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Brigada Victor Jara – “Eito Fora”: Os Melhores de Sempre – Música Portuguesa (dossier | livro)

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996

os melhores de sempre
música portuguesa
Esta selecção dos melhores álbuns de sempre da música produzida em Portugal até aos anos 90, resulta de uma votação feita pela equipa do suplemento Pop/Rock. São privilegiados os trabalhos concebidos sob a forma de álbum, mas também serão aceites compilações e mini-álbuns quando estes forem os melhores ou únicas edições dos respectivos autores. A ordem de publicação é aleatória


Brigada Victor Jara – Eito Fora



ALINHAMENTO
Lado 1
1 – Cantiga da ceifa (Beira-Alta)
2 – Coro das maçadeiras (Minho)
3 – Ao romper da bela aurora (Alto Alentejo)
4 – O senhor da serra é meu (Ribatejo)
5 – Cantiga do bombo (Beira-Baixa)
6 – Manolo mio (Trás-os-Montes)
Lado 2
1 – Pezinho da vila (Açores)
2 – Senhora do Almurtão (Beira-Baixa)
3 – O anel que tu me deste (Douro Litoral)
4 – Marião (Trás-os-Montes)
5 – Baile mandado (Algarve)
MÚSICOS
Zé Maria (cordas, percussão, gaita-de-foles, harmónica), Jorge Seabra (flautas, cordas, percussão), Fernando Amílcar (cordas), Né Ladeiras (cordas, percussão), João Ferreira (acordeão, percussão), Joaquim Caixeiro (percussão)
MÚSICO CONVIDADO
Carlos Alberto Moniz (violino, em “Pezinho da vila”)
GRAVAÇÃO
Estúdios Arnaldo Trindade
TÉCNICO DE SOM
Moreno Pinto
Na reedição em CD, “mastering” digital por Carlos Jorge Vales, nos Estúdios Tcha, Tcha, Tcha.
PRODUÇÃO
Editorial Caminho, SARL – “Mundo Novo”
CAPA
Jorge Simões e Samy
FOTOGRAFIAS
Luís Severo
Fotos adicionais para o CD: Roda Dentada
EDIÇÃO
Editorial Caminho, SARL – “Mundo Novo”, 1977
Mais seis reedições, em vinilo, até 1983.
Reedição em compacto, em 1995, pela Farol Música, com distribuição BMG
VENDAS
2000 exemplares, na primeira semana, da primeira edição

