Arquivo mensal: Setembro 2022

Simple Minds – “Verona”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 31 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock>> LP’s


OS GRANDES CONQUISTADORES

SIMPLE MINDS
Verona
Virgin Vision, distri. Edisom



Concerto ao vivo dos Minds, realizado em setembro deste ano no anfiteatro romano da cidade. Os cinco primeiros minutos prometem: a preto e branco e em câmara lenta, prenunciando qualquer coisa de grandioso e espetacular. Público ansioso, cartazes alusivos à banda, um “boxer” a correr (aparecem muitas imagens de seres vivos a correr, ao longo do filme), uma rapariga de moto, soldados. Não se percebe a intenção mas esteticamente resulta. Câmara subjetiva como se fôssemos nós a entrar no palco. “Good Night, Verona” – grita Jim Kerr. Surge a cor.
Trovoada tremenda sobre o palco, simulada, claro. Cai o pano, pintado com o símbolo de “Sparkle in the Rain”. “Close-ups” dos músicos (Jim Kerr – voz, Charlie Burchill – guitarra, Mick MacNeil – teclas e acordeão, Mel Gaynor – bateria, Malcolm Foster – baixo, mais Andy Duncan e duas meninas, Lisa Germano – violino e bandolim e Annie McCaig – pandeireta). Dá-se início à função, com Jim Kerr sempre no comando. Pelo meio aparece, a preto e branco, a cantar a mesma canção, mas noutro concerto. Percebe-se, porque está vestido de outra maneira.
A música alterna com entrevistas aos intérpretes (a preto e branco). Não dizem nada de especial. São melhores a tocar e a cantar (a cores). Depois, os símbolos: mãos que acenam, imagens desfocadas não se percebe bem de quê. O guitarrista, com os projetores incidindo por detrás, naquele plano típico que faz parecer deuses os homens da guitarra. “Zoom” sobre o público. Uma garrafa de coca-cola passa de mão em mão no momento imperialista da noite. Um dos espectadores é transportado para fora do recinto, de maca. Bebedeira? Síncope? Simples sonolência?
Verona. Imagens da cidade: estátuas, ruínas romanas (em Itália todas as ruínas são romanas), uma velhota à janela. Uma ponte (romana), sem estar em ruínas porque se não as pessoas cairiam.
O baterista limpa com um pano o suor da testa – pormenor videográfico sempre do agrado dos realizadores. Jim Kerr brande o microfone, qual Roberto Leal, mas quando começa a cantar “Waterfront” vemos logo que não pode ser o luso-brasileiro. Num gesto de grande generosidade artística, estende o micro à assistência que corresponde soltando alguns urros afinados.
Agora é uma mulher de meia idade que se debruça à janela. Muito gostam as veronesas de estar à janela. Uma criança circula de bicicleta entre a multidão, simbolizando a grande solidão existencial do ser humano, ou talvez a sua grande pureza –, imagem do poder que oprime e bate com o “casse-tête” (em português cacete).
“Don’t you Forget about me” – das melhores canções dos Simple Minds. No rosto de Jim Kerr, uma expressão de êxtase. Desta vez o público não urra e canta numa sétima ao lado. Entusiasmado, o cantor dá um pontapé para trás, quase lhe saltando o sapato, na violência do movimento. Caso saltasse, teria acertado em cheio na objetiva do “cameraman”.
Ruas de Verona. Um dos momentos mágicos do vídeo: Mick MacNeil, no acordeão, Lisa Germano, no violino e Charlie Burchill, na guitarra acústica, lembram-se que são escoceses e mergulham nas suas raízes folclóricas, deliciando-se e deliciando os transeuntes. No momento seguinte, os mesmos três músicos surgem sobre o palco a interpretar o mesmo tema, com os mesmos instrumentos. Excelente.
Volta a eletricidade e Jim Kerr a cantar estendido no chão, talvez devido ao cansaço, quem sabe? Mas não, levanta-se com ar de desafio e prossegue com a mesma energia. Mel Gaynor volta a limpar o suor do rosto, desta vez com uma toalha. Quer dizer que a banda dá tudo o que pode e que não brinca em serviço, que são todos uns profissionalões. Ao ponto de Jim Kerr saltar para o meio do público e beijar uma jovem fã.
Retorno às imagens de rua, com o vocalista passeando-se entre a multidão, ar distraído e melancólico, simbolizando deste modo a grande solidão existencial do artista. Lixo levado pelo vento – Woodstock para sempre. Soa um “tin whistle” sintético – Jim olha o céu e canta, como quem seus males espanta. Duas crianças correm em câmara lenta no campo. Outra toca um tambor militar entre poética neblina. As duas primeiras continuam a correr. Pressentimos que se aproxima o clímax final. Sobre o palco, Jim Kerr, todo vestido de branco, canta “Sanctify Yourself”. Imagens de santos em pedra. Um padre caminha (sobre as águas? Não se consegue perceber).
Repetem-se imagens anteriores a um ritmo vertiginoso, querendo significar que o Universo é cíclico e os Simple Minds os senhores do Universo. O Universo explode e o público também, em aplausos. O império romano volta a cair, desta vez às mãos de mentes simples. ***

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #64 – “Para hoje (aavv)”

#64 – “Para hoje (aavv)”

Fernando Magalhães
21.01.2002 180601
AKSAK MABOUL – Un Peu De L’Ame Des Bandits – 9/10
CAN – Future Days – 10/10
ANTHONY MOORE – Flying Doesn’t Help – 10/10

O Anthony Moore tornou-se conhecido com os SLAPP HAPPY, ao lado de Dagmar Krause e Peter Blegvad.
Os Slapp Happy foram (ou são, já que gravaram recentemente um álbum novo, “Ça Va”) uma banda especialíssima do final dos anos 70, responsável por uma pop excêntrica e surrealista, em que são patentes os notáveis dotes de composição quer da parte de Moore, quer de Blegvad.
“Slapp Happy”, gravado com músicos dos FAUST (!) é um clássico. Apesar dos músicos envolvidos, o álbum está longe de ser experimental, ou pouco acessível, antes pelo contrário.

