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Vários (John Cale + Rodrigo Leão + Laurie Anderson + Ingrid Caven + …) – “Hoje A Associação Saldanha Apresenta-se E Revela A Sua Proposta Cultural Para Lisboa, Em Junho – Grandes Emoções No Monumental” (Vasco Câmara e Fernando Magalhães”)

cultura >> terça-feira, 18.04.1995


Hoje A Associação Saldanha Apresenta-se E Revela A Sua Proposta Cultural Para Lisboa, Em Junho
Grandes Emoções No Monumental
Vasco Câmara e Fernando Magalhães


John Cale, Laurie Anderson, Ingrid Caven e Bernard-Henry Levy, que apresentará o seu filme “Bosna!”, passarão por lá; Midnight Movies e Noites do Oriente serão propostas cinematográficas: um fluxo que começa no “underground americano” – Warhol, Waters ou Kenneth Anger -, passa por Godard, Garrel, Pasolini, Genet, Fassbinder e Jean Eustache, e acaba a dar visibilidade às artes marciais da China e de Hong-Kong e ao cinema erótico japonês. De Camilo, encenar-se-á “Os Mistérios de Lisboa”, folhetim com episódios diários e ao vivo que junta 21 actores; outros nomes portugueses: Rita Blanco – encenada por José Nascimento -, Diogo Dória, António Pinho Vargas, Rodrigo Leão e Nuno Rebelo. Em Junho, o Cine-Teatro Monumental, em Lisboa, não vai parar. É o “pontapé de saída” de um “projecto estratégico cultural para Lisboa”. A Associação Saldanha, “associação cultural sem fins lucrativos”, apresenta-se hoje em conferência de imprensa. A eternidade e o tempo suspenso das emoções fortes. Depressa…



É uma “acção exaltante” de um grupo de cidadãos que vai pôr o Cine-Teatro Monumental, em Lisboa, a servir de vibrante palco giratório multidisciplinar durante o mês de Junho, num cruzamento permanente e que se prevê arriscado entre teatro, música e cinema. Fará passar por aquela sal, com capacidade para 400 lugares, nomes como John Cale, Laurie Anderson, Ingrid Caven, Bernard-Henry Levy, Rita Blanco, Diogo Dória, Heiner Müller, António Pinho Vargas, Rodrigo Leão ou Nuno Rebelo, filmes do Oriente, das artes marciais ao erótico japonês, ou a solicitação do culto com os Midnight Movies – o ponto de partida será o “underground” americano, via Kenneth Anger, John Waters, Jack Smith e Andy Warhol, mas o percurso continuará por Godard, Garrel, Pasoilni, Genet, Fassbinder, Jean Eustache ou Rosa von Prauheim.
Hoje, às 17h30, no Cine-Teatro Monumental apresenta-se esse grupo de cidadãos, “conjunto de pessoas das mais diversas áreas” – a título meramente exemplificativo, nomes como os de Manuel Graça Dias, Augusto M. Seabra, Paulo Branco, Hermínio Monteiro, Rita Blanco, Maria João Seixas, Catarina Portas, Ana Salazar, Maria Nobre Franco ou Inês de Medeiros, entre 50 outros – que se organizou numa “associação cultural sem fins lucrativos, distinta dos poderes do Estado mas também da área de produção normal”: a Associação Cultural Saldanha.
Da conversa com o seu presidente, Augusto M. Seabra, fica já aqui o ambicioso princípio constitutivo: preencher o vácuo deixado por Lisboa-94, concebendo um “projecto estratégico cultural” para a cidade, algo, portanto, que não se quererá esgotar em Junho e poderá enquadrar-se em outras iniciativas como as Festas da Cidade, organização da Câmara Municipal de Lisboa.

