Arquivo mensal: Maio 2015

Narada: A Era Do Vazio

Pop Rock

13 MAIO 1992

NARADA: A ERA DO VAZIO

Narada é o nome de uma editora de música “Nova Idade”, a partir de agora distribuída entre nós. A maior parte do catálogo dá sono, mas há um ou dois títulos que valem a pena.

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“New age”, “nova idade”, o paraíso, enfim, que nos acena. O conceito surgiu na América, em meados dos anos 80, com editoras como a Coda e Windham Hill. NO início, os artistas intervenientes eram rapaziada e raparigada como Rick Wakeman (dos Yes), Tom Newman (produtor de Mike Oldfield) ou Claire Hammill, veteranos de outras batalhas, em fase de reciclagem, à procura de relançamento e de novas formas de sustento. Ficaram para trás. Vingança: a “nova idade”, aprendida nos manuais de astrologia, abria-lhes as portas.
Houve quem aderisse. Era a promessa do “novo” que fazia luzir mil olhinhos cansados das violências e desacatos do rock, traduzida numa música bonitinha, inofensiva, ideal para “relaxar” e “fazer sonhar”, sobretudo os executivos para quem a coca acabou por não se revelar a panaceia universal.
A indústria chamou “adult alternative music” à coisa. Muitos, por comodismo, deixaram-se cair no logro. É pena, porque de facto há uma nova idade que desponta. Assim, pela via da normalização e da facilidade, “slogans” como “não destruam a floresta amazónica” têm a força de um “não comam chocolate porque faz mal ao fígado”.
A Narada – que passou a ter distribuição nacional através da discoteca Roma – é mais uma entre dezenas de editoras “new age” (como a Private Music, Higher Octave, Miramar, Silver Wave, Soundings of the Planet, Sonic Atmospheres, Golden Gate, Astromusic, e outras tantas manifestações de “kitsch” cósmico, onde não cabe a Hearts of Space, que mistura um bocado as coisas e inclui no seu catálogo obras de Robert Rich ou Steve Roach, que pouco ou nada têm a ver com a restante mediocridade), com a diferença de, sabe-se lá porque misteriosas conjunções astrais, ter vendido no ano passado mais que a concorrência.

Passagem indolor

No seio da Narada, os discos dividem-se em três categorias principais: Narada Equinox, para as “fusões de influências variadas, pop, rock, jazz, étnica e folk incluídas”; Narada Lótus para a “música acústica cuidadosamente embalada”; e Narada Mystique para a “nova música de raiz electrónica”.
Os artistas têm nomes estranhos e vagamente apropriados para o género: David Arkenstone, Richard Souther, Ralf Illenberger, Trapezoid e Kostia. Os CD apresentam capas que retratam paisagens idílicas, de aspecto gráfico cuidado, sem esquecer os “booklets” sofisticados repletos de gravuras, simbologia avulsa e longos tratados sobre o vazio.
Os títulos – “Natural States”, “Indian Summer”, “Desert Vision”, “Moon Run”, “White Light”, “New Land”, “Heartsounds”, “After the Rain”, “Valley in the Clouds” – são portentos de imaginação.
E a música? Ouviram-se vários discos: “Panorama” de Wayne Gratz, “Natural States” e “Return to the Heart” de David Lanz, “Dorian’s Legacy” de Spencer Brewer, o inenarrável dino-meirismo de “Michael’s Music”, de Michael Jones; e dois melhorzitos, talvez porque menos preocupados em soar “new age”: “In the Garden”, de Eric Tingstad e Nancy Rumbel, obra conceptual sobre “jardins”, reais e como metáfora, e “A Childhood Remembered”, em que vários artistas da editora dão uma mãozinha e efabulam sobre a infância perdida. O piano é rei, acolitado pela electrónica, instrumentos de orquestra e uma ou outra concessão ao “étnico”.
Para todos quantos gostam de Richard Clayderman e hesitam em dar o passo em frente, receosos de arriscar, não hesitem e ouçam os discos: a passagem é absolutamente indolor.

