Arquivo mensal: Outubro 2017

“Eletrónica De Recreio: Máquinas No Jardim-Escola” (artigo de opinião)

Y 29|DEZEMBRO|2000
música|2000

pop


ELETRÓNICA DE RECREIO

MÁQUINAS NO JARDIM-ESCOLA



Como aconteceu nos anos 70, com a explosão do krautrock e, nos anos 80, com os murros no muro desferidos pelos Einsturzende Neubauten, Berlim e Düsseldorf foram ao longo do ano duas fábricas de música eletrónica da Europa. Mas os anos 2000 preparam-se para acolher com serpentinas uma eletrónica que se engalanou de flores transformando o universo das máquinas num jardim-escola. Depois dos Cluster terem registado a patente com o carrocel mágico “Zuckerzeit” e de Holger Hiller e Pyrolator terem escrito outras páginas coloridas deste livro de histórias de encantar.
Messer Für Frau Muller, com “Allo, Superman!”, e “Holger Hiller” lideraram na Alemanha a distribuição de brinquedos. Quem continua a lançar trunfos para as pistas de dança do novo milénio é Thomas Brinkmann, a solo, com “Rosa”, ou atafulhado de samples de soul e funk, como Soul Center, bem acompanhado pelo álbum homónimo dos Rechenzentrum, tratado de tecno subliminar.
Herdeiros do tecno hardcore, da música industrial, do dub e do “rap”, os Funkstörung arrasaram com “Appetite for Distruction” quando, seguindo o caminho inverso, o niilismo dos velhos Neubauten se exerceu na ironia envenenada de “Silence is Sexy”. Em Inglaterra, o som não poderia ter sido mais germânico e “funny” do que em “A Collection of Ice Cream Vans, Vol. 2”, dos Tele:Funken. Na França os Dat Politics estilhaçaram o “powerbook” e infetaram a rede com “Villiger”, nos antípodas do psicadelismo floydiano dos Air, autores da banda-sonora de “As Virgens Suicidas”. Dos fiordes da Noruega chegou o ambientalismo subliminar de “Cirque”, dos Biosphere, revolucionários do “chill out”, enquanto na ilha das feiticeiras, a Islândia, os Sigur Rós choraram em memória dos This Mortal Coil. Do lado de lá do Atlântico o jazz e a eletrónica entrelaçaram-se nos Chicago Underground Duo, com “Synesthesia”, e nos Isotope 217, mergulhados na nostalgia de Canterbury em “Who Stole the I Walkman?”. Kid606 entrou em curto-circuito com “PS I Love you”.
Fora de todos os parâmetros, perfilaram-se três obras-primas: “Supermodified”, de Amon Tobin, que salvou para os próximos dez anos o drum n’ bass, e “Manhattan Research Inc.”, do americano Raymond Scott, o pai de todas as inovações. E “ArteSonado”, de Fátima Miranda, que não é eletrónica, mas tão só a voz de uma mulher tocada pela graça.



Lista dos 10 melhores álbuns pop para os críticos do PÚBLICO:

1º D’Angelo – Voodoo
2º Sigur Rós – Agaetis Byrjun
3º Goldfrapp – Felt Mountain
4º Amon Tobin – Supermodified
5º Calexico – Hot Rail
6º Clinic – Internal Wrangler
7º Einsturzende Neubauten – Silence is Sexy
8º Leila – Courtesy of Choice
9º Bohren & Der Club Of Gore – Sunset Missionh
10º Dzihan & Kamien – Freaks & Icons

Jimi Hendrix – ” A Experiência Hendrix” (artigo de opinião) (televisão)

Y 22|DEZEMBRO|2000
escolhas|televisão

Não era o menino de coro que a sua agente quer fazer crer nem o diabo que se envolvia nas chamas da sua guitarra. Era um músico-visionário que viveu na quinta dimensão e nos mostrou do lado de cá como era do lado de lá.


