Arquivo mensal: Maio 2015

Sex Pistols: Xeque Ao Reino (artigo de fundo)

Pop Rock

21 OUTUBRO 1992

“God save the queen: The fascist regime (…) There is no future, in England’s dreaming! No future for you, no future for you, no future for you!”

Sex Pistols, “God save the queen”

XEQUE AO REINO

Há quinze anos, durante as comemorações do “Jubileu”, a anarquia instalou-se no Reino Unido. A bordo do Queen Elizabeth, em pleno rio Tamisa, os Sex Pistols saudavam à sua maneira, com ódio e imprecações, a rainha. Num concerto que simbolizou o destino que já então marcava quantos ousaram rebelar-se: raiva e solidão. No passado sábado o projecto reviveu, com novo passeio previsto pelo rio, a coincidir com a reabertura do parlamento britânico.

sp

Junho, 1977. Uma Inglaterra à beira da histeria preparava-se para celebrar o “Jubileu” de comemoração dos 25 anos passados desde a subida ao trono da rainha Isabel. Os ingleses deixavam-se embalar no sonho depois do Império, não desistindo de deitar cartas na Europa, com um baralho à partida viciado. Junho, 1977, o movimento “punk” atingia o auge e os Sex Pistols, seus principais arautos, preparavam-se para detonar uma bomba, entre as massas hipnotizadas e o banho de “confettis”.
“God save the queen” era o grito de saudação prestes a irromper de milhões de gargantas sequiosas de uma imagem cor-de-rosa que fizesse esquecer o preto e branco da realidade presente. “God save the queen”, repetiam os Sex Pistols, na canção do mesmo nome que, nessa altura, ia tomando os “charts” de assalto. O poder e a imprensa oficial agitavam-se, ligeiramente incomodados. Quem eram estes violadores da ordem estabelecida? Anarquistas? Comunistas? Talvez até membros da National Front mais excitáveis?
Na revista “Noise”, Jacques Attali escrevia então: “Música é profecia. Os seus estilos e economia própria estão à frente do seu tempo porque exploram, muito mais rapidamente que a realidade material, a gama completa de possibilidades contidas num determinado código. A música torna audível o mundo novo, não só as aparências como os seus aspectos essenciais. Por esta razão os músicos são oficialmente considerados perigosos, agitadores e subversivos.” Os Sex Pistols não só eram tudo isto como até se propunham destruir o rock’n’roll. Pior que apelidar o governo de fascista e a rainha de “atrasada mental” – afinal os ingleses sempre foram, até certo ponto, tolerantes –, era alguém atrever-se a gritar que não havia um futuro. Para esta heresia não havia perdão.

Anarquia a bordo

A situação deteriorava-se a um ritmo acelerado. Para o dia 9 de Junho estava previsto um desfile da rainha pelo Tamisa. Malcolm McLaren e os Pistols antecipavam-se o seu para dois dias antes, a 7 de Junho. Uma fita presa à embarcação anunciava: “A rainha Isabel dá as boas-vindas aos Sex Pistols.” “Queen Elizabeth” era o nome do barco.
Segunda-feira, o dia fatídico, chegou finalmente. Sobre o convés do Queen Elizabeth, onde fora montado um palco de ocasião, os Sex Pistols estavam a postos para invectivar o reino de sua majestade e cuspir sobre o mundo a sua ira. Beckton, a Chelsea Bridge, Westminster, os pontos, ao longo do Tamisa, marcados nos roteiros turísticos, passavam a integrar a rota do ódio. A aparelhagem sonora parecia partilhar da tensão reinante e não parava de fazer “feedbacks” que a custo rompiam o “fog” londrino.
No momento em que o barco passava diante do edifício do Parlamento, explodiram as primeiras notas de “Anarchy in the UK”. John Lydon (então Johnny Rotten), Sid Vicious, Steve Jones e Paul Cook, apertados contra a assistência convidada, davam o concerto das suas vidas. “No feelings”, “Pretty vacant”, “I wanna be me”, hinos de uma geração frustrada e à beira do abismo, anunciavam o fim de qualquer coisa sem que se pudesse adivinhar uma saída. “No future! No future! No future!”
As lanchas da polícia estavam a caminho, prontas para abalroar, suprema ironia, o Queen Elizabeth. “No fun [o grito aprendido com os Stooges, de Iggy Pop], I’m alone, no fun! I’m alive! I’m alone! I’m alive!” – gritava Lydon, no meio dos poucos ingleses vivos, entre milhões de sonâmbulos que, tal como as abelhas, alimentavam a rainha. E por estarem vivos, estavam sós. Os “bobbies” subiram a bordo, procurando impedir que o concerto prosseguisse. Há quem tenha medo e procure regressar a terra. Mas há também quem permaneça até ao fim, levando o desafio até às últimas consequências. John Lydon não pára de berrar “no fun!” a plenos pulmões, apoiado pelo ritmo de Paul Cook. Há provocações mútuas. O ambiente é de caos e confusão total. Alguém grita para a polícia “you fucking fascist bastards”. Era o pretexto esperado para a carga da autoridade. São feitas prisões. A polícia espanca uma rapariga que aparentemente parece não sentir dor. O álcool ingerido serve de anestésico.