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O Lugar Dos Mortos

Pop Rock

8 JANEIRO 1992

O LUGAR DOS MORTOS

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Tem-se insistido muito na tese de que 1991 terá sido um ano negro no que diz respeito à elevada percentagem de passamentos no campo da música rock. Visão pessimista que peca por falta de rigor. As estatísticas não mentem: durante o ano que findou há a contabilizar – e estamos a referir-nos apenas aos dados relativos à Europa – 675.341 artistas vivos (incluindo 388 nacionais) e em actividade, contra 17 mortos (nenhum nacional) com nenhuma ou quase nenhuma actividade. Convenhamos que o balanço é positivo.
1991 não passou afinal de mais um ano como qualquer outro, tendo-se procedido ao cíclico reajustamento de forças. E, depois, há aquele fascínio mórbido dos “media” pela morte, que nos leva a encher páginas de necrologia. Alguém se lembrou de apontar as datas de nascimento das celebridades vindas ao mundo o ano passado? Costuma dizer-se que os heróis, como as árvores, morrem de pé. Não foi bem o caso. Proceda-se então à cronologia dos principais óbitos.

Buck Ram
1 de Janeiro (84 anos)

Morreu velhinho o fundador de uma das bandas mais célebres dos anos 50, os Platters. É o autor de “Only you”, o tema imortal dos namorados, bem como “The great pretender” que Freddy Mercury recuperou no álbum de estreia dos Queen. Bryan Ferry fez o mesmo com “Smoke gets in your eyes”. “Rock around the clock” – nunca mais.

Steve Clark
8 de Janeiro

A ingestão de uma mistura de álcool, morfina e Valium liquidou o guitarrista da banda de heavy metal Def Leppard, que, como quase todas do género, se notabilizou pelo elevado teor decibélico que conseguia produzir. Não há organismo que resista.

Serge Gainsbourg
2 de Março (62)

O PÚBLICO chamou-lhe o “homem com cabeça de couve”, título de um dos seus álbuns. Foi encontrado morto em casa, de morte natural. É pouco provável. Seria o maior paradoxo para quem, como ele, fumava cinco maços de tabaco por dia e que dos suspiros de uma sessão amorosa fez um êxito de vendas, com Jane Birkin, em “Je t’aime, moi non plus”, o disco proibido que todos os adolescentes queriam ouvir. Escreveu canções para Bardot, Gréco, Petula Clark e para a “poupée de cire” France Gall. Contracenou com Joe Dalessandro, um dos “queridos” de Andy Warhol, e poucos anos antes de morrer dirigiu a filha Charlotte, em “Charlotte for ever”, num filme sobre o incesto. Fez da sua vida um escândalo constante e dizia “não pertencer a este mundo”, ele, um “poeta assassinado pela sociedade de consumo” que detestava a lucidez. Por isso Boris Vian gostava dele. A cabeça de couve era por ter as orelhas muito separadas. Serge Gainsbourg foi tudo menos um vegetal.

Doc Pomus & Mort Shuman
29Março (66)/ 2 de Novembro (52)

Formaram durante anos uma parelha inseparável de autores de rhythm’n’blues. Nem a morte conseguiu separar a dupla rival de Leiber & Stoller, com os quais aliás por diversas vezes chegaram a colaborar. Morreram no mesmo ano, ambos vítimas de cancro. São da sua autoria clássicos como “Save the last dance for me” (interpretada pelos Drifters), “Sweets for my sweet” (The Searchers) e “His latest flame” (Elvis Presley). A morte de Pomus motivou Lou Reed, de quem era amigo, para a gravação do recente “Magic and loss”. Quanto a Shuman nem o apelido conseguiu evitar que escrevesse as canções “cor-de-rosa” sopeira que o celebrizavam.

Martin Hannett
18 de Abril (42)

Produtor dos Joy Division, Durutti Column e Cabaret Voltaire. Um dos homens fortes da Factory. Ajudou a criar o som e o estilo depressivos da escola de Manchester e a moda das olheiras e gabardinas negras. Antigo estudante de Química, talvez por isso passou a vida a experimentar os efeitos das mais variadas substâncias alucinogéneas, experiências que não terão servido para aumentar os seus conhecimentos de farmacologia, mas que transformaram a sua vida num inferno. Nunca se libertou do complexo de culpa motivado pela morte, por enforcamento de Ian Curtis, ao qual ficou para sempre ligado desde o trágico “Closer”. Morreu de um ataque cardíaco, durante o sono.

