Arquivo mensal: Novembro 2015

Maddy Prior em Concerto: Coimbra, 11 de Março; Lisboa, 12 de Março

Pop Rock

9 MARÇO 1994

ANO DE GRAÇA


mp

Maddy Prior vem cantar de novo a Portugal. Depois de uma primeira actuação, falhada, em 1991, na estreia do Folktejo e de uma rectificação memorável rubricada no ano seguinte no festival Intercéltico do Porto. Os dias 11 e 12 de Março são as datas confirmadas para os concertos da vocalista dos Steeleye Span em Portugal, com organização dos Concertos de Portugal e integrados na digressão europeia da cantora, de promoção ao seu novo disco a solo, “Year”, inspirado nas quatro estações do ano e cujo tema principal foi apresentado pela primeira vez ao vivo no nosso país no referido Intercéltico.
Com uma carreira iniciada em 1968, na companhia de Tim Hart, com quem gravou os dois volumes de “Folk Songs of Olde England” e “Summer Solstice”, Maddy Prior explodiu na cena folk britânica como vocalista dos Steeleye Span, ao lado dos Fairport Convention, uma das bandas responsáveis pelo aparecimento da corrente folk rock em Inglaterra, no início da década de 70. Com os Steeleye Span, por onde passaram os grandes mestres Martin Carthy e Ashley Hutchings, Prior recolheu para o seu currículo obras fundamentais – descontando a estreia, algo incipiente, “Hark! The Village Waits”, e a colaboração com Martin Carthy em “Shearwater”, de 1971 – como “Please To See The King” (considerado “álbum folk do ano”, em 1971, pelo jornal “Melody Maker”, que nessa época apresentava uma secção de música folk), “Ten Man Mop Or Mr. Reservoir Butler Rides Again”, “Below The Salt”, “Parcel Of Rogues” e “Now We Are Six”, de 1974, data a partir da qual os Steeleye Span entraram em decadência irreversível, vivendo hoje à sombra do nome e da fama granjeados no passado.
Com June Tabor, a sua grande “rival” e amiga de sempre, Maddy Prior assinou dois álbuns de antologia, sob a designação Silly Sisters: “Silly Sisters”, de 1976, e, doze anos volvidos, a obra-prima “No More To The Dance”. A partir de 1987, Maddy Prior passou a integrar um projecto denominado The Carnival Band, que faz a aproximação da folk inglesa com a música antiga, medieval e renascentista. Desta banda foram editados até à data os álbuns “A Tapestry Of Carols” (dedicado às canções de Natal da tradição inglesa, bem como de outras regiões da Europa céltica), “Sing Lustilly And With Good Courage” e “Carols & Capers”, de novo subordinado à temática do Natal.
Esta dispersão de talento é, de resto, parte intrínseca da sua personalidade, expressa numa bisca constante de novas fórmulas e formatos adequáveis a sua voz. “A variedade é algo por que luto e que representa o meu próprio eu”, declarou Maddy um dia. “Gostaria de não ter tido tanto medo no início. Devia ter tentado mais coisas, ter-me atrevido e arriscar. Procurem-me daqui a outros vinte anos e provavelmente direi que deveria ter arriscado mais agora!…”
A solo, onde paradoxalmente a cantora obteve até agora resultados artísticos menos interessantes, Maddy Prior gravou “Woman In The Wings”, “Changing Winds”, ambos de 1978 – o mesmo ano em que emprestou a sua voz ao duplo álbum de Mike Oldfield, “Incantantions” –, “Hooked On Winning” e “Happy Families”, este de parceria com o seu actual marido e membros dos Steeleye Span, Rick Kemp. O novo “Year” veio inverter esta tendência.

