Arquivo mensal: Fevereiro 2016

UHF – “Cheio”

POP ROCK

17 de Maio de 1995

álbuns portugueses

UHF
Cheio

ED. E DISTRI. BMG ARIOLA

É impossível não sentir simpatia pelo tio “Manel” Ribeiro. António Manuel Ribeiro (AMR) e os UHF são a face mal barbeada da pop nacional, a “outra banda” de frequências que dão choque, o rock que não tem vergonha de o ser, na contracorrente dos maneirismos que vão grassando por cá. “Cheio” é um testemunho de uma carreira, recuperada para as gerações mais novas, que adoptaram o grupo a partir da versão de “Menina estás à janela”. Temas do álbum “Santa Loucura”, “Comédia Humana” e “Estou de Passagem”, mas também clássicos mais antigos de “À Flor da Pele”, como “Rua do Carmo” e “Rapaz caleidoscópio” ou o “single” “Cavalos de corrida” foram regravados de maneira a preservar o essencial e, ao mesmo tempo, melhorar outros aspectos, como a própria interpretação, que a passagem dos anos tornou mais madura e tecnicamente segura. “Rua do Carmo” é de certa forma uma excepção, já que sofreu alterações de fundo, baixando de velocidade, tornada uma canção que interioriza um lugar massacrado, também ele objecto de transformações, algumas “contra natura”, ao longo dos anos. Depois, há os inéditos – cinco -, onde o grupo e, em particular, AMR continuam à dentada, “cheios” “desta estupidez de ser português estendendo a mão (…), desta hipocrisia que faz romaria, hinos da nação”. “Quero um ‘whisky’” representa o lado existencialista do homem aprisionado na sua condição de artista, com uma linha de órgão descaradamente inspirada nos Doors. “Toca-me” é uma típica balada de amor, na sequência de outras assinadas pelo vocalista, que não traz nada de original. “Por ti e por nós dois” tem um refrão fortíssimo. “Desolhados”, sobre os famigerados arrumadores, “como ‘zombies’ a penar num dia merdoso”, faz a denúncia dos estragos causados pela utilização das drogas duras. Por último, “Caçada” não adianta nada ao passado, nem acrescenta novas pistas para o futuro. Mas não é isso que faz dos UHF uma instituição? (6)



Perve – “Segmentos”

POP ROCK

17 de Maio de 1995

álbuns portugueses

Perve
Segmentos

ED. E DISTRI. MOVIEPLAY


perve

Está a despontar em Portugal uma geração de músicos que aposta em sair dos esquemas de produção habituais. Como acontece com os U-Nu, o projecto dos Perve demonstra, em primeiro lugar, a existência de uma cultura musical sólida dos seus elementos. Percebe-se que ouviram e assimilaram sons e referências afastados do “mainstream”, o que neste caso deverá ter passado pela vastíssima sonoteca que constitui o catálogo da Recommended, uma boa escola para um número crescente de músicos nacionais. Estruturada em forma de canções agrupadas em seis “segmentos” – da génese, das percepções, do ébano, da evasão, do silêncio e da experiência -, a música, com ocasional direcção de Nuno Rebelo, decorre de surpresa em surpresa, escapando aos lugares-comuns que por vezes armadilham os caminhos da “vanguarda”. Há aqui a noção de uma música arquitectónica ou de montagem cinematográfica, onde cada elemento de uma canção se ajusta ao todo segundo lógicas por vezes intuitivas, por vezes absurdas, por vezes incompreensíveis, mas sempre fazendo sentido no interior da globalidade de uma obra delineada ao pormenor. Passagens fugazes pela “tecno” (“Quantas vezes, diz-me?”), a paródia (consciente?) à voz de Paulo Bragança (“A mulher néon”) ou uma paragem na música tradicional portuguesa (“Os olhos”) inserem-se numa estratégia geral de transgressão que não dispensa a utilização selectiva do texto e da palavra, como na longa declamação de “Um calafrio”. Infelizmente, o álbum tem um ponto fraco, aquele que em geral vulgariza este género de cenários: as vocalizações do Homem, a personagem enigmática de máscara no rosto que julgamos ser o mentor da banda. As palavras – como em certos filmes portugueses em que os diálogos parecem pertencer ao filme errado – surgem não poucas vezes despropositadas, metidas a martelo, não encaixando no ritmo dos temas, forçando um lugar onde não há lugar para elas. Será que os músicos portugueses ainda têm medo de fazer álbuns totalmente instrumentais? (6)

Ala Dos Namorados – “Por Minha Dama”

POP ROCK

17 de Maio de 1995

álbuns portugueses

Coração Maltez

ALA DOS NAMORADOS
Por Minha Dama (7)

ED. E DISTRI. EMI-VC


an

Faltava, entre o fado e o Quinto Império, um álbum despretensioso e com a beleza simples desta segunda prestação em disco da Ala dos Namorados. Sem grandes preocupações formalistas ou conceptuais, os quatro músicos pintaram uma aguarela que também mergulha nas raízes históricas do país, mas o faz com uma leveza que está ausente noutros projectos de índole semelhante. A voz de contratenor de Nuno Guerreiro paira sobre suaves envolvências que beberam na tradição musical portuguesa, como em “Coração maltês” ou no “cante” de “Alentejo (canção de ida e volta)”, no fado, como em “Fado de cada um”, de Silva Tavares e Frederico de Freitas, que Nuno dedicou a Amália Rodrigues, ou nas marchas populares lisboetas, como na exuberante “História do Zé Passarinho”. As palavras de João Monge constituem uma base poética forte que João Gil e Manuel Paulo aproveitam da melhor maneira, sem sobrecarregar as canções com desperdícios, mas valorizando o essencial das linhas melódicas e os característicos desenhos do vocalista. Vibrafones em suspensão, teclados em constantes jogos de luz conferem, por sua vez, a “Por Minha Dama” colorações de uma jazz aquático, de arestas bem limadas, o que acentua ainda mais a impressão de pureza e alguma inocência que são um dos principais atractivos do disco. A par da curiosidade de escutar a forma como a voz de Nuno Guerreiro se experimenta nas regiões mais graves, no balanço swingante de “O dia incerto”. O tema de abertura, “O baile da viela”, promete circular no éter durante muito tempo, saindo directamente de uma tradição que remonta à “Lenda de el-rei D. Sebastião” e à “Balada para Dona Inês”, do Quarteto 1111. Um disco a merecer tempo de repouso e depuração, da casta dos verdadeiros portugueses suaves.