Steve Marriott
20 de Abril (44)

Diz-se que o tabaco pode ser prejudicial à saúde e é verdade. Um cigarro bastou para provocar a morte do antigo vocalista e guitarrista da banda “mod” dos anos 60 Small Faces e, anos mais tarde, dos Humble Pie. Um simples cigarro que incendiou a “cottage” do séc. XVI onde vivia, retirado e de forma pacata, com a esposa. Alguém ainda se lembra de “Tin soldier” e “Lazy Sunday”? Eram os tempos da “Swingin London”, psicadélico e vibrante.

Johnny Thunders
23 de Abril (38)

A morte clássica: “overdose” – provocada pela mistura de cocaína e metadona. O cenário da morte, também clássico: um quarto de hotel, perdido na noite de Nova Orleães. E os rumores, como já acontecera com Jim Morrison, de que teria morrido assassinado ou de ataque cardíaco. Foi dos que levou a imagem mítica do “rock & roll hero” até ao fim. Antes de formar a sua própria banda, Heartbreakers, fez parte das “bonecas” New York Dolls, uma mistura de rock, “punk”, “thrash” e “glamour” que Malcolm McLaren apadrinhou e dos quais viria a nascer o conceito e a bomba Sex Pistols.

Gene Clarck
24 de Maio (49)

Era considerado o compositor mais interessante dos Byrds, inventores, nos anos 60, da country espacial. Os R.E.M., como toda a gente sabe, devem-lhes muito, em particular aquela maneira especial de tocar guitarra, capaz de fazer subir cada um “8 miles high”.

Vince Taylor
27 de Agosto

“Rocker” francês, alucinado e decadente. Viveu no excesso e do excesso, entre a companhia do álcool, os medalhões foleiros, periódicas crises de misticismo e a paranóia. Quis ser uma grande estrela do rock’n’roll. Em França é difícil. Chamaram-lhe o “Satã do Rock”. Costumavam encontrá-lo morto de bêbedo, em caixotes do lixo. “Le rock c’est ça” – cantava. Morreu na Suíça, o país mais limpo do mundo.

Rob Tyner
17 de Setembro (46)

Mais um ataque de coração. O coração dos “rockers” parece ser fraco e, portanto, convém não abusar. Tyner, como tantos outros, não ligou aos conselhos de Fernando Pádua – de levar uma vida regrada – e isso foi-lhe fatal. Embora neste caso a autópsia não revelasse vestígios no organismo das substâncias do costume. Rob Tyner integrou, no início dos anos 70, os MC (Motor City 5), banda de Detroit, precursora do heavy que aliava a linguagem revolucionária à brutalidade sonora, que, em álbuns como “Kick out the Jams” ou “Back in the USA”, provocaram, à época, na América, algyma confusão.

Bill Graham
25 de Outubro (60)

Lendário promotor de concertos. Morreu de uma queda de helicóptero provocada pelo embate com um cabo de electricidade, quando regressava da Califórnia, onde assistira a um espectáculo de Huey Lewis. Promoveu, ao longo dos anos 60 e 70, concertos dos Grateful Dead, Doors, Jefferson Airplane, Jimi Hendrix, Rolling Stones, The Who e Bob Dylan. Criou em São Francisco o célebre Fillmore West e, pouco tempo depois, o Fillmore East, em Manhattan, ambos encerrados em 1971. J+a na década seguinte esteve ligado à organização do Live Aid em Filadélfia e a alguns megaconcertos de apoio à Amnistia Internacional, realizados nos Estados Unidos. Devia ser boa pessoa.

Freddy Mercury
24 de Novembro (45)

Só na véspera da morte o vocalista dos Queen reconheceu publicamente sofrer de sida. Vinte e quatro horas depois, numa noite de domingo, a “rainha” morria como uma sombra de si própria, de uma bronco-pneumonia. Aquela “crazy little thing called love” foi-lhe fatal. A “rapsódia da boémia” – uma vez organizou uma festa com bailarinas nuas, dançando em recipientes cheios de bocado de fígado, e cocaína servida em bandejas de prata, debaixo de fogo-de-artifício – chegava ao fim. Freddie tinha sentido de humor: gostava dos irmãos Marx (dois dos álbuns dos Queen têm por títulos “A Night at the Opera” e “A Day at the Races”) e convidou a “primadonna” Monserrat Caballé para cantarem juntos. Disse um dia que os Queen haviam de ser os Cecil B. de Mille do rock. No último teledisco fazia de louco.