Entre Lx-94 E A Expo-98

Podemos dizer que isto surgiu ao longo de Janeiro, quando verificámos aquilo que já suspeitávamos, que as potencialidades do aumento da oferta cultural durante Lx-94 não iam ter continuidade em 95, apesar de várias vezes as instâncias oficiais terem falado na hipótese de um festival em Lisboa e de se construir uma ponte – e não um hiato – entre Lx-94 e a Expo-98, explica o presidente da Associação Cultural Saldanha.
“A partir daí, um conjunto de pessoas organizou-se para criar um fórum onde cada um dos membros propõe as suas ideias originais para um espectáculo, ou aquelas ideias que entender, por conhecimento que teve no exterior. Entendemos que deveríamos correr os riscos de uma acção que é exaltante e ao mesmo tempo potencialmente suicidária, quer dizer, com a consciência de que isto tem um grão de loucura que andava a faltar nesta terra. É evidente que, segundo os processos habituais, é praticamente impossível mobilizar a partir de Janeiro os fundos necessários – mais e 100 mil contos – e conseguir organizar todo um programa, muitas vezes tendo de passar ao lado dos caminhos instituídos.”

A Margem E As Instituições



A constituição da Associação Saldanha fez-se à margem das instituições do Estado, mas a iniciativa de Junho vai precisar de apoios oficiais. “Ainda não são os suficientes e designadamente da parte da Câmara Municipal de Lisboa (CML) não houve até agora – embora já haja espectáculos a ensaiar em espaços cedidos pela CML – a resposta que esperávamos para algo que não é apenas uma iniciativa pontual mas que nos parece um projecto estratégico cultural para a cidade. Temos garantias importantes da Secretaria de Estado da Cultura, e esperamos que de outras entidades para-oficiais, estilo Fundação Oriente ou Expo-98, se concretize a abertura que tem havido da parte delas. Depois, é o imenso trabalho de encontrar uma margem de apoio mecenático”.
O horizonte é enquadrar a iniciativa numa programação mais vasta para a cidade, de modo a articulá-la com iniciativas públicas. É assim que um projecto estratégico cultural se distingue de um projecto de animação esporádico.
Mas mesmo para Junho, a associação Saldanha associar-se-á a “outra entidade” numa das manifestações de encerramento da iniciativa, quando acontecer um “um mega-evento” que sairá do espaço do Monumental – e que o presidente da Associação não quer ainda anunciar.
“Resta saber qual o balanço que as entidades oficiais, quer a nível da SEC quer da CML, vão fazer em termos de projectar esse balanço na definição de um modelo. É salutar que existam iniciativas autónomas dos cidadãos, produtores e consumidores culturais. Se as for possível articular, teremos a hipótese – e isso são os poderes públicos que têm de equacionar – de nas Festas da Cidade ou num futuro Festival de Lisboa se decidir entre um de dois modelos: uma comissão, mesmoq eu paritária, nomeada pelos poderes públicos que decida da programação – foi assim Lx-94 -: ou a coordenação de uma série de propostas autónomas de associações de cidadãos e produtores culturais, obviamente sempre com o acompanhamento das autoridades públicas a quem não podemos pedir um cheque em branco”.

