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Vydia Ensemble / Vítor Rua – “Vydia Ensemble, Esta Tarde, No CCB – As Sete “Vydias” De Lucky Luke”

cultura >> sexta-feira >> 09.02.1996


Vydia Ensemble, Esta Tarde, No CCB
As Sete “Vydias” De Lucky Luke


OS VYDIA Ensemble tocam, desestabilizam e propõem-se espantar todos os que, hoje, antes da hora de jantar, derem um salto ao bar do terraço do Centro Cultural de Belém (CCB). O espectáculo, de genérico “Stress/Relax”, tem início às 19h, para sermos mais precisos.
Vydia Ensemble é o projecto de música experimental de Vítor Rua paralelo ao projecto de música experimental que o guitarrista divide com Jorge Lima Barreto, os Telectu. Começou por ser o título de um disco de Rua a solo, antes do Ensemble – mais músicos – se juntarem no Vydia – o conceito.
Os músicos, descontando Rua, líder do colectivo, são oito: António Marques, Manuel Guimarães, Rute Praça, Paula Pestana, Lúcio Studer, Beatriz Serrão, Pedro Roxo e Fernando Guiomar. Tocam uma quantidade de instrumentos e têm a preocupação de soarem diferentes, quer dizer, que os instrumentos se pareçam com tudo menos com os instrumentos que são. Rua é Rua, um músico que trata a guitarra por tu e a “nova música” com não menos à vontade. Rua arrisca e experimenta. Tem ideias e procura pô-las em prática.
O conceito é relativamente vago mas reúne todas as hipóteses de resultar em músicas que exijam do ouvinte mais do que o simples encolher “blasé” dos tímpanos: “ah, sim, a vanguarda…”. A vanguarda, para Vítor Rua, tem coração –“ … o sentimento de que a música deverá ser original, inovadora e sempre no campo da experimentação” – e nome próprio, Improvisação, algo capaz de elevar o guitarrista a “graus de prazer excepcionalmente misteriosos e extraordinários”. E não só: “o improvisador tem que ser um pouco como o Lucky Luke, mais rápido que a própria sombra”.
O resto é teoria, por natureza pouco dada ao convívio com o prazer: o minimalismo, rock-art, electrónica, as tais tipologias que enchem páginas mas deixam sedenta a alma. Mas habita na música dos Vydia Ensemble um conceito mais leve que voa entre os conceitos de peso: o efeito borboleta, muito falado pelos físicos mas pouco utilizado pelos músicos. Uma pequena “nuance”, como um “feedback”, um “loop”, um padrão repetitivo, ampliados, sobrepostos ou repetidos durante o tempo que se quiser, podem dar origem a um universo rítmico e harmónico complexo. “O micro interfere com o macro”, sintetiza Vítor Rua. Só os títulos das composições deixam adivinhar mil surpresas e uma tarde de “stress” e/ou “relax”: “Cow.not-not-cow”, “Asta”, “To noise, or not to noise”, “Cream dream”, “Shridu”. Um deles vale como manifesto: “It’s so tonal that makes me vomit.”

Miso Ensemble – “Miso Ensemble e ‘Uma História Industrial’ – A Saída Do Computador Da Fábrica De Conservas”

cultura >> sexta-feira >> 26.01.1996


Miso Ensemble e “Uma História Industrial”
A Saída Do Computador Da Fábrica De Conservas