A experiência Hendrix


UNITED KINGDOM – FEBRUARY 24: ROYAL ALBERT HALL Photo of Jimi HENDRIX, performing live onstage (Photo by David Redfern/Redferns)


Sobre a música de Jimi Hendrix (Jimmy hendrix, para os incultos…) já se disse e escreveu tudo ou quase tudo. “Quase” porque do seu baú – sem fundo, como o de Fernando Pessoa – continuam a sair “originais” às dezenas, com uma regularidade alarmante, o que impede que se ponha a lápide criativa definitiva sobre o seu génio. Ainda agora acabou de ser editada uma caixa – mais uma – composta por quatro CDs contendo nada mais nada menos do que 56 “novos” temas do guitarrista dos guitarristas que mais não são do que versões alternativas, gravações ao vivo e demais curiosidades que, por alguma razão, foram deixadas de fora na altura pelo seu autor.
Seja como for, os colecionadores agradecem, Janie Handrix, meia-irmã do músico e atual responsável por todos os negócios envolvendo o material deixado pelo seu falecido mano, agradece e até, porque não, mesmo aqueles que escrevem “Jimmy Hendrix” agradecem.
Mas, dizia-se, sobre a música de Jimmy Hendrix já se disse e escreveu tudo ou quase tudo. Resumindo, digamos que os três álbuns que Hendrix gravou em trio sob a designação de The Jimi Hendrix Experience, ao lado de Noel Redding, no baixo, e Mitch Mitchell, na bateria – “Are you Experienced?” (1967), “Axis: Bold as Love” (1967) e “Electric Ladyland” (1969) – puseram em estado de sítio o rock dos anos 60 e levantaram a fasquia da técnica de execução na guitarra elétrica (Hendrix usava um modelo de Fender Stratocaster facilmente inflamável, o que facilitava enormemente as proezas pirotécnicas com que costumava iluminar as suas atuações ao vivo…) a uma altura a partir daí apenas transponível pelos saltadores de vara.

Deus pagão. É, porém, sobre a sua vida, que trata o documentário a exibir amanhã, no canal Arte, com o título “Hey Joe – A Vida Breve e Atormentada de Jimi Hendrix”. Christopher Olgiati realizou-o no ano passado e é bem provável que, ao longo dos seus cerca de 60 minutos, se fique a saber mais sobre a vida do guitarrista do que em anos a fio de conversa da treta.
O documentário tem a virtude de dar uma imagem o mais afastada possível dos clichés que normalmente acompanham as biografias do músico que, já agora, para quem não saiba, nasceu com o nome de Johnny Allen Hendrix (a seguir seria Jimmy James) a 27 de Novembro de 1942, em Seattle, nos Estados Unidos, e faleceu como Jimi Hendrix a 18 de Setembro de 1970, em Londres. Aos 27 anos, portanto, vítima de tudo. Não há imagens de guitarras em chamas nem da mítica interpretação de “Star spangled banner” a fechar o festival de Woodstock, em 1969.
“Hey Joe” não condescende. Ao contrário das afirmações da sua meia-irmã e agente comercial póstuma, que não se cansa de apregoar que o seu atual ganha-pão não se drogava nem sequer se permitia fumar um cigarrinho de vez em quando, o documentário não foge, por assim dizer, com o rabo à seringa, à semelhança, aliás, do próprio músico, utilizador assíduo da dita… Até porque, neste como em outros casos (Joplin, Morrison…) são inseparáveis uma vida de excessos e uma música de excessos.
Assim, por uma vez, não foi consultada a senhora, sendo convidada para falar gente bastante mais avalizada para o fazer. Por exemplo, Linda Keith, amiga de Keith Richards, dos Stones, que apresentou o então adolescente Jimmy James ao baixista dos The Animals, Chas Chandler, que viria a ser o seu futuro agente e produtor; Eric Burdon, líder e vocalista dos mesmos The Animals, amigo do ácido e de quem se diz ter em sua posse uma nota de suicídio deixada por Hendrix; Noel Redding, Kathy Etchingham, a primeira namorada londrina, Gerry Stickells, road-manager, Juma Sultan, percussionista acompanhante do guitarrista em Woodstock, Chris Stamp, irmão do ator Terence Stamp.
Além das entrevistas e depoimentos, “Hey Joe” utiliza ainda material dos arquivos pessoais de Noel Redding, mostra o encontro de Hendrix com o rocker francês Johnny Hallyday e imagens do derradeiro e caótico concerto do guitarrista, realizado na Alemanha 12 dias antes da sua morte.
De Jimi Hendrix ficará para sempre a imagem do tímido que se transformava em deus pagão cada vez que pegava na guitarra. A sua vida e a sua música foram, afinal, e no limite, o que o seu grupo anunciou desde o início: uma experiência.