Pontapé De Saída



Diz Augusto M. Seabra que “isto tem uma grande diferença em relação ao futebol, já que o mais difícil é o pontapé de saída”. Monumental 95, em Junho, vai ser então a prova decisiva de uma corrida contra o tempo em direcção à fixação de uma programação. E em relação a ela, o critério – inevitavelmente “um somatório dos nossos próprios interesses culturais individuais” – foi a transversalidade.
Os nomes presentes, e às vezes cada um deles – ou o título de um filme a apresentar, como “Cinema Falado”, de Caetano Veloso – são sinais dessa opção estética pela multidisciplinaridade. Laurie Anderson, por exemplo, que poderá vir apresentar o seu actual espectáculo, ou John Cale, violinista dos Velvet Underground, que se apresentam de novo em Portugal, a 2 de Junho, desta vez com uma bateria de instrumentos electrónicos para acompanhar ao vivo a projecção de um admirável filme de Todd Browning, “The Unknown”, com Lon Chaney e Joan Crawford (1927), viagem cruel masoquista ao mundo da paixão – a história de um artista de circo que amputa os braços porque a rapariga que ama não gosta de ser tocada; ou ainda “Cousines La Cousine”, espectáculo falado e cantado, em que vereos Edith Scob (a mulher silenciosa que habitava “Casa de Lava”, de Pedro Costa) juntar textos de renascentistas franceses, poemas do século XVI, com música de Georges …perghis.
Duas propostas conceptuais atravessam então Monumental-95. De um lado, a visão do “underground” americano e um percurso a partir daí; do outro, a proposta mais arriscada, “Os Mistérios de Lisboa” – de novo a ideia de fluxo de energias interior e subterrâneo – adaptação teatral do folhetim de Camilo Castelo Branco.
A proposta é tão arriscada quanto decisiva para a filosofia da programação, visto que até lhe emprestou o subtítulo: “Monumental-95 / Os Mistérios de Lisboa”. É uma estratégia inédita que reúne 21 actores em torno do encenador Adriano Luz e Maria José Pascoal, Nuno Rebelo, Natália Luísa, Orlando Costa e outros…) para 23 horas de teatro ao vivo.
Todos os dias, durante quase duas semanas, haverá uma hora de teatro, com o “remake” do capítulo anterior e as cenas dos próximos capítulos. O “jogo” torna-se mais vertiginoso quando se pensa que a televisão poderá estar interessada na proposta…
“Se o folhetim foi o antepassado da rádio-novela, e depois da telenovela, então agora num sítio que tem sido basicamente audiovisual, o Cine-Teatro Monumental, vai repor-se teatralmente as origens, no que se podia chamar uma teatro-novela”, resume Augusto M. Seabra.

A Etrernidade E Depressa!

Teatrais e portugueses serão ainda as propostas “Hot Line”, com a actriz Rita Blanco encenada por José Nascimento (estreia no teatro de um homem de cinema) – novamente a ideia de cruzamento: linhas telefónicas, segredos e revelações – e “Inquisitório”, de Robert Pinget, encenado e interpretado por Diogo Dória.
“Impressionou-me reler duas frases de Almada Negreiros, visíveis no espectáculo que José Ernesto de Sousa montou em 1969. ‘Nós não estamos algures’” – um dos documentos dos anos 60 e 70 do “underground” português que também será mostrado.
“Uma é ‘A eternidade existe, sim, mas não tão devagar’ – gostaríamos de ter alguma pressa, se não para chegar à eternidade, para chegar àquele tempo suspenso em que temos as grandes emoções fora do nosso quotidiano.
“A outra é ‘Às vezes ponho-me a pensar em coisas que eu nunca vi naturalmente, só lá muito longe nas outras terras’. Gostaríamos que algumas dessas coisas fossem visíveis aqui.”

Caixas
Pela Noite Dentro

(Vasco Câmara)

Prometeu Cai No Saldanha
JUNHO PROMETE ser, em matéria de concertos e outros acontecimentos relacionados com ma música, um mês quente no Monumental.
Os “Mistérios de Lisboa” vão neste caso descobrir-se no eixo que liga Nova-Iorque a Berlim. O cruzamento de linguagens e a recontextualização de nomes já conhecidos em projectos de orientação inusitada, serão a regra de ouro no princípio de Verão. Entre os nomes internacionais já confirmados, encontra-se o de John Cale, violista dos Velvet Underground [ver texto principal]. Os Velvet são de resto um dos focos principais destes “Mistérios”, com a sua cantora emblemática, Nico, a ser objecto de particular atenção, através das filmografias de Andy Warhol, com “The Velvet Undergound and Nico”, Suzanne Ofteringer, com o documentário “Nico-Icon”, e, sobretudo, com o ex-suicidário Phillipe Garrel. O realizador francês que uma vez disse que fazia filmes para não se suicidar escolheu a falecida cantora, actriz e modelo germânica para personagem de assombração de “La Cicatrice Intérieure”, “Athanor” e “Le Lit de la Vièrge”, todos com projecção assegurada nas sessões de “Midnight Movis”. No sentido inverso, está “Songs for drella”, de Ed Lachman, que filmou o concerto de homenagem de John Cale e Lou Reed ao homem que imortalizou as sopas Campbell e fez um sofá com os lábios de Mae West.
Outro dos nomes mais importantes da cena, vá lá, “underground”, de Nova-Iorque presente no Saldanha, é Laurie Anderson, num espectáculo cujo formato está ainda por definir, já que tanto pode ser um concerto como uma sessão de histórias declamadas da sua “Nerve Bible”, na linha do que é possível escutar no álbum “The Ugly One with the Jewels”. Seja como for, à meia-noite será exibido “Home of the Brave”, da sua autoria. De David Byrne, outro visitante assíduo ao nosso país, serão exibidos alguns dos seus vídeos.



