The Orb
John Peel Sessions
BBC STRANGE FRUIT, DISTRI. MVM
Só faltava mais esta! O éter está viciado e a electricidade já não é o que era. Numa das obrigatórias sessões para o papa radiofónico John Peel, os Orb orientaram as agulhas da música electrónica para o “protopunk”! Nem mais. Basta sintonizar no tema “No fun”, um clássico dos Stooges, refundido (samplado) num contexto “ambient rage” pelo próprio Alex Patterson, para perceber que o tal organismo vivo que dá pelo nome de The Orb não pára de estender os seus tentáculos a tactear novas vítimas. As sessões em causa, descontando a surpresa – ou não – provocada por esta incursão nos finais dos anos 70, oferecem uma totalidade de pouco mais de meia hora, dividida em quatro faixas, preenchidas por abstracções aleatórias, “samples” para colar na caderneta e o habitual jogo de “adivinha onde é que fui sacar esta cena”. O “krautrock”, ora bem, está presente em força, ou não estivessem os Orb ao corrente das tendências em voga, embora não seja crível que os mais jovens reconheçam, no tema de abertura, “Oobe”, as mesmas guitarras acústicas sequenciadas que Klaus Schulze usou em “Black Dance”, ou uma frase melódica copiada à pressa de “Computer World”, dos Kraftwerk. Com os The Orb tem-se a certeza de que o movimento não pára, resta saber se vai dar a algum lado. (6)
Para quem já se roía de saudades dos defuntos Tuxedomoon, estes Ninerain podem ser o melhor bálsamo para curar as feridas da separação. É que o manda-chuva do projecto é nem mais nem menos do que Steven Brown, saxofonista e teclista daquele grupo americano, que aqui se juntou a um colectivo de músicos mexicanos. “Ninerain” soa como um desvio bizarre e transbordante de exotismo dos Tuxedo, embalado numa capa ritual-alucinatória ao estilo de Jorge Reyes, ao volante, afinal, do mesmo veículo em que seguiam Blaine Reininger, Peter Principle ou Winston Tong, em eterna excursão por um planeta desesperadamente em busca do sagrado. Os “samplers”, os saxofones, as percussões carnavalescas dos músicos mexicanos, são instrumentos de uma visão em que não cabem nem o folclore nem a redundância, mas em que também não se vislumbra uma unidade de propósitos. Era assim nos Tuxedomoon, continua a ser nos Ninerain. Uma errância de símbolos e de cores, a corrupção dos grandes espaços por um olhar intoxicado pela decadência urbana, um realismo fantástico depauperado pelo cansaço e pelo desencanto, como o que habita o cinema de Wim Wenders. Projecto curioso, situado à margem do “mainstream”, mas não muito, “Ninerain” pela voz de Steven Brown, pastosa, doente, saturada de literatura e de recordações mortas. O México dos Ninerain não fica longe de São Francisco. O ectoplasma brilha ainda sobre as ruínas dos Tuxedomoon. (6)
RICHARD THOMPSON
Me? You? Us? (8)
2XCD Capitol, distri. EMI-VC
O coração de Richard Thompson é um coração infectado por um amor louco. “Me? You? Us?” é o “Kama-Sutra” das relações fracassadas. Apaixonar-se é entrar num beco e perder-se no abismo da solidão e do desencanto. Richard Thompson é assim, sempre foi, mas notou-se mais a partir do momentos em que abandonou os Fairport Convention e passou a conviver regularmente com as vanguardas, como nomes como Fred Frith ou os Pere Ubu. Mas foi na companhia da sua ex-mulher, Linda Thompson, que gravou um dos álbuns mais magoados de sempre da pop britânica, “I Want to See the Bright Lights Tonight”. “Me? You? Us?” é o seu melhor álbum a solo de sempre, desde a estreia “Henry the Human Fly” e o instrumental “In Strict Tempo”. Isto porque, ao contrário de obras recentes, o guitarrista e cantor não deixou desta vez que a neblina que eternamente cobre o seu rosto se reflectisse no tom monocórdico que caracterizava, por exemplo, o anterior “Mirror Blue”. É um álbum desesperado, como sempre, mas colorido por uma postura estética diversificada, como se Thompson tivesse finalmente conseguido a distância necessária para observar, sem neles se enredar, os mecanismos da dor e do desencontro. Há uma ironia mais cruel do que nunca, desde logo presente no tema de abertura, “Razor dance”, o amor (ou as suas ruínas) como instrumento de tortura, bem como no grafismo da contracapa, onde a face esfolada do artista revela, num dos lados, um mecanismo de relojoaria e, no outro, os “músculos da expressão”. Dividido em dois compactos, um eléctrico, de genérico “Voltage Enhanced”, outro “unplugged”, “Nude” – guitarra acústica, voz e pouco mais -, “Me? You? Us?” dispara à queima-roupa no primeiro e sofre em silêncio no segundo. “Voltage Enhanced” encerra, no meio de versos saturados de veneno e do sarcasmo mais mortífero, alguns dos melhores solos de guitarra de sempre da Thompson, da lamentação de “Put it there pal”, com a mesma força trágica de “Meurglys III”, um tema de Peter Hammill com os Van Der Graaf Generator, de “World Record”, à fúria contida de “Business on you”. Um álbum cuja escuridão não impede o entusiasmo da escuta, de onde se destacam ainda o “rock’n’roll cajun” de “Am I wasting my love on you?”, a solidão cósmica de “Bank vault in heaven” e o “flash-back” em forma de cicatriz do tema final “The ghost of you walks”.
No segundo disco, “Nude”, Thompson entra para o mesmo clube de Tim Buckley e Nick Drake, dos que cantam em surdina o sofrimento e os azares da vida, uma mudança de registo que reduz um pouco a variedade emocional e o impacte dramático do primeiro disco. As facas, os espelhos quebrados e os frascos de veneno permanecem, só que agora encerrados num invólucro de secura. Na forma de um despojamento sem margens onde as únicas cores vêm de uma sanfona que chora ao longe em “Sam Jones”, do violino e violoncelo que animam a longa despedida, “Woods of darney” e, sobretudo, de “Cold kisses”, onde o saudosismo folk brilha com a mesma luz gelada das estrelas de Scott Walker, em “Tilt”. À imagem de “Me? You? Us?”, no seu todo, um álbum cuja grandeza se equivale à dimensão do seu desespero.