como foi

no começo era o amadorismo, ou pouco mais. Jorge Seabra, elemento da formação inicial da Brigada Victor Jara, onde permaneceu até ao terceiro álbum da banda, “Quem Sai aos Seus”, de 1981, regressando mais tarde para uma participação fugaz em “Contraluz”, conta os primeiros passos. “Por volta de 1975, época da nossa constituição, éramos um grupo sem formação fixa. Um grupo de amigos que se juntavam de vez em quando para tocar, entre outras coisas, música latino-americana, nomeadamente chilena. Participávamos em espectáculos que não eram propriamente o centro da festa, como campanhas de animação cultural do MFA ou de trabalho voluntário, todas essas coisas que havia em 75.”
A música tradicional surgiu mais tarde. “Em Outubro de 76 participámos, na Beira Baixa, em três ou quatro espectáculos no âmbito de umas campanhas de alfabetização. Alguns de nós tinham começado a ler coisas sobre música tradicional, muito influenciados pelos trabalhos de pessoas como o José Afonso ou, em Coimbra, de certos grupos, no âmbito da academia. Na Beira Baixa deparámos com um campo de actuação nessa área completamente infindável. Surgiu a ideia de recompor o grupo com uma formação nova e com pessoas mais ligadas à música, já com uma orientação voltada para a música tradicional.” A partir desse momento, o terreno estava preparado para a gravação do primeiro disco. “Seleccionámos à volta de uma dúzia de canções de origem popular que foram trabalhadas. Dois ou três meses depois estavam prontas para ser gravadas.” No ano seguinte, 1977, a Brigada actuou na FIL, espectáculo “na sequência do qual surgiu o contacto com a editora Mundo Novo, ligada à editorial Caminho”. A gravação demorou dois dias, melhor dizendo, “duas noites”, um “tempo recorde”. “Gravámos em pistas separadas num gravador de 16 pistas. Mas aquilo estava de tal maneira mastigado, já preparado, que chegávamos lá a egravávamos à primeira ou segunda tentativa, sem qualquer dificuldade. Éramos um grupo muito coeso. Bastaram duas sessões de seis, oito horas.” Tão pouco tempo de estúdio não constituiu, de modo algum, uma pressão. “Como era a primeira vez que gravávamos, não tínhamos possibilidade de comparar com outras situações.” Uma inocência que, hoje, à distância de 19 anos, Jorge Seabra reconhece ter existido.
“Vejo agora que, provavelmente, terá sido por falta de disponibilidade financeira da etiqueta. Gravámos em horas mortas, em que o estúdio não era utilizado por outras pessoas. Aproveitávamos os buracos.” Mesmo assim, não custou nada. Até porque, reconhece, “a qualidade técnica da música deixa algo a desejar”. “A grande contribuição de ‘Eito Fora’ não está nesse tipo de qualidade.” A descontracção era, portanto, absoluta. “Em qualquer altura, era como pôr a máquina a funcionar.”
Em estúdio, Jorge Seabra relembra, em especial, a gravação da “Cantiga da ceifa”, única ocasião em que os “sete elementos gravaram em conjunto em frente a um único microfone. Foi a última canção a ser gravada e saiu à primeira!” Dali, prossegue, “fomos logo para o Mercado da Ribeira, beber um copo de leite, tínhamos saído do estúdio às cinco da manhã”. A colecção de arranjos de temas tradicionais, do Minho ao Algarve, que compõem o alinhamento de “Eito Fora” obedece a uma estética e a um projecto de intenções desde o início. “Não concordo com a questão da fidelidade por várias razões. Quando pomos a tocar os originais, os discos do Giacometti, por exemplo, e, em paralelo, pomos depois as nossas próprias versões, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não há razão nenhuma para que um grupo, ou uma pessoa, hoje [como ontem, dizemos nós], procure macaquear as canções originais. Quando muito pode falar-se em fidelidade em termos instrumentais.
“Nos primeiros discos, procurámos efectivamente utilizar, em grande parte dos casos, os instrumentos originais, seja na ‘Cantiga do bombo’, com as flautas, os bombos e as caixas que eles próprios usam em Lavacolhos ou em Silvares, seja noutras como “Pezinho da vila”, com as violas da terá, ou ‘Manolo mio’, com a gaita-de-foles e o bombo com que as pessoas tocam ainda hoje. Ou o ‘Romper da bela aurora’, com o chincalho, instrumento alentejano, e o ‘O senhor da serra’, com o abano, as castanholas e a garrafa com garfo, instrumentos ribatejanos.” Mas, lá está, “Marião”, imortalizado pela vocalização de Né Ladeiras, transformou-se numa “canção urbana”, com “violas e baixos como se poderiam usar hoje num grupo rock”.



Se “Eito Fora”, quando comparado com produções mais recentes do grupo, como “Contraluz”, “Monte Formoso” ou o último “Danças e Folias”, soa a uma ingenuidade e economia de meios que não rompe, de forma radical, com os meios artesanais dos temas de raiz, não é por aí que se deve procurar o que, nesse disco de estreia da banda coimbrã, contribuiu para o definitivo avanço da música portuguesa de raiz tradicional, na transição da década de setenta para a seguinte. “A contribuição grande da Brigada para a música popular foi, de facto, evitar que ela fosse excessivamente conotada com o fascismo e o regime que tinha acabado em Abril de 74. O que aconteceu, por exemplo, com o fado de Coimbra, e foi catastrófico. Teria acontecido o mesmo com a música tradicional portuguesa se não fosse a actividade da Brigada. “Para trás, perdida na contracapa de “Eito Fora”, fica o mote no qual as gerações seguintes deveriam atentar: “Eito fora é fadiga, canseira de seguir sempre seara fora, a eito, eito fora é certeza de quem ajuda, à espera de poder subir o degrau que falta.” À Brigada Victor Jara se deve muito do esforço que custou subir o primeiro degrau.

