofia Gubaidulina, representante da nova música russa, “Mach”, de John Oswald, adepto das colagens sonoras e director do “Mystery Laboratory”, um complexo de pesquisa áudio e sensorial, produção e difusão, e “The book of alleged dances”, de John Adams, minimalista, neoclássico e ocasional pesquisador electrónico razoavelmente conhecido entre nós.

KRONOS QUARTET
15 de Dezembro, Caixa Geral de Depósitos



Portugal Está Nu E Recomenda-se – artigo de opinião

Pop Rock

19 de Outubro de 1994

PORTUGAL ESTÁ NU E RECOMENDA-SE


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U-Nu. Unidade. Nudez. Pode querer dizer isto ou outra coisa qualquer. U-Nu é um novo grupo português, originário do Porto, cuja estreia na editora Numérica, “A Nova Portugalidade”, é uma autêntica pedrada no charco. Originalidade, inteligência, cuidado máximo na produção e na apresentação, num disco onde pela primeira vez músicos portugueses ousaram filiar-se na chamada “estética Recommended”.

A primeira conclusão que se extrai da audição de “A Nova Portugalidade” é de que estamos perante um grupo que recusa toda e qualquer norma ditada pelas leis de mercado. Fernando Noronha (baixo), José João Cochofel (percussão), Manuela Costa (piano), Ricardo Pereira (sintetizador), Viriato Moraes (sopros) e Vitorino Almeida Ventura (voz e textos) fazem a música de que gostam e nesse caminho deixam semeadas múltiplas pistas para posterior desenvolvimento. As ideias explodem em múltiplas direcções. Muitas músicas estão contidas na música dos U-Nu.
Do título aos textos e à utilização de “instrumentos paródicos”, como cornetas e peixinhos de plástico, passando pela própria construção dos temas, sente-se que a ironia e a sátira ocupam um lugar importante na estética do grupo. No meio de ferroadas várias, que inclusive atingem a crítica musical (num tema com o elucidativo título “Narciso ou o crítico musical leva-nos ao paraíso”), a chave talvez possa ser encontrada numa das várias leituras possíveis da designação “U-Nu” aplicada à “nova portugalidade”. Como sugere José João Cochofel, pode ser que – os U-Nu preferem deixar vagos os lugares destinados à imaginação dos ouvintes… – “o rei vá nu” ou “o país vá nu”.
Percebe-se, além disso, que todos ouviram e assimilaram muita música. Boa música. Música afastada dos parâmetros comerciais. As bandas da Recommended são uma referência – dos No Secrets in the Family aos Il Gran Teatro Amaro e Fred Frith, só para nomear alguns citados pelos próprios U-Nu –, mas não esgotam a proposta destes portuenses, cuja música é praticamente impossível de catalogar. Visível é a existência de uma teatralização presente nos arranjos e na manipulação, semântica e fonética das palavras, acompanhada por um tratamento quase milimétrico dos sons. “A nossa música passa para além da música. Vejo-a mais como uma peça”, diz José João Cochofel, que acrescenta tratar-se de “um trabalho feito em grande parte a pensar nos espectáculos”.
Se é música portuguesa ou não, eis um assunto sujeito a discussão. O mesmo tipo de discussão que tenta descobrir qual o sexo dos anjos – ainda que o vocalista e declamador dos U-Nu fale em “andar numa procissão”, em símbolos como “o sino ou um corno celta”, ou até em “algumas alusões aos Zés-Pereiras”. No fundo, como diz Vitorino Almeida Ventura, talvez não seja mais que “um acto de amor entre duas culturas, uma portuguesa e tradicional e outra clássica”.
Uma coisa é certa: o projecto musical dos U-Nu, traduzido para já em “A Nova Portugalidade”, vai agitar os hábitos auditivos de muito boa gente e abrir um precedente para outras bandas isoladas em “guetos”, por causa de uma alegada falta de potencialidades comerciais da sua música, romperem o bloqueio. Para já, os U-Nu partem com uma certeza – a “existência de um público maior do que se poderia pensar”. Quanto ao número de vendas do compacto, não estão minimamente preocupados: “Se ganharmos o discos de presunto, já é porreiro, acompanhamos com umas cervejas!”

Benjamin Lew – “Le Parfum Du Raki”

Pop Rock

14 JULHO 1993
NOVOS LANÇAMENTOS POPROCK

Benjamin Lew
Le Parfum du Raki

CD Made to Measure, distri. Megamúsica


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Pintar com música impressões e recordações, contar histórias de múltiplos enredos e desenlaces, de forma vaga, através de sombras e sugestões, eis o modo de dizer de Benjamin Lew, americano, impressionista, manipulador de memórias e de sons. “Le Parfum du Raki”, traço olfactivo que ficou de uma circunstância particular, de uma história vivida entre o real e o fantástico, não é diferente do álbum anterior, “Nebka”, nem dos dois que gravou de parceria com Steven Brown, dos Tuxedomoon, “Le Verbe, l’Amour, la Parure” e “A Propos d’Un Paysage”, todos na Made to Measure. Com títulos em francês, voláteis, labirínticos, com o ambiente de um escrito de Duras: “Ce qu’elle voulait que j’entende”, “Le visage salé par l’écume”, “Le sentiment de la couleur”, “Que de moments d’alerte”, “Un mal sourd…” Benjamin Lew perdeu-se nos encantos e nos esquemas de uma fórmula sem regras nem contornos fixos. Com ele vão, entre outros, Luc Van Lieshout, Peter Principle (ambos dos Tuxedomoon), Michel Berckmans e Malka Spiegel, dos Minimal Compact. (7)

aqui (FLAC)