Concerto grande, para perdurar na memória, será aquele a apresentar na festa de encerramento destes “Mistérios de Lisboa”: a ópera radiofónica “A Libertação de Prometeu”, um texto de Heiner Müller musicado e sonorizado por Heiner Goebbels.
Ainda no capítulo das imagens será possível rever filmes como “Don’t Look Back”, de D. A. Penbaker, por onde desfilam todos os nomes importantes da década de 60, sob a égide de Bob Dylan, e “Gimme Shelter”, documentário de Albert e David Mayles com Charlotte Zwerin sobre os Rolling Stones, a mesma banda que Godard filmou em “One + One”, também incluído na programação das meias-noites. Nick Cave e Nina Hagen poderão ser vistos como actores em “Dandy”, de Peter Sempel.
O encenador preferido dos minimalistas, Bob Wilson, marcará presença com o vídeo “La Mort de Molière”, entre outros, enquanto Jim Jarmush permitirá rever as capacidades de representação do saxofonista dos Lounge Lizards, John Lurie, um dos esteios da “downtown” nova-iorquina. Caetano Veloso estreia-se como realizador, em “Cinema Falado”.
Na lista anunciada de espectáculos inclui-se ainda “As Time Goes By”, de Augusto M. Seabra, com Luís Madureira, Helena Afonso e Elsa Saque – em versão remodelada – e poesia negra, numa noite de “rap” com General D, Boss AC e os Black Company (“mad nigger não sabe nadar, yé”).



A representação portuguesa suscita curiosidade acrescida, na medida em que a maioria dos nomes investirá na diferença, manobrando em campos de acção que não serão, em cada caso, os mais habituais. António Pinho Vargas, por exemplo, tocará com o saxofonista José Nogueira, reatando uma relação musical interrompida há oito anos. Nuno Rebelo vai mostrar por fim “O Mundo Desbotado”, composto em bases computacionais sobre um vídeo de Edgar Pêra. Rodrigo Leão fará uma pausa nos seus Vox Ensemble para manipular fitas magnéticas com textos de poetas portugueses. Mário Laginha actuará em quarteto com os irmãos Julian e Steve Arguelles, respectivamente saxofonista e baterista, e Bernardo Moreira, no contrabaixo. O violino e os dispositivos electro-acústicos de Carlos Zíngaro entrarão em diálogo com o contrabaixo de Peter Kowald. Novas músicas e novas situações, numa tentativa de inventar horizontes mais vastos para uma cidade que não quer ser provinciana.

Luís Cília – “Luís Cília Regrava Música Para Bailados – ‘ESQUERDA E DIREITA UNIDAS JAMAIS SERÃO VENCIDAS…'”

pop rock >> quarta-feira >> 18.01.1995


Luís Cília Regrava Música Para Bailados
“ESQUERDA E DIREITA UNIDAS JAMAIS SERÃO VENCIDAS…”