como é

Em 1977, em Portugal, a política ainda deixava pouco espaço à estética. No país da música tradicional, a Brigada Victor Jara, juntamente com o G.A.C., foi dos primeiro grupos a unir as duas, como deveria ser sempre. “Eito Fora”, subintitulado “Cantares Regionais”, esforça-se, mais do que por revolucionar um som, por revolucionar um conceito. Um conceito realista, mas que então só era possível concretizar dentro de uma perspectiva idealista. Numa situação viciada à partida – de desprezo e estrangulamento da música tradicional portuguesa, entregue às mãos (as menos culpadas) dos ranchos folclóricos, aliciados na sua inocência por um poder que apregoava as virtudes turísticas do “Portugalzinho” -, a Brigada Victor Jara foi capaz de juntar o ideal e a lucidez. A lucidez, porque reconheceu desde logo a inutilidade e a impossibilidade de imitar as fórmulas der uma música que já nessa época, nas próprias comunidades rurais, se aviltara e afastara da pureza dos espécimes recolhidos na década de 60 por Giacometti e Lopes Graça, entre outros. O ideal, porque, sem imitar, se esforçou, com humildade e sabedoria, por ver por dentro e desenvolver determinadas estruturas musicais próprias da música rural e, em particular, das várias regiões do nosso território. É sob esta dupla luz que se compreende as razões que levaram o grupo a referir-se, à data da gravação do disco, a uma dignificação da nossa música tradicional, subtraindo-a ao anátema da “música ligeira camuflada de música folclórica” e à “sobranceria vesga com que a ideologia dominante, ao longo de 50 anos, a presenteou”, para a devolver, se não intacta na forma, pelo menos imaculada no espírito. Já não como “crónica viva e expressiva da vida rústica do povo português”, mas sim, como crónica viva e expressiva de amor pela vida rústica, na diversidade das suas modalidades musicais, do povo português. Uma diferença que, em vez de separar, é um anel de aliança.

Né Ladeiras + Amélia Muge – “A Tradição Já Não É O Que Era” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 26.04.1995


A TRADIÇÃO JÁ NÃO É O QUE ERA



Amélia Muge, Né Ladeiras. Duas vozes, dois projectos singulares com alguns pontos em comum. “Todos os Dias” e “Traz os Montes” ganharam os favores da crítica, nas listas dos melhores do ano passado, mas, para as suas autoras, isso não chega. Acham que os respectivos álbuns deveriam chegar mais longe do que onde estão a chegar. Idealistas por natureza, não abdicam da integridade artística, mesmo que isso lhes custe amargos de boca em termos de mercado. Procuram, cada uma à sua maneira, a felicidade. Uma felicidade que passa pela música e por levar essa música às pessoas. Tecem críticas, soltam esperanças e queixumes e estão de acordo que o estado cultural do chamado país real não ajuda. Falam em projectos e suspiram por alternativas. Assustam e encantam. Dão ambas mostras de uma energia que não se esgota nos sons e nas palavras mas se prolonga pela vida. Mulheres tradicionais, no sentido em que assumem arquétipos femininos que remontam à origem das comunidades, não se acomodam ao ritmo desenfreado dos tempos modernos nem aos gostos esterotipados das maiorias. Têm voz própria, uma voz que por tocar tão fundo pode não chegar a todos. Né, a água, e Amélia, o fogo, explicaram porque ocupam um lugar à parte na música popular feita em Portugal.