11 DE MARÇO, CASA DA CULTURA, COIMBRA, 22H
12 DE MARÇO, TEATRO S. LUIZ, LISBOA, 22H



The Residents – “Gingerbread Man”

Pop Rock

7 de Dezembro de 1994
ÁLBUNS POPROCK

The Residents
Gingerbread Man

Euro Ralph, import. Simbiosis


residents

Globos oculares de fraque observam uma miúda incauta e inocente. A miúda tem nas mãos o, adivinha-se, temível homem de bolo de gengibre. A luz é vermelha. Eis-nos de novo instalados universo de pesadelos tecnopsicadélicos dos Residents, a banda mais insólita de sempre da música popular. Nos últimos anos e nos últimos discos, os Residents criaram um estilo definido, uma espécie de classicismo electrónico construído sobre melopeias fonéticas (Imagem de marca do grupo) e melódicas, e ritmos sintéticos quase sempre primários onde são os timbres e as subtis alterações de tempo a estabelecerem a diferença e o ambiente característico.
“Gingerbread Man” segue um modelo idêntico ao anterior “Freak Show”, em canções que exploram uma galeria de personagens exóticas, para não dizer monstruosas, em suspensão numa “bad trip” provocada por ácido de má qualidade. Cada tema inicia-se com um motivo melódico que se repete ao longo de todo o disco, com arranjos diferentes, para em seguida o comboio-fantasma mostrar as taras de aberrações, como o azeiteiro moribundo, o transexual confuso, o artista de sucesso, o asceta, o velho soldado, o músico envelhecido ou o talhante. Dir-se-ia que todos eles eram saídos de um filme de terror de Tobe Hooper, derivando musicalmente para regiões que apenas têm paralelo na própria obras dos Residents.
Música doentia, de uma beleza que envenena a alma e polui os sentidos, “Gingerbread Man” mostra igualmente o lado oculto de uma América em estado de paranóia e, em chicotadas de um humor mais que negro, as regras viciadas de uma sociedade em decomposição. Na contracapa, num texto ambíguo, como tudo da lavra dos Residents, é a memória da música rock que é ligada em inversão de marcha e as estratégias da indústria discográfica que são expostas e desmontadas pelo absurdo. “Sweets for my sweet, sugar for my honey” – e é todo um mundo que desaba. (7)



Dead Can Dance – “Toward The Within”

Pop Rock

7 de Dezembro de 1994
ÁLBUNS POPROCK

Dead Can Dance
Toward The Within

4AD, distri. MVM


dcd

Um disco ao vivo dos Dead Can Dance não parece muito apropriado. Mas é o que acontece em “Toward the Within”, gravado este ano no Mayfir Theatre, em Santa Mónica, na Califórnia. A primeira conclusão a tirar é que ou os Dead Can Dance estão a tocar como gente grande ou o engenheiro Guy Charbonneau teve uma trabalheira para fazer a coisa soar como um disco de estúdio. Seja como for, os Dead Can Dance estão cada vez mais étnicos e góticos. E chiques. Lisa Gerrard canta a preceito nos temas “étnicos”. “A capella” em “Persian love song”, como estivesse no túmulo, no tradicional irlandês “The wind that shakes the barley”, demoníaca, qual uma Diamanda Galas indiana, em “Cantara”, mostrando que andou a ouvir as grandes vozes da “antiga”, no tradicional catalão do séc. XVI, “Song of the sibyl” (de que recordamos a exponencial interpretação de Monserrat Figueras com os Hesperion XX), soleníssima em “Tristan”, magnífica e trágica em “Sanvean”. Brendan Perry vocaliza em esforço as canções mais convencionais, como o ultragótico “I am stretched on your grave”, “I can see now” (um “American dreaming” certamente composto em homenagem ao local da digressão) e o tema final “Don’t fade away”. Nos temas exóticos, surpreende a ousadia com que imita certas técnicas vocais árabes, em “Rakim”. “Yulunga” é um cântico tétrico, na linha do que fizeram os SPK em “Zamia Lehmani”, e um sinal de que a luz que ilumina os Dead Can Dance, por muito religiosa que a sua música aparente ser, está longe de ser a do sol. (6)