Arquivo mensal: Julho 2020

Jon Balke & Oslo 13 – “Nonsentration” + Edward Vesala Sound & Fury – “Invisible Storm” + Tamia & Pierre Favre – “Solitudes”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 10.06.1992


O SOPRO VITAL

JON BALKE & OSLO 13
Nonsentration (7)
EDWARD VESALA SOUND & FURY
Invisible Storm (9)
TAMIA & PIERRE FAVRE
Solitudes (9)
CD, ECM, distri. Dargil



Os três discos em análise são outros tantos exemplos de alguns dos caminhos percorridos pela música contemporânea ao mesmo tempo que constituem motivos de meditação para todos quantos se preocupam com “a questão do jazz”, essa “música difícil” que afinal encontra nos preconceitos o seu maior obstáculo. Dos três, o de Jon Balke é o que se insere, de forma inequívoca, na estrutura e na tradição do que se convencionou chamar “jazz”, aqui na sua vertente europeia e, em particular, na escola nórdica, tão do agrado do produtor Manfred Eischer.
Membro fundador dos Masqualero, Jon Balke, compositor e teclista norueguês, tocou entre outros com Archie Shepp, John Surman e Zbigniew Namyslowski (há quem o recorde de um dos primeiros festivais de jazz de Cascais). A banda Oslo 13 exercitou-se nas sendas da improvisação colectiva antes de se entregar à prática da concentração e contenção exigidas por Balke no contexto deste álbum, pese embora o prefixo do título. “Nonsentration” resolve-se nos jogos e na dialéctica tonal entre três secções – trompetes e trombone, saxofones e percussão – apoiadas, seccionadas (raramente em confronto directo) pelos teclados, que por vezes se libertam da carga rítmica para se entregar ao típico “yoga” de contemplação pianística que é, ou foi, imagem de marca da editora. A ideia é fazer a síntese entre as orquestras árabes, a música de câmara e as “big bands” de jazz, sendo as primeiras, à partida, as mais capazes de injectar no projecto o elemento desestabilizador.
Tal não acontece. A bateria e as percussões estão bastante mais próximas da África central (Balke já trabalhou com músicos da Gâmbia) ou do Brasil, e o resultado está longe de ser das arábias. Entre o afro-jazz e o icebergue de arranjos demasiado rígidos e tipificados, “Nonsentration” fica-se pela beleza apaziguadora e pelo apuro formal, sem arriscar demasiado nos territórios da música étnica ou nas liberdades concedidas por um formato instrumental que Carla Bley, por exemplo, tão bem soube explorar ou Keith Jarrett, nessa bizarria que é “In The Light”.
Problemas que Edward Vesala, finlandês, percussionista, autor de uma “Ode to the Death of Jazz” editada sob esta mesma etiqueta, resolveu de forma brilhante. Em “Invisible Storm”, o jazz é deixado para trás para ser apanhado mais à frente, revigorado e apto a avançar em novas direcções, aqui simbolizadas pela utilização de percussões de metal que, no entender de Vesala, substituem com vantagem as peles e madeira convencionais, em poder e ressonância.
Energia e tensão são o fogo e a massa aglutinadora desta “trovoada invisível” que, ao contrário de “Nonsentration”, explora todos os cantos, na combinação dos sopros, nas interpolações rítmicas de uma harpa, nas modulações electrónicas ou até no disparo ao rock do tema “Gordion’s flashes”, algures entre as pulsações da Jazz Composers Orchestra e o experimentalismo de um David Linton.
“Solitudes” é todo um universo diferente que se abre muito para além do jazz. É música religiosa no sentido em que é religiosa uma voz e um canto que ligam o humano a esferas mais elevadas. Depois de “De la Nuit… Le Jour”, Tamia e o percussionista suíço Pierre Favre, oriundo das hostes do “free jazz” europeu e membro desse colectivo de génios que foi a Michel Portal Unit, aprofundam aindamais o sentido do seu diálogo. Tamia é a voz do fundo e do final dos tempos, tão radical como Joan La Barbara, tão teatral como Meredith Monk e com a carga de misticismo de uma Enya a multiplicar por mil. Favre é o poeta dfas percussões. O criador de mundos elementais, de chuvas e areias, e de céus constelados de sinos, guizos, gongos e metais em vibração. Uma floresta de sons entre os quais a voz de Tamia ora dança ora se eleva. Música étnica de outra dimensão. Vozes que, no espaço centralo das grandes solidões falam a quem souber erguer-se acima da pequenez do mundo.

