Arquivo mensal: Novembro 2015

Vários Artistas – “Beat the Retreat”

Pop Rock

16 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Vários Artistas
Beat the Retreat

Capitol, distri. Warner Music


bt

Não se põe a questão se Richard Thompson merece ou não merece que lhe façam o disco de homenagem da praxe. Aliás, dois discos, já que existe outro, provavelmente até mais interessante do que este, em que os homenageadores provêm na totalidade da área da folk. O homem tem, não há dúvida, currículo – andou pelos Fairport Convention, conviveu com Fred Frith, casou-se e gravou belos discos com Linda Thompson – e fama de pessimista clínico. Mas, à excepção de um genial e trágico “I Want to See the Bright Lights Tonight”, a mais bem sucedida parceria com a então sua mulher Linda Thompson, com quem formou os Sour Grapes, e de “InStrict Tempo”, a solo, um fabuloso exercício de estilo na guitarra e instrumentos derivados, que me perdoem os seus indefectíveis, a música de Richard Thompson há muito cristalizou numa série de clichés, aos quais muita gente eufemisticamente chama “estilo”. Com uma ou outra variação de humor, um ou outro arranjo diferente, as canções de Richard Thompson não primam pela excelência e muito menos pelo arrojo formal. O autocolante “folk rock”, etiqueta que ajudou a criar, permanece colada à sua guitarra e a voz tem, é certo, a dose q.b. do “charme” de um “crooner” vagabundo a quem os anos afiaram o discurso e a visão. Mas “Beat the Retreat”, lamento mais uma vez dizê-lo, é vulgar. Como – perguntariam, se tivessem começado a ler este texto pelo fim –, se nele aparecem nomes como os X, R.E.M., Syd Straw com Evan Dando, Dinosaur Jr., June Tabor, Graham Parker, David Byrne, Beausoleil, Shawn Colvin com Loudon Wainwright III, Five Blind Boys of Alabama ou Maddy Prior com Martin Carthy, entre outros? Mas sim, o impossível acontece e a culpa é das canções que não dão para faer muitas flores. No meio do rock acidulado dos X (“Shoot out the lights”) e dos Dinosaur Jr. (“I misunderstood”), apropriações previsíveis do lado rockeiro de Thompson, destacam-se pela negativa os Los Lobos, que despojaram completamente da sua identidade trágica o magistral “Down where the drunkards roll” (um dos temas mais negros e de carga religiosa mais forte de “I Want to See the Bright Lights Tonight”), e, pela diferença, June Tabor, que transformou o balanço de “Genesis hall” (de “What We did on our Holidays”, obra antiga dos Fairport Convention, ainda com Sandy Denny) numa vocalização “a capella”. Maddy Prior, acompanhada pela guitarra de Martin Carthy, confere por seu lado um cunho pessoal a “The great Valerio”, um tema fantasmagórico de “Hokey Pokey”, outro dos bons álbuns do casal Thompson. (5)



Lisa Germano – “Geek The Girl”

Pop Rock

16 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

JÓIAS NO FUNDO DO POÇO

LISA GERMANO
Geek the Girl
(9)
4AD, distri. MVM


lg

“Happiness”, o anterior álbum da cantora, editado já este ano, tem quanto a nós lugar assegurado na lista dos melhores de 1994. O novo “Geek the Girl” recupera a mesma fórmula, eliminando os (poucos) pontos menos conseguidos do seu antecessor, concretamente certas inflexões acústicas na balada “country” que, funcionando com intervalos de pausa, provocavam contudo uma quebra de intensidade emocional (e eléctrica) prevalecente. “Geek the Girl” depura esse e outros aspectos de “Happines”. Musicalmente, o álbum pauta-se por uma toada de transe, por uma vibração perturbante de dolência magoada de alguém que se refugiou num mundo ao mesmo tempo perverso e infantil, um mundo a fingir introduzido logo de início pela melodia ao estilo carrocel-mágico de “My secret reason”, em que os medos se transformam em bonecos de brinquedo e os tabus são trucidados pelas rodas de um comboio eléctrico. Numa canção como “Câncer for everything” ou no instrumental “Phantom love”, o mesmo tipo de vibração, hipnótica e arrastada, mas agora mais complexa e ornamentada, que os Velvet Undergound inauguraram no álbum da banana no tema “Venus in furs”.
O sexo, o sentimento de culpa, a fragilidade emocional aliada a uma lucidez extrema servem de novo a Lisa Germano para desnudar o seu universo interior de mulher ferida. Suspeita-se de que com algum artificialismo, ao lado de uma dose bem medida de teatro, de tal forma os diversos quadros mentais e emocionais são burilados ao pormenor. Neste aspecto, “Geek the Girl” vai ainda mais longe do que “Happiness”, retocando melodias que ainda ecoam do disco anterior, acentuando cada imagem com uma variedade maior de cores e tonalidade (um dos temas tem por título, precisamente, “…Of love and colors…”). Também como em “Happiness” não faltam as “punch lines” poéticas e as quase lengalengas em constante transmutação interior, que colocam o auditor num estado de total dependência, aqui representadas por “Sexy little girl princess” ou o tema final, “Stars”, que se diria arrancado da mesma galáxia onde orbita Lou Reed. A história de “Geek the Girl” é a “história de uma rapariga que se sente confusa sobre como ser, ao mesmo tempo, sexual e controlada neste mundo, mas que afinal chega à conclusão de que não é controlada e constantemente abusam dela sexualmente, fica como que doente e tem tendência para desistir e, apesar de tudo, tenta acreditar em qualquer coisa maravilhosa e sonha em amar um homem, na esperança de que este a salve da sua vida de merda”. Uma história triste, que Lisa Germano termina com uma gargalhada cruel e sem esperança: “Ah, ah, ah, que traste!” (“geek”). Um álbum escuro, húmido e fundo como um poço. (9)



Yello – “Zebra”

Pop Rock

2 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Yello
Zebra

Mercury, distri. Polygram


yello

Dieter Meier e Boris Blank, os dois suíços cosmopolitas que, se não fossem os Kraftwerk, ostentariam o título de reis dos “dance floors” da Europa e dos Estados Unidos (quer dizer, de Nova Iorque), dedicaram-se, a partir sobretudo do álbum anterior, “Baby”, a servir em exclusivo de matéria para consumo nas pistas de dança. A aura de excentricidade que caracterizava álbuns desconcertantes como “Claro que Si” e o magnífico “You Gotta say Yes to another Excess”, ficou pelo caminho. Sem dúvida, os Yello são mestres no domínio da tecnologia e ainda não se esqueceram como polvilhar uma canção com as fragrâncias de um exotismo perdido, como acontece aqui com o tema final “Poom shanka”, mas é uma gota de água no oceano dos ritmos sintéticos. Em “Suite 909” os Yello fazem questão de mostrar que estão na dianteira da vaga “tecno”. Ou seja, vão na carruagem da frente mas deixaram de ser a locomotiva, de inovadores passaram a andar a reboque das tendências da moda. A “ambient house” faz de igual modo parte das actuais preocupações do grupo que, num gesto desesperado para não perder o contacto com os indefectíveis do passado, recorre às vocalizações de “crooner” do costume de Meier e à proliferação de sons samplados de Blank, sem esquecer as referências a Glenn Miller ou ao “rhythm divine” que Shirley Bassey tornou deslumbrante no álbum “One Second”. Entre a cedência incansável dos ritmos, salientam-se os saxofones samplados de “How how”, que trazem uma nota de diferença para um álbum demasiado obcecado com a funcionalidade. (6)