Arquivo mensal: Dezembro 2016

Sacerdotes de Alquimia – “Sacerdotes de Alquimia”

POP ROCK

14 Maio 1997
portugueses

Sacerdotes de Alquimia
Sacerdotes de Alquimia
ED. E DISTRI. NUMÉRICA


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V Império, Sacerdotes de Alquimia. Os novos grupos portugueses não fazem a coisa por menos. Por sinal, os Sacerdotes até têm um tema chamado “Quinto Império”, com texto de Fernando Pessoa e tudo. E outro, “Quinto mar”. E outro, “Saudade”. Até o fotógrafo da capa se chama João Portugal, bolas! É, sem dúvida, uma perspectiva original e nunca antes navegada, perdão, apresentada, pela música portuguesa. Portugal andava a precisar disto, de quem lhe avivasse os mitos e espicaçasse o orgulho. Os Sacerdotes de Alquimia, transmutados no meio académico de Coimbra a partir da matéria-prima do grupo Essa Agora, fazem-no no esplendor do seu rock sinfónico de Sociedade Recreativa, partindo, logo no primeiro tema, por uma “Aventura” de fazer corar de vergonha os Brilhantes do Ritmo + 1. “Escaravelhos” tem uma flauta a fingir o Peter Gabriel dos Genesis mais antigos. “Viagem” fala do “vento lusitano” que é “este sopro humano universal que enfuna a inquietação de Portugal”. “Enfuna” é bonito. Temos país, temos flauta, temos um sintetizador à Camel, temos neo-progs. Tantra, voltem, por favor. Agora a sério, não é qualquer um que sabe combinar o enxofre e o mercúrio no Atanor da imaginação. Os Sacristãos, hã, Sacerdotes de Alquimia mostram, para já, um som “mainstream” e um pretensiosismo de conceitos sem correspondência na música. O termo “progressivo” não tem nada a ver com eles. (3)



Marta Dias – “Yué”

POP ROCK

30 Abril 1997
portugueses

Marta Dias
Yué
ED. E DISTRI. UNIÃO LISBOA


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Os primeiros sons de “Ai Mouraria” não auguram uma experiência inolvidável. Se a voz de Marta Dias impressiona de imediato, o mesmo não acontece com a justaposição de um regionalismo afadistado à la Anamar com a dolência “trip hop” que o produtor Jonathan Miller soube adoptar à realidade lusitana. Mas quando percebemos nos versos uma coisa como “Fora da janela há uma verdade que desmente, uma imagem virtual vendida como fado a toda a gente”, compreendemos que por detrás do emblema brilha a inteligência e um espírito atento. Não que Marta Dias se embrenhe em matérias complicadas, antes pelo contrário, a sua postura e colocação vocal não poderiam ser mais “cool”. “Yué” é uma espécie de sonambulismo latente num passeio pelas tais ruas virtuais de um país sem centro. A cantora não esconde o seu gosto pela “soul” nem um descomprometimento no modo como se aproxima da música de dança (“Say you could be mine”). O vibrafone está omnipresente, acentuando o lado etéreo da música, por vezes consentindo um sabor a “chill out”, noutras cedendo ao arrastamento exigido pelas estilizações “hip” ou “trip hop”. Mais portuguesa em “Flores do verde pinho”, mais triste em “Tão longe”, mais vulgar em “Amor”, mais internacional e imersa nas correntes em voga em “Seen it all before” e “Baby”, Marta Dias percorre, quase com displicência, o espectro menos velado de uma música da alma bastante menos portuguesa do que seria de supor. (6)



Né Ladeiras – “Todo Este Céu”

POP ROCK

2 Abril 1997

NÉ LADEIRAS
Todo este Céu (7)
Ed. e distri. Sony Music


nl

Na capa, um lobo uiva à lua, contra um céu Walt Disney. O tema final, “Invocação da alcateia”, é constituído, na íntegra, pelo uivo da loba Morena, adoptada por Né Ladeiras, destacando-se da invocação colectiva da alcateia, sob a “direcção” do “invocador dos uivos”, Francisco Fonseca, do Centro de Recuperação do Lobo Ibérico. À excepção deste e de “Ponto de Oxum Nagô”, um tradicional do Congo onde a cantora exprime a sua devoção pela religião do candomblé e pela sua “Mãe Mariana”, numa invocação aos seus orixás, todos os restantes temas são da autoria de Fausto Bordalo Dias. “Todo este Céu” faz a sobreposição do universo pessoalíssimo de Fausto com o misticismo de Né Ladeiras. O encontro entre ambos nem sempre expressa da melhor maneira os hipotéticos pontos em comum que para Né são uma certeza. O tom é predominantemente arrastado, hipnótico, como uma mantra que pretendesse penetrar no segredo de uma relação sagrada, nos três primeiros temas, “Lembra-me um sonho lindo”, “Diluídos numa luz” e “Porque não me vês”, enriquecidos pela ponteira de Amadeu Magalhães e a guitarra acústica de Miguel Veras, ambos dos Realejo. Em “Ao longo de um claro rio de água doce” e “Eu tenho um fraquinho por ti” é a voz da discípula que fala, encantada com os ritmos do mestre. O misticismo desaparece em “Uma cantiga de desemprego”, cujas conotações políticas com uma época particular apagam eventuais ligações ao corpo interior. “Flagelados do vento Leste” retoma as sonoridades africanas, enquanto “Oh pastor que choras” põe em dia o contacto entre o lobo e a loba, ainda que a familiaridade da melodia apenas conceda o prazer da novidade no deslizar triste do “tin whistle” de Amadeu Magalhães. Passando por uma “Rosalinda” demasiado deleitada no original, chegamos à magia do princípio e à cadência de um sonho. Primeiro com uma vocalização, algo desequilibrada, de Jorge Palma, em “Atrás dos tempos”, a seguir, num desenho a tira-linhas sobre o céu, em “De Ocidente a Oriente”. “Todo este Céu” adormece. Teríamos preferido mais garra, neste encontro onde se adivinha que o respeito terá impedido a liberdade de voo. Os lobos que “cantam” em “Invocação da alcateia” não tiveram esse problema.