O novo trabalho Luís Cília, “Bailados”, com data de edição marcada para o final deste mês na editora Strauss. O álbum reúne excertos de peças escritas para diversos coreógrafos nos últimos anos e fecha um longo ciclo em que o músico se dedicou por inteiro à composição para bailados. Os últimos trabalhos em disco de Cília são “Regra do Fogo”, com o mesmo tipo de composições, e “Penumbra”, sobre textos de David-Mourão Ferreira.
O alinhamento, gravado nos estúdios da Strauss com o engenheiro de som Fernando Abrantes, é composto por “Une histoire de passion”, para uma coreografia de Paulo Ribeiro, para a companhia de bailado de Genebra; “Linha”, para uma coreografia de Rui Horta por encomenda do Acarte; um arranjo para saxofone (por Edgar Caramelo) de uma ária, “Remember me”, extraída da ópera do compositor inglês Henry Purcell, “Dido e Eneias”, com coreografia de Serge Sandor; dois extractos dum bailado com o título “Encantados de servi-lo”, outra coreografia de Paulo Ribeiro, esta para o Netherlands Dans, estreada em Haia; “O sonho de Ícaro”, primeiro bailado do coreógrafo Rui Nunes, para a Companhia de Dança de Lisboa; dois extractos, ainda de uma coreografia de Paulo Ribeiro, estreada na Expo-92 em Sevilha, intitulada “Uma ilha num copo de sumo” -, para Luís Cília, “uma experiência extraordinária, um bailado em que o Paulo pegou em crianças à volta de 11 anos de duas escolas diferentes, uma da Damaia, outra de Campo de Ourique, que nunca tinham dançado. Quarenta miúdos juntos com seis bailarinos profissionais. Até há um vídeo, não-comercial, que mostra, inclusivamente, cenas de racismo existente entre as duas escolas. O guião, basedo nos Descobrimentos, foi escrito por uma miúda de onze anos e o próprio título foi escolhido pelas crianças”. O álbum termina com um bailado com coreografia de Clara Andermat, para o Acarte, chamado “Mel”.
No estúdio Luís Cília regravou todas estas peças recorrendo unicamente à tecnologia mais recente dos “samplers” e outros computadores, e à preciosa colaboração de Fernando Abrantes, “uma pessoa que inclusive trabalhou com os Kraftwerk, um técnico muito sensibilizado para estas novas tecnologias e que soube apreender logo o que eu queria”.
Posto em dia, que é como quem diz, em disco, a música mais actual de Luís Cília, o autor explica as razões do seu longo afastamento dos estúdios. “Começando a ter mais convites para fazer músicas, para teatro ou para bailado, fui ficando cada vez mais ligado a este tipo de composição e às novas tecnologias, que fui obrigado a estudar.” O compositor recorda ainda outra faceta sua da qual poucos terão ouvido falar: “De facto penso que fui um bocado pioneiro em Portugal, na realização do chamado pequeno recital. Tinha uma carrinha, ia eu e outro músico, primeiro com o Pedro Caldeira Cabral, logo a seguir ao 25 de Abril, depois com os contrabaixistas José Eduardo e, mais tarde, António Ferro. Íamos com tudo, com preços baixos, sem pensar no aspecto económico, tocar em pequenas salas. Infelizmente naquela altura não as havia em quantidade suficiente nem a mentalização para este tipo de espectáculo. Como eu costumo dizer, na cultura em Portugal, a esquerda e a direita unidas jamais serão vencidas. Só se conseguirá fazer de facto com que os músicos possam viver da música quando houver um circuito como aquele que existe, por exemplo, em França.

Carlos Zíngaro + José Mário Branco + Luís Cília + Nuno Rebelo + U-NU + Júlio Pereira + Vai de Roda + Realejo – “O Que Está Para Acontecer”

