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Mari Boine Persen – “Concerto De Mari Boine Persen, Domingo, Em Lisboa – A Lapónia Não É Uma Parvónia”

Cultura >> Quarta-Feira, 10.06.1992


Concerto De Mari Boine Persen, Domingo, Em Lisboa
A Lapónia Não É Uma Parvónia

Os apreciadores de folk deveriam ficar de vigília e em jejum até ao próximo domingo, dia em que Mari Boine Persen actua em Lisboa. Em Belém, às 21h00, no relvado em frente dos Jerónimos e dos pastéis. Num concerto “Pela Terra e pela gente” com mais nomes mas em que ela é a estrela principal – a estrela de Belém. Como preparação espiritual, é o mínimo que se pode exigir.



Mari Boine Persen é a representante de uma cultura estranha que traz como credenciais uma voz fabulosa (o jornal londrino “The Guardian” chamou à cantora a “Piaf do Norte”) e uma música diferente de todas as outras. Vem cantar a Portugal no concerto “Pela Terra e pela gente”, a convite da Etnia, em colaboração com a Oikos, uma organização não governamental com um projecto de educação para o desenvolvimento em várias regiões europeias.
Quem já ouviu o seu álbum “Gula Gula”, gravado para a Real World, sabe o que o espera e nesta altura o mais provável é já estar a caminho de Belém, gemendo de ansiedade e expectativa. Ainda por cima o espectáculo é gratuito. De referir que Mari Boine Persen, para além do concerto lisboeta, actuará noutras quatro cidades, em mais uma ronda dos Circuitos da Tradição Europeia. No Porto, dia 13, no Cais da Estiva (à Ribeira), em Guimarães, dia 15, no Paço dos Duques, na Guarda, dia 16, na Alameda de S. André e em Viana do Castelo, dia 17, no Teatro Sá de Miranda. Todos os espectáculos com início às 21h30.
Além dos aspectos musicais propriamente ditos, que por si só justificam todos os louvores, a obra da cantora reveste-se de um significado político. Mari Boine Persen vem registada no bilhete de identidade como cidadã norueguesa o que, para ela, deve querer dizer pouco. A Lapónia existe, não é uma parvónia, foi lá que Mari nasceu e por esse motivo tem de lutar contra a segregação a que geralmente são votadas as minorias. Mari é norueguesa da mesma maneira que um galego é espanhol, o que desde logo dá origem a confusões. O povo lapão suportou, na sua história recente, a opressão dos mais fortes. Os fortes – neste caso noruegueses de cabelos louros, olhos azuis e corações de gelo – procederam como procedem sempre que se lhes deparam casos de rebeldia e a vontade de afirmação de uma identidade cultural autónoma: oprimiram primeiro, como forma de desgaste, e assimilaram depois, como se a diferença não passasse de uma ilusão ou de um capricho de indígenas pouco civilizados. A única canção que Mari Boine canta em norueguês tem por título “Receita para criar uma raça superior”…
Na música de Mari Boine Persen afirma-se a identidade de um povo e a vitalidade da tradição “Sami”. A língua utilizada é o lapão. Os ritmos assentam nas pulsações ancestrais. Quando Mari canta, sentimo-nos todos lapões e apetece cortar relações com os noruegueses (com as norueguesas, não). Mas esta firmeza e este enraizamento na tradição não implicam a recusa dos tempos actuais. Provam-no a presença da electrónica, em “Gula Gula”, ou o anunciado projecto de um novo disco, com edição prevista para o Outono, de parceria com o seu compatriota Jan Garbarek, sucedendo deste modo a Agnes Buen Garnas, na lista das cantoras “norueguesas” a quem o saxofonista emprestou o seu talento de arranjador.
Acompanham Mari Boine Persen, no concerto de Belém, Roger Ludvigasen (guitarras e percussão), Gjermund Silset (baixo), Carlos Zamata Quispe (flautas e charango) e Helge Nordbakken (percussões).
Dos Andes, das grandes altitudes onde voa o condor, sopram as flautas de Pã e os chapéus são arrancados das cabeças pelo vento, chegam os Caliche, com a sua música de inspiração pré-colombiana e as suas típicas mantas de lã às riscas. Não será bem assim mas não deixa de ser poético. Por acaso o nome da banda até é inspirado nas minas de nitrato das montanhas do Norte do Chile. Música do interior da montanha e não tanto dos seus cumes – o primeiro álbum dos Caliche tem por título “Deep from the Earth” e faz lembrar os sete anões da Branca de Neve. Gravaram outros: “Winds from the South” e “Dance of the Llamas”. Na sua terra natal, alinham na “Alerce”, editora chilena em cujo catálogo figuram os nomes míticos de Victor Jara, Quilapayun, Inti-Illimani e Violeta Parra.

