Arquivo mensal: Novembro 2021

Slapp Happy – “Slapp Happy / Desperate Straights”

pop rock >> quarta-feira, 13.10.1993


SLAPP HAPPY
Slapp Happy / Desperate Straights
Virgin, import. Contraverso




Por vezes acontecem coisas como uma reedição histórica que aparece sem fazer ondas, discreta, a chamar baixinho por quem a conseguir distinguir entre a confusão. O objecto em questão é um compacto simples onde couberam dois discos que são outras tantas preciosidades. A primeira, “Slapp Happy”, é o segundo álbum, após “Sort of”, do trio cujos membros viriam mais tarde a dar cartas: Dagmar Krause (a cantora alemã amante, salvo seja, de Brecht e Weill, mais tarde recrutada para as fileiras dos Art Bears), Anthony Moore (nunca me cansdarei de repetir: “Flying doesn’t Help” é uma das obras-primas absolutas do rock com neurónios) e Peter Belgvad (excêntrico que ajudou a dar vida aos Faust e Golden Palominos, tendo gravado por sua vez um álbum de excepção: “The Naked Shakespeare”). Acrescente-se que os Slapp Happy são o grupo ao qual os Young Marble Giants e, posteriormente, os Devine & Statton tudo devem.
“Slapp Happy”, de que existe uma segunda versão, “Acnalbasac Noom” (“Casablanca Moon”, o tema de abertura, ao contrário), com acompanhamento exclusivo dos Faust, é pop em equilíbrio sobre o arame, a grande altitude e sem rede, colhendo lá do alto os frutos maduros das árvores musicais adjacentes. A Lua faz das suas: no “jazz” de cabaré enfeitado com uma “Slow moon’s rose” que se deixa embriagar por um cocktail mambo, em “Casablanca Moon”; a mini-opereta, “Me and Parvati”, invadida pelo psicadelismo de faz-de-conta de “Mr. Rainbow”, entre outros malabarismos. Cada pequena canção é uma curta-metragem surreal, um quadro com vida – por vezes bastante estranha – e cor próprias. E podem trocar-se as referências que continua tudo a bater certo.
Jean-Hervé Peron, dos Faust, Roger Wooton (ex-Comus), Andy Leggett (Whole World, de Kevin Ayers), Keshave Sathe (de uma das formações de John Renbourn) e Geoff Leigh (dos primeiros Henry Cow) associaram-se a este projecto sem paralelo onde de génios e loucos todos t~em um pouco.
Vai mais longe “Desperate Straights”, metade do par de álbuns resultantes da fusão dos Slapp Happy com os Henry Cow, assumindo os primeiros um papel de maior peso, enquanto em “In Prise of Learning” são, pelo contrário, os Henry Cow que tomam o comando das operações.
Incluo “Desperate Straights” na minha lista pessoal dos dez melhores álbuns de sempre. Ressalta da audição uma impressão imediata de um momento irrepetível onde tudo confluiu para a criação artística ao mais alto grau. Depois “Desperate Straights” tem visão, e de longo alcance, conseguindo além disso criar um ambiente de imagens e o espírito únicos de uma Europa crepuscular. Cada “canção” ergue-se como uma catedral gótica a acenar com tradições milenárias. Obra impregnada de um humor trágico, fruto envenenado de uma “Bad Alchemy”, só comparável ao dessa outra, também prima, que é “Rock Bottom”, de Robert Wyatt, “Desperate Straights” não tem explicação. É um arrepio pela espinha. Um conto de Lovecraft na era atómica. Instantâneos de cidades povoadas de torres e castelos em ruínas onde assomam os rostos monstruosos de gárgulas iluminadas por néons mortiços. Bartok, Stravinsky, Mahler e Satie encontram-se nas sombras destas urbes imaginárias, que Schuitten não desde nharia desenhar, ao som do “Messias” de Haendel. “Europa” a dançar a valsa dos danados. Antes que o colapso e a cacofonia, perturbentemente profética, do tema final, “Caucasian lullaby”, provoquem a derrocada final. A guitarra de Fred Frith voa a grande altura, Chris Cutler inventa as batidas de um contingente rítmico inteiro. Tim Hodgkinson (The Work) e John Greaves (National Health, por exemplo, outro dos génios ignorados a quem o tempo há-de fazer justiça) empenham-se por seu lado em deixar marca numa obra que perdurará para a posteridade. E, claro, os tr~es Slapp Happy, com a voz de Dagmar Krause em desempenho de alto nível, menosligeiros, a encabeçarem um cortejo de primeira classe – naquele comboio de cuja linha só muito poucos conhecem as estações… – onde seguem Pierre Moerlen (Gong), Mongezi Feza (já falecido, tocou trompete com Robert Wyatt, precisamente em “Rock Bottom” e “Ruth is Stranger than Richard”), Lindsay Cooper (Henry Cow, Art Bears, tudo o que de mais moderno se vem fazendo em Inglaterra), Mont Campbell (Egg, uma das bandas importantes e menos conhecidas da cena de Canterbury) e Nick Evans (da corrente “free” inglesa dos anos 70, participou em “Lizard” e “Red”, dos King Crimson). Um portento. (10)

