Arquivo mensal: Setembro 2016

Michael Rother – “Esperanza”

Pop Rock

1 de Maio de 1996
poprock

Michael Rother
Esperanza
SPV, DISTRI. MEGAMÚSICA


mr

Grata surpresa o regresso discográfico do mais melódico dos robôs do “krautrock”, cuja obra a solo deverá ser encarada como precursora da actual vaga “easy listening”, na sua vertente mais experimental. Se a edição do anterior “Traumreisen”, já lá vão nove anos, marcava a rendição do ex-Neu! À “new age” e o esgotamento de fórmulas rítmicas empregues até à exaustão, “Esperanza” assume-se como o álbum mais elaborado de toda a sua carreira e o mais diversificado em termos de batidas maquinais. Permaneceram o romantismo e o gosto pelas repetições, agora envoltos num formato mais próximo de Dieter Moebius, dos Cluster, que do “punk” electrónico dos Neu! O tema final, “Spirit of ‘72”, é uma recriação – não saudosista – da sonoridade “motor em quinta velocidade”, dos Harmonia, precisamente o projecto de Rother com os Cluster. (8)



Jon Anderson – “Angels Embrace”

Pop Rock

17 de Abril de 1996
poprock

Jon Anderson
Angels Embrace
HIGHER OCTAVE MUSIC, DISTRI. STRAUSS


ja

Era fatal como o destino, o antigo vocalista dos Yes caiu como mosca na sopa numa editora de “new age”. Na verdade, Jon Anderson nunca foi verdadeiramente um “rocker” e, com Vangelis a ajudar na transição, pode agora dar livre curso à sua costela de misticismo ecológico. Uma capa com céu e nuvens em dourado e inscrições do tipo “viagem espiritual através do poder curativo da música” embrulham uma música onde o cantor tenta fazer passar intacta por uma ponte de 22 anos a magia do seu álbum de estreia, “Olias of Sunhillow”. “Angels Embrace” é “Olias” numa perspectiva “new age”, sete temas interligados por passarinhos e sinos nos intervalos, onde a voz se reduz a coros angelicais (em dois deles com a ajuda do filho e da mulher), num álbum predominantemente instrumental, em que as harpas e os sintetizadores se anelam num nevoeiro de onde nunca chega a nascer o desejado. Falta a Jon Anderson, numa área já ocupada por nomes da ala mais melosa da Hearts of Space, como Constance Demby e Raphael, o abstraccionismo e poder de análise de um Brian Eno, cujas concepções de música funcional postas em prática em “Music for Airports” impregnam a evolução ambiental dos 14 minutos de “New fire land”. Pode ser interessante, quiçá uma experiência transcendental, observar com olhar vago e coração suspirante a passagem das nuvens, na expectativa de um instante de iluminação. Eno garante que sim. Será até possível “aceder àquele lugar de visão e claridade onde o ritmo da vida se move em harmonia com uma consciência mais elevada”, de que nos fala a editora. Mas será mesmo necessário idealizar a “nova idade” como o Parque Eduardo VII numa tarde de domingo? (5)



Clannad – “Lore”

Pop Rock

10 de Abril de 1996
Poprock

Clannad
Lore
2XCD, RCA, DISTRI. BMG


clannad

Não se compara com o que de bom fizeram os Clannad, quando não tinham outras ambições senão serem um grupo bem-comportado da tradição gaélica, com a voz de Máire Brennan à altura do que se lhe pedia quando se pedia encantamentos. Guardamos “Dúlaman” na recordação. E, a partir daí, a mágoa de assistirmos ao processo de degradação de um bom grupo de música folk, tornado um mau grupo de fusão que passou à destruição do imaginário celta. Como Enya, os Clannad preferiram a magia que faz abrirem-se as portas do mercado à magia das florestas druídicas. Eles lá sabem.
“Lore” procura alento num início com pretensões de majestade mas cedo se acomoda ao que tem sido norma nos últimos álbuns: uma mistura enjoativa de mel estragado com fotografias em tons sépia, segundo uma fórmula que já atinge as raias do insuportável. Certo, é indolor, não provoca habituação e dizem que faz bem ao coração. Mas não é para isso que servem as aspirinas? (3)