Arquivo mensal: Maio 2016

Enya – “The Memory of Trees”

Pop Rock

20 de Dezembro de 1995
Álbuns poprock

Enya
The Memory of Trees

WEA, DISTRI. WARNER MUSIC


enya

Ela canta como um pássaro. Ela tem um sorriso de querubim. Ela parece uma princesa dos livros de histórias. Ela irradia “charme” e simpatia. Ela encanta. Ela vende. Ela não passa da cepa torta depois de um álbum não despido de atractivos como o produzido para a série de televisão “The Celts”. A partir daí, a fórmula substituiu a criação e afogou o (hipotético) talento. Enya faz as delícias de qualquer editora que tenha um cantinho reservado para a “new age” facção “étnica” mas não muito. A música de “The Memory of Trees”, como a de “Watermark” ou “Shepherds Moon”, serve para relaxar, ou acompanhar um bom Porto ou um licor refinado na companhia dos amigos. Não exalta nem aguça a atenção, mas cumpre com eficácia se utilizada como som de fundo. É amigável, prazenteira, embora sem chama nem carisma. Vive de adornos e pequenos passes de magia. Que neste caso são a “novidade” dos textos cantados em latim e espanhol (o gaélico veio para ficar), ao lado das semelhanças instrumentais, com Vangelis, e corais, com Jon Anderson, dos Yes, fase “Olias of Sunhillow”. Como prenda de Natal, até nem faz má figura, na sua embalagem bonita, ao estilo “ó p’ra mim tão diáfana e colorida!” a acenar da prateleira do hipermercado. Como tal, vamos perdoar e cantar em coro o “Jingle bells”. (5)



Harold Budd & Hector Zazou – “Glyph”

Pop Rock

6 de Dezembro de 1995
Álbuns poprock

Tempos de seca

HAROLD BUDD & HECTOR ZAZOU
Glyph (6)

Made to Measure, distri. Megamúsica


hb

Harold Budd e Hector Zazou, muito juntinhos, aderiram à moda da “etno-seca”. Caso fossem outros, a coisa passava com uma piada. Mas, dado que são quem são, convirá fazer alguns esclarecimentos. A temível, anedótica ribombante batida “seca” (vamos chamar-lhe assim, para abreviar e dado que a contrapartida “etno” até nem está presente neste disco) é rigorosamente igual em todos os discos onde aparece. Não acreditamos que dezenas, centenas de músicos tenham ouvido na cabeça ou sentido no coração o mesmo ritmo. Trata-se então de um modelo de produção. Que soa a falso.
Veja-se: no contexto em que se insere – seja no étnico de fusão ou no ambiental ritmado -, a batida “seca” está a mais. O lado étnico dispensa-a porque já tem os seus ritmos próprios e naturais. O ambiental, por seu lado, não tem ritmo nenhum. Logo, qualquer acrescento “antinatura” soa como intruso. A batida “seca” é um compromisso. Uma tentativa de tornar acessíveis, logo, mais comercializáveis, dois campos musicais considerados “difíceis”. Não é carne nem peixe, mas uma excrescência monstruosa. E incómoda. Neste sentido, a “seca” equipara-se ao “disco-sound” dos anos 70. O que de início constituiu alguma inovação transformou-se em poluição.
Abstraindo-nos deste pequeno senão, “Glyph” evidencia algumas das traves-mestras sobre as quais repousam as obras passadas de Budd e Zazou. As aguarelas de orvalho do pianista, a relojoaria fractal do argelino naturalizado francês.
Os títulos, cuidadosamente escolhidos, são invenções do autor de “Plateaux of Mirror”, conhecido pelo seu gosto pela escultura fonética e poética das palavras. De Budd decorrem ainda as sequências declamadas, pontuando as diversas geometrias instrumentais, algo que o pianista introduziu na sua estética a partir de “By Dawn’s Early Light”, álbum de 1991. Zazou contribui com as notas discordantes, provocando alguma inquietação e ondas mais picadas nas águas quase sempre serenas de “Glyph”. Entre os poemas, a contemplação e a “seca” rítmica, ainda se arranjou espaço para uma canção sem sal na voz de Lian Amber. Na ficha técnica, além do habitual colaborador de Zazou, Renault Pion, encontramos os nomes de B.J. Cole, Barbara Gogan (não canta, apenas toca guitarra), Mark isham, Lone Kent e Brendan Perry.
Budd, Zazou e tantos outros que se deixaram adormecer à sombra de Brian Eno andam a precisas que se lhes espete um alfinete num sítio que eu cá sei. Para ver se arrebitam.



