Arquivo mensal: Setembro 2022

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #66 – “Subotnik, Tony Conrad, Vangelis, Redolfi… (FM)”

#66 – “Subotnik, Tony Conrad, Vangelis, Redolfi… (FM)”

Fernando Magalhães
22.01.2002 200818
Por uma questão de comodidade, aqui vão algumas notas a comentários de vários forenses:

“Outside the Dream Syndicate” (e não “Beyond”) é um disco de TONY CONRAD (discípulo de LaMonte Young), e não Terry Riley, com os FAUST.
É considerado um clássico do que eu chamo “minimalismo do martelo” 🙂 Já vi o sr. Conrad ao vivo, recentemente, em Serralves, é um verdadeiro cromo!
A audição de “Outside the Dream Syndicate” (TC gravou, já nos anos 90, várias “sequelas” desta obra…pitagórica) pode ser massacrante, da mesma forma que é massacrante o “Metal Machine Music” do Lou Reed.
No caso é um massacre de violino mal tocado (ainda pior do que outro ex.colaborador e LMYoung, John cale, de quem Conrad é, aliás, amigo) acompanhado pela secção rock ultra-repetitiva dos Faust! Mas provoca os seus efeitos…

Do MORTON SUBOTNICK vendi, desgraçadamente, há anos (na esperança, vã, de que o CD seria rapidamente editado…) um álbum intitulado “Return of the Comet” (creio que era este o título…).
Mas o clássico dele é mesmo “Silver Apples of the Moon” (onde é que pensam que os SILVER APPLES se inspiraram para o nome?) que tenciono adquirir em breve na Ananana.

O “Beaubourg”, do VANGELIS, é, de facto, um dos meus preferidos deste compositor grego capaz do melhor e do pior.
Também gosto – bastante mesmo – do “China” e acho piada à pomposidade (apesar de tudo bem conseguida) de “Heaven and Hell”, com a voz belíssima da soprano lírico Vera Veroutis.

MICHEL REDOLFI: Esse espetáculo subaquático já foi montado em Portugal.
Eu vi outro concerto multimédia dele, na Estufa Fria, com o percussionista (e multinstrumentista…) STEVE SHEHAN, outro compositor a merecer referência (tenho 4 ou 5 CDs dele belíssimos, começando pela estreia na Made to Measure, “Arrows”)

saudações

FM

Sérgio Godinho – “É Hoje Posto À Venda O Novo Duplo-Álbum De Sérgio Godinho, ‘Escritor De Canções’. ‘Detesto O Ênfase'” (entrevista)

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 6 NOVEMBRO 1990 >> Cultura


É hoje posto à venda o novo duplo-álbum de Sérgio Godinho, “Escritor de Canções”.

“Detesto o ênfase”

“Escritor de Canções” é o título do mais recente disco de Sérgio Godinho, gravado ao vivo no Instituto Franco-Português e hoje lançado no mercado. Excelente oportunidade para rever, em novo contexto, parte das histórias vividas por toda uma geração.



Público – Qual a necessidade que o levou a gravar em disco o espetáculo ao vivo, realizado no Instituto?
Sérgio Godinho – O disco é uma consequência desse espetáculo. Como compositor e intérprete interesso-me por este tipo de registo, ao contrário do que acontece, se colocado na perspetiva de simples ouvinte. Interessa-me sobretudo ver como as canções são retomadas num contexto diferente do estúdio.

