Arquivo mensal: Janeiro 2017

Meira Asher – “Dissected”

Pop Rock

12 Fevereiro 1997

O corpo dissecado

MEIRA ASHER
Dissected (8)
Crammed, distri. Megamúsica


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Utilizar os textos bíblicos do Velho Testamento, domínio de um Deus castigador, para fazer passar o escândalo tem sido a estratégia seguida de há muito por Diamanda Galas. Agora surgiu em cena, no mesmo terreno, uma competidora à altura, a israelita Meira Asher. “Dissected” é um manifesto do excesso, à semelhança dos álbuns da cantora da trilogia “Masque of the Red Death”, mas a forma como cada uma delas nos atira à cara aquilo que gostamos menos de ver difere em múltiplos aspectos. Os pontos em comum entre ambas resumem-se a três: a relação ambígua entre sida e religião, que a israelita aborda de forma violentíssima (e – provocação máxima – dançável!) no tema de abertura, “Sida”; o recurso aos textos da Bíblia; a ênfase emocional posta na interpretação, a beijar o grito e a declamação, com recurso às possibilidades do “multitracking”.
A partir daqui, Meira Asher segue o seu próprio caminho, enveredando por uma falsa “world music” que incorpora técnicas vocais “Dharab” indianas, “grooves” de “drum ‘n’ bass”, percussões africanas e orientais (com a presença de Yuval Gabay, dos Soul Coughing), electrónica industrial e todo o tipo de batidas rituais que acentuam a sensação de ruptura que se desprende da maioria das canções.
Além de “Sida”, libelo sarcástico contra a praga do século, analisada sob a mesma perspectiva de “punição divina” com que Diamanda Galas envenenou um dos capítulos da sua trilogia sobre a sida, há ainda para dar cabo do juízo “Dissect me”, análise obsessiva sobre a tortura, a mutilação e a autocastração, numa alusão à Intifada que se propaga por outro tipo de leituras, “Daddy came”, monólogo desesperado sobre o terror do incesto, e “Maligora, the sand child”, onde Meira declama um poema de Tahar Bem Jelloun, com música inspirada em Ustad Ali Akbar Khan. Uma proclamação do auto-erotismo feminino, encarado como corrente mágica de transfiguração da realidade, cuja linguagem poética atinge uma crueza e claridade que roçam a obscenidade do espelho: “Durante muito tempo toquei nos seios e na vagina. Fiquei dominada pela emoção. Senti-me envergonhada. A descoberta do meu corpo passava por esse encontro das minhas mãos com a vagina.”
“Dissected” é “world music” no fundo do poço, habitado por polifonias simuladas em estúdio, réplica mutante das Zap Mama, polirritmias nas quais o étnico se mistura à pulsação do metal, sobrevoadas pelos demónios pessoais da cantora. O combustível das palavras, sempre acutilantes, alimenta as labaredas. Quer nas conotações simbólicas que lhe conferem os textos sagrados, quer pela intencionalidade que Meira Asher coloca em cada entoação. Uma granada prestes a rebentar.



Vários – “Breaking the Waves – OST”

Pop Rock

12 Fevereiro 1997
poprock

Vários
Breaking the Waves – OST
POLLYANNA, DISTRI. MCA


bw

Os anos 70, outra vez. No filme, parece que admirável (ainda não o vimos), de Lars von Trier, em português “Ondas de Paixão”, a banda sonora recupera os lugares-comuns mais estafados da música desta década. É sabido que a pior canção do mundo pode soar esplendorosa no contexto de um filme. Será o caso. A seco, nem tanto… valoriza-se o lado “glam” e “camp” dos anos 70, dois termos conotados com o aparato sonoro e visual da comunidade “gay”, ou de artistas que se apropriaram da sua iconografia. Estão neste caso os T. Rex, de Marc Bolan, com “Hot love”, Python Lee Jackson (pertenceu aos The Nice) e Rod Stewart, com “In a broken dream”, os Roxy Music, com “Virginia plain”, “He’s gonna step on you again”, de John Kongos, “All the way from Memphis”, dos Mott the Hoople e “Goodbye yellow brick road”. Ficaram de fora do disco, entre outras, “Life on Mars”, de David Bowie e “Your song” de Elton John, bem como “I did what I did for Maria”, de Tony Christie. Recupera-se, por outro lado, o progressivo, facção rock sinfónico, com “Whiter shade of pale”, dos Procol Harum, a balada “hard rock”, com “Child in time”, dos Deep Purple, e “Whisky in the jar”, dos Thin Lizzy. Há ainda “Suzanne”, de Leonard Cohen, e “Cross eyed Mary”, dos Jethro Tull. Tudo temas que alcançaram êxito na época, representativos do seu lado mais “kitsch”. Há quem veja nela a sacralização do banal, como se esta colagem entre o anacronismo dos sons e a poesia das imagens desencadeasse um fenómeno de magia em que uma luz sobrenatural viesse dar um novo sentido, tanto à inanidade das músicas como ao milagre (a vários níveis) do argumento. Não por acaso, o último excerto musical é a “Siciliana” de Bach. (6)



Hans-Joachim Roedelius – “La Nordica”

Pop Rock

5 Fevereiro 1997
poprock

Hans-Joachim Roedelius
La Nordica
MULTIMOOD, DISTRI. ANANANA


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Nem de propósito! Na semana passada, quando escrevemos sobre “Sinfonia Contempora No.1”, alertávamos para a edição da segunda parte da obra “sinfónica” deste compositor alemão. Aqui está ela. Desta feita, não numa editora “new age”, mas num selo especializado em música electrónica experimental. “La Nordica” é pois a “Sinfonia Contempora II”, subintitulada, em alemão, “Salz des Nordens”.
Estamos longe, muito longe, do apela imediatista e brutal dos Kluster e dos dois primeiros trabalhos dos Cluster. Afastada ficou também, em definitivo (pelo menos, neste disco), a veia mais romântica e pianística de Roedelius, que ainda percorria algumas sequências de “Sinfonia Contempora No.1”. Durante mais três longuíssimos movimentos (respectivamente, com 26, 22 e21 minutos de duração), Roedelius dispensa, por completo, a melodia, mergulhando fundo num pântano de metais em fusão e motores em “panne”, em câmaras de tortura trespassadas por lâminas electrificadas (talvez aquelas onde Peter Hammill se deixou enlouquecer, em “In bromine chambers”, no segundo e infernal lado de “In Camera”), num ambientalismo fabril que coloca “La Nordica” nos mesmos territórios de agonia electrónica de sintetistas como Asmus Tietchens, Jeff Greinke, Christoph Heeman, Peter Frohmader ou Conrad Schnitzler.
Bastante mais experimental que “Sinfonia Contempoa No.1” (não por acaso, Roedelius contou, desta vez, com a colaboração dos seu companheiro dos Cluster, Dieter Moebius), “La Nordica” estará, porventura, mais próximo do gosto dos apreciadores da música de compositores como Alban Berg, Pierre Henry, Stockausen ou Luciano Berio, que dos aficionados do “krautrock”, do qual Roedelius foi um dos fundadores e principais exploradores. Faltará a este estudo sonoro em torno da claustrofobia, por vezes de um hermetismo excessivo, a maior diversidade de ambientes e registos que caracterizam a primeira parte da sinfonia. Não obstante, “La Nordica” coloca, de uma vez por todas, o nome de Hans-Joachim Roedelius na galeria dos grandes compositores eruditos – na área do experimentalismo – deste século. (8)