Urban Sax – Os Saxofones do Apocalipse (concerto)

Pop Rock

27 MAIO 1992

OS SAXOFONES DO APOCALIPSE

As Festas da Cidade começam ao ritmo do Fim, do Apocalipse. Com o espectáculo multimédia, no Rossio, dos Urban Sax, agrupamento de saxofones sinfónico-minimal que redimensiona o espaço (arquitectónico e mental) de actuação em teatro cosmológico das cidades em agonia.

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1 de Junho / 22h00 / Rossio

Urban Sax é a projecção cénico-musical de um pesadelo. Em “technicolor”, uma superprodução nascida do cruzamento de Cecil B. de Mille com David Lynch. Os Urban Sax são cerca de meia centena de saxofonistas mascarados, umas vezes mais, outras menos, criadores da sinfonia de Babel. A cidade, com as suas paranóias, os seus gritos, os seus jogos de gente, mais do que palco, é elemento participativo da música e da encenação dos Urban Sax. Eles são a cidade. O maestro presidente da Câmara é Gilbert Artman. Os outros músicos podem ser quem imaginarmos. Figuras abstractas, monstros de forma humana, mutantes envergando escafandros pós-nucleares, ligados entre si por conexões electrónicas que permitem a sincronização e a disseminação dos seus estertores pelo espaço circundante.
No Rossio não se sabe bem como vai ser. Mas pode-se fazer conjecturas a partir da anterior e memorável actuação do grupo, na Central Tejo, em 1987. Haverá músicos espalhados pelos telhados da Praça. Outros surgirão do subsolo. Dois ou três poderão estar mesmo atrás das nossas costas e roçar o nosso medo sem pedir licença para o sobressalto. Fogo de artifício, bombas e sirenes contribuirão para fazer subir o nível de adrenalina e de excitação.
A música é mais previsível: um contínuo abrasivo de saxofones, ora próximo do trovão ora do sussurro de angústia. Um sopro único multiplicado e distribuído por dezenas de vias. Noção de continuidade, de obra intemporal, de uma matriz e de uma torrente sonora sem início nem fim, que a obra em disco testemunha. Uma só peça, obrigada a dividir-se – pela insuficiência temporal da “duração” – por quatro álbuns, qualquer deles imprescindível: “Urban Sax”, “Urban Sax 2”, “Fraction sur le temps” (título elucidativo do que atrás foi dito) e “Spiral”, este último distribuído em Portugal pela Dargil.
Decerto que a actuação dos Urban Sax no Rossio não será menos espectacular do que muitas outras realizadas noutros locais por esse mundo fora: Veneza, em gôndolas e suspensos sobre os canais. Na Expo 86, em Paris, na Bastilha, em Barcelona, em todo o lado, sempre com a força de um circo sobre-humano, sempre perante o espanto e o assombro de dezenas de milhares de pessoas, atraídas pelo insólito da apresentação, pela hipnose do som ou simplesmente pelo abismo.
Gilbert Artman, antigo membro da banda francesa de “free rock”, Lard Free, explica que a intenção e as motivações dos Urban Sax são “a criação de música mecânica, música do mundo moderno”. Saxofone Urbano? “O saxofone reflecte a vida urbana melhor do que qualquer outro instrumento, mas só a multiplicidade combinada com a mobilidade pode captar o quadro inteiro.” Planificação e estudo prévio dos locais onde actuam fazem parte da estratégia dos Urban Sax. Tudo assenta no espaço, num ambiente particular, em que a música se insere de forma harmoniosa, se o termo “harmonia” é lícito neste caso. Os Urban Sax são a voz desse espaço, a tradução amplificada dos resíduos sonoros acumulados pela História e pela poluição no cimento e no metal, parafraseando a ideia de um conto do escritor de ficção científica, J. G. Ballard. Artman organiza esse caos de som residual em sinfonia, ordena mil pequenas ansiedades num grito imenso e maior, potencia o medo em pânico, a fogueira em holocausto, o espectáculo projecta-se, planetário, por dentro do cosmo do inconsciente. Comparados com a orquestração totalitária a quatro dimensões dos Urban Sax, o assalto aos sentidos dos La Fura dels Baus reduz-se ao espalhafato de saltimbancos. Os saxofones e as máscaras dos franceses (devem ser franceses…) atingem-nos mais fundo e de forma mais subtil, subliminar. Nietzsche seria sensível a esta forma de poder.