Mas o reverso da medalha viria a acontecer com a junção dos SLAPP HAPPY com o coletivo de free rock britânico HENRY COW, da qual resultaria duas obras-primas: “Desperate Straights” (que existe em CD precisamente numa versão 2+1, acoplado a “Slapp Happy”!…) e “In Praise of Learning”.

O 1º é dos discos mais melancólicos e europeus que alguma vez ouvi. Imagina Marguerite Duras em música! Ou um Apocalipse lento, numa tarde chuvosa de Outono, numa Londres desolada…
O 2º, mais Henrycowiano, é mais jazz e impenetrável. Os HENRY COW tinham um pé no rock, outro no jazz, outro na música contemporânea, outro na música de câmara, outro em Dada…Ou seja, tinham 5 pés 😀

Um complemento perfeito para “Flying Doesn’t Help” (o álbum seguinte, “World Service” também vale a pena) é “The Naked Shakespeare”, de PETER BLEGVAD. Pop inteligente, mesclada de fantasia e excentricidade. E poemas fantásticos! Alguns dos temas são mesmo viciantes.

FM

Micheal Nyman – “Michael Nyman No S. Luiz – Académicos À Água” (concertos)

PÚBLICO DOMINGO, 28 OUTUBRO 1990 >> Cultura


Michael Nyman no S. Luiz

Académicos à água


Casa cheia. Gente de todas as idades confundida e jubilante. Michael Nyman, erudito e popular. Com a banda de Nyman é baralhar e dar de novo, num jogo de múltiplas referências culturais. O grande gozo.



Depois de Wim Mertens e da dupla Blaine Reininger/Steven Brown, a atuação da Michael Nyman Band veio em definitivo provar que está por um fio a tradicional separação entre uma música tida por erudita e “difícil”, dirigida a certas hábitos de consumo elitistas, e outra, mais popular, pronta a servir o gosto das massas. Para toda uma geração de novos músicos e compositores, a principal preocupação parece ser a de encontrar o ponto de convergência entre rigor conceptual e uma imediatibilidade suscetível de fruição por parte de um público mais alargado, ávido e preparado para saltar do Rock para o estádio seguinte.
Ao soarem as primeiras notas das cordas e sopros do grupo que acompanhou Michael Nyman nesta sua deslocação a Lisboa, os académicos coraram e espumaram de raiva, só não desatando a correr às voltas porque não havia espaço. Os outros, que eram quase todos, foram transportados pela música, a um tempo requintada e poderosa, ao longo de uma atuação sem mácula, até um final apoteótico traduzido na longa suite “Water Dances” e em cinco minutos de aplausos ininterruptos que os músicos recompensaram com apenas um “encore”.

Seleção de temas

A primeira parte do concerto foi preenchida por uma seleção de temas pertencentes sobretudo aos álbuns “A Zed and Two Noughts” e “Drowning by Numbers”, ambos compostos para filmes de Peter Greenaway. Música barroca. Música de feira e realejo. “Music-hall”, fanfarra e marchas fúnebres. Orquestra de câmara transvestida em banda de coreto. Música do ceguinho com saxofones despudoradamente melódicos e amplificados, trombone fanhoso e melopeias de puxar à lágrima. Sequências repetitivas desenvolvidas segundo labirintos tímbricos traçados pelos violinos de Elizabeth Perry e Jonathan Carney, o violoncelo de Anthony Hinnigan e os sopros de John Harle, David Roach, Andrew Findon e Nigel Barr. Os ritmos binários e o baixo elétrico de Martin Elliott explodindo em pulsações mais próximas do Rock. “Car Crash”, “Time Lapse”, “Up for Crass”, despojados da carga simbólica e morbidez das imagens de Greenaway.

O maestro discreto

Michael Nyman, maestro discreto, sentado ao piano de costas para a assistência, dirigiu a “ensemble” de tal forma, que esta se empolgou ao ponto de, em “Water Dances”, Elizabeth Perry quase saltar da cadeira, e os outros músicos de baterem o compasso com o pé e abanarem a cabeça como se fossem uma qualquer banda de “rock’n’roll”. Confirmava-se a eficácia do tal “princípio do prazer” a que Nyman aludira em recente entrevista concedida ao PÚBLICO.

Barock ‘n’ roll

De facto, a música de Nyman é possuidora de uma sensualidade especial capaz de provocar a adesão quase física dos espectadores. Insinuante, seduz os sentidos e o cérebro por igual, arrebatados pela sobreposição das melodias, pelo modo como os instrumentos dialogam e dançam entre si, em passos de espiral. Também pelo próprio som, envolvente, luxuriante, suprindo uma certa simplicidade rítmica à custa de uma extraordinária riqueza tímbrica e harmónica. “Barock ‘n’ roll” seria uma designação apropriada.
No final, ninguém arredou pé, batendo palmas e gritando a pedir mais. Um extrato de “La Traversée de Paris” não chegou para saciar os apetites musicais de uma assistência a quem entretanto tinham excitado as papilas melómanas. Já no exterior do teatro trocavam-se opiniões, espantos e olhares de encantamento. “Nunca pensei poder gostar tanto” – dizia alguém à saída. Quanto aos académicos, foram irremediavelmente afundados nas águas estagnadas do conformismo, pela música e atitude inovadoras de Michael Nyman e a sua banda. A partir de agora o Dramático de Cascais e a Gulbenkian encontraram no S. Luiz um rival à altura.