Arquivo mensal: Setembro 2016

The Raincoats – “Looking in the Shadows”

Pop Rock

12 de Junho de 1996
poprock

The Raincoats
Looking in the Shadows
GEFFEN, DISTRI. BMG


raincoats

Ana da Silva e as outras, estrangeiras, decidiram que as Raincoats tinham uma razão de ser nos anos 90. Um desejo legítimo. Tudo tem razão de ser nos anos 90. O espírito da banda mudou pouco desde que em 1984 abandonaram a cena musical, com “Moving”, após dois trabalhos bem recebidos pela crítica, “The Raincoats”, de 1979, e “Odyshape”, de 1981, uma época em que desafinar queria dizer originalidade e atitude “underground”. “Looking in the Shadows”, em comparação, sobretudo, com os dois primeiros discos, é um portento de sofisticação. Tem todos os cantos preenchidos com guitarras saturadas, desleixadas, metalizadas, envernizadas, e electrónica o mais analógica possível. A postura é que é a mesma. Ana e Gina Birch são “new wavers” e sobre isso não há nada a fazer. São-no de uma maneira estranha, em equilíbrio sobre ângulos perigosos. De um lado, o minimalismo velvetiano e a pose carnes secas de Patti Smith, do outro, a pop ávida de açúcar, orgulhosa de melodias. Agora, como antes, as Raincoats não seguem em comboio expresso nenhum. O seu fascínio é o do anacronismo. “My heart beats”, cantam em “Forgotten words”. Não é o mais importante? (6)



Ryuichi Sakamoto – “1996”

Pop Rock

12 de Junho de 1996

Ryuichi Sakamoto
1996
MILAN, DISTRI. BMG


rs

1996 não está para brincadeiras. Falta pouco para o final do milénio e os compositores andam ansiosos para mostrar aquilo que valem. “Aquilo que valem” quer dizer o abandono da música popular e a criação de obras, perdão “opus” eruditos, que exigem piano de cauda, cordas e a encomenda de uma peça para o Kronos Quartet. O antigo teclista dos Yellow Magic Orchestra achou que esta era a altura ideal para se libertar do farde de antigas companhias como Iggy Pop, David Sylvian ou Youssou N’Dour, já para não falar nos pecados “proto-“techno” dos Yellow Magic Orchestra. Ao contrário do seu antigo companheiro, Haruomi Hosomo, que evoluiu da electrónica “hard” dos YMO para uma leitura subtil da “pop” pancultural, em “Omni Sight Seeing”, e da “house” ambiental, em “Quiet Meditations from the Quiet Lodge”, Sakamoto enveredou pela via espartana. Em “1996”, o japonês toca piano, só toca piano, fazendo-se acompanhar pelo violoncelo da Jaques Morenlenbaum e o violino de Everton Nelson, na recriação de alguns temas antigos que abrangem vários trechos de bandas sonoras, como “The Last Emperor”, “Merry Christmas Mr. Lawrence” e “The Sheltering Sky”. Mas tanto estes como os originais soam anémicos e académicos, longe dos melhores tempos de mr. Sakamoto. O álbum, na sua edição europeia com 15 temas (a japonesa tem 16 e a norte-americana, 12) sairá por cá, a 24 deste mês. (4)



Material – “Hallucination Engine” + Vários – “Lost In The Translation”

Pop Rock

12 de Junho de 1996
reedições poprock

Material
Hallucination Engine (7)
Vários
Lost in the Translation (5)
AXIOM, DISTRI. POLYGRAM


material


lt

Bill Laswell chegou tarde, primeiro à “world music” e mais recentemente à electrónica “cósmica”. A sua curiosidade, sempre insatisfeita, encontrou nestas duas áreas, de vastíssimas fronteiras, terreno fértil para o baixista experimentar a sua ideia de síntese universal. A consequência mais óbvia desta entrada em cena tardia é o sabor a “melting pot” saturado de citações e remissões, mas sem qualquer frescura ou leveza. “Hallucination Engine” prende-se ao lado mais jazzístico e às correntes “etno”, obviamente afogadas no baixo pesadão e comilão que faz o seu estilo.
As estrelas, convidadas em grande número – de Wayne Shorter a Jonas Helleborg, de Zakir Hussain a Trilok Gurtu, de Bootsy Collins a William Burroughs -, se facilitam a permuta de linguagens, não garantem por si só a estabilidade do projecto. Mas a sucessão de clima e a temperatura elevada sustentam esta incursão pelo panteísmo global que parece ser o objectivo último de um dos criadores da “etno-seca”.
Em “Lost in the Translation” (por sinal o mesmo título de um álbum de Roger Eno), a teoria é semelhante só que inserida num contexto “ambient” e no âmbito das “Sound sculptures” em que Laswell é exímio. Se as investigações de Laswell na Fax de Pete Namlook levam às últimas consequências o lógica do absurdo e do vazio, aqui ficam-se por um meio-termo onde o classicismo, muito Klaus Schulziano, cai de podre, a “ragga” indiana faz de antibiótico e as emanações “cósmicas” cheiram a bafio.
São oito longos temas com quinze minutos médios de duração, em diversas combinações de músicos (Laswell mais Tetsu Inoue, Laswell mais Helleborg, Laswell mais The Orb, Laswell mais Shankar, Laswell mais George Clinton, Laswell mais…) que uma cabeça atestada de ácido achará eventualmente curtos, mas que outra, “straight”, pura e simplesmente não aguentará. As informações da capa – uma espécie de manual de abertura das portas da percepção – são pródigas em termos como “misticismo”, “mensageiro simbólico do espírito” e “cura espiritual”. Os temas dão por nomes como “Peace” (que vale pelo belíssimo solo de sax de Pharoah Sanders), “Aum”, “Cosmic trigger” e “Holy mountain”. O último, “Ruins”, é uma citação, quase decalque, de “Pappy Nogood and the phantom band”, de Terry Riley.
Laswell e os amigos dizem em duas horas o que Laswell já dissera de forma sucinta na dupla face “dance”/”meditation” de “Day of radiance”. Ainda dizem mal do Progressivo…