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King Crimson – “The Essential King Crimson Frame By Frame”

Pop-Rock Quarta-Feira, 27.11.1991


GÉNIOS ENCAIXOTADOS


…???

Pop-Rock Quarta-Feira, 27.11.1991


CORTES FINAIS DE UM REINADO CARMESIM
KING CRIMSON
The Essential King Crimson Frame By Frame
CD, E.G. / Virgin, distri. Edisom


“The Essential King Crimson” constitui um testemunho textual / musical de envergadura e um objecto de estudo indispensável para a compreensão da música de uma das bandas mais importantes das duas últimas décadas.



O objecto em questão começa por impressionar pelo lado da aparência: Uma caixa, à …ala de um disco LP, que inclui 4 CD, um livro de 64 páginas, profusamente ilustrado, que relata em pormenor cada passo dos King Crimson ao longo de uma existência atribulada, e uma folha com a árvore genealógica completa das várias formações lideradas por Robert Fripp.
Os três primeiros compactos correspondem, cada um, a fases específicas da banda; o último ficou reservado para os registos ao vivo. Refira-se a óptima qualidade das prensagens, conseguida através de … “re-masterings” e da utilização de novas técnicas de conversão digital.
A primeira fase corresponde ao período compreendido entre 1969 e 1971, durante o qual os King Crimson gravaram “In The Court of the Crimson King” (69), “In The Wake of Poseidon” (70), “Lizard” (70) e “Islands” (71). Fase “sinfónica”, apoiada nos contos de Peter Sienfield, contraponto poético ao demonismo desde sempre evidenciado pelo guitarrista. O som era então dominado pelas vagas orquestrais do “mellotron” sobre as quais a guitarra de Fripp flamejava.
De “In the Court of the Crimson King” reuniram-se a paranoia urbana de “21st century schizoid man”, os “sinfónicos” “Epitaph” e “In the court of the crimson king” e as baladas “I Talk to the wind” e “Moonchild”. Quanto ao álbum seguinte, “In the Wake of Poseidon”, há a lamentar a exclusão de três dos seus momentos fulcrais: “Pictures of a city”, que prolonga de forma mais elaborada a loucura de “s1st century…”, a solenidade majestosa do título-tema e a sequência instrumental “The devil’s triangle”, ilustrativo do tipo de energias que sempre alimentaram o guitarrista.
A opção, duvidosa (pese embora, a compilação ter sido organizada pelos principais interessados…), recaiu na introdução declamada “Peace – a theme”, em “Cat food”, que vale pelo solo de piano eléctrico de Keith Tippett e “Cadence & cascade”, remisturada já este ano, em que a voz de Adrian Belew substitui a de Gordon Haskell, no original. “Groon” é referida como pertencente a este álbum, o que é falso, pois o tema apareceu pela primeira vez no álbum ao vivo de 1973, “Earthbound”.



“Lizard”, para muitos o melhor álbum da banda, sem dúvida o ponto culminante da sua etapa inicial, apenas teve direito a umm excerto remisturado de “Bolero”, extraído da longa “suite” que ocupa todo o segundo lado do álbum. De fora ficaram os excelentes “Cirkus” e “Indoor games”.
Polémica é a inclusão de “Ladies of the road”, do disco seguinte, “Islands”, uma das brincadeiras muito do agrado dos King Crimson, com lugar reservado em cada disco e a agravante de ser mal vocalizada (por Boz. De resto, depois de Greg Lake, os King Crimson não voltaram a encontrar um vocalista à altura). Bizarria por bizarria, antes “Formentera lady”, longo crescendo instrumental apaziguado nos solfejos da soprano Paulina Lucas. Indiscutível, o fabuloso desempenho de Fripp na guitarra, em “Sailor’s tale”, embora o tema apareça cortado em cerca de metade do tempo.
O volume 2 da colectânea, correspondente aos anos de 1972 a 1974, é dominado pelo núcleo formado por Fripp, Bill Bruford (percussões), John Wetton (baixo) e David Cross (violino). “Larks’ Tongues in Aspic”, “Starless and Bible Black” e “Red” são os álbuns gravados pelos King Crimson durante este período. Nada a apontar em relação aos temas selecionados do primeiro, já que não faltam sequer os 18 minutos de folia do título-tema. O mesmo em relação a “Starless”, com “Night watch”, “The great deceiver” e “Fracture” presentes, o último amputado de alguns minutos. “Red” tem a honra de apenas ver preterido um tema, “Providence”. Sem dúvida o álbum culminante e mais duro DESTA FASE. Guitarra, baixo e bateria num dilúvio de electricidade e violência.
Após um período de interregno de oito anos – aproveitado por Fripp para desenvolver as suas “frippertronics” e gravar as colaborações com Brian Eno, “No Pussyfootin” e “Evening Star”, e, a solo, a trilogia “Exposure”, “God Save the Queen / Under Heavy Manners”, “Let the Power Fall” -, os King Crimson regressam para a sua (até hoje) derradeira fase, de 1982 a 1984.
“Discipline”, aqui recuperado quase na íntegra (“Indiscipline”, o tema que falta, aparece em versão ao vivo no 4º compacto), “Beat” e “Three of a Perfect Pair” dão a ouvir uma banda bem “integrada” no seu tempo, que não dispensa as cadências “funky” e a batida das caixas de ritmo. Adrian Belew dialoga com Fripp, na guitarra. A música perde em intensidade e dramatismo o que ganha em acessibilidade e concisão. Passada a era dos grandes épicos, as canções normalizam-se o que torna lícita qualquer selecção de temas. O inédito que figura no final deste 3º compacto tem tanto de divertido como de inesperado…
Para o fim, os registos ao vivo, outra faceta de que os King Crimson sempre tiveram razões de queixa, porque nunca se conseguiram libertar do estigma da má qualidade sonora. Mesmo em formato digital, esse problema não desaparece, nos excertos de espectáculos gravados em Inglaterra (1969, dois inéditos de estúdio: “Get the Bearings” e “Travel Weary capricorn”), Amsterdão (1973), Frejus (1982), Montreal (1984) e em “Ashbury Park” (de “U.S.A., 1975), “The Talking Drum” vem mencionado com a duração de 29 min. 04 seg. em vez dos 8 min. 30 seg. reais.