pop rock >> quarta-feira >> 04.01.1995


O QUE ESTÁ PARA ACONTECER

CARLOS ZÍNGARO



MÚSICO DE GRANDE PROJECÇÃO ALÉM-FRONTEIRAS, CARLOS Zíngaro nunca teve em Portugal o reconhecimento merecido. 1995 será mais um ano em que o violinista se desdobrará por várias actividades no âmbito da nova música europeia. A reedição, no início deste ano, do compacto “Solo”, gravado no Mosteiro dos Jerónimos com o selo In-Situ, cuja primeira edição se esgotou, será acompanhada, na mesma editora, pelo lançamento de um álbum de genérico “Periferia”, por um quarteto do qual fazem parte, além de Zíngaro, o saxofonista Daunik Lazro, o contrabaixista Jean Bolcato e o pianista Sakis Papadimitriou.
Ainda em matéria de novos discos, sairá este ano, na Avant, editora de John Zorn, a ópera interactiva “Golem”, do teclista Richard Teitelbaum, na qual participam o violinista português, a cantora Shelley Hirsch, o guitarrista David Moss e o trombonista George Lewis.
Em termos de espectáculos, Carlos Zíngaro tem programado um concerto em Colónia, realizada pela WVDR (Rádio Televisão da Vestefália), integrado num festival de nova música, ao lado de outros dois violinistas, Mark Feldman e Malcolm Goldstein – todos em actuações a solo. No Festival de Artes de Seul, na Coreia, Zíngaro apresentará nos finais de Setembro um projecto duplo, com actuações com músicos locais e, em paralelo, espectáculos de bailado com música ao vivo e a participação dos bailarinos João Natividade e Margarida Bettencourt.
O mesmo formato, apresentado pela primeira vez em Macau no passado mês de Dezembro, será seguido em Tóquio, onde o músico português tocará com executantes japoneses. “A editora de Hong-Kong, Sound Factory, mostrou-se por seu lado interessada em editar, caso as ‘masters’ estejam em condições, a banda sonora deste projecto, que foi apresentado me Macau”, acrescenta Carlos Zíngaro.
Em Portugal, está agendado um concerto ao ar livre, em Idanha-A-Nova, com o compositor e percussionista espanhol Llorenç Barber, a realizar em Agosto numa ponte romana que liga Portugal a Espanha. Neste projecto, Barber tocará os sinos de vários campanários de igrejas da região.

JOSÉ MÁRIO BRANCO




AINDA NÃO SE ESGOTARAM OS ECOS DO espectáculo “Maio Maduro Maio”, realizado recentemente no S. Luiz, em Lisboa, e José Mário Branco não tem mãos a medir. O novo ano tem uma agenda carregada à sua espera. 1995 será o ano de edição em compacto da obra integral deste autor, numa editora que deverá ser a Edisom. Serão sete CD, os três que já saíram – o duplo “Mudam-se os Tempos” e “Margem de Certa Maneira”, e “Correspondências” – aos quais se irão juntar “A Mãe”, “A Noite”, “Ser Solidário / FMI” e um sétimo disco, que “terá coisas dispersas, anteriores, como ‘O soldadinho’, ‘Cantigas de amigo’, temas do GAC e alguns inéditos”. Os discos serão vendidos separadamente mas, ao mesmo tempo, será editado um pacote com os sete, contendo um livro autobiográfico e com a análise da obra e iconografia de José Mário Branco. Também para este ano está prevista a saída do disco, na Sony Music, com a gravação ao vivo do espectáculo “Maio Maduro Maio”. Outro dos projectos de José Mário Branco é a produção, em Janeiro, de um disco de fados, ao vivo, de Camané: “Vai ser gravado em condições relativamente inéditas em termos de fado, ou seja, vamos recriar, durante quatro noites, o ambiente pré-preparado de uma casa de fados, com pessoas escolhidas, vinho tinto e chouriço assado, um bocado como na televisão, com possibilidade de repetir”. Logo a seguir, será a gravação de um projecto de José Peixoto, José Salgueiro, Paulo Curado e João Paulo, um disco de canções infantis cantadas por Maria João. José Mário Branco terá a seu cargo os arranjos e a direcção musical. O disco chamar-se-á “Bom Dia, Benjamim” e é “a história de um dia da vida de um miúdo de cinco anos de idade” – após o que será a entrada em estúdio dos Gaiteiros de Lisboa, para a gravação do seu álbum de estreia, com edição prevista para o meio do ano, coincidindo com um concerto misto de José Mário Branco com o grupo, inicialmente agendado para este mês mas que acabou por ser adiado e substituído pelo espectáculo “Maio Maduro Maio”.

