Arquivo mensal: Maio 2016

John Kirkpatrick – “A Short History of John Kirkpatrick”

Pop Rock

18 de Janeiro de 1995
álbuns world
reedições

John Kirkpatrick
A Short History of John Kirkpatrick

TOPIC, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


jk

Não é possível fazer a história da música folk em Inglaterra sem dedicar pelo menos um capítulo inteiro a John Kirkpatrick. Esteve em Portugal na Festa do Avante, juntamente com outro mago, Martin Carthy, mas perderam-se ambos na confusão vermelha. Com Ashley Hutchings, é um dos responsáveis pela recuperação e modernização da “morris dancing” inglesa de origem ritual e secular. Mas enquanto o primeiro optou pela electrificação e por recriar as danças “morris” pela via do rock, simplificando e amplificando sobretudo a sua vertente rítmica, Kirkpatrick valorizou sempre a interpretação acústica e a preservação das cadências originais e dos timbres dos seus instrumentos mais característicos, como a concertina, o acordeão e o “melodeon” – nos quais é um reconhecido “virtuose”. Atitude que ficou exemplarmente demonstrada no álbum “Plain Capers”, uma recolha de “morris tunes” da tradição de Cotswold, com distribuição portuguesa.
Nesta história, necessariamente abreviada, chama-se a atenção sobretudo para os temas retirados dos álbuns que gravou nos anos 70 para a Topic com Sue Harris, todos eles indispensáveis e até agora apenas disponíveis em vinilo: “Shreds and Patches”, “Facing the Music” e “Stolen Ground”, este último uma obra-prima absoluta da folk britânica. Vocalizações primorosas, fruto de um labor e saber fundamentados, tanto de Kirkpatrick como de Harris, juntam a sofisticação ao típico recorte rural e ombreiam com prestações de antologia, do homem das “squeeze boxes” bem como da sua mulher, no saltério e no oboé.
Quem quiser explorar e aprofundar a música de John Kirkpatrick tem ainda à sua disposição, em Portugal, bem entendido, e dentro de uma perspectiva generalista, as obras “The Complete Brass Monkey” e “See How it Runs”, pela banda do mesmo nome, “Morris on”, um dos projectos mais bem sucedidos de Ashley Hutchings (de quem aliás acabou de ser reeditado e distribuído no nosso país o álbum “Kicking up the Sawdust”, uma desilusão em comparação com outros trabalhos seus), e a banda-sonora de uma produção teatral de Flora Thompson, “Larkrise to Candleford”, pelos Albion Band. Para um contacto mais íntimo com os segredos da “morris” será, contudo, preferível procurar na discografia a solo do músico o já citado “Plain Capers” ou o recente, e esperamos que em breve recenseado nesta página, “Earthling”. (10)



Alan Stivell – “Telen Geltiek” + “Reflets” + “Renaissance de l’Harpe Celtique” + “Alan Stivell à l’Olympia” + “Chemins de Terre” + “E Landonned” + “Trema’n’Inis” + “Terre des Vivants” + “Before Landing” + “Un Dewezh ‘Barzh Ger (Journée à La Maison)” + “Symphonie Celtique – Tir Na Nog” + “Legende” + “Harpes du Nouvel Age” + “The Mist of Avalon” + “Again”

Pop Rock

10 de Maio de 1995
álbuns world

Caminhos de Terra

ALAN STIVELL
Telen Geltiek (5); Reflets (6); Renaissance de l’Harpe Celtique (7); Alan Stivell à l’Olympia (7); Chemins de Terre (8); E Landonned (8); Trema’n’Inis (5); Terre des Vivants (5); Before Landing (8); Un Dewezh ‘Barzh Ger (Journée à La Maison) (6); Symphonie Celtique – Tir Na Nog (10); Legende (6); Harpes du Nouvel Age (7); The Mist of Avalon (3); Again (6)

