Arquivo mensal: Outubro 2017

Mutantes (Os) – “Mutantes”

Y 22|DEZEMBRO|2000
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MUTANTES (OS)
Mutantes
Omplatten, import. Lojas Valentim de Carvalho
9|10



Lucy no céu com as estrelas era brasileira e chamava-se Rita Lee. E o psicadelismo era um arco-íris tropical a brilhar no coração brasileiro dos Mutantes. Em 1968, “Mutantes”, segundo álbum desta banda única na MPB, confirmava tudo o que o álbum de estreia prometera. Nas cabeças de Rita Lee e dos irmãos Arnaldo, Sérgio e Cláudio Baptista fervilhava uma imaginação e um humor sem limites, transposta para canções onde a originalidade das ideias – um caleidoscópio de folk sertanejo, classicismo, eletrónica e ilusionismo pop – apenas tinha paralelo na revolucionária utilização do estúdio como instrumento musical. O mundo dos Mutantes era isso mesmo: a mutação mental, o sonhar acordado em forma de canção, a alucinação fixada para a eternidade na fita que desacelera em “Dia 36”, até ficar “em branco o seu pensar” e “toda uma vida embaciando o seu olhar”.



Joe Jackson – “Night And Day II”

Y 17|Novembro|2000
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JOE JACKSON
Night and Day II
Manticore, distri. Sony Music
07|10



Distantes vão os tempos em que Joe Jackson ensaiava os primeiros passos nas garagens da “new wave”. Com a passagem do tempo o Tintin do rock apurou o estilo, acendeu cigarros e enfrascou-se com “bourbon” no jazz canalha até chegar à depuração formal do classicismo, numa “Symphony No.1”, que lhe conferiu o estatuto de erudito. Mas como os amores antigos não se esquecem, eis que Joe regressa á cidade que o viu nascer, Nova Iorque, para reacender os holofotes numa sequela do aclamado “Night and Day”, de 1982. Voltam as canções, os ambientes “cool” e noturnos, embrulhados em roupagens “jazzy” ou em arranjos para cordas (pelo recém-criado quarteto Ethel), pretexto para o compositor e cantor mergulhar nos mundos paralelos e personagens bizarras que fazem a mística de NY. Três dessas personagens bem poderiam ser as cantoras convidadas Sussan Deyhim, Dale de Vere e Marianne Faithfull, cujas participações fazem a diferença no documentário.



Annette Peacock – “An Acrobat’s Heart”

Y 24|Novembro|2000
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ANNETTE PEACOCK
An Acrobat’s Heart
ECM, distri. Dargil
7|10



Fiel desde os anos 70 a uma atitude “low profile” e a uma música equidistante do jazz e do rock, Annette optou desde o início por uma vertente poética feminista aliada a um erotismo mais da mente que do corpo num híbrido que ia do jazz minimalista ao rock e à balada jazzy, com passagens esporádicas por um rap tão pessoal quanto interventivo. “X-Dreams” e “Sky-Skating” ilustram da melhor forma a sua personalidade. Com a entrada na ECM assiste-se ao inevitável apuro das formas, mesmo quando a esta depuração quase ascética corresponde uma música mais distante do que nunca. Sozinha com a sua voz, um piano e o acompanhamento elegante das cordas do Cikada String Quartet, Annette contempla-se ao espelho na nudez de baladas de um classicismo sem contrastes cujo equilíbrio depende, ainda e sempre, da carga poética das palavras.