Tendo em conta a inevitável subjectividade que envolve qualquer tipo de escolha, a etiqueta “essencial” torna-se no mínimo problemática. Anunciada como sendoa colectânea definitiva dos King Crimson, “Frame by Frame” proporciona acima de tudo o prazer de reutar, em novo contexto e melhores condições, a música de uma banda que fez História e a oportunidade de perspectivar, de forma sistemática e fundamentada, a totalidade do seu percurso. (9)

Les Nouvelles Polyphonies Corses Avec Hector Zazou – “Les Nouvelles Polyphonies Corses”

Pop-Rock Quarta-Feira, 27.11.1991


LES NOUVELLES POLYPHONIES CORSES AVEC HECTOR ZAZOU
Les Nouvelles Polyphonies Corses
CD, Philips, import. Contraverso



À primeira vista, “Les Nouvelles Polyphonies…” poderá passar por mais um exemplar, entre muitos, de “world music”. Os arranjos de Hector Zazou introduzem a diferença, num disco que não destoaria na série Made to Measure. No canto corso, de reminiscências gregorianas, por vezes evocativo dos cantares alentejanos, encontrou Zazou matéria suficiente para mais um exercício de miscigenação. Entre o canto poderoso dos rituais “paghjella” que ligam a comunidade às forças cósmicas e a electrónica. Tradição e futuro irmanados no desejo de elevação. Síntese do antigo e do novo, do Oriente e do Ocidente, do corpo e da tecnologia.
Ponto fulcral de cada tema, as vozes e a sua harmonia determinam a orientação dos arranjos de Hector Zazou e as interpretações de uma constelação de grandes músicos, sensíveis à grandiosidade do terramoto vocal e à essência do canto corso: Ryuchi Sakamoto, Ivo Papasov, Steve Shehan, Richard Horowitz, Manu Dibango, Jon Hassell, John Cale e o grupo de música electrónica Lightwave, para além do próprio Zazou. Como se pode ler na contracapa: “Declaração de amor, poemas de esperança ou de sofrimento, as polifonias cantam também a terra queimada pelo sol, a água que corre, o crepúsculo e a alvorada, a alma profunda do povo corso. (8)

La Fura Dels Baus – “La Fura Dels Baus Apresentam Novo Epectáculo – Teatro Da Crueldade”

Secção Cultura Domingo, 17.11.1991


La Fura Dels Baus Apresentam Novo Epectáculo
Teatro Da Crueldade


“Noun” é o terceiro espectáculo dos catalães La Fura Dels Baus em Portugal. 3500 escudos é quanto custa o banho de emoções fortes e a participação neste espectáculo de horrores. No inferno já há lugares marcados. Hoje à noite, as últimas explosões.