Dreyfus, distri. Megamúsica


as

Reposta na sua totalidade pela Dreyfus, a discografia de Alan Stivell, personalidade por vezes polémica – à qual se deve a recuperação e divulgação da harpa céltica na Bretanha, bem como o lançamento das bases da música de fusão da tradição bretã com outras culturas tradicionais, de raiz celta ou não, e o rock -, varia entre o sofrível e o imprescindível. A primeira fase é a da divulgação da harpa céltica (“Telenn geltiek”, em bretão), do empenhamento político, da reconstrução da alma da ancestral Bretanha, do desenterrar dos seus mitos e da sua música, empunhando a língua como arma.
Mais do que “Reflets” e “Telenn Geltiek”, este um registo histórico, embora incipiente, de 1965, “Renaissance de l’Harpe Celtique”, com a sua longa “suite” “Gaeltacht”, é um manifesto poderoso de coerente que na época chegou a fazer algum furor nos círculos folk mais abertos do continente. O espectáculo ao vivo no Olympia – transmitido há muitos anos pela RTP – coincide com o período de euforia, constituindo a sua mistura vibrante da bombarda, da gaita-de-foles e da harpa bretãs com a guitarra e o baixo eléctricos uma novidade explosiva. “Chemins de Terre” é o álbum folk rock por excelência, o disco dos “an dros” eléctricos que atirou definitivamente a música da Bretanha para as bocas do mundo. É também aquele onde se concentrou uma formação forte de sempre, na qual pontificavam os decibéis guitarrísticos de Dan Ar Braz, a contrastarem com a postura e sensibilidade acústicas de Gabriel Yacoub, que sairia do grupo para formar uma das lendas da folk francesa, os Malicorne. Por esta altura o harpista (e não só; Stivell sempre acumulou no “tin whistle”, gaita-de-foles escocesa e bombarda) já se impregnara da mitologia celta e das suas imprecisas origens, lançando-se na teorização de uma comunidade celta universal que empurraria o mundo de novo para o paraíso. “E Landonned” baixa o tom rockeiro do seu antecessor, sendo um dos álbuns mais conseguidos do bardo, só ultrapassado pelo colosso que é a célebre sinfonia céltica. Dezenas de músicos provenientes das mais diversas origens, a utilização de várias linguagens planetárias, do sânscrito a dialectos africanos, uma visão globalizante da música fazem desta longa “suite” (no original, um duplo álbum) coral e instrumental um dos pilares da música folk de sempre e uma das suas fusões mais conseguidas, como se o planeta inteiro cantasse a sua universalidade e as suas diferenças num hino cósmico destinado a ser ouvido pelas estrelas.
Na vertente mais desvairada mas também piegas desta cosmovisão está “Terre des Vivants”, uma tentativa de fazer pop electrónica, por vezes quase industrial, onde a ânsia de modernidade não encontra correspondência musical à altura. Do lado literário, com a inclusão de uma longa tirada declamada, está “Trema’n’Inis” (“Em direcção à Ilha”, o tal paraíso perdido, Tir Nan Aog).
“Before Landing” regressa ao rock com eficácia e sem fugir ao bom gosto, coisa que Stivell nem sempre conseguiu. O álbum tem um trunfo: a presença do violinista inglês, na altura ainda nos Fairport Convention, Dave Swarbrick. Em “Un Dewezh ‘Barzh Ger” assiste-se à aproximação da Bretanha com a música indiana e ao tipo de folclorite da qual Loreena McKennitt é hoje uma das porta-vozes.
O incaracterístico “Legende” antecipa o regresso às origens de total dedicação à harpa, mas agora nas tonalidades new age de “Harpes du Nouvel Âge”, apresentadas pelo músico nos mais diversos contextos, desde a música antiga à improvisação e à música contemporânea, para tal utilizando tanto o velho modelo acústico do seu pai, como uma variante electroacústica. Depois de “The Mist of Avalon” – a senilidade total, o misticismo de pacotilha, o choradinho pseudocósmico – Stivell emendou a mão e refez, sem grandes concessões, alguns temas antigos, em “Again”. Mesmo se o futuro é incerto, o homem merece respeito.



