Arquivo mensal: Setembro 2017

John McEntire “Music from the Motion Picture ‘Reach the Rock'” + Stephen Prina – “Push Comes to Love”

Sons

30 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


John McEntire
Music from the Motion Picture “Reach the Rock” (7)
Hefty, import. Ananana

Stephen Prina
Push Comes to Love (7)
Drag City, distri. MVM


jm

sp

De Chicago chegam novos desenvolvimentos da estética pós-rock, cuja eclosão muito deve ao trabalho empreendido por John McEntire, nos Tortoise e na multiplicidade de outros projectos aos quais tem dado a sua colaboração. Neste seu primeiro álbum a solo não há grandes desvios ao léxico redigido anteriormente, assente na electrónica, segundo alguns dos moldes quer do progressivo, quer do “Krautrock” dos anos 70. Funciona bem como complemento, neste caso, de um filme realizado por William Ryan. Ao contrário do que é costume acontecer na maior parte das bandas sonoras, a música de “Reach the Rock” tem uma dinâmica própria, em parte pela ênfase dada ao ritmo (da bateria ou das programações em computador), em parte pela quantidade de temas tocados por amigos seus: Bundy K. Brown, The Sea and the Cake, Polvo, Dianogah e os próprios Tortoise, no tema de abertura. Stephen Prina, elemento dos Red Krayola, cultiva, por seu lado, uma das derivações actualmente em voga no pós-rock “made in Chicago”, uma espécie de easy listening intelectualizado que tem na bossa-nova e na herança da escola de Canterbury as principais referências. “Push Comes To Love” soa, às vezes, como uns Caravan ou uns Hatfield and the North simplificados, mas, ao contrário do álbum homónimo de Sam Prekop, na mesma linha deste, tem a vantagem de Prina ser um vocalista multifacetado, cuja tendência para a teatralidade e para um tom semi-improvisado confere a este álbum uma profundidade que a sua aparente leveza sonora parece contradizer.



Matilde Santing And The Oversoul – “13 To Others to One”

Sons

30 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Matilde Santing And The Oversoul 13
To Others to One (8)
Epic, distri. Sony Music


ms

O “h” de Mathilde ficou pelo caminho, mas não a extraordinária capacidade interpretativa desta cantora holandesa, que a partir de “Water under the Bridge” se dedicou por inteiro a dar voz a composições das mais variadas épocas e proveniências. Em “To Others to One” a paleta de composições inclui Dave Matthews, M. Gay, Irving Berlin, Neil e Tim Finn (Split Enz, Crowded House) e Janis Ian, entre outros, completadas por um par de canções compostas por Sebastian Koolhoven, co-produtor e teclista do álbum. Matilde envolve cada vez mais a sua música numa aura de imaterialidade que aqui atinge a máxima pureza e irrealidade num tema popularizado há alguns anos por Black, “Wonderful life”. Mais ainda do que o original, a versão de Matilde Santing cria um ambiente de sonho e nostalgia do paraíso perdido onde a ambiguidade e o conflito de emoções predominam. Num registo oposto está o funk, deliciosamente datado, de “Innercity blues”, de Marvin Gaye. “How deep is the ocean”, de Irving Berlin, ecoa no espaço amplo de uma catedral, nas ondulações de um vibrafone e na respiração serena da vocalização. “Where is my soul”, dos irmãos Tim e Neil Finn, evolui nas mesmas águas, acentuando a sensação de distanciamento e de nostalgia que marcam todo o álbum, recuperando um pouco do ambiente surreal do jardim de enigmas que é “Water under the Bridge”. Mesmo em “Ready for the war”, cuja dinâmica rítmica tira a carne e o nervo a uma qualquer história de sangue de Kate Bush até restar a elegância helénica de uma Joni Mitchell, prevalece o balanço calmo e a postura de diva que paira acima do comum dos mortais. “To Others To One” é um filme de amor para ver e ouvir num daqueles dias onde o sol e a chuva se casam num arco-íris.

Vários – “Buffalo ’66 (banda Sonora original)”

Sons

30 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Vários
Buffalo ’66 (banda Sonora original) (7)
Milan, distri. BMG


b66

“Buffalo ‘66” começa com “Lonely boy”, uma vocalização feminina de jazz etéreo, com a mesma sensualidade fria de Annette Peacock, composta pelo próprio Vincent Gallo, que, de resto, assina a quase totalidade dos temas da banda sonora do filme. “Fools rush in” salta directamente de um disco em vinilo riscado, vocalizado pelo pai do realizador, num standard de Rube Bloom e Johnny Mercer.
Outro tema que escapa à linha mais mainstream das bandas sonoras originais é “Drowning in brown”, hip hop industrial em contraste com o tom mais retro da restante música. Stan Getz aquece com o seu saxofone tenor “I remember when”, mas o tema que parece estar a espantar toda a gente pertence aos “dinossauros” Yes, através da sequência instrumental que abre “Heart of Sunrise”, tema do álbum “Fragile”, de 1971. Curiosamente, neste tema, que no disco aparece com a sua duração total de 10m34, são evidentes as semelhanças com os King Crimson, outra das bandas clássicas do progressivo inglês dos anos 70 que também se faz representar com um tema nesta banda sonora, a balada “Moonchild”, retirada do álbum de estreia do grupo, “In the Court of the Crimson King”, editado em 1969. Os Yes contribuem ainda com “Sweetness”, uma das primeiras, senão mesmo a primeira, canções compostas pela banda, antes da sua estreia a 33 rotações com “Yes”, de 1969. Um curioso anacronismo que ajuda a lançar uma nova luz sobre um dos períodos mais subestimados da música popular.