Alamanaque – “Não À Chula E Ao Malhão” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira, 13.10.1993


NÃO À CHULA E AO MALHÃO

Quem Diria? Os Almanaque, um dos grandes grupos de música tradicional portuguesa que agitaram o final dos anos 70, continuam vivos embora não de muito boa saúde. Não por causa da música, que nunca parou de crescer, mas da indústria, que tem a memória curta e voltou as costas à banda. Um mal que chegou altura de remediar.



“Desfiando Cantigas” surgiu em 1984, sendo de imediato considerado um dos melhores álbuns de recolha e adaptação de música tradicional portuguesa. Dois anos mais tarde é editado “Sementes”. A partir dessa data, o esquecimento e, segundo parece, também “algum azar” remeteram os Alamanaque – nascido a partir do Coro da Juventude Musical portuguesa e cujo nome, sugerido por Nuno Rodrigues, é uma homenagem aos Malicorne e ao álbum “Almanach” – para o anonimato. José Manuel David, um dos fundadores e actual director artístico da banda, professor de Educação Musical no ensino preparatório, diz que “é preciso irem à bruxa”. Mas os Almanaque não desistem.



PÚBLICO – Qual é a actual formação dos Almanaque?
JOSÉ MANUEL DAVID – Além de mim, que toco teclados, gaita-de-foles, flautas, percussões e cavaquinho, é o Fernando Marques Gomes, estudante da escola superior de música, que toca guitarras, braguesa, flauta transversal, percussões e canta, o Miguel Pyrrait, professor de música na Juventude Musical Portuguesa, nas guitarras, e o Abílio Viegas, que é músico profissional, no baixo eléctrico. Ao vivo, costuma tocar connosco o João Nuno Represas, nas percussões.
P. – Como explica que um grupo com a importância dos Alamnaque se encontre hoje praticamente votado ao esquecimento?
R. – É uma espécie de círculo vicioso. Não temos discos porque não fazemos espectáculos e não fazemos espectáculos porque não temos discos. Costumo dizer a brincar que o grupo tem de ir à bruxa. Depois de 1986 e da gravação de “Sementes”, quando ainda nos designávemos grupo de recolha e divulgação de música tradicional, o grupo sofreu uma transformação. Achámos que tínhamos fechado um ciclo musical e de trabalho e que aquela coisa de sermos um grupo de recolha que faz espectáculos de animação musica não estava a resultar. Pretendemos continuar a trabalhar a música portuguesa, embora tivéssemos deixado de ser um grupo de música tradicional, no sentido vulgar do termo. Passámos também a fazer música nossa.
P. – Concretamente, que obstáculos encontraram?
R. – Penso que há muito pouca cultura deste tipo de música em Portugal…
P. – … O que não impediu que grupos como os Vai de Roda ou a Brigada Victor Jara tivessem lançado discos que, ao que parece, até venderam bem…
R. – Qundo chegámos à cooperativa UPAV, de que nos tornámos sócios, já lá estavam os Vai de Roda e a Brigada. Logo de início disse ao José Mário Branco que não vínhamos tirar o lugar a ninguém. Além disso, a UPAV não é prioritariamente uma editora de discos e tem as dificuldades inerentes a quem pretende editar. Os artistas têm que procurar fora da UPAV os seus financiamentos. O disco dos Vai de Roda saiu num pacote de discos que já estavam a ser financiados quando nós entrámos. Quanto à Brigada, conseguiu aquilo que nós não conseguios, um financiamento externo, além de que tinham o trabalho facilitado por não ser preciso gravar, visto tratar-se de uma colectânea. O que é sempre mais barato do que ir para um estúdio e passar lá um mês.
P. – Por outro lado, têm proliferado novas bandas sem qualquer qualidade que embarcaram na onda do oportunismo, do “é o que está a dar”, aos quais foi dada oportunidade de gravarem discos…
R. – Essa pergunta é mais para fazer às editoras… Pelo nosso lado, falámos com muita gente que não nos aceitou o trabalho alegando que não dá para bater o pé à primeira… Houve quem dissesse: “Isto é muito bom, mas é chato.” Quando as pessoas me dizem que é chato, eu tiro as minhas conclusões. O que se tem de fazer quando se pensa em música popular portuguesa é meter uns bombos e tal, uns bandolins, uns ritmos meio à chula. A nossa opção não é essa.
P. – Qual é então?
R. – O nosso trabalho com a música portuguesa passa por várias sonoridades e influências, com referências por exemplo à música irlandesa, da Galiza, da Bretanha, até ritmos indianos e africanos. Na Galiza, chamar-nos-iam simplesmente “um grupo folk”. Por exemplo, a referência que fazemos aos ritmos indianos, na abordagem aos romances tradicionais portugueses, é algo que fazemos aproveitando o facto de o João Nuno Represas tocar “tablas” nos nossos concertos. As “tablas” passaram a ter importância no som dos Almanaque, mas em conjunto com os outros instrumentos, os adufes ou os bombos pequenos, chamados “de rusga”, o que dá uma riqueza tímbrica e de ambientes bastante grande.
P. – Um grupo de fusão, portanto?
R. – Um pouco, sim. Tem havido aliás alguns desaires em termos de concertos por causa disso. Quando dizemos que somos um grupo de música popular as pessoas acham que obviamente temos que tocar umas chulas ou uns malhões para o pessoal bater o pé… Temos que ter direito à diferença.
P. – O que mudou, para melhor ou para pior, dos anos 80 até hoje, na música tradicional portuguesa?
R. – Houve uma escolha, uma selecção que não sei se já estará acabada. Nos anos 80 havia muito entusiasmo e pouco “savoir faire”. Nessa altura até costumava dizer a brincar que quem queria entrar para um grupo de música tradicional e não soubesse tocar nada, tocava bombo. Ou então, se tocasse um bocadinho de cordas, fazia sol e dó na braguesa… Hoje há mais profissionalismo, mesmo entre os músicos amadores.

Meredith Monk – “Atlas”