Incredible String Band – “Wee Tam and The Big Huge” + “Changing Horses” + “I Looked Up”

Pop Rock

18 de Janeiro de 1995
álbuns world
reedições

Quando a música era um brinquedo

INCREDIBLE STRING BAND
Wee Tam and The Big Huge (8)
Changing Horses (6)
I Looked Up (7)

Hannibal, import. MVM


isb

Incredible String Band: o maior espectáculo do universo. O circo dos circos do movimento “hippie” e dos anos 70. Os inventores da folk psicadélica. Surrealistas, ecologistas, consumidores desregrados de erva mais um acidozito de vez em quando, multinstrumentistas até ao absurdo (há discos onde Robin Williamson e Mike Heron tocam, cada um à sua conta, mais de vinte instrumentos), folclóricos, contadores de histórias, pioneiros da world music, tudo isto foram os Incredible String Band, uma banda a que o tempo fez justiça e cuja influência hoje muitos reivindicam (a propósito, Mick Jagger era um dos seus fãs incondicionais e, já nessa época, os Dr. Strangely Strange uma cópia bastante convincente).
“Wee Tam and The Big Huge” repõe a versão original unificada, um duplo álbum, que posteriormente fora reeditado, tanto em vinilo como em compacto, na forma de dois discos separados, “Wee Tam” e “The Big Huge”, pela Elektra. Álbum brilhante, ao nível de “The Hangman’s Beautiful Daughter” (já recenseado no Pop Rock), a banda sonora “Be Glad for the Song Hás no Ending” ou, na fase da Island, “Liquid Acrobat as Regards the Air”, de canções sem tempo que juntam as alucinações psicadélicas com simbologia mitológica, histórias infantis e imagens de uma “Velha Albion” idealizada, com gnomos, duendes, unicórnios e feiticeiros a dançarem em prados verdejantes e castelos, numa nuvem de sonhos. O tema de entrada, “Job’s tears”, dá de imediato acesso a um outro mundo. Como no universo poético de Tolkien, sai-se do outro lado diferente. Com a fantasia entrelaçada à realidade. As vozes… aquelas vozes…
“Changing Horses” é o álbum mais fraco de toda a discografia da banda, muito por culpa do tema final, “Creation”, 16 minutos de declamação poética (faceta que Robin Williamson, já com o seu estatuto de bardo da harpa, não dispensou, em discos com a sua Merry Band), onde estão presentes todos os lugares-comuns da ideologia “hippie”, acompanhados por uma instrumentação exótica, neste caso reduzida a mero adereço. No primeiro lado (ah, estes termos do passado que não nos largam a memória!…), três temas ao melhor nível dos ISB: “Dust be diamonds” (kazoos, guitarras acústicas “folky”, harmonias vocais – com as duas meninas do grupo, Rose Simpson e Licorice, no seu papel de falsas ingénuas – sem lógica visível, as entoações escocesas de Robin conferindo às palavras ressonâncias de fazer crescer água na boca, teatro, pura magia), “Sleepers, awake!”, harmonização a quatro vozes “a capella”, no mais genuíno espírito folk de um projecto como “Morris on”, de Ashley Hutchings, e “Mr. & Mrs.”, uma balada sem centro de gravidade fixo, onde as vozes disparam em várias direcções num êxtase lisérgico em que a música se transforma num brinquedo.
“I Looked Up” inclui quatro composições de Mike Heron, entre as quais “Black Jack Davy”, que seria repescado anos mais tarde em “Earthspan”, contra apenas duas, as mais rebuscadas e teatrais, de Robin Williamson: “Pictures in a mirror”, um piano dissonante e uma vocalização indescritível (Syd Barrett encontra um fantoche de Jim Morrison e os Genesis dos outro lado do espelho), numa história de loucos contada por um louco, e “When you find out you are”, onde aos seus inconfundíveis trejeitos vocais contrapõe Licorice uma voz mais infantil do que nunca. Algo se perdeu na música popular nas últimas duas décadas. Algo que existia na música feliz dos Incredible String Band.