Faust – “The Wümme Years, 1970-1973”

Y 22|DEZEMBRO|2000
discos|escolhas


FAUST
The Wümme Years, 1970-1973
5xCD Recommended, distri. Ananana
10|10

Cola-tudo



Acordem! Desfaçam as malas! Adiem a entrada no novo milénio! Desliguem a televisão à hora do “Big Brother”! Parem tudo o que estão a fazer e prestem atenção: acabou de ser reeditada – no formato de caixa, ideal para prenda de Natal – a obra completa e remasterizada dos Faust, correspondente às primeiras gravações alemãs, nos estúdios do castelo de Wümme. “The Wümme Years, 1970-1973” reúne os três primeiros álbuns de originais, “Faust” (1971), “So Far” (1972) e “The Faust Tapes” (1973), mais “71 Minutes of Faust” (“The Last LP” com Munic & Elsewhere”) e umas “The BBC Sessions” acrescidas de mais material disperse. Qualquer destes discos sairá posteriormente em separado, mas esta edição tem a vantagem de sair mais barata (13 mil escudos) e incluir um indispensável livrete com entrevistas inéditas a Jean-Hervé Peron e Joachim Irmler, elementos fundadores dos Faust, Kurt Graupner, engenheiro de som, e Uwe Nettelbeck, o produtor que vendeu a alma ao diabo para conseguir da editor Polydor a cedência aos seus meninos do estúdio em Wümme e um ano de experiências, a fundo perdido. Peter Blegvad, músico inglês que além de ter pertencido aos Slapp Happy e aos Henry Cow ainda conseguiu juntar-se aos Faust da última fase, relembra episódios marginais. Somos ainda presenteados com um conjunto de fotos inéditas e explicações detalhadas sobre os métodos de gravação, composição e equipamento.
Quanto à música… deixem-me antecipar o gozo que decerto terão, como eu tive, todos os que guardam religiosamente na estante as cópias em vinilo ou as anteriores versões japonesas em CD da Captain Trip.
Os Faust, como os Beatles, Zappa ou os Kraftwerk, mudaram o curso da história do rock. “Faust”, o álbum de estreia, era original em tudo, desde a embalagem e disco completamente transparentes à radiografia do punho fechado que passou a funcionar como símbolo do grupo. Neste álbum, mãe e pai de todas as transgressões, o ruído, as citações aos Beatles, Stones e Beach Boys, o romantismo, o rock ‘n’ roll e o experimentalismo eletro-acústico congregam-se numa colagem que parece ter origem numa orgia de som, com o estúdio a funcionar como substância lisérgica. Jogos de poesia fonética, bebedeiras de improvisação, relâmpagos no palácio de Bayreuth, tudo aqui se pronuncia com o adjetivo “novo”. Um marco.
“Faust so Far” é um pouco o negativo do disco de estreia. Capa e rótulos negros escondem uma série de ilustrações dedicada a cada “canção”, entre o surrealismo e o hiper-realismo. Um álbum que junta a violência Velvetiana (“It’s a rainy day, sunshine girl”, “Mammie is blue”) ao humor de Zappa (“I’ve got my car and my TV”) e fragmenta a golpes de rock minimalista e eletrónica alienígena os clichés do krautrock.
Culminando um período de criatividade demencial que antecedeu o estabelecimento da banda em Inglaterra, onde viria a gravar o seu último álbum oficial, “Faust IV”, “The Faust Tapes” é a enciclopédia definitiva da estranheza. Aqui a colagem é levada às últimas consequências, numa sequência de segmentos (nesta edição, e pela primeira vez, indexados e com a atribuição de títulos a algumas das “faixas”) que devem tanto à música concreta como a rock, a Novalis e Hoelderlin como ao LSD, numa linguagem tão universal quanto impenetrável, de que é exemplo a mítica parte vocal “C’est pas aux dents, j’ai mal aux dents aussi”, projetiva ao ponto de alguém a descodificar como “Shempal Buddah, ship on a better sea”…
Os Faust ressuscitaram entretanto nesta década como niilistas e anjos exterminadores mas foi nos anos de Wümme que teve lugar a verdadeira revolução.