Arquivo mensal: Maio 2016

UAKTI – concerto em Lisboa / 1995

Pop Rock

25 de Janeiro de 1995

MONSTRO MUTANTE

O grupo instrumental Uakti actua em Portugal no próximo dia 31, no Centro Cultural de Belém. O quarteto, formado por Paulo Sérgio Santos, Artur Andres, Decio de Souza Ramos e o director artístico Marco António Guimarães, todos com formação clássica e naturais de Belo Horizonte, dedica-se à exploração das sonoridades de instrumentos, percussivos, de corda e de vento, com nomes tão estranhos como “aqualung” ou “panetário”, fabricados pelos seus próprios membros, em materiais como o vidro, tubos de plástico, metais, borracha ou cabaças. A designação “Uakti” provém de uma história tradicional dos índios Tucano, da Amazónia, sobre um monstro da floresta cujo corpo era um instrumento musical. Reza a lenda que o vento, ao passar pelos orifícios do seu corpo, produzia um som que atraía e seduzia as mulheres da tribo.
Com espectáculos realizados em todo o mundo, desde 1980, os Uakti participaram já em discos de Paul Simon, Milton Nascimento e Manhattan Transfer, entre outros. O ano passado o grupo fez uma digressão pelos Estados Unidos com Stewart Copeland, antigo baterista dos Police. A música dos Uakti, uma síntese interessantíssima que alia um rigor rítmico quase matemático, devedor das técnicas minimalistas, aos timbres luxuriantes inspirados na música tradicional do Brasil, não passou despercebida a Philip Glass, que ouviu pela primeira vez o grupo no álbum “Rhythm of the Saints”, de Paul Simon, e os convidou em seguida para a sua editora Point Music, fruto da associação das produções Euphorbia com o departamento de música clássica da Philips.
Nesta editora, os Uakti editaram o álbum “Mapa”, uma gema multicor de ritmos cristalinos e sonoridades de selva virtual, produzido por Philip Glass, Rory Johnston e Kurt Munkacsi, de 1993, e o ano passado “I-Ching”, mais analítico e voltado para uma vertente erudita, inspirado no Livro Chinês das Mutações, ambos com distribuição portuguesa pela Polygram, mas bastante difíceis de encontrar nos escaparates nacionais. Uma situação que se poderá modificar com a realização do concerto, já que a música excelente dos Uakti o merece amplamente. A obra discográfica anterior inclui ainda os álbuns “Uakti Oficina Instrumental”, de 81, “Uakti 2”, de 84, e “Tudo e Todas as Coisas”, também de 84, todos com selo Polygram.

UAKTI
CCB (Lisboa) – terça – 31 – 22h



Penguin Cafe Orchestra – “Concert Program”

Pop Rock

20 de Dezembro de 1995
Álbuns poprock

Penguin Cafe Orchestra
Concert Program

2XCD, ZOPF, IMPORT. LOJAS VALENTIM DE CARVALHO


pco

Os Penguin Cafe Orchestra perderam muita da piada que tinham em todos os discos até “Broadcasting from Home”. É o que faz aprenderem a tocar bem. Quando a técnica é limitada, compensa-se a limitação com a criatividade. Aliás, até é de bom tom dizer-se que a técnica em excesso prejudica e que a boa música não necessita de virtuosismo de qualquer espécie. Mas à medida que vão evoluindo e mal se consideram minimamente dotados, a primeira coisas que esses mesmos músicos fazem é escrever uma sinfonia. Nessa altura, o discurso muda e falam com paternal e distanciado nas “obras da juventude”, pecadilhos de quem fazia o que podia. Simon Jeffes, pinguim-mor da orquestra, é hoje um compositor “sério”. Como tal, “Concert Program” não deve provocar o riso. É um “concerto” gravado ao vivo em estúdio no ano passado, onde são recuperadas peças da discografia prévia do grupo. Não se ganha nada em relação ao passado. A orquestra interpreta com correcção as partituras, a música comporta-se com tino dentro dos parâmetros do que faria um grupo de câmara ainda um pouco desalinhado, o aplauso vai mais para o rigor do que para a invenção. Pelo andar da carruagem, é de prever que no próximo disco tenha desaparecido a palavra “pinguim”, pouco adequada a concertistas desta craveira. Já agora, tossiquem só nos intervalos entre as faixas, por favor. (6)



Kim Fowley – “Let the Madness In”

Pop Rock

20 de Dezembro de 1995
Álbuns poprock

Kim Fowley
Let the Madness In

RECEIVER, DISTRI. MEGAMÚSICA


kf

Sem cair no exagero de Adolfo Luxúria Canibal – que, numa entrevista recente, afirmava que devia haver, além dele, mais duas ou três pessoas que conheciam a música de Kim Fowley -, é forçoso admitir não estarmos propriamente na presença de uma estrela. Fowley é um lunático, um prolixo lunático que, ao longo dos anos 60 e 70, assinou uma mão cheia de álbuns onde reina o delírio, a par de um número assinalável de produções. Álbuns como “Good Clean Fun”, de 1969, onde o absurdo se instala em faixas como “Motorcycle” – a letra é um vómito prolongado de grunhos e onomatopeias sob a forma de poema romântico de um jovem à sua namorada – ou “The great telephone robbery”, em que Fowley se faz passar por vários personagens e disca telefonemas ao acaso, gravando as respectivas conversas, sugerem uma espécie de Zappa intoxicado por ácido cortado com excesso de estricnina. 1995 assistiu a uma nova investida programada de Fowley, através do regresso aos palcos e da edição do presente álbum – um retrocesso, de certa forma imprevisível, para os batimentos metálicos da “cold wave” e da “música industrial” mais do que uma entrada em letra capitular nas catedrais da “tecno” e da “house”. É um disco de dança e de suor mecânicos, que destila sexo e fantasias de couro e de chicote por cada b.p.m., a começar na recorrência obsessiva de “Lipstick lesbians” e a acabar em “Tori Amos drinking teardrops in the twilight zone” e “Orson Wells’ mother”. “Let the madness in”, apesar de não possuir o mesmo fôlego e “lunacy” dos álbuns do passado, continua, porém, a resolver-se no desequilíbrio e a derreter um número razoável de células cerebrais. (7)