JÚLIO PEREIRA
JÚLIO PEREIRA ESTÁ ZANGADO COM A EDITORA, A SONY MUSIC. O ALBUM “ACUSTICO”, EDITADO no final do ano passado, foi bem recebido pela crítica, o que, segundo o músico, justificaria da parte da editora uma aposta maior em termos de promoção: “Eu, projectos para este ano, tenho vários, mas não me apetece divulga-los agora. Os projectos passam muito pela resposta aos trabalhos que a gente faz. Neste momento, ainda estou à espera que a minha editora, que é a Sony, avise e informe as pessoas do meu país, e, inclusive, do estrangeiro, que o meu disco saiu. Não quero entrar numa má, mas neste momento não me apetece ficar calado.” Está dado o recado.

LUÍS CÍLIA




“A ÚNICA CERTEZA É QUE NO FINAL DE JANEIRO sairá um disco meu”, diz Luís Cília, em relação a projectos para 1995. O disco, instrumental, será editado sob a etiqueta Strauss e conterá extractos de bailados, para a Gulbenkian, que o artista foi compondo ao longo dos últimos anos, em vários locais, como a Holanda e a Suíça. O saxofonista Edgar Caramelo será o único convidado presente. Para além deste álbum, Luís Cília não arrisca outros prognósticos. “Em Portugal não se pode fazer grandes projectos”, diz. “Sobretudo depois do que se gastou com Lisboa 94, com a Lisboa ‘gutural’, como eu lhe chamo. Não sei se restou algum dinheiro para os artistas portugueses. Projectos, em Portugal, só se forem a curto prazo.” Luís Cília conta também escrever a música para a peça “A Morte de Um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, que será levada à cena pela companhia de teatro Malaposta.

NUNO REBELO




NÃO APARECE MUITO NA IMPRENSA, GOSTA DE participar em projectos multimédia, de experimentar campos musicais alternativos e gravou um disco lapidar: “Sagrações do mês de Maio”. Este ano Nuno Rebelo, ex- Street Kids, ex-Mler Ife Dada e ex-Plopoplot Pot, vai dar um concerto à hora de almoço no Acarte, no dia 2 de Fevereiro. “Com música ao vivo sobre um vídeo do Edgar Pêra, ‘Um Mundo sobre o Outro, Desbotado’ baseado numa novela de Maria Isabel Barreno.” O vídeo, gravado para o ISPA, tinha 20 minutos de duração e música composta por Rebelo. No espectáculo ao vivo será, porém, apresentada uma versão diferente, intitulada “As alucinações estão aí”. No palco vai estar, ao lado de Nuno Rebelo, o guitarrista Jean-Marc Montera, que já tinha tocado este ano no S. Luiz, em Lisboa, com Paul Lovens e Carlos Zíngaro. Além deste concerto, Nuno Rebelo refere que apenas tem na agenda compor música para “umas peças de teatro à espera de subsídio, aquelas coisas…”.

REALEJO
OS REALEJO SÃO UM GRUPO DE MÚSICA DE RAIZ TRADICIONAL DO QUAL MUITO SE ESPERA PARA este ano. Fernando Meireles, construtor e tocador de sanfona, anunciou que a banda vai estar em estúdio em Janeiro e Fevereiro para gravar o álbum de estreia que em princípio deverá sair no início da Primavera. “Quem vai produzir o disco é o Luís Pedro Fonseca, que trabalhou no álbum da Né Ladeiras. Penso que ele irá vender o disco à EMI”. “Tudo surgiu”, explica Fernando Meireles, “por causa da nossa participação no disco do Fausto”. O álbum dos Realejo esteve para ser feito no Nova Estúdio, o que não aconteceu porque entretanto “surgiram umas complicações”. “Eles não tinham dinheiro para investir, tivemos que ser nós a fazê-lo”, diz Fernando Meireles. Depois da apresentação do disco, este músico é de opinião que para os Realejo “as coisas irão tomar um novo rumo” em 1995, embora reconheça que o ano que passou foi aquele em que os Realejo fizeram mais espectáculo – “tem vindo a melhorar de ano para ano!”