P. – Em “Escritor de Canções”, contudo, as palmas soam artificiais, como que deslocadas do ambiente geral do disco…
R. – Talvez por haver um silêncio tão grande e um grau de atenção muito maior, as palmas possam surgir como um elemento estranho. O alinhamento diferente das canções implicou um trabalho de montagem que não se pretende de reportagem. Não é um disco em que o público intervenha de forma ativa, mas sim pelo silêncio. Houve como que uma intimidação, no bom sentido, em que se procurou criar uma nova relação com as pessoas, num contraponto intimista de momentos mais festivos, próprios de espetáculos maiores. Diferentes tipos de encenação.
P. – Como se processou essa encenação, de modo a resultar simultaneamente ao vivo e em disco?
R. – O termo “Escritor de Canções” reflete uma certa ironia. Escrever canções é um ofício ou uma arte diferente de fazer só poemas ou música. Parto de fórmulas que vêm do passado e são depois revestidas de novas roupagens musicais. No palco há a transposição para o nível físico.
P. – “Escritor de Canções” é designação suficientemente lata para albergar uma grande diversidade estilística. Como definiria, em termos gerais, a sua música?
R. – Sou eclético pelo facto de escrever canções que podem incluir-se em diversos universos musicais. Há uma interpenetração de géneros e estilos que acontece de modo natural. Não se trata bem de uma qualquer espécie de “fusão”, mas antes de uma colagem criativa, feita a partir da audição de muita música. “L’Âme des Poètes” [incluída no novo disco] é uma canção muito antiga de Charles Trenet que eu ouvia muitas vezes, em miúdo. Ouvia também música brasileira, francesa, americana, clássica. Depois, a todas estas influências juntaram-se, na minha adolescência, a música dos “tops” e, mais tarde, a de Zeca [Afonso], Dylan, Beatles, Brel, Caetano [Veloso], Chico Buarque…
P. – Até que ponto as suas canções são autobiográficas? As “Ritas” e “Carolinas” dos seus discos são reais?
R. – A minha música reflete sobretudo um certo olhar sobre a vida, as pessoas e o modo como estas se relacionam. As personagens surgem de pequenas experiências que transporto para o ficcional. Não consigo ter uma narrativa realista. Tenho a tendência para simbolizar. Nunca daria um bom repórter.
P. – E no entanto, o novo disco abre com “Notícias Locais” …
R. – Trata-se de uma brincadeira a partir de acentuações com as cinco vogais: adro, ébrio, híbrido, óbito, súbito. Brincadeiras formais que influenciam a própria narrativa. Muitas vezes uma rima ou uma palavra que dava jeito é que determina a verdade. A verdade dos factos não existe, mas sim a das palavras.
Por outro lado, utilizei uma multiplicidade de referências, muitas vezes apenas percebidas ao nível do Inconsciente. Nem todos percebem imediatamente que “arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa com certeza” diz respeito, no nosso imaginário a “uma casa portuguesa, com certeza”.
P. – Não receia perder o contacto com as gerações mais novas?
R. – Não quero partir atrás de uma suposta adesão de todas as camadas etárias. Houve uma altura em que me ressenti um pouco por isso. Sentia pressões para embarcar num comboio “mais na onda” e, ao mesmo tempo, uma certa exaustão na maneira de tratar as canções. O estatuto de clássico pode ser perigoso. Não me interessa refugiar-me na imagem do artista consagrado se isso não corresponder a nada. O trabalho com António Emiliano em “Na Vida Real” funcionou como um relançamento, de forma nem angustiada, nem neurótica. Não me preocupo em estar sempre na crista da onda. Isso é desgastante e desertificante.
P. – O novo álbum poderá representar a reformulação da sua imagem?
R. – É o fechar de um tempo, balanço incompleto do passado. A editora achou por bem não insistir nas canções de “Aos Amores”. Não é, de qualquer modo, um “greatest hits”. O “Brilhozinho nos Olhos” ou o “Primeiro Dia”, por exemplo, estão ausentes.
P. – Mas há um relançamento noutras áreas…
R. – Sim, estou a fazer uma série de seis programas para a televisão, de genérico “Luz na Sombra”, que trata de seis funções do mundo da música, normalmente na sombra, como as de intérprete, produtor, técnico de som, letrista, “roadie” e arranjador musical. É uma crónica assumidamente subjetiva onde eu funciono como “pivot”.
P. – No espetáculo ao vivo, o público chegou a comover-se. Como explica o elevado grau de identificação das pessoas com as suas canções?
R. – Foi comovente também para mim. Existem pontos comuns ao nível de afetividade. Sobretudo há uma sensibilidade especial relativa ao tema da “perda”. Penso que é neste aspeto que toco nas pessoas. Acho que há algo extremamente forte no acabar de algo que foi extremamente belo. Não quero ser patético, detesto o ênfase. Gosto de usar a ironia, como em “Emboscadas”, em que uso uma terminologia do romance de cordel, justamente para me distanciar do real. Jogo com sentimentos dolorosos e com o facto de todos nós sermos valerosos, pungentes, desgraçados e de, ao mesmo tempo – o que é uma coisa muito portuguesa –, sorrirmos muito das nossas desgraças.
P. – Isso explica o tom melancólico de grande parte das suas canções?
R. – De facto não sou muito pela criação de ambientes preto no branco. Tenho uma certa tendência para a dúvida sistemática em relação a tudo. Acho que não há verdades nem estéticas eternas. Do ponto de vista formal procuro introduzir elementos desestabilizadores. Funciono em termos de dinâmicas, de modo intuitivo, dinâmicas inseparáveis do elemento vivencial. Há um elemento de melancolia que nem sempre consigo controlar. Numa das canções, “Lisboa que Amanhece”, das minhas preferidas, o mistério vem da rapidez com que foi escrita. É como uma criança que não sabe falar e, de repente, diz uma frase inteira.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #65 – “Yes, Pauline Oliveros… (FM)”

#65 – “Yes, Pauline Oliveros… (FM)”

Fernando Magalhães
21.01.2002 160425
Só para sair um pouco desta modorra… 🙂

Já não sei quem é que me perguntou qualquer coisa sobre um CD da PAULINE OLIVEROS com (?) os DEEP LISTENING BAND.