Júlio Pereira – “O Meu Bandolim”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 10.06.1992


JÚLIO PEREIRA
O Meu Bandolim
LP / MC / CD, Columbia, ed. Sony Music



É triste dizer isto, ainda por cima em público, mas é verdade: Júlio Pereira, a cada novo disco que edita, vai-se afundando na repetição de esquemas batidos e no acomodamento a um som que aos poucos se tornou numa caricatura de glórias passadas, dos tempos de “Cavaquinho” e “Braguesa”.
“O Meu Bandolim” descreve-se em poucas palavras: música para turistas. É uma opção como qualquer outra, com as respectivas vantagens (materiais) e riscos (descaracterização, comodismo, urticária). Irrita sobretudo o som, o terrível “som Júlio Pereira” que consiste em fazer passar todos os instrumentos pelo crivo implacável de filtros que não deixam passar um grãozinho de poeira. A questão, posta em termos de metáfora, está em que o que é verdadeiramente profundo e genuíno, o objecto precioso, perde todo o seu encanto quando destituído da “patine” que é uma marca da dignidade do seu estatuto – a tal poeira de que Júlio Pereira se quer ver livre a todo o custo. “O Meu Bandolim” soa a produto de laboratório, cheira a desinfectante, é todo “Omo lava mais branco”.
Depois falta a inspiração. A música é quase toda folclore no pior sentido que a palavra pode ter, precisamente aquele que o próprio autor é suposto criticar, da época áurea dos ranchos televisivos de Pedro Homem de Mello. “O Meu Bandolim” tem neste aspecto a profundidade e a espessura dramática do cochicho. Na capa interior, vem lavrada a história e as técnicas de interpretação do instrumento, numa atitude pedagógica que é de louvar.
O pior é que, depois de se ouvir o disco, o efeito provocado no auditor choca manifestamente com as intenções. O bandolim torna-se objecto de tortura psicológica e fica-se com vontade de ser mau e fazer o que não se deve: entregar o instrumento “à actividade exploratória infantil”, como diz o texto interior ou, pior ainda, aos “acessos cíclicos de mudança nos adultos”, de maneira a “terminar ingloriamente numa fogueira ou num folguedo carnavalesco”. Da fogueira, apesar de tudo, ainda há a salvar a técnica irrepreensível dos executantes e os três temas que escapam à vulgaridade dominante: “Palaciana”, evocativa de alguma beleza passada, “Poção mágica” e “Conversa adiada”, respectivamente diálogo do bandolim de Júlio Pereira com o oboé de Serafim Vieira e a guitarra de José Peixoto. O resto é conversa fiada ou, como diz o título de uma das canções, “fogo-de-artifício”. (3)

Vários – “Folk Tejo, Sexta E Sábado, No Teatro São Luiz, Em Lisboa – O Último Metro” (festivais)