Uma Fruição Não PREC

Em 1974, a rádio portuguesa não passava outra coisa. Um enjoo. Passados todos estes anos de merecido descanso, a distanciação já permite fruir sem preconceitos – uma fruição não PREC – estas sonoridades com sabor a vento e terra.
Seckou e Ramata representam o continente africano. O primeiro é oriundo da Gâmbia, descendente de um clã de feiticeiros (“gritos”). A Gâmbia fica situada entre o Oceano Atlântico e o Senegal, entre as regiões desérticas do Norte e a selva tropical, a Sul. Terra de uma cultura que permaneceu inviolável, das tribos dos mandingos e do “kora”, instrumento musical popularizado no Ocidente por Mory Kanté ou Foday Musa Suso. Mistério e melopeias encantatórias, cerne da tradição oral deste país, são transportados na voz de Diely Seckou, cantor de casamentos, baptismos e outras cerimónias de inicação. Seckou traz consigo a sua mulher Ramata Kouyaté, maliniana, cantora, também ela herdeira da tradição dos feiticeiros e portadora do segredo negro, cuja decifração passa pela atenção constante aos “menores estrmecimentos do coração” africano. O duo será acompanhado por Lansine Kouyate (balafone), Ali Wage (flauta vocal) e Djeli Moussa Cissoko (percussões).
Portugal faz-se representar pelos Toque de Caixa que até agora têm andado um pouco na sombra dos Vai de Roda, em particular por António Tentúgal ter sido, há anos, o seu director musical. São sete, tocam uma quantidade de instrumentos – das guitarras, percussões e teclados ao violino, concertina e gaita-de-foles – e defendem que “para se saber o caminho em frente é bom não esquecer o caminho que está para trás, o caminho de regresso”.

Caixa
Ad Vielle Que Pourra E Ex-Planxty

OS TERCEIROS Encontros da Tradição Europeia já têm o programa deste ano. À semelhança das duas primeiras edições, a Etnia não brinca e traz a Portugal os melhores. Este ano, então, é caso para dizer que por nada deste mundo se poderá perder a música que aí vem. Atente-se nos nomes: Lyam O’ Flynn em duo com Donnal Lunny. O primeiro, um dos maiores tocadores de gaita-de-foles da Irlanda, o segundo, mestre dos instrumentos de corda dedilhada. Ex-membros dos Planxty (Lunny também passou pelos Bothy Band), trazem consigo a Portugal “amigos” por enquanto incógnitos, mas que devem ser do mesmo quilate. Da Escócia, os Capercaillie, cujo álbum recente, “Delerium”, foi incensado nas páginas da “Folk Roots”. Elena Ledda & Suonoficina e o grupo Vasmalon representam respectivamente a Sardenha e a Hungria.
Regressam a Portugal os espanhóis La Musgana, que há dois anos rubricaram uma actuação memorável, no castelo de Palmela. O seu álbum “El Paso de La Estantigua” deve andar esquecido por uma ou outra discoteca. Finalmente (prenda-se a respiração), do Canadá, os Ad Vielle Que Pourra, uma das maiores formações Folk da actualidade que, nos “Encontros”, decerto confirmará a expectativa criada pelos álbuns “New French Folk Music” e “Come What May”, ambos disponíveis no mercado nacional, via importação. Está ainda prevista a inclusão no programa de dois grupos portugueses, a definir, ou, em alternativa, um grupo estrangeiro, da Bretanha ou da Grécia.

Vários – “Noches Gitanas En Lebrija”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 10.06.1992


