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Miso Ensemble – “Miso Ensemble e ‘Uma História Industrial’ – A Saída Do Computador Da Fábrica De Conservas”

cultura >> sexta-feira >> 26.01.1996


Miso Ensemble e “Uma História Industrial”
A Saída Do Computador Da Fábrica De Conservas


UMA OBRA musical alusiva ao Museu de Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal, vai ser apresentada, hoje, às 21h30, nesse mesmo local, pelos Miso Ensemble. A peça, de título “Pulse Code Modulation – Uma História Industrial”, para flauta, percussão e fita magnética, ‘sampler’ e electrónica ao vivo, é uma estreia absoluta que, segundo Miguel Azguime, percussionista do grupo, “tirará máximo partido” das possibilidades sonoras e cénicas do edifício, uma antiga fábrica de conservas. O público vai estar espalhado “um pouco por todo o lado”. O centro será ocupado pelos dois músicos, Miguel e a flautista Paula Azguime, e um computador. “Ouve o que nós tocamos e responde numa forma pré-programada” explica o compositor desta “História industrial”.
O grupo tem antecedentes nesta congregação da música com a arquitectura. Em “Miso Ensemble”, o seu único compacto gravado até à data, um dos temas, “Água ou maré – nome de pedra”, inspirou-se num moinho de água localizado em Corroios, Seixal. A outra margem, do rio e dos sons, atrai-nos. Tanto que há três anos tomaram sobre os ombros a organização do festival de música improvisada, “A Indeterminação da Música, do Renascimento ao Século XX”.
Ao contrário da aridez de uma certa fatia da música contemporânea actual, dira “séria” (fatos negros, ar compenetrado, piano preparado), que estimula o cérebro mas deixa coxa a emoção, a música do Miso Ensemble é orgânica, carregada de sensualidade e com o sentido do espectáulo. Miguel Azguime, alquimista das percussões, aprendeu as lições do Oriente. Do Zen recolheu o desprendimento, a precisão do espírito e do gesto, a forma exacta de desferir o golpe, a carícia ou a anedota. Do teatro nô intuiu o movimento, a articulação do cenário e do corpo, o ritual. Paula Azguime funciona como pólo complementar. No hieratismo da pose, no sopro matemático, Paula representa a estrutura da razão – e alógica da esquizofrenia é a mais inflexível de todas as estruturas da razão – que, a cada momento, hesita entre entregar-se à folia dos ritmos ou cerrar fileiras em redor das exactas proporções.
A equação de Miso é aberta, sistema de equilíbrios em mutação entre o macro e o microcosmos. Tão próxima do transe estelar (a vertente “étnica” funciona sobretudo a nível simbólico) em levitação num vibrafone como a ciclicidade de um mestre como Glen Velez.
Em certas peças a exploração teatral e dos timbres arrancados a materiais e objectos não-musicais (barris, metais, peneira, água, vozes alteradas) condicionam a construção da obra, aproximando-a do conceito de uma arte que se pretende em simultâneo doméstica e sagrada. Um concerto/”performance” dos Miso Ensemble combina a certeza do conhecimento com a luxúria da incerteza.