U-NU




OS U-NU SÃO UMA NOVA BANDA DO PORTO CUJA estreia discográfica, “A Nova Portugalidade”, o POPROCK inclui na lista dos dez melhores discos portugueses do ano. Para já, segundo o letrista do grupo, José João Cochofel, ex-membro dos Clã, os U-Nu “vão aguardar pelo tipo de aceitação que o disco terá e ver até onde poderá chegar”. A intenção é fazer espectáculos, “muitos espectáculos”. Para já, a apresentação em Lisboa de “A Nova Portugalidade” está marcada para o próximo dia 9, ao fim da tarde, no Chapitô. À noite, a banda fará uma actuação ao vivo no novo bar deste recinto. Dia 12, no Johnny Guitar, haverá nova oportunidade para o público lisboeta escutar a música inovadora dos U-Nu.
Num ano que para este grupo se poderá considerar muito positivo, José João Cochofel faz o balanço e acha que “houve espaço para os novos projectos”, embora considere que 1994 foi um ano “um bocado confuso”. “Houve coisas”, diz, “que surgiram de repente e de que ninguém estava à espera, como é o caso do Abrunhosa. Ninguém pensaria que o fenómeno tomasse as proporções que tomou. Por outro lado, so grupos mais consagrados andaram um bocado mais apagados”. Quanto aos U-Nu, não têm grandes razões de queixa, embora reconheçam que a época escolhida para a apresentação à editora do projecto “A Nova Portugalidade”, há cerca de dois anos, não tenha sido muito propícia – “o trabalho talvez estivesse ainda um pouco verde ara editar”. Certo é que os U-Nu apresentaram então uma maqueta “praticamente igual ao que seria o disco” e pouco tempo depois a editora, a Numérica, aceitou fazer a edição de um trabalho que o próprio José João Cochofel considera ser “um bocado difícil”. Até agora “A Nova Portugalidade” tem já vendida cerca de meia edição, o que não é mau para um disco com as suas características e acabado de editar. Apesar de “alguma confusão em certas lojas, que não têm o disco”, como acentua José João Cochofel, para quem a explicação para isto talvez seja “o facto de ser Natal…”.

VAI DE RODA
“VAI DE RODA” E “TERREIRO DAS BRUXAS” SÃO dois álbuns, distantes um do outro no tempo, que vieram recolucionar o conceito de música de raiz tradicional feita em Portugal. É pois com enorme expectativa que se aguarda o terceiro capítulo da obra deste grupo liderado pelo tocador de sanfona, e outros instrumentos, Tentúgal. O final da gravação deverá acontecer, segundo Tentúgal, no final de Janeiro, estando a edição do álbum apontada para a Primavera. O disco será, em princípio, editado pelos próprios músicos do grupo, não estando posta de parte a hipótese de uma editora o comprar. “Tivemos cinco propostas de editoras, mas nenhuma delas nos agradou, portanto resolvemos tomar nós a peito todo o processo”. Sobre os actuais Vai de Roda, Tentúgal diz que a sua formação “está mais madura” e sobre o terceiro disco da banda apenas adianta que “vai ter a inclusão de novos instrumentos, como a gaita-de-foles a ganhar uma maior predominância”. Neste momento, além do próprio Tentúgal, o grupo tem como gaiteiro principal Jorge Lira. Quanto a espectáculos, na altura em que os Vai de Roda deixaram de ter a Mundo da Canção como empresária – “estamos autónomos” -, incluindo o de apresentação do novo disco, irão ter lugar sobretudo na Galiza, à semelhança do que aconteceu em 1993.
Este ano será ainda, para Tentúgal, um ano de “animação”. O músico é produtor da Filmógrafo, com actividade no cinema de animação, tendo composto a banda sonora de “Os Salteadores”, uma curta-metragem realizada por Abi Feijó, que ganhou um prémio em Aix-la-Provence, obteve a Espiga de Ouro em Valladolid e agora está proposta para os Óscares. Tentúgal encontra-se neste momento a fazer música para os próximos projectos de Feijó.