“Castiguem os ‘punks’!”

No dia seguinte os jornais apresentaram uma versão truncada dos acontecimentos da véspera, reduzindo-os à dimensão de ligeiros distúrbios provocados por “punks”. “God save the queen”, a canção, aumentava entretanto o seu número de vendas e chegava a número um dos tops no fim-de-semana em que as comemorações oficiais atingiam o auge. Era de mais para a indústria, uma extensão do poder, que respondeu falsificando os tops e colocando na frente das vendas um disco de Rod Stewart.
As vozes do poder repunham a coroa no lugar e lançavam a sua sentença de morte sobre os Pistols e o movimento “punk” em geral, chamando-lhes “doentes” e “sinistros” e acusando-os de “uma conspiração contra o modo de vida inglês”. O “Sunday Mirror” incitava na primeira página: “Castiguem os ‘punks’!”
Marcus Lipton, deputado trabalhista, não podia ser mais claro: “Se a música pop vai ser usada para destruir as nossas instituições, então terá de ser destruída primeiro.” A música pop não foi destruída, claro. Abraçaram-na e trouxeram-na de volta para o lado dos bons. Assim se instaurando um mundo melhor, sem violência nem confrontações – o admirável mundo novo.

aqui



Talking Heads: Objectos Na Paisagem (artigo de opinião)

Pop Rock

7 OUTUBRO 1992

OBJECTOS NA PAISAGEM

Os Talking Heads acabaram. Vivam os Talking Heads. E sobretudo os discos, deixados para a posteridade como exemplos brilhantes de uma atitude e de um estilo que fizeram história. Os Talking Heads mostraram até onde a música pop pode ir, quando perde o medo e resolver experimentar novas formas e ideias. O lançamento simultâneo de duas colectâneas, “Once in a Lifetime – The Best of Talking Heads” e, em forma de antologia, o triplo álbum (CD e cassete duplos) “Sand in the Vaseline – Popular Favourites”, traz de volta à memória os melhores momentos da banda. E o bónus adicional de alguns inéditos.

