Arquivo mensal: Setembro 2016

Dead Can Dance – “Spiritchaser”

Pop Rock

12 de Junho de 1996
poprock

Rituais na câmara secreta

DEAD CAN DANCE
Spiritchaser (8)
4AD, MVM


dcd

O primeiro tema chama-se “Nierika” e o título é igual ao de um álbum do mexicano Jorge Reyes, mas as coincidências entre a banda de Brendan Perry e Lisa Gerrard e o autor de “Mexican Music Pre-Hispanic” não se ficam por aqui. “Spiritchaser” é de todos os álbuns gravados até à data pelos Dead Can Dance aquele que leva mais fundo e mais longe a vertente ritualista, num registo idêntico ao praticado por Reyes. Nesse tema, como nos dez minutos de “Song of the stars”, Perry, gerrard e uma equipa seleccionada de convidados, utilizam instrumentos rituais, percussões de pedra e chuva, ruídos de animais, cânticos étnicos. Mas o lado atmosférico, mais que os habituais sombreados góticos, aligeira o que poderia confundir-se com uma das alquimias invertidas (das quais bandas como Death in June, Current 93 ou Sol Invictus foram pioneiras) que caracterizam uma das vertentes da música do final deste século. Na contracapa, ao lado de uma invocação vodu, pode ler-se: “Nas culturas onde a música ainda é usada como força mágica, a construção de um instrumento envolve sempre o sacrifício de um ser vivo. A alma desse ser vivo fica a fazer parte do instrumento, permitindo deste modo que os sons dos ‘mortos que cantam’, sempre presentes ao nosso lado, se façam ouvir [de “Harmonies of heaven and earth” de Joscelyn Godwin].” Os Dead Can Dance não vão tão longe, mas o poder manipulatório da sugestão faz efeito. “Indus” mistura Diamanda Galas sob a acção de narcóticos com música antiga e indiana, e “Song of the dispossessed” poderia ser o encontro de Sting com os Tuxedomoon. “Song of the Nile” é um transe, sonho, em câmara lenta, viagem astral pelo interior de uma pirâmide em estado de vida suspensa que se prolonga até à Idade Média virtual da derradeira cerimónia, “Devorzhum”, “drone” de mil reflexos e murmúrios à luz da lua. O melhor Dead Can Dance desde “Aion”.



Pascal Comelade – “Musiques Pour Films, Vol. 2”

Pop Rock

29 de Maio de 1996
poprock

Pascal Comelade
Musiques pour films, vol.2
LES DISQUES DU SOLEIL ET DE L’ACIER, DISTRI. ANANANA


pc

A estratégia é a mesma, mas, enquanto o efeito de encantamento que provoca não se dissipar, não há razões para a mudança. O coelho das pilhas Duracell continua enfiado no seu mundo pessoal de valsas, tangos e boleros, um brinquedo para os sentidos e uma provoação cheia de humor ao convencimento das chamadas “músicas sérias”. Neste conjunto de peças compostas para diversas bandas sonoras, de que não existe nenhum primeiro volume, os pianos, xilofones e sopros de brincar andam, como sempre, a vasculhar nos arquivos mais empoeirados da memória e os instrumentos de verdade a deleitar-se por ninguém os obrigar a andar na linha. Os três últimos temas enveredam por um caminho mais próximo da electrónica, culminando em “Back to Schizo”, em que Comelade se encontra com um dos seus heróis, Richard Pinhas, guitarrista com inconfundíveis traços frippianos, na recriação da sonoridade dos Schizo, formação anterior aos Heldon. O único tema não original é a “Chanson”, lengalenga em mono de uma criancinha, que aparece em “Détail Monochrome” e fechava em segredo certas “Estranhas frequências” que assombravam antigas noites radiofónicas… (8)



The Residents – “Have a Bad Day”

Pop Rock

15 de Maio de 1996
poprock

The Residents
Have a Bad Day
EURO RALPH, DISTRI. SYMBIOSE


res

“Estão preparados para o vosso pior dia de sempre?” É a pergunta que os Residents fazem, utilizando uma táctica que junta a manipulação ao “merchandising”. O grupo americano serve-se do sistema para, do interior, o subverter. Apregoam os seus produtos, dos vídeos aos “posters”, relógios e “t-shirts”, com a candura de comerciantes que apenas fazem pela vida. Mas por detrás desta aparente cedência aos moldes de funcionamento normais da indústria esconde-se um esgar de crueldade e uma estética de fealdade. A música dos Residents, a partir do momento em que reciclaram todas as suas fontes sonoras em artefactos electrónicos, tornou-se como que o negativo de um filme de Disney ou do “Feiticeiro de Oz”. Um desenho animado colorido, com ritmos de brinquedo e luzinhas a piscar, que seduz para perverter. Comparado com o jogo em formato CD-ROM, “Have a Bad day” é, por assim dizer, “piece of cake”, como que uma espreitadela sonora inofensiva aos horrores, estes sim bem mais perturbantes, do suporte principal com imagem. Banda-sonora dos piores sonhos que o cérebro pode produzir, trata-se ainda e sempre da mesma arquitectura alucinatória, segundo um mecanismo de atracção e repulsa que faz dos Residents o objecto e projecto artísticos mais subversivos de toda a história do rock. (7)