Confesso que não sou grande fã da senhora…dos discos que ouvi dela, se não estou em erro, na New Albion, não retive a ideia de uma música excepcional…

Em relação aos DEEP LISTENING BAND, lembro-me de ter achado alguma piada a um álbum, também na New Albion, julgo eu, gravado no interior de uma cisterna, para tirar partido da ressonância e das excepcionais condições acústicas…

Sobre o “Fragile”, dos YES. Sem ser dos melhores álbuns dos YES (7,5/10, mesmo assim…) tem o tal “Heart of the Sunrise”…
Mas os YES nunca foram a minha banda “prog” preferida, embora tenha todos os álbuns deles até ao “Tormato” e dois CDs mais recentes, o vol. 2 do “Keys to Ascension” – 7/10 (via “o vendedor”…) e o “The Ladder” (6,5/10).

Quanto aos que valem a pena:

“YES” – 7,5/10 – canções pop prog psych
“Time and a Word” – 8/10 – idem, c/arranjos mais sofisticados
“The Yes Album” – 9/10 – um excelente complemento para fúria energética dos KING CRIMSON
“Close to the Edge” – 9/10 – clássico do Prog. A música popular aliada ao (bom) pretensiosismo.
“Tales from the Topographic Oceans” – 9/10 Mais ainda aqui. Há quem ache excessivo. Para mim é a obra magna dos YES – mas necessita de muitas e muitas audições para se penetrar neste mantra de múltiplas dimensões…
“Relayer” – 8,5/10 – A guitarra de Steve Howe em delírio, na longa suite do lado um – um portento!…Pena Jon Anderson já estar neste álbum apanhado na teia tecida por Vangelis…
“Going for the One” – 7,5/10 – álbum de manutenção, com o “clássico””Awake/Awake” a destacar-se.
“Tormato” – 7/10 – OVNIS com fartura e um tema “infantil”, mas mágico, de Jon Anderson sobre o circo (é deste álbum ou do anterior, já não estou certo… 🙂 )

FM

Fernando Magalhães
21.01.2002 180628
quote:
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Publicado originalmente por rat-tat-tat

Claro que agradeço sugestões! 🙂 Ainda são audições muito fragmentárias e gostava de encontrar um certo sentido e coerência evolutiva (by the way: consegues-me definir “música concreta” em poucas palavras?)

Daqueles nomes acima referidos gosto de todos, embora já tenha ficado “pasmado” com um tema do Steve Reich, em que a estrutura é apenas constituída pela repetição da expressão “come out” (se não estou em erro!), com pequenas nuances e acelerações. Pareceu-me um daqueles casos de experimentação que não leva a lado nenhum.

E qual é o ponto de contacto dos Negativeland, com tudo isto?

tat
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Vamos por partes 🙂

O termo “música concreta” (musique concrète, como costuma ser designada…) foi inventado pelo compositor francês Pierre Schaeffer e surge na sequência da escola serialista de Viena (Webern, Weber…) aplica-se a uma música eletro-acústica construída a partir (mas não só…) de sons “concretos”, leia-se naturais (objetos, água, vozes humanas, sons de animais, etc) tratados eletronicamente.
O prolongamento natural da música concreta é a chamada música acusmática, em que os elementos sonoros provenientes de fontes que não os instrumentos musicais convencionais, já não são imediatamente identificáveis (samples, tapes, programas, etc).

O STEVE REICH tem álbuns excecionais, mas que exigem um tipo de escuta “diferente”: Recomendo especialmente o “Music for 18 Musicians”, editado na ECM. O minimalismo na sua essência mais nobre: uma música “multiplicadora de músicas”, capaz de provocar em quem a ouve a audição de harmonias e sons que não estão (ou estarão?…) presentes materialmente no som executado. A experiência pode ser exaltante. Lembro-me de um concerto inolvidável, aqui há uns anos, na Gulbenkian, com música de S. Reich (em que o próprio esteve presente, se não me engano). Uma das peças, para seis pianos verticais, criava no auditor uma verdadeira “sinfonia” de músicas sobrepostas!!!

Quanto aos NEGATIVLAND…não têm rigorosamente nada a ver com estes universos musicais. O tipo de estética baseado em colagens que praticam terá mais a ver com um equivalente em banda-desenhada + pop eletrónica + sarcasmo, dos Residents ou dos percursores Frank Zappa e Faust. Os Negativland não pertencem a mundo da música erudita mas, pelo contrário, ao que de mais fundo e paradoxal existe no mundo da música popular – que a cada momento se encarregam de denunciar, desmistificar e sabotar. “car Boooooooooooob” (de “Escape from Noise”)- BUUUMMMM!!!!

saudações

FM

Fernando Magalhães
21.01.2002 190707
O “Escape from Noise” é um disco chave dos anos 80.

O “Helter Stupid” é notável a nível do conceito (conheces a história? É sobre o pretenso massacre provocado por um jovem na sequência da audição de mensagens subliminares contidas num tema de “Escape…”, “Christianity is stupid”. O grupo divulgou a falta notícia e, claro, os media engoliram-na como verdadeira, lançando de imediato opiniões sobre os malefícios da música rock sobre a juventude, que estava provada a sua influência perniciosa nas mentes jovens, etc, etc, etc.

Infelizmente a música nunca consegue estar ao nível da mensagem. Nem sequer fiquei com este álbum!

FM