PÚBLICO – Agora que já passaram alguns meses sobre a edição dos vossos discos, querem fazer o ponto da situação?
NÉ LADEIRAS – No meu caso, foi muito bem recebido pela crítica. Agora, em termos de trabalho, está péssimo. Estou extremamente triste porque vejo um grupo de pessoas – somos oito – sem grandes esperanças de até ao final deste ano podermos levar “Traz os Montes” até onde eu imaginava que podia ser levado. Estou desiludida com este sistema de monopólio emque há duas ou três pessoas que comem tudo e os outros não comem nada. Não tem havido espaço para o meu projecto.
P. – Será por, como já ouvimos dizer, o seu trabalho ser demasiado difícil?
N.L. – Se calhar tem a ver com a região, Trás-os-Montes, que não é uma região fácil, mas indecifrável. Se não pusermos o coração e a razão juntas a trabalhar para entender aquela forma de vida. Talvez fosse mais fácil pegar numa chula ou numa canção alentejana… Mas jamais prescindiria da minha integridade em nome do sucesso. Se nasci com algum dom, foi com o dom da música e da voz e sensibilidade que tenho. Além de ser uma boa mãe. Agora, vulgarizar aquilo que Deus me deu, ou que o céu me deu, nunca! Assim sofre-se muito mais, sabe? Entra-se em depressão, parece que estamos numa estrada florida com um piso fantástico mas de repente aparece um abismo, uma cova enorme e – pimba! – estamos no chão. Para nos levantarmos é temível. É o que se está a passar neste momento. Estou a sofrer muito. Larguei as outras coisas todas, mas estou seriamente a pensar em arranjar uma alternativa porque pelos vistos, em Portugal, não somos amados. Talvez me dedique definitivamente ao campo, ao cultivo das batatas, do centeio, do trigo… É uma vida dura mas prefiro isso, porque a terra nunca nos nega. É uma coisa que sei quenão vou falhar, não me vai trair. E eu neste momento sinto-me atraiçoada, talvez pelo sistema em si.
P. – A Amélia sente o mesmo tipo de dificuldades?
AMÉLIA MUGE – Em relação ao disco, é importante manter uma postura de certo modo independente. Realmente não estou nisto para fazer discos. Eles acontecem. Não estive dependente de um disco para compor o que compus, cantar o que cantei, andar por onde andei. Não vou ficar dependente do que será o percurso deste disco, o “Todos os Dias”, ou outros que faça, para encetar os meus próprios caminhos. E este percurso, deste objecto, não depende só de mim, a começar pela promoção, da forma como é promovido ou não é. Por exemplo, há queixas regulares de pessoas que vão às lojas e não encontram o disco, embora este não esteja esgotado…

Um Espaço, Entre Triliões De Pop e Quatriliões De Rock

P. – A questão é que ambas estão, em termos de atitude, fora do sistema, mas na prática, a partir do momento em que assinaram contratos com as respectivas editoras, passaram a estar automaticamente dentro desse mesmo sistema. A dificuldade não residirá na conciliação entre estes dois aspectos?
N. L. – Tenho os meus códigos de honra e as minhas leis interiores. Faz-me um bocado de confusão saber que somos utilizados, não como carne para canhão, mas quase. Fazemos parte de um catálogo, para se poder dizer que se está a fazer algo com a música portuguesa, mas o que acho, desde que estou neste cenário da música, desde 1977, é que a partir de uma certa altura, quando as multinacionais começaram a estender os seus tentáculos e cá se alaparam, o que lhes interessa é vender o Bruce Springsteen, os Cranberries e por aí fora. Não se cria um espaço para os artistas portugueses. Para estes escritórios, ou subescritórios, dos presumíveis fazedores de artistas, que até nem o são, não há uma participação activa dos músicos portugueses. Vendem-se milhões de “heavy-metal”, triliões de pop e quadriliões de rock fantásticos mas pelo menos dêem-nos um bocado de espaço para respirar. As multinacionais pisam um bocado a nossa diginidade. Tive muita pena que a Alma Lusa não tivesse ido para a frente, como editora, embora não possa dizer que neste momento a EMI-VC esteja a ser má comigo. As únicas razões de queixa que tenho são ao nível da distribuição. Uma vez fui ao Norte e nas próprias lojas da Valentim de Carvalho não havia discos do “Traz os Montes”. O editor tem que ter códigos e identificar-se minimamente com os artistas que contrata.
A.M. – É verdade que as multinacionais têm um determinado tipo de funcionamento em que as próprias pessoas que lá estão são um bocado escravas dele. Não acontece só com os discos, mas em todo o lado. Quando se fala nas questões do sistema, temos que ter em conta também que o ensino está péssimo e os próprios professores sentem-se impotentes para mudar a situação. É uma rede que nos ultrapassa…
N.L. – Aí não comparo muito os professores a quem puxa os cordéis nas multinacionais. Tenho três miúdos, todos eles estão na escola, e as conversas que temos é “ai meu Deus, o que é que vamos fazer destas crianças?”. Cada vez há mais acompanhamento ao nível de psicólogos, os miúdos estão perfeitamente descontrolados. Há crianças, mesmo com excelente ambiente familiar, que, chegadas à escola, vêem o mundo delas desmoronar-se.
A.M. – É uma questão de adaptação de pessoas, ou de grupos, dentro ou fora do sistema. As dificuldades das editoras independentes são de outro género.
N.L. – … Financeiras!