Roxy Music – “The Thrill of It All”

Pop Rock

29 de Novembro de 1995

PARA SEU PRAZER

ROXY MUSIC
The Thrill of It All (9)

4xCD Virgin/EG, distri. EMI-VC


rm

Ena, ena, que luxo! Quatro compactos, um livro com fotos inéditas realizadas para as diversas gravações do grupo, música que continua a ter hoje a mesma elegância provocatória que tinha há 23 anos. Para os que desde 1972, data de lançamento do álbum de estreia, “Roxy Music”, não deixaram de acompanhar a carreira do grupo de Bryan Ferry, “The Thrill of It All” é um doce. Gravações de qualidade superior às das versões originais, para além do interesse documental das imagens, justificam a aquisição desta encadernação que resume superiormente a obra de uma das bandas mais importantes que cruzaram a música popular nas décadas de 70 e 80.
Ordenado por ordem cronológica, “The Thrill of It All” recorda ao longo dos três primeiros compactos todos os álbuns de originais de estúdio: “Roxy Music”, “For Your Pleasure”, “Stranded”, “Country Life”, “Siren”, da fase inicial, “Manifesto”, “Flesh and Blood” e “Avalon”, correspondentes ao ressurgimento da banda nos anos 80. O último compacto divide-se entre uma selecção de lados A e B de “singles” e várias remisturas de temas dos álbuns. A fatia maior recai em “For Your Pleasure”, que apenas ficou com um tema de fora, o longo e sombrio “Grey lagoons”. Mas qualquer dos outros álbuns contribui com uma média de seis temas cada para a colectânea.
As notas que acompanham o alinhamento musical fornecem pormenores curiosos, por vezes aproveitando excertos das letras ou de críticas publicadas na altura. Sabiam, por exemplo, que “Re-make/Re-model”, se inspirou numa pintura do artista pop Derek Boshier, “Re-hink/Re-entry” ou que “Do the strand” alude a uma marca de cigarros dos anos 60, cujos anúncios ficaram famosos pelas suas recriações de “film noir”? Eu confesso que não!
Pessoalmente, prefiro os primeiros discos do grupo, em que a mistura de “glamour” e experimentalismo, devida em grande parte à presença de Brian Eno, ultrajou meio mundo habituado a viajar nas águas do progressivo. “Roxy Music”, “For Your Pleasure” e “Stranded” são obras-primas intemporais. Do Segundo destacaria “In every dream home a heartache”, história de amor perfeito com uma boneca insuflável, estendida até à vertigam na fabulosa versão de palco de “Viva!”. Do segundo, o monumental “Mother of pearl”. Qualquer delas faz parte do grupo das melhores canções pop de sempre.
Há quem prefira a elegância “americana” de “manifesto” e “Flesh and Blood” ou o veludo acetinado de “Avalon”, em que o experimentalismo e o lado mais exageradamente histriónico de Ferry desapareceram, para dar lugar ao registo de “crooner” sofisticado e eternamente apaixonado.
Seja qual for a preferência de cada um, “The Thrill of It All” contém matéria de sobra para satisfazer todos os gostos. É como estar presente em todos os momentos do longo “cocktail” em que Bryan “Casanova” Ferry se confundiu aos poucos com a sua imagem. As portas do cinema Roxy continuam abertas. Sinta de perto “the thrill of it all”. Para seu prazer.