UMA OBRA musical alusiva ao Museu de Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal, vai ser apresentada, hoje, às 21h30, nesse mesmo local, pelos Miso Ensemble. A peça, de título “Pulse Code Modulation – Uma História Industrial”, para flauta, percussão e fita magnética, ‘sampler’ e electrónica ao vivo, é uma estreia absoluta que, segundo Miguel Azguime, percussionista do grupo, “tirará máximo partido” das possibilidades sonoras e cénicas do edifício, uma antiga fábrica de conservas. O público vai estar espalhado “um pouco por todo o lado”. O centro será ocupado pelos dois músicos, Miguel e a flautista Paula Azguime, e um computador. “Ouve o que nós tocamos e responde numa forma pré-programada” explica o compositor desta “História industrial”.
O grupo tem antecedentes nesta congregação da música com a arquitectura. Em “Miso Ensemble”, o seu único compacto gravado até à data, um dos temas, “Água ou maré – nome de pedra”, inspirou-se num moinho de água localizado em Corroios, Seixal. A outra margem, do rio e dos sons, atrai-nos. Tanto que há três anos tomaram sobre os ombros a organização do festival de música improvisada, “A Indeterminação da Música, do Renascimento ao Século XX”.
Ao contrário da aridez de uma certa fatia da música contemporânea actual, dira “séria” (fatos negros, ar compenetrado, piano preparado), que estimula o cérebro mas deixa coxa a emoção, a música do Miso Ensemble é orgânica, carregada de sensualidade e com o sentido do espectáulo. Miguel Azguime, alquimista das percussões, aprendeu as lições do Oriente. Do Zen recolheu o desprendimento, a precisão do espírito e do gesto, a forma exacta de desferir o golpe, a carícia ou a anedota. Do teatro nô intuiu o movimento, a articulação do cenário e do corpo, o ritual. Paula Azguime funciona como pólo complementar. No hieratismo da pose, no sopro matemático, Paula representa a estrutura da razão – e alógica da esquizofrenia é a mais inflexível de todas as estruturas da razão – que, a cada momento, hesita entre entregar-se à folia dos ritmos ou cerrar fileiras em redor das exactas proporções.
A equação de Miso é aberta, sistema de equilíbrios em mutação entre o macro e o microcosmos. Tão próxima do transe estelar (a vertente “étnica” funciona sobretudo a nível simbólico) em levitação num vibrafone como a ciclicidade de um mestre como Glen Velez.
Em certas peças a exploração teatral e dos timbres arrancados a materiais e objectos não-musicais (barris, metais, peneira, água, vozes alteradas) condicionam a construção da obra, aproximando-a do conceito de uma arte que se pretende em simultâneo doméstica e sagrada. Um concerto/”performance” dos Miso Ensemble combina a certeza do conhecimento com a luxúria da incerteza.

Brigada Victor Jara – “Brigada Victor Jara Apaga 20 Velas No S. Luiz – Folias Do ‘Anticriste'” (concerto | reportagem)

cultura >> sexta-feira, 15.12.1995


Brigada Victor Jara Apaga 20 Velas No S. Luiz
Folias Do “Anticriste”


Celebrou-se condignamente o 20º aniversário da Brigada Victor Jara, uma das bandas mais antigas no circuito da música popular portuguesa. Com música do novo álbum, “Danças e Folias”, pauliteiros e dançarinos e uma voz que encheu o S. Luiz. Do convidado Zeca Medeiros, açoriano, verdadeiro “anticriste” em noite de folia.



