Arquivo mensal: Dezembro 2016

Xutos & Pontapés – “Dados Viciados”

POP ROCK

26 Março 1997
portugueses

XUTOS E PONTAPÉS
Dados Viciados (7)
Ed. E distri. EMI-VC


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“Telecaster”, o instrumental que abre “Dados Viciados”, não consta do alinhamento. Para se ouvir este tema-fanstasma em que os Xutos fazem a recriação “kitsch” do ambiente de um casino, deve-se carregar continuamente na tecla de recuo do leitor, no início do tema número um, até se entrar na contagem de tempo correspondente ao tema escondido que está gravado antes.
Se se preferir começar “Dados Viciados” pelo tema de abertura, com o mesmo nome, apanha-se, de imediato, com um pontapé na cara. A entrada do grupo de Tim, Zé Pedro, Kalu e João Cabeleira para a sua actual editora coincidiu com o desengatilhar de energias contidas, agora libertas em puro rock’n’roll. As guitarras dispararam, o ritmo acelerou, o império do “riff” veio para ficar. Ronnie Champagne, o produtor que soube adivinhar nos Xutos toda esta força contida e canalizá-la através de um som mais internacional do que o das obras precedentes, reduziu a estrutura das canções ao essencial: voz, guitarras, baixo e bateria, lançados a galope, como se o tempo escasseasse e os Xutos tivessem urgência em atirar às cegas os dados desta sua nova aposta.
Descansa-se ao tema número quatro, “Manhã submersa”, com passagem para o psicadelismo, inoculado de orientalismo, de “Um jogador”, acelerando-se um pouco em “Mil dados”, sequência de “riffs” pesados, na tradição dos grandes mamutes da antiguidade, Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath. “Negras como a noite” inicia-se no balanço suave de uma guitarra acústica, a letra e vocalização de Tim fazendo lembrar a mesma temática de separação dos Rio Grande. Nas distorções dilacerantes da guitarra que angustiam “No quarto de Candy” entra-se para o mesmo quarto frequentado, a horas proibidas, pelos UHF.
Mas é no rock que se forjou e continua a afirmar a identidade dos Xutos, quer em desaustinação “punk”, quer em velocidade de cruzeiro. Não há em “Dados Viciados” qualquer espécie de ruptura com o passado, mas antes a redescoberta e rejuvenescimento das mesmas premissas de sempre: dizer depressa e sem subterfúgios o tempo que escasseia e a vontade de ir em frente, mesmo se pela frente estiver um muro ou um abismo. É a velha máxima do “No future” reciclada para os anos 90, segundo as regras de um jogo, à partida, viciado. Mas os Xutos continuam a lançar a cabeça contra o pano verde.



Segredo Dos Deuses – “Segredo Dos deuses”

POP ROCK

26 Março 1997
portugueses

Segredo dos Deuses
Segredo dos Deuses
ED. BMG


sd

A máscara da cantora careca Sinead O’Connor deu lugar ao rosto verdadeiro de Inês Santos, para o melhor e para o pior, a vencedora incontestada de um dos concursos do programa Chuva de Estrelas. “Segredo dos Deuses” é um trabalho despretensioso em que o esforço colectivo se sobrepõe ao individual, embora, como é óbvio, a voz de Inês de destaque naturalmente. Predominam as baladas em tempo médio, o cuidado posto nos textos e a preocupação com os ambientes. A voz de Inês faz lembrar, curiosamente, em mais do que uma ocasião, no timbre e na colocação, a de Annie Haslam, cantora de um grupo de rock sinfónico dos anos 70, os Renaissance. Aliás, temas como “Guardador de rebanhos”, “Marés sem tempo”, “Se tu viesses ver-me…” e, sobretudo, “Fugaz” e “Brilhos perdidos” exibem uma construção cujas parecenças com a música daquele grupo são impressionantes. É um álbum fora de tempo e das tendências em voga, simpático e agradável, que cresce a cada audição. Há um momento delicioso quando Inês Santos faz a voz balançar sobre as sílabas da palavra “suave”, em “Suave e só”, aqui com semelhanças com outro grupo dos anos 70, os Curved Air. Ao longo de todo o disco é notório o prazer que todos os músicos sentiram em tocar uns com os outros. Os deuses, decerto, não os irão abandonar. (6)



Vários – “Mirandun, Mirandela…”

POP ROCK

5 Março 1997
world

Vários
Mirandun, Mirandela…
GEMP/LA TALVERA, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO


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Para um desenvolvimento sustentado da música tradicional, ou de raiz tradicional, portuguesa, é bom que, a par do surgimento de novos grupos e da consolidação dos mais antigos, apareçam no mercado edições como esta, de música étnica recolhida e gravada sem qualquer tipo de produção modernizadora. Aqui, como em tudo, nada morre mas tudo se transforma. “Mirandun, Mirandela…” é um registo cuidadosamente documentado (disco e livro) da série “Mémoires Sonores”, contendo cantares e músicas do concelho de Miranda do Douro, em Trás-os-Montes.
Que uma edição deste tipo, à semelhança de outra já por nós aqui recenseada, “Musical Traditions of Portugal”, seja fruto de uma iniciativa estrangeira é um mal menor, que apenas vem demonstrar, uma vez mais, o desinteresse a que a música tradicional portuguesa é votada pelas entidades oficiais portuguesas. Mais atentos e interessados, os franceses fazem o que compete a qualquer povo civilizado, contando a presente edição com os apoios da FNAC, da Junta Regional do Midi-Pirinéus e da Comissão das Comunidades Europeias, entre outros organismos, que incluem ainda a Câmara Municipal de Miranda do Douro.
A melopeia inicial do pastor que chama as suas ovelhas dá início a uma viagem por uma das regiões mais isoladas de Portugal continental. Viagem de recuo no tempo, pelas vozes ancestrais de homens e mulheres cuja vida e costumes são inseparáveis da música, nessa ligação sagrada à terra que constitui a verdadeira tradição. A par do canto, quase sempre “a capella”, é o encontro com a gaita-de-foles, a flauta de três orifícios e o tamborim, instrumentos cuja prática ainda permanece nesta região do Nordeste mas que o tempo vai fazendo empurrar para o abandono e o olvido.
Escutar estes sons e estas histórias, adivinhar o fogo que anima as danças dos pauliteiros, sonhar os caminhos da história e da lenda é o que nos oferece a presente colectânea, objecto essencial para quem pretenda ter da música tradicional uma panorâmica mais aberta e profunda, que não se compadece com as maneiras afectadas da grande cidade. (8)