Dar O Couro E O Cabelo Para Ser Feliz

P. – Mas não se podem esquecer de que a vertente artística passou a estar directamente ligada à da indústria. Ora, a indútria trabalha sobretudo com imagens. Não se dará o caso de haver uma dificuldade vossa em juntar uma atitude idealista com os imperativos do mercado?
N.L. – Aí, fecho-me completamente. Já me chamaram virgem e feiticeira! Sou uma alma antiga.
A.M. – Podia falar, por exemplo, nas dificuldades que tenho em ir a uma televisão, onde me sinto completamente desconfortável, num ambiente frio que não tem nada a ver comigo, como se houvesse uma câmara indiscreta em todo o lado, a passarinhar não sei por onde… Vivemos numa sociedade completamente mediatizada. Tenho que assumir, até num palco, que aquilo que as pessoas estão a ouvir não é o que eu estou a cantar, mas qualquer coisa que uma aparelhagem está a fazer passar. Se agisse em termos de coerência comigo própria, se calhar não cantava em lado nenhum. Só para os amigos, que ouviam a minha voz natural. De mim para eles. Mas a partir do momento em que a gente sabe que vive num mundo mediático, temos que perceber que há uma dinâmica entre aquilo que é, por um lado, viver da música e aquilo que é dar o couro e o cabelo, para servir a música.
N.L. – Também é uma questão de felicidade. Já fiz trabalhos precisamente para evitar que me sujassem o gosto, o amor que tenho pela música, mas nunca fui feliz nesses trabalhos. Este é de facto o meu mundo. Se me querem ver feliz, sossegada e em paz, comigo e com os outros, é deixarem-me cantar e criar. Só peço isso. Mas como não é possível, tinha que ir para as rádios – os consultórios – para fazer “n” coisas, andava extremamente amargurada. Não faz sentido, pois não?
P. – É para isso que existem os agentes, não é?
N.L. – Sim, tivemos imensas reuniões. Primeiro o espectáculo era demasiado caro, baixámos os “cahets” vertiginosamente mas mesmo assim não há concertos. O que me disseram foi que no ano passado foi pior e que este ano estamos a pagar o que se passou em 1994. Consegui ultrapassar tudo isto naqueles dias de ensaios que tivemos em Alfama, na sala da Encore, duas semanas de extrema felicidade em que senti umcansaço de cair para o lado, do género chegar a casa e “pof”, mas um cansaço que eu comparo ao do campo, em que se anda a sachar o dia inteiro mas se chega a casa feliz da vida, porque só o corpo é que dói. Está a faltar-me isso. Estou a detestar estar em casa, não ter ensaios, não estar a levar “Traz os Montes” para fora. Já tenho ideias para um próximo trabalho mas isso só não me alimenta.
A.M. – Também acho que uma das características do nosso tempo é a rapidez. Tudo tem que ser muito rápido. Se não se chega aos tops num ano, como é que é? As pessoas esquecem-se que se a gente não está nestas coisas para um ano ou para dois, para fazer a tal música dentro dos padrões de consumo, as coisas levam um certo tempo. Fiz o “Múgica” em 1992 e sinto, em termos do que se convenciona chamar uma carreira, que não quero andar em passo de caracol mas também não quero pensar nela com a velocidade do foguetão que vai para a Lua. Não quero entrar em corrida nenhuma, nem sei correr dessa maneira. O grande problema não é gravar o disco mas de o passar às pessoas. A solução está em encontrar alternativas. No fundo estamos a tentar resolver uma coisa que não tem só a ver connosco. Não quero entrar naquele discurso de que há uns que estão numa facilidade e outros, os que não são vendidos.
N. L. – Mas é um bocado o que se passa, não é?