Duas horas e picos de música, a presença dos mesmos convidados que já haviam colaborado em “Danças e Folias”, figurantes e coreografias pitorescas e uma boa dose de comunicabilidade selaram a apresentação, na capital, da Brigada Victor Jara, quarta-feira á noite, no teatro S. Luiz.
O clima de festa estabeleceu-se logo de entrada com a invasão de pregoeiros que vindos dos esconsos invadiram todos os recantos da sala, pondo em sobressalto uma assistência surpreendida e deliciada com a cacofonia dos vários pregões entoados em simultâneo. “Pregões”, tema do álbum “Contraluz” abriu um espectáculo que evoluiu em crescendo, ao ponto do violinista Manuel Rocha exclamar, já no período de “encores”, que “no final é que apetece ainda mais tocar”.
Como era previsível, as danças, da “mazurca” à “chula de paus”, do “chote” ao “vira velho”, recolheram a fatia mais grossa de aplausos. Pessoalmente, prefiro a maior originalidade e trabalho de fundo da Brigada, no tratamento dado às baladas. Como “Bento airoso”, “Jota carvalhesa”, “Moda da zamburra” ou o clássico “Marião”, do primeiro álbum “Eito Fora”, recentemente reeditado pela Farol. Todas com desempenho vocal de Aurélio Malva, sóbrio e atento às modulações harmónicas. Mas foi outra voz, do convidado Zeca Medeiros (realizador de “Xailes Negros”) que arrasou. O modo como arranca das entranhas e das caves da alma a música, com “M” imenso, é qualquer coisa para contar de geração em geração. Medeiros gesticula, levita e afunda-se, gargalha e chora quando canta. Voz rouca, grave, antiga. Ela e os Açores formam um só. O Tempo (…) Parou.
Manuel Rocha, no violino, Ricardo Dias, no piano e sintetizador, Rui Curto, no acordeão, e Aurélio Malva, no bandolim e gaita-de-foles, solistas do grupo, estiveram à altura do que os pergaminhos da banda exigem, com destaque para o primeiro, nas ornamentações e mudanças de tom da “mazurca”, o segundo mexendo os cordelinhos da harmonia e assinando belos solos na gaita-de-foles e no “tin whistle”. Por falar em gaita-de-foles, a de Aurélio Malva, mal aquecida, desafinou nas primeiras notas. Dando mostras de uma sinceridade e um “savoir-faire” de causar inveja a muitos políticos, Manuel Rocha reconheceu-o de imediato, desdramatizando o contratempo, prontamente remediado por Ricardo Dias. Quanto a Malva superou-se no solo de ponteira – num fraseado de bombarda bretã – em “O mineiro”, onde o protagonismo foi partilhado com outro convidado, Tomás Pimentel, subtil e swingante no fliscórnio.
Os pauliteiros e dançarinos do GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra) animaram temas como “Campanitas de Toledo”, cabendo a Pedro Jóia, outro dos convidados aflorara o flamenco na guitarra, em “Moda da zamburra”. Dos convidados apenas Sónia (Sónia quê?) destoou, em “Mi morena”. Nervosa, não fez esquecer Margarida Mirante, cantora convidada para interpretar o mesmo tema, em “Danças e Folias”. Sónia redimiu-se um pouco, ao voltar a cantar o mesmo tema num “encore”. Manuel Rocha, brincalhão: “não é bem aquela do ‘canta até aprenderes’…”, mas…. O “mas” é nosso. Porém, o problema principal não desapareceu. Um problema que não é só dela mas de muitos vocalistas portugueses. Com medo de entrarem atrasados, entram prematuramente e batem nos tempos fortes, vestindo um colete-de-forças que retira grande margem de manobra às suas possibilidades expressivas (já sem insistir na estafada questão do swing, de modo algum pertença exclusiva do jazz). Algo que denota falta de calo. Zeca Medeiros deu o exemplo de como se deve fazer. Ele sabe que não há nenhum comboio para apanhar e que o compasso é circular. Logo, sempre à mão em cada nova passagem. Trata-se enfim de saber dançar.
Zeca Medeiros voltou, de resto, a impressionar, num dos cinco “encores” que consagraram a noite dos 20 anos da Brigada, transformando uma coisa tão simples como um “pezinho” açoreano num teatro de emoções. Entre a possessão e a ternura, gesticulando e cantando sem microfone diante de uma assistência estarrecida, Zeca Medeiros “mais parece o anticriste” da canção, com as suas barbas hirsutas e o fogo no olhar. Depois a euforia instalou-se quando Luís Garção abandonou os cordofones para tomar as rédeas do poder, comandando um “baile mandado” supersónico e picante q.b. e as palmas de acompanhamento de toda a plateia, nesta altura já literalmente de rastos. “Palminhas acabou, e ninguém se enganou”. A Brigada ultrapassou 20 anos de existência com classe e distinção.