pop rock >> quarta-feira, 13.10.1993
NOVOS LANÇAMENTOS POPROCK


ALEXANDRA, A EXPLORADORA

ATLAS
MEREDITH MONK
Atlas
2xCD, ECM, distri. Dargil



Por paradoxal que possa parecer, são por norma os artistas possuidores de uma linguagem ou um estilo mais personalizado aqueles que com maior frequência tendem para a estagnação. Por uma questão de comodidade – não nos atrevemos a chamar-lhe comodismo -, que os impele a instalarem-se nos seus territórios pessoais, por vezes arduamente conquistados. No campo das chamadas músicas minimalistas ou a elas aparentadas o risco é ainda maior, sendo o caso de Philip Glass o exemplo extremo desta acomodação. Meredith Monk, não sendo filiada de modo directo no grupo dos minimalistas, socorre-se, contudo, de esquemas semelhantes. A originalidade e, mais do que isso, o ponto de partida e diferenciação da sua música passa pela utilização especilaíssima que faz da voz, que tem explorado de forma sistemática, com o recurso a variadas técnicas e contextos – o que resultou numa espécie de genealogia da voz humana, do grito à polifonia, em álbuns como “Dolen Music”, “Turtle Dreams”, “Do You Be” ou “Book of Days”.
Depois de “Facing North” – peça antiga cuja coreografia foi apresentada há alguns meses em Portugal, no auditório da Gulbenkian -, o novo trabalho, uma ópera, apontava para um “tour de force” da voz num contexto ainda mais lato. Neste particular, “Atlas” começa por provocar uma certa desilusão, na medida em que se torna perceptível a “prisão” da artista nos parâmetros imediatamente identificáveis, do seu estilo inconfundível. Assim, há em profusão os típicos “cacarejos” de galinha cósmica, os gritos que desembocam no sussurro e vice-versa, espantando como sempre o domínio avassalador do contraste e da dinâmica, materializado nos saltos vertiginosos do abissal para o agudo quebra-vidros. “Atlas”, nesta perspectiva, pode ser encarado como uma súmula completa dos vastos recursos vocais da cantora. Poderá acontecer que a alguns lhes apeteça ouvi-la mais uma vez a romper fronteiras. Não é, pois, por aí que seremos recompensados, já que a receita não difere muito da usada em “Dolmen Music” ou “Do You Be”, surgindo o velho companheiro de sempre, Robert Een na primeira fila do “ensemble” vocal, recortado contra uma retaguarda instrumental que, desta feita, se apresenta mais diversificada que o habitual: violino, violeta, violoncelo, clarinete, clarinete baixo, bombarda, “sheng”, flauta de bisel, percussões e harmónica de vidro.
Numa linha paralela à de outros autores operáticos próximos do minimalismo, nomeadamente um Robert Ashley, para quem a palavra coincide com o “lugar” e o agente exclusivo da acção, em “Atlas” os acontecimentos seguem na “horizontal”, de forma linear (melhor dizendo, circular, na forma musical e nas constantes recorrências temáticas), sobrepostos ao tempo e aos seus múltiplos andamentos. De um ponto de vista estrutural, torna-se interessante fzer algumas comparações com o