Arquivo mensal: Fevereiro 2016

Quadrilha – “Até O Diabo Se Ria”

Pop Rock

5 de Julho de 1995
álbuns portugueses

Quadrilha
Até o Diabo se Ria

EDI. E DISTRI. POLYGRAM


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Os Quadrilha são uma banda de pop-folk sem grandes pretensões que nos últimos tempos tem andado um pouco à sombra dos Romanças, com quem aliás partilham o palco todos os fins-de-semana na Taverna dos Trovadores, em Sintra. À semelhança do anterior, embora a evolução seja evidente, há uma ligeireza no som e nos arranjos que impede de arrumar os Quadrilha ao lado de grupos com um trabalho em profundidade, como os Vai de Roda, Brigada Victor Jara ou até mesmo dos recentes Realejo.
A presença do sintetizador, não sendo por si só um defeito, acaba por pecar pela utilização que dele se faz, insistindo-se na tónica das cordas sintéticas, que confere à música uma irremediável som de “variedades”. Depois há vícios de base, numa certa concepção de como deve soar a música para parecer de “inspiração tradicional”. Depois há o terrível anátema da Irlanda, e nisto os Quadrilha morderam o isco. A mistura, forçada, das esmeraldas com o tintol é difícil dar bons resultados.
Há melodias engraçadas, arejadas, mas que soam sempre um bocado na senda dos Romanças. Se pensarmos que os Romanças não são eles próprios um grupo que possamos considerar “pesado”, o que dizer dos Quadrilha, senão que ainda não descobriram o seu centro de gravidade? (5)



No Noise Reduction – “The Complete No Noise Reduction” + Vítor Rua E Os Ressoadores – “Scratch”

Pop Rock

21 de Junho de 1995
álbuns poprock

AVARIAS

NO NOISE REDUCTION
The Complete No Noise Reduction (8)
Moneyland, distri. Música Alternativa


nnr

VITOR RUA E OS RESSOADORES
Scratch (7)
Ed. e distri. Ananana


vr

Dois conceitos alternativos para a música portuguesa. Os No Noise Reduction, de Rafael Toral e Paulo Feliciano, partem da compreensão do ruído, qualquer ruído, como célula ou tecido musical, transformado em música através de processo que podem passar pela simples recontextualização das fontes sonoras, como um leitor de CD ou vinilo riscado (ex: o som de um aspirador deixa de ser simplesmente o som de um aspirador se for colocado numa situação conceptual deslocada da sua esfera natural), ou por formas de tratamento sonoro efectuadas “a posteriori” (filtragens electrónicas, samplagens, “cut-up”). Deste tipo de operações resultaram 46 segmentos sónicos que podem ser encarados como uma espécie de “ready-mades” (objectos reinventados ou despojados das suas funções originais, apresentados como obras de arte) musicais que tanto podem incluir o processamento de fontes musicais simples, como a voz ou uma guitarra eléctrica, como agruparem-se em construções/montagens complexas e de sintaxe mais elaborada, em peças como “Stewart mix”. “Everyone else’s universe” ou “The Incredible Marvin”, que poderemos designar de canções, numa estética bastante próxima dos Negativland. Um acto de risco que começou por ser assumido há alguns anos, com a participação na colectânea “Em Tempo Real” (cujas canções estão aqui todas incluídas), e agora se desenrola na sua máxima extensão. De forma coerente e – algo que vai faltando ao meio – criativa.
O risco está de igual modo presente no compacto de Vítor Rua com os Ressoadores. Neste caso sobrelevam os conceitos de manipulação e aleatoriedade. O instrumentista dos Telectu preparou previamente instrumentos e situações musicais que depois colocou na mão dos seus “discípulos”, criando deste modo acções de interactividade entre uma base pré-programada e a “execução” – de níveis técnicos bastante díspares – em tempo real dos vários participantes, tornados extensões de Rua, ao mesmo tempo manipuláveis mas apesar de tudo com uma margem de liberdade descoberta no próprio instante do contacto. Sequências repetitivas, pequenas gravuras ambientais, cacofonias sem lógica perceptível e explorações tímbricas várias, sobretudo da guitarra, alinham-se num discurso cuja unidade advém dessa espécie de caos organizado que o anima.





More República Masónica – “Blow Your Mind”

Pop Rock

7 de Junho de 1995
álbuns portugueses

More República Masónica
Blow Your Mind

ED. NUMÉRICA


mrm

“Give me the seeds of your insanity” cantam os MRM no tratamento inicial de electrochoques de “Mad river”, sob a sombra ameaçadora de um “riff” que poderia ser dos Led Zeppelin ou dos MC5. É só rock and roll, cantado em inglês, com um pé nos anos 70 e outro nos 90, uma explosão da consciência, através da “meditação supersónica”, “recomendado”, pelo grupo, aos pacientes, “quando se verifiquem sintomas de perda de conhecimento originados pela síndrome pós-seattleano”. Não é remédio santo nem os quatro elementos do grupo se levam a si próprios muito a sério, quando vestem a pele de um “Soul preacher” cheio de veneno e vazio de moral ou se sujam na sonoridade de garagem de “Butt”. “Everyday’s blues”, um dos temas mais conseguidos do disco, trepa pelas costas do psicadelismo, ou da ideia que os MRM têm do psicadelismo, e desce ressacado pelo outro lado. Ziggy Stardust regressa com grau máximo de acidez em “I’m free” e “Man out of me” não destoaria numa estação de pesados FM. A história dos More República escreve-se sobre um novelo de passados desencontrados do rock anglo-americano das últimas duas décadas, volta a cara às correntes dominantes, faz paródia com elas e segue a correr sobre os “riffs” da guitarra e do baixo para um lugar que, se calhar, nem eles sabem onde fica, onde a regra é a distorção, o refúgio, o ruído (“Rev.jam”) e os alvos a alienação (“Tunnelvision”, outro dos instantes fortes de “Blow Your Mind”) e a pulverização de referências. Se a verdade, como eles dizem em “Too much reality”, está “na cabeça” e a realidade “é demasiado rápida”, o que é que se pode fazer? Estourar a cabeça! (7)