“Homo Erectus”, Um Homem Assustado

P. – Mudando de assunto. Identificam-se de algum modo com a imagem da mulher tradicional, no sentido da assunção de valores arquetípicos que transcendem a mera dimensão temporal e sociológica?
N. L. – Se se refere à época matriarcal, sim, estou lá, cem por cento. Porque nós geramos, porque temos imensas capacidades, porque somos diferentes. Não tenho nada o tipo de discurso feminista. Detesto feministas. Acho que são todas anti-homens. Eu gosto de homens. E de crianças.
P. – Há pouco disse que já lhe tinham chamado virgem e feiticeira…
N. L. – Estou muito ligada a um trabalho interior, já há muitos anos, que nunca mais vai acabar. Há-de continuar do lado de lá. Quando me referia à tal sociedade matriarcal, foi o que encontrei em Trás-os-Montes, muitas afinidades com o meu feitio. Tive quatro casamentos, imensas relações na minha vida, mas nunca fui dominada nem orientada por ninguém. Não é por ser selvagem mas por ter ideias, os tais códigos de honra e lealdade. Detesto que me prendam, como um passarito numa gaiola.
P. – Essa postura não lhe provoca dificuldades na relação com a indústria, um meio patriarcal?
N. L. – Os homens, de uma maneira geral, têm um problema de inferioridade, não sei bem porquê. Por qualquer motivo, têm uns temores dentro deles. Talvez o meu infortúnio desta relação tempestuosa com eles seja devido a isso. De facto já me disseram que eu era um bocado capz de assustar. Por ter alguns poderes…
P. – A Amélia, pelo contrário, talvez assuste por outros motivos, dada a sua impetuosidade natural…
A. M. – Para já, as pessoas ligam um bocado a tradição a qualquer coisa de passivo. Eu não entendo nada a tradição assim. Que eu saiba continuamos a ser o Pitecantropus, ou “homo erectus”, como se costuma dizer. O homem moderno é o mais tradicional que existe, às vezes com um “t” muito pequenininho. A tradição é isto, nós sabemos que somos alguém que vem na continuidade de qualquer coisa. A nossa modernidade está aí. O nosso tempo é enquanto estamos vivos. Acho uma estupidez ligar tradição a qualquer coisa que já passou e não a qualquer coisa que está a acontecer.
P. – Referíamo-nos a arquétipos, os quais, por essência, não podem ser modificados, embora possam ser actualizados de diferentes formas. Através da música por exemplo, o que tanto uma como outra fizeram nos respectivos discos…
A. M. – Se calhar estou a ser utópica quando faço a música que faço. Vivemos na tal sociedade mediatizada. Cada vez mais as conversas particulares que tenho com as pessoas não correspondem à imagem que tenho da sociedade, em termos abstractos. Há um desfasamento cada vez maior. As pessoas habituaram-se a ter tudo à disposição, aos passevites. Tudo tem que estar em papa para não ser preciso mastigar.
N. L. – Como sabe, vou muitas vezes ao Norte, passo lá a minha vida. Noutro dia engoli em seco. Estavam a falar de uma festa, em Agosto, e alguém disse: “Aqui esta menina tem agora umas coisas aqui da terra, tem ssim uma banda.” Responde o mestre de cerimónias: “Mas o quê? Ela vir cá com aquela gente toda? Bota-se aí um órgão que faz tudo só com uma pessoa e já está1” Ah, meu Deus, então percebi o nome de um cantor qualquer que faz aquilo e percebi que é disso que eles gostam! Tenho ido a quase todas as feiras do Norte, por curiosidade tenho andado à procura. Não encontrei nem os Madredeus, nem tu, nem eu, nem a Filipa Pais… É só Laura Pausini, que é o que está a dar. A sensação que me dá é que estou a tentar que não se mate, que não desapareça uma cultura e não estou a sentir o retorno das pessoas que estão directamente ligadas a essa cultura moribunda. Têm vergonha. Uma vez, em Duas Igrejas, disse-me assim um rapaz: “Então mas você gosta disto? O que é que isto tem que as outras cidades não têm? Isto é um atraso de vida!” Era um rapaz novo, do ensino secundário, que odiava a música e queria era vir para Lisboa.

Né Ladeiras “Né Ladeiras Traz Os Montes A Belém – A Cidade E As Serras”

cultura >> sábado, 25.02.1995


Né Ladeiras Traz Os Montes A Belém
A Cidade E As Serras

Ponto de encontro da tradição com um cosmopolitismo reaprendido, a música de Né Ladeiras acorda memórias esquecidas e abre novas portas para a renovação da música popular portuguesa. Em Belém, Trás-Os-Montes foi berço de uma terra com futuro.