Cultura >> Segunda-Feira, 08.06.1992


Folk Tejo, Sexta E Sábado, No Teatro São Luiz, Em Lisboa
O Último Metro



DUAS NOITES de Folk integradas nas Festas da Cidade de Lisboa não foram suficientes para levantar o ânimo de quantos não puderam ou não quiseram ir às Antas ver o Sinatra. Em Lisboa, ao contrário do Porto, vai-se “à Folk” trajado a rigor, sem entusiasmos excessivos nem paixões exarcebadas. Como à ópera, ao Aquário Vasco da Gama ou à exposição de mobiliário de casa de banho da F.I.L.
Este ano não houve as falhas de organização do ano passado. O São Luiz foi opção acertada, o som esteve bom. A música, sem ter sido brilhante, entreteve. Abriu o primeiro dia do Folk Tejo um grupo de cantores alentejanos do Barreiro. Parece que não é no Alentejo mas sim na cintura industrial da margem Sul do Tejo que se encontram os melhores representantes desta modalidade vocal. Homens que vieram do Sul trabalhar para as fábricas e que, deste modo, até cantam melhor, empurrados pela saudade e pela mágoa. Assim foi no S. Luiz e ninguém adormeceu.
Abed Azrié, um sírio com aspecto de Leo Ferré, veio a seguir cantar os poetas místicos do mundo árabe, com arranjos musicais modernizados mas que não eliminaram de todo a vertente ascética original. Abed cantou o amor divino do “homem que se deve tornar um deus e de Deus que se deve tornar humano”, segundo a óptica dos soufis da Idade Média, que corresponde, no Ocidente, às concepções gnósticas dos trovadores provençais. Vestido de negro, Abed mostrou, pelo canto serpentiforme, a matriz feminina do Oriente. Houve mesmo uma canção dedicada à Mulher. Quando Abed Azrié perguntou à assistência como se diz “femme” em português, alguém na sala respondeu: “Chata!” Excelentes os músicos acompanhantes, com destaque para Abdulkader Ghourani, tocador de “kanoun”, uma variante do saltério.
Barbudo e extrovertido, Bem Zimet abriu as portas do cabaré e misturou tudo: o canto “yiddish” dos judeus do Leste com Piaf, os ritmos ciganos com o jazz. Freud com Schoenberg, Treblinka com a Bielorússia, as histórias divertidas com a dor. Ficou a recordação obsessiva dos anos do martírio, do “ghetto” de Varsóvia e daquela criança que “vendia fósforos a dois cêntimos numa época em que a vida humana valia menos que isso”. A embriaguez de querer, sem que se consiga esquecer o horror e a nostalgia de uma Polónia de hoje, “com as mesmas árvores, mas sem judeus”.
Cabaré de danças macabras mas também da ternura e do humor, e do encontro com a América do jazz e de Gershwin. Endiabrado esteve Teddy Lasry, no clarinete, curiosamente um músico que em início de carreira alinhou ao lado das tendências wagnerianas de Christian Vander, nos Magma… Zimet e os seus pares tocaram e tocaram, espevitados pela presença, nas primeiras filas da plateia, de elementos da comunidade judaica radicada no nosso país. Zimet só parou de tocar, como o próprio disse, para não perder o último Metro. Faltavam dez minutos para a uma da manhã.
Na noite de sábado os Romanças quiseram mostrar mais do que na realidade são. Em vez de se ficarem pela melhor música do álbum “Monte da Lua” optaram pelo exibicionismo de solos, apenas competentes e por canções novas com falta de rodagem. O melhor esteve nas vozes de Pedro d’Orey e Fernando Pereira, na balada interpretada pela vocalista convidada Filomena Pereira, acompanhada por Pedro d’Orey na harpa céltica (a primeira vez que este instrumento foi tocado ao vivo em Portugal) e José Pedro Gil nos teclados.
Chris Wood (violino) e Andy Cutting (concertina) foram o oposto dos Romanças. Autênticos tecnicistas, não se preocuparam com exibicionismos gratuitos, antes teceram um manto musical envolvente, de forma discreta, que pouco a pouco, sem alardes, conquistou de forma subtil a assistência, através de instrumentais de ressonâncias renascentistas, valsas do Quebec e outras cadências da tradição rural da Inglaterra. Para quem não os conhecia, a revelação do festival.
Happy e Artie Traum fecharam o Folk Tejo com uma nota de boa disposição e “good time music”. Com canções de The Band, Woody Guthrie, Dylan (tentaram, sem sucesso, que o público cantasse-em-coro “I shall be released”) e referências constantes à “Woodstock nation” que parece encher-lhes o coração. Convidaram Chris Wood para tocar em dois temas, brincaram com Sinatra, disseram “obrigado” em português (fruto de seis meses de aprendizagem intensiva, como disse Robbie Dupree) e mostraram dois grandes músicos em palco: Dupree, na harmónica, e Cindy Cashdollar, na “lap slow guitar” e no “dobro”, por vezes triplo. Também pararam para apanhar o metro.