passado e com a ópera segundo Wagner, cuja verticalidade a ergue para além da dimensão temporal, ao mundo dos arquétipos. Acção simbólica pura que, na ópera contemporânea, desce ao nível da linguagem conceptual, inimiga do mistério e do sincretismo das origens. Em “Atlas”, como diz o “libreto”, “a viagem funciona como uma metáfora para a demanda espiritual e o compromisso espiritual”, viagem expressa nos “ciclos de vida” (eis bem explícita a noção do tempo circular, inscrita no cerne da linguagem minimal repetitiva) de Alexandra Daniels, “uma exploradora”, como o eram as personagens polares de “Facing North”. Nessa demanda de Alexandra, acontecem “aventuras”, “encontros com espíritos de outras dimensões” e “conflitos com demónios pessoais e sociais”. Até aqui, e reportando-nos em exclusivo ao nível da acção, nada diferencia “Atlas” de uma ópera tradicional. O tema da “demanda espiritual” é até, de resto, fulcral na arquitectura de Wagner. É, porém, na tal “queda”, na transposição do mito para o “mundo moderno”, no acerto pelas agulhas do relógio, que “Atlas”, à imagem do herói grego, se verga ao peso do mundo. Porque é no mundo – e não na impossível fusão do indivíduo com a grande noite matricial que Wagner e a generalidade dos românticos pretendiam – e só no mundo que a síntese se produz e a viagem faz sentido. Já não em direcção do transcendente mas sim da autodescoberta. Num meio social e vivencial determinado, no seio do qual Alexandra “fecha o círculo”. Percurso iniciático entre “as suas primeiras memórias, do cheiro matinal do café” e “a sua aspiração em procurar o desconhecido”, ao longo do qual Alexandra Daniels “encontrou o que procurava nos actos simples da vida e na ternura do momento” e em que o que “parecia ter sido a descrição de uma expedição” se tornou “a viagem interior de uma alma”.



Não poderia ser de outro modo. “Atlas”, no desenrolar constante de vozes em círculo, aproxima-se das concepções do espírito oriental – jamais “filosóficas”, no sentido ocidental, idealista do termo – para se situar nos antípodas da ópera europeia, como Wagner a entendeu. Num terreno similar aos de Glass, Reich ou Riley – todos eles orientalistas declarados, por muito que o primeiro pretenda fazer crer o contrário – Meredith Monk afasta-se deles enquanto insiste nessa busca de um além, em embarcar numa viagem que parta de um ponto para chegar a um nível outro de realidade. A tragédia está em que, tendo Meredith Monk a possibilidade de se libertar pela única saída possível – a voz, elemento instaurador de outras ordens e significados -, acaba por ser esta mesma voz que, permanecendo amarrada à estética minimal, da circularidade, se vê condenada a eternamente regressar ao ponto de partida, apesar de todas as declarações de intenções em contrário. Afinal o mesmo destino trágico – a repetição “ad aeternum”, que só a morte permitiria ultrapassar – que estava reservado aos românticos, todos eles perdidos na contemplação do Oriente. (7)