TH

“Once in a Lifetime” é uma espécie de apresentação da antologia. Dez dos seus temas integram igualmente “Sand in the Vaseline”, incluindo um novo single, “Lifetime piling up”. A principal diferença está na presença de “Blind”, que aqui aparece numa versão ao vivo, enquanto na antologia figura a gravação de estúdio. O oposto acontece com “Life during wartime”, versão de estúdio na colectânea e ao vivo na antologia. “Slippery people”, também ao vivo, é a única canção que não consta de “Sand in the Vaseline”. Este tema, bem como “Blind”, apenas fazem parte do CD.
Quanto à antologia, cujos temas, alinhados por ordem cronológica, foram elaborados pelos próprios elementos da banda, David Byrne, Tina Weymouth, Chris Frantz e Jerry Harrison, apresenta os inéditos “Gangster of love” e “Popsicle”, além do referido single “Lifetime piling up”, um tema dos primórdios, “Sugar on my tongue”, e “Sax and violins”, canção incluída na banda sonora “Until the End of the World”.
A selecção mostra a preocupação de iluminar as várias facetas que fizeram estilo e o fascínio dos Talking Heads. Na primeira fase, a pop metálica do álbum de estreia, “77”, a psicose americana em ritmos maquinais de “More Songs about Buildings and Food”, a negritude e o minimalismo, formal e conceptual, de “Fear of Music”, o “funky” cósmico de “Remain in Light”, qualquer destes discos trazendo a assinatura de Brian Eno, na produção. Depois, consumada a assimilação desta diversidade de tendências, um álbum de transição, “Speaking in Tongues”, e o regresso à pop e às melodias deslizantes, de “Little Creatures”. “True Stories” transporta para os Talking Heads a religiosidade do “gospel”, a “country” e traços da magia de Nova Orleães. “Naked”, último álbum de originais, é a síntese triunfante, a cúpula do edifício que firmou na “new wave” os alicerces e teve na inquietação e constante procura de novas formas musicais (no estúdio, em África, no Brasil) que sempre caracterizaram David Byrne, as traves e paredes-mestras.

Fragmentos da América

Nova Iorque, a paranóia, as técnicas de “cut up” utilizadas pela primeira vez, ao nível das palavras, por Bryon Gisin, a América com todo o seu cortejo de bizarrias e personagens de anedota, confinadas a pequenas ou monstruosas esquizofrenias (uma América à beira da demência tornada em objecto deslumbrante no filme “True Stories”, realizado por David Byrne), as deformações (nos textos, nos vídeos, nas músicas), “ready mades” coloridos por histórias e episódios aparentemente sem sentido, o medo e a alegria disto tudo num caleidoscópio de emoções desencontradas passam pela obra dos Talking Heads, banda que, em paralelo com Laurie Anderson, foi dos grandes tradutores do lado oculto dos “States”.
Mas enquanto Laurie Anderson pinta o quadro em tons épicos, em telas monumentais que atingem a apoteose, no gigantesco manifesto que é a caixa de quatro álbuns, “United States”, os Talking Heads, muito por força da personalidade de Byrne, apresentam estilhaços, fragmentos de espelhos deformantes, notícias entrecortadas, uma visão fraccionada da realidade. Laurie e Byrne são ambos observadores. E conseguem ter uma visão aérea do território. Se a primeira capta a imagem completa, até ao céu, o segundo detém-se no pormenor, no pequeno objecto que se destaca na paisagem. Como acontece na descrição distanciada levada a cabo em “The big country”, do álbum “More Songs about Buildings and Food”. Pesquisadores de formas e princípios, procuraram novos ângulos de perspectiva. E novas formas de as dizer. Neste aspecto, os Talking Heads foram verdadeiramente cabeças falantes.
A lista completa de temas de “Sand in the Vaseline” é a seguinte: No primeiro compacto – “Sugar on my tongue”, “I want to live”, “I wish you wouldn’t say that”, “Psycho killer”, “Don’t worry about the government”, “No compassion”, “Warning sign”, “The big country”, “Take me to the river”, “Heaven”, “Memories can’t wait”, “I zimbra”, “Once in a lifetime”, “Crosseyed and painless”, “Burning down the house”, “Swamp”, “This must be the place (naive melody)”. No segundo – “Life during wartime – live”, “And she was”, “Stay up late”, “Road to nowhere”, “Wild wild life”, “Love for sale”, “City of dreams”, “Mr. Jones”, “Blind”, “(Nothing but) flowers”, “Sax and violins”, “Gangster of love”, “Lifetime piling up”, “Popsicle”.