Trinta minutos depois da hora prevista para o início do espectáculo, o público, que anteontem esgotou a bilheteira pese embora o elevado preço das entradas, ocupou o claustro do antigo convento do Beato, em Lisboa, iluminado a vermelho como um comboio-fantasma. Ou o inferno.
No ar pairava uma expectativa nervosa, alimentada pela antevisão do caos e do pãnico que os La Fura Dels Baus sempre provocam. “Noun” terá talvez desiludido quem esperava mais uma sessão de gritos e correrias, ou os tradicionais banhos de água e farinha, para não dizer de coisas piores. Para esses, em vez de banho, terá sido uma “banhada”.
Não se pense que os La Fura Dels Baus abandonaram a violência. Os “junkies” das sensações fortes tiveram a sua dose de susto e sobressalto. Houve fumos, o rebentamento de petardos, imagens e gestos chocantes que desta vez até incluem nus (masculinos e femininos) integrais. A diferença está em que, no novo espectáculo, essa violência, para além do massacre habitual, funciona a níveis mais subtis. Disfarçados pelas reacções de atracção / repulsa a que desta vez nem faltou a faceta “voyeurista”.
À entrada impressiona a estrutura hidráulica monstruosa de metal, à volta da qual os corpos dos actores se movimentam. Sobre, debaixo ou pendurados. Do ponto de vista técnico “Noun” é um prodígio de ginástica.
Tudo começa com uma cadeia de montagem de corpos humanos, dirigida pela máquina, um olho divino incrustado de ecrãs vídeo. A alienação transporta para um cenário futurista. Estabelece-se de imediato um clima de opressão e horror, exagerado por ruídos mecânicos e palavras de ordem berradas por uma voz disforme. Corpos nus irrompem de úteros artificiais suspensos da estrutura de ferro, acompanhados por abundante “rebentamento das águas”. Nascimento da matéria-prima que será submetida a processos de transformação que passam invariavelmente pela humilhação e pela dor.
Mas algo corre mal. Soam sirenes e explosões. As luzes apagam-se e a inquietação instala-se. Pressente-se o pior que, para muitos, é o melhor: as perseguições, a agressão (simulada), a confusão. O humano revolta-se contra a máquina e vinga-se no seu intermediário, uma mulher. É hora da tortura. E da descoberta das pulsões institivas simbolizada pelo banho ritual de duas mulheres num repuxo de esperma. Entregues a uma dança lúbrica, levantam as saias e deixam-se penetrar pelo falo líquido, ora simulando a cópula ora em luta corpo-a-corpo. Os olhares seguem cada movimento. A excitação agora é outra, exacerbada pela música, uma mistura de rock industrial com flamenco. O orgasmo representa o princípio do fim.
A partir de aqui o processo inverte-se. A descoberta do prazer implica a do poder. A metade masculina une-se à feminina. Um homem e uma mulher erguem-se no alto da estrutura, frente a frente, em pose de desafio. Por baixo de cada um estão pendurados de cabeça para baixo dois corpos, em simetria perfeita. A mente luciferina, que a eclosão das forças sexuais despertou, por cima. O duplo, a sombra corpórea, por baixo. O homem e a mulher vestem saias grená, cor alquímica correspondente à união final das duas metades sexuadas. Estão prontos para os jogos de poder.
Tomam o lugar ocupado pela máquina. O novo andrógino dirige, do alto da estrutura, os corpos-fantoche dos humanos, por comando à distância, numa simulação delirante de um jogo de vídeo. Teatro da crueldade como nem o próprio Artaud teria sonhado.
Teatro ritual onde a luta entre as pulsões da vida e da morte se resolve na condição supra-humana. Iniciação (tântrica) invertida (a inversão está de resto sempre presente em toda a concepção cénica e dramática de “Noun”) que passa pela subjugação do corpo, pela tortura, pela deformação, até ao limiar da dor e do sofrimento. Sade e Nietzsche, de forma mais “civilizada” e metafísica) já o haviam compreendido e escrito. No sadismo, na completa despersonalização e desregramento dos sentidos, na acumulação sistemática de horrores, esconde-se o desejo de vitória sobre Deus e o aniquilamento da moral. Vencido o corpo, ergue-se uma divindade gelada que no exercício do poder encontra o único alimento.
Na cena final de “Noun”, completo o ciclo de transição de poder do “deus ex-machina” para o superhomem máquina, os corpos dos homens juntam-se ao centro do quadrado metálico (representação do “novo mundo” que se adivinha) e fundem-se numa massa amorfa, tal qual uma peça de talho. O corpo individual desaparece para dar lugar à carne. O Teatro dos La Fura Dels Baus encena essa tragédia. As luzes acendem-se mas as pessoas parecem não perceber que a função terminou. Permanecem de pé, em silêncio. Os actores desaparecem.