“São cantos de nascimento e morte, embalo de meninos e brado de folia, ajudantes no trabalho e no lazer, confissões d’amores proibidos, hinos de crenças cristãs e das pagãs. Vozes de tempos recuados foram ensinando outras vozes e chegam-nos hoje sob a forma de cantos ‘bizarros’ que o cidadão português comum não reconhece como seus.” O texto, escrito à laia de prefácio no mais recente álbum de Né Ladeiras, “Traz os Montes”, ilustra bem a história de magia que ao vivo se contou na noite de quinta-feira no grande auditório do Centro Cultural de Belém. Outro texto, vulgo programa – com chancela da Fundação das Descobertas e do CCB -, menos poético, é certo, mas bastante mais didáctico, alertava em grossos caracteres para as “percurssões”, com “r”, para dar mais ênfase, ao mesmo tempo que promove o encenador Ricardo Pais a director musical e autor dos arranjos, deixando Ricardo Dias, o verdadeiro responsável, a chuchar no dedo. Só faltava mesmo que alguém com responsabilidades no centro declarasse com entusiasmo a sua admiração pelos “paliteiros de Miranda”, assim como se falasse entre dentes, num espírito de criatividade linguística sempre de saudar. Adiante…
Cerca de uma hora e dez de música bastaram a Né Ladeiras e ao seu grupo Galandum para ter a seus pés uma plateia no final rendida aos sons e atitude “bizarros” desta mulher, misto de virgem e feiticeira, vinda de “Alhures” em “Trás-os-Montes”, sua pátria espiritual. Né veio vestida de prata lunar, contra um fundo simulando fragas transmontanas. Teve início o ritual com “Fonte do salgueirinho”, ao som da voz gravada da anciã Adélia Garcia. “Çarandilheira”, “Roro”, “Anda duermete nino” e “La molinera” revelaram as duas principais vozes instrumentais, de Ricardo Dias, no piano e sintetizador, e Manuel Rocha, no violino, ambos da Brigada Victor Jara, recordada no tema seguinte, “Marião”. Depois as notas aceleraram até à velocidade do rock, em “Ai se a luzia”, um tema da Banda do Casaco, onde se destacaram Ricardo Dias, na sonoridade arcaica de uma ponteira, o baixo de Vítor Milhanas e as vozes de apoio de Isabel Bernardo e Genoveva Faísca.
Com “Pingacho” o oceano da tradição invadiu as montanhas. Amadeu Magalhães (natural do Barrosão e elemento dos Realejo) iniciou o seu “tour de force” na gaita-de-foles, ao mesmo tempo que um careto cabriolava no estrado e os oito dançarinos do grupo G. E. F. A. C. derreteram de vez o gelo do auditório. “Ora assi que te quiero morena, ora assi que te quiero salada, por beilar lo pingacho!”. Um diálogo de bateria e percussões, mais em força do que em jeito, de André Sousa Machado e Joaquim Teles, desaguou numa batida transmontana, tornada berço de “Cirigoça”, uma das notáveis interpretações vocais de Né Ladeiras, com bons apontamentos de Amadeu no “tin whistle” (ou flauta de lata…). As serranias soltaram espectros carnavalescos num lhaço animado pela dança guerreira dos paliteiros, perdão, pauliteiros, de novo com Amadeu Magalhães endiabrado na gaota-de-foles. À ventania sucedeu a ternura de uma canção de embalo, “Perlimpinchim”, entre o sussurro do piano e os sobressaltos da guitarra de António Pinto. Em “En tu puerta” a voz da cantotra escalou os montes mais latos, pairando à altura das vozes búlgaras, as tais que falam com Deus. “Indo por la sierra” antecedeu “Beijai o menino”, no louvor das gaitas-de-foles, por Amadeu e Ricardo Dias, com Manuel Rocha notável de subtileza e doçura no violino. “Ó que estriga tenho na roca” fechou o ciclo. Né trocou as voltas ao tempo, banhando-se namesma água-régia da anciã cantora do tema inicial. A serpente mordeu a sua cauda.
Três “encores”, com repetição de “Çarandilheira”, “Ai se a Luzia” e “Beijai o menino”, constituíram o justo prémio para um espectáculo onde tudo pareceu encaixar no lugar certo. Um reparo final, apenas, para o som, que se cumpriu em termos de clareza, terá pecado por alguma dureza. Mas aí terá que haver, na mesa de mistura, alguém com coração e ouvido para este tipo de música. A de Né Ladeiras, se é verdade que tem a força do granito, pede igualmente pétalas de rosa.
Um espectáculo de música portuguesa como há muito não se via nem ouvia.