Arquivo mensal: Maio 2015

Adrian Belew – “Inner Revolution”

Pop Rock

22 ABRIL 1992

Adrian Belew
Inner Revolution

LP/CD, Anxious Records, distri. BMG

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Adrian Belew tocou com Frank Zappa, David Bowie, King Crimson, Talking Heads e Laurie Anderson. Um génio? A folha promocional diz que sim e chama-lhe “visionário”, mas deve ser por o músico ter participado na digressão de Bowie, “Sound + Vision”.
Guitarrista de reconhecidos méritos, Adrian Belew viu-se a braços com um grave problema de identidade. Os seus álbuns anteriores reflectem bem a angústia que lhe ia na alma. Entre ser um experimentalista de segunda linha ou uma estrela pop de terceira, “Inner Revolution” mostra que preferiu ser estrela de terceira. Nos dois primeiros temas Adrian Belew sacode o capote dos resquícios eruditos e das remanescências Talking Heads/King Crimson. Depois, é pop até ao fim. Como referência escolheu a mais segura: os Beatles. Treinou mesmo uma voz de “falsetto” adequada ao empreendimento. O resultado soa não aos Beatles, como é evidente, mais à banda do mundo que mais se lhe assemelha, ou seja os XTC. Restava a Adrian Belew refugiar-se no papel de multi-instrumentista inspirado, mas ainda aqui faltou-lhe o golpe de asa capaz de o fazer voar acima da mediania. É caso para dizer que a “revolução interior” não terá dado os melhores frutos. (5)

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Kevin Ayers – “Still Life With Guitar”

Pop Rock

25 MARÇO 1992

SOL, CHAMPANHE E BLUES

KEVIN AYERS
Still Life with Guitar

LP/CD, Fnac Music, distri. Variodisc

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Depois de debilidades como “As Close as You Think” (1986) e “Falling Up” (1988), e a par de uma reconhecida tendência para deixar andar as coisas, é de todo inesperado este regresso em força de Kevin Ayers. “Still Life with Guitar” é “só” o melhor álbum de ex-Soft Machine da sua fase, digamos, “normal”, que inclui todos os discos posteriores à esquizofrenia genial de “Joy of a Toy” e “Shooting at the Moon” e o parênteses da sequência que ocupa todo o primeiro lado de “The Confessions of Dr. Dream”, com Nico e Brian Eno – fase de que fazem parte, portanto, os imprescindíveis “Whatevershebringswesing” e “Bananamour”.
É como se Kevin Ayers acordasse da longa letargia que o levou a estiolar ao sol e no lazer da Cote d’Azur e do Sul de Espanha, onde durante os últimos anos foi deixando secar a inspiração, para finalmente se lançar em busca do tempo perdido.
Diga-se desde já que o conseguiu. “Still Life with Guitar” tem todas as características da fase dourada: a excentricidade elegante, uma maneira de contar histórias capaz de transformar a frase mais vulgar numa peça de um “puzzle” montado por um internado do Rilhafoles, os balanços rítmicos empurrados pelo álcool e, sobretudo, a inconfundível voz de barítono, mais “blasée” e profunda do que nunca. Num total de dez temas que compõem “Still Life with Guitar”, pela menos metade vai direita á galeria dos clássicos do autor: “Something in between”, “Thank You Very Much”, “Fhost Train”, “I don’t depend on you” e “M 16”. Os outros cinco estão em fila de espera. Desde a abertura – que, nas primeiras notas, remete para Lou Reed – de “Feeling this way” ao tradicional que encerra o disco “Irene good night”, escreve-se, à luz branca da Lua (a luz que enlouquece no “Lunatic’s lament” de “Shooting at the Moon”), um compêndio de canções fora de moda, fora do tempo, mas mesmo a tempo de nos desintoxicar do verniz tóxico com a maioria da actual produção pop nos envenena.
Não falta nenhum capítulo: a balada estelar e pianística de “Something in between”, o regresso ao café surrealista de “May I”, com mesa reservada em “Thank you very much”. Novos uivares à Lua em “Ghost train”, depois do comboio-fantasma não ter parado ao sinal de “Stop this Train” (do álbum “Joy of a Toy”, a rádio sintonizada nos “blues” etilizados pelos vapores de um vibrafone em “I don’t depend on you” (os conhecedores saberão reconhecer e apreciar, neste e noutros temas, a construção de frases e as rimas típicas do compositor), as ondulações vocais do “crooner” à beira do naufrágio em “M 16”. Mas há mais: as aventuras de Johnny, o mentecapto romântico, ao ritmo “zydeco” de um acordeão rural em “There goes Johnny”, o retorno do “cowboy que gosta de champanhe” em “When your parents go to sleep”, sem esquecer o diálogo instrumental “cool” entre a guitarra de Ollie Halsall (há muito companheiro habitual de Ayers), o contrabaixo de Danny Thompson e a bateria de Roy Dadds ou a personificação de Georges Moustaki em jeito de “country blues” no tradicional “Irene good night”. Uma referência especial a dois dos convidados: Mike Oldfield, num regresso em força desde os bons velhos tempos em que integrava a Whole World, de “Shooting at the Moon”, e Anthony Moore – ex-Slapp Happy, eventual desestabilizador nos Henry Cow e autor de uma das obras-primas mais menosprezadas de sempre da música popular, “Flying doesn’t Help”. A surpresa do ano. (9)

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Phew – “Phew”

Pop Rock

5 FEVEREIRO 1992

PHEW
Phew

CD, Les Disques de L’Acier et su Soleil, import. Ananana

phew

Não se pode fugir à evidência: algumas das correntes mais significativas da música actual, em particular aquelas que não dispensam o uso maciço da tecnologia electrónica, têm as suas raízes na Alemanha. É o caso das chamadas “músicas de fusão”.
“Phew” reedita, em CD, o colectivo de ocasião formado, em 1981, por Holger Czukay, Jaki Liebezeit, ambos dos Can, Conny Plank, músico, engenheiro de som e impulsionador de dois selos importantes da década de 70, na área do “cosmic rock” – a Brain e a Sky –, e a cantora japonesa Phew.
O disco encontra, à época, paralelo em “Zero Set”, de Plank, Dieter Moebius, dos Cluster, e Mani Neumeier (percussionista dos Guru Guru) e um vocalista sudanês. Em ambos os casos trata-se da junção e sobreposição de vozes “exóticas” ou “étnicas” com o acompanhamento electrónico, nomeadamente das percussões.
Curioso é verificar como então, às sínteses actuais permitidas pela utilização do “sampler” e pela crescente sofisticação do estúdio, se contrapunha uma estratégia de colagem que, por oposição, valorizava o contraste e a diferença. Estratégia que, de resto, já era notória em toda a discografia prévia dos Can, de “Tago Mago”, “Ege Bamyasi” e “Future Days” ou, em particular, nas suas “Ethnological Forgery series”, sem esquecer as aventuras solitárias de Holger Czukay em “Cannaxis” (colagens com gravações de vozes da Coreia, entre outras) e “Movies” (com registos de cantores persas).
Se “Movies” passa por antepassado legítimo de “My Life in the Bush of Ghosts”, de Brian Eno/David Byrne, “Phew” antecipa, de igual modo, obras como “Noir et Blanc”, de Hector Zazou/Boni Bikaye e “The Rhythmatist”, de Stewart Copeland/Ray Lema. Encontros infinitos entre as rítmicas circulares e vocalizações ancoradas no tribalismo, tradicional ou simulado, e a sua potenciação pela electrónica. O transe e a razão. Melhor dizendo: o transe da razão. (7)

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