aqui



Dire Straits em Lisboa: Centenas, Milhares, Milhões

Pop Rock

13 MAIO 1992

DIRE STRAITS EM LISBOA: CENTENAS, MILHARES, MILHÕES

O negócio deles é números. Com o disco e a digressão mundial “On Every Street”, os Dire Straits preparam-se para bater todos os recordes. Três anos na estrada é coisa nunca vista. Vão passar por cá no sábado, no Estádio de Alvalade, em Lisboa. Milhares de fãs vão venerar Mark Knoffler e acender isqueiros. “Love over gold” ou o contrário?

ds

“On Every Street” teve início em Dublin, a 23 de Agosto do ano passado, e acabará em 1993. Três anos entre o corropio das cidades e das divisas. As primeiras serão cerca de 300. As segundas, um pouco mais. Sete milhões de pessoas presenciarão ao vivo a pirotecnia de Mark Knopfler e companhia, com um gasto previsto de 350 mil litros de gás de isqueiro, admitindo-se que apenas metade daquele número de pagantes, ou seja, cerca de 3.500.000 pessoas, acenderão os respectivos isqueiros, o que corresponde a uma média de acendimento na ordem dos 2m30s por concerto, equivalentes a cerca de 10 centilitros de combustível por cabeça.
Não menos assombrosos são os números relativos a lucros e despesas de “On Every Street”, todos na casa dos seis ou mais zeros. Há quem fantasie e inflacione, tentando desestabilizar. Mas isso só os grandes o merecem. Avançou-se com uma estimativa de um bilião e 750 mil milhões de libras (cerca de 429 mil milhões de contos) relativa aos lucros totais da digressão e de 70 milhões (cerca de 17 milhões de contos) por músico, o que diga-se de passagem, está muito acima do ordenado mínimo nacional, mesmo em Inglaterra. Ed Bicknell, da organização, abana a cabeça e nega peremptoriamente tais quantias. Segundo ele, “On Every Street” por pouco que não dará prejuízo. Setenta milhões é o lucro previsto, sim, mas em bruto, ou seja, falta descontar as despesas que são muitas e quase deixarão os Dire Straits na penúria.
Calcule-se que os gastos médios por concerto dos Dire Straits rondam as 50 mil libras em recintos fechados e 125, 150 mil libras ao ar livre. Depois é o problema do preço dos bilhetes e a fatia arrecada pelo IVA. Por exemplo, em Inglaterra os bilhetes custam 20 libras mas 2,30 vão para os cofres do Governo. Das restantes 17,70 libras há ainda a descontar despesas várias que até podem incluir uma renda de camarim e uma taxa qualquer a cobrar pelo direito a ver o nome do artista afixado no exterior do edifício. Feitas as contas, os músicos irão amealhar 15 a 20 por cento das tais 17,70 libras, o que, reconheça-se, é pouco.
Mas, para os Dire Straits, “On Every Street” é mais uma cruzada que outra coisa. Uma verdadeira prova de amor à causa que, inclusivamente, os leva a ter por princípio jamais cancelarem um concerto. Em 13 anos de estrada, gabam-se de apenas uma vez isso ter acontecido: no Luxemburgo, durante a anterior “tournée”, “Brothers in Arms”, onde o palco ameaçava desabar sobre as primeiras filas da plateia. O organizador protestou. Os Dire Straits anuíram em tocar, na condição desse organizador permanecer durante todo o concerto mesmo à frente do palco. Não houve concerto.
No Estádio de Alvalade não deve haver esse perigo. Os milhares de pessoas que mais uma vez darão cabo do relvado poderão gozar em paz as guitarradas de Mark Knopfler, que, à semelhança do que tem acontecido um pouco por todo o lado, se estenderão por largos minutos, em cada tema. Em palco vão estar os seguintes músicos: Paul Franklin (“pedal steel”), Chris Witten (bateria), Phil Palmer (guitarra), Danny Cummings (percussão), Alan Clark (teclados), Mark Knopfler (guitarra, voz), Guy Fletcher (teclados), John Illsley (baixo) e Chris White (saxofone). Malta, toca a encher os isqueiros!