AO REDOR DAS CHAMAS

VÁRIOS
Noches Gitanas En Lebrija
4xCD, EPM, distri. Dargil


Os vários em questão são na realidade um agregado familiar à volta do guitarrista Pedro Bacan, que convocou para estas noites de flamenco o pai, Bastian Bacan, a tia-avó, Luisa Pena, a irmã Ines Bacan e um punhado de primos, Pepa de Benito, Manuel de la Costa, Diego El Daito, Concha del Lagana, La Morena, La Perrenga e Diego Vargas. Os nomes não serão conhecidos da maioria. É a família dos Bacan como poderia ser a dos Silvas. Mas que ninguém se iluda: a verdade da música flamenca está toda aqui. Na guitarra e, sobretudo, no canto que vibra, vive e sangra naquilo que o flamenco tem de mais profundo e genuíno. Noites ciganas, entre o fogo e as estrelas, registadas ao vivo em quatro volumes correspondentes a outros tantos títulos temáticos: “Fiesta”, “Luna”, “Solera e “Al Alba”. Quanto ao aglutinador do projecto, Pedro Bacan, foi-lhe atribuída pela Fundação Machado o prémio para o melhor espectáculo apresentado na Bienal de Flamenco de Sevilha, em 1990: “Nuestra Historia al Sul”.
Da “Fiesta” à volta da fogueira até à primeira luz da madrugada, é toda a história de um povo que se desenrola no espaço de uma noite mítica e por todos os cambiantes que pode assumir a alma cigana enquanto caminha. Nesse caminhar que é a sua própria essência. A noite é então o espaço, físico e poético, onde cabem, paredes meias, a celebração e o sofrimento, ao mesmo tempo que uma metáfora sobre a condição existencial de uma raça em busca de um centro.
Nos quatro álbuns é a voz que conta a história. Vozes masculinas, de luta, sol, vinho e suor, e vozes femininas, de lua, sangue, terra e pranto. Há um mistério neste canto e nestas vozes que se soltam para o negrume do céu, envoltas pelas chamas. Há quem diga que esta música se situa para além de toda a estética e que se confunde com a própria vida. Silverio Franconetti, estudioso da cultura do “povo descendente do faraó” e considerado o primeiro divulgador da sua música no exterior, julgou encontrar o segredo dos ciganos cantores, ou “flamencos”, numa sílaba que em si condensa e concentra a existência e o mundo “ay” – a chave de dentro e de fora, do sentimento e das formas de que se revestem as típicas vocalizações ciganas, feitas de espasmos, suspiros, gritos, cortes, modulações e ornamentações, que se diriam arrancadas à própria carne, movimento perpétuo, a um tempo infinito e fugaz, como uma chama – fogo e chamada.
No ciclo destas noites de Lebrija, encontram-se ainda outras chaves que dão acesso ao interior do continente (ou será ilha?) cigano. A principal abre o portão da comunicabilidade, do contacto directo entre os entes, sejam eles divinos ou humanos, e aqui reside mais um ponto essencial. O canto “flamenco” exprime uma ligação real e por isso se pode considerar sagrado. Ligação entre os vários elementos da família, entre os apaixonados, entre o homem e a terra, o homem e o céu, o homem, a sua alegria e a sua dor. Enquanto canta, o cigano transforma-se, concentra-se, encontra o seu lugar no universo. E perde-se, porque se abre, se deixa percorrer pelas correntes que através de si fluem, telúricas e celestes. Um cigano é como uma árvore a que só o canto permite criar raízes. Um cigano é a personificação do destino. Inevitável e incerto. Uma dança sem fim. Bulerias, fandangos, siguiryas, soleás… Mas atenção: para fruirmos a noite e aluz ciganas é preciso que também nós saibamos acender a fogueira. Porque a luz da Lua enlouquece. (9)

Vários – “Coal Heart Forever”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 10.06.1992


VÁRIOS
Coal Heart Forever
CD, Sub Rosa, distri. Contraverso



Uma das características interessantes do fenómeno musical neste final de milénio é a deslocação do próprio conceito de “música”. Sem ser preciso recuar até ao canto sacro da Idade Média e a uma função específica da música enquanto elo, enquanto “ser” e “via de acesso”, pode analisar-se, pelo menos, o progressivo esvaziamento da noção romântica de “obra”, como um todo musical orgânico produzido e autorizado por um indivíduo que, diferentemente da tradição medieval (e até certo ponto renascentista), em que o divino se sobrepunha ao humano e este se “limitava” a ser o veículo transmissor de forças que o transcendiam, se contrapunha e lutava contra quem se opusesse ao movimento centrípeto da sua paixão. A esta noção de “obra” veio sobrepor-se a de “matéria sonora” e, como consequência, também a alteração da “ordem” convencional. O som deixou de ser “composto”, segundo a acepção clássica do termo, para ser “recolhido” e “organizado”. As técnicas de “samplagem” contribuíram, por seu lado, para o esbatimento do estatuto de “autor”. Tudo passou a ser música, “material” susceptível de ser manipulado e transformado, o que acarretou outro dano maior, o da abolição da história, enquanto movimento no tempo. “Coal Heart Forever”, à semelhança de parte de um anterior projecto da mesma editora, da série Myths, é exemplar de tudo o que acima foi dito. Aqui não há autores mas apenas sons e “pilhagens” feitas a diferentes arquivos sonoros pertencentes a diferentes espaços geográficos e temporais, se é que estas palavras ainda fazem algum sentido: cerimónias religiosas recolhidas no Tibete (entre 1963 e 1972), Turquia (1973) e Bélgica (1989), num dos temas, fragmentos de diálogos de uma série de vídeos experimentais, noutro, e finalmente uma “aural subjective vision” de um ritual religiosos tibetano, à semelhança do primeiro tema, gravado “in loco” por John Scividya.
Neste caso, a “subjectividade” reside em que as gravações originais são praticamente inaudíveis, substituídas por um zumbido contínuo e, no final, por uma conversa de teor hermético-aleatório. Interessante, sobretudo para os cegos que gostam de cinema e para os interessados em cursos de habilitação a Dalai Lama por correspondência. (6)