Arquivo mensal: Maio 2015

John Cale – “Paris s’Éveille”

Pop Rock

5 FEVEREIRO 1992

PARIS COMEÇA NA ANTÁRCTIDA

JOHN CALE
Paris s’ Éveille

CD, Les Disques du Crépuscule, distri. Edisom

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Paris leva 17 minutos a acordar. O mesmo tempo que John Cale demora a adormecer-nos, em “Paris s’ Éveille”, início de mais um disco “sério” deste compositor, que, nos Velvet Underground, condescendia com orgias de “feedback” e sadomasoquismo.
A costela erudita, chamemos-lhe assim, de John Cale, remonta aos tempos de “Paris 1919” (parecendo querer dizer que o “clássico” se associa invariavelmente à capital francesa) e, antes disso, aos ensinamentos do guru do minimalismo LaMonte Young. Costela mantida até agora, felizmente, a maior parte do tempo no frigorífico. Torna-se forçoso reconhecer que é no rock e na fúria de álbuns como “Vintage Violence”, “Fear”, “Honi Soit” e “Music for a New Society” que o talento de Cale eclode com maior esplendor. Quando não se deixa levar pelas ventanias do ódio, os resultados quase sempre deixam algo a desejar. E “Paris s’ Éveille” é um disco de amor. Basta olhar para o postal ilustrado da capa para se ver que é um disco de amor.
“Words for the Dying”, o seu anterior trabalho, enveredava já pela via inchada e orquestral dos grandes épicos. O novo disco leva-a às últimas consequências. “Paris s’ Éveille” não é um mau disco, da mesma forma que a mega-obra “The Well-tempered Piano”, de LaMonte Young (quatro horas de notas de piano fragmentadas) ou uma supercacofonia matemática de Xenakis não são maus discos. São chatos, é verdade, mas não são maus. “Paris s’ Éveille” tem algumas atenuantes: é um disco de peças encomendadas e inclui, para além de um registo inédito dos Velvets, a pérola “Antarctica starts here” em nova versão do tema surgido pela primeira vez em “Paris 1919”.
Paris começa por ser os tais 17 minutos compostos para um filme de Olivier Assayas. A interpretação, entregue aos Soldier String Quartet (versão terrorista e bem-humorada dos Kronos Quartet), alonga-se em atmosferas barrocas, por vezes próximas de Michael Nyman, pontuadas por sons concretos e, na parte final, pelo piano eléctrico de Cale a imitar uma flauta de Pã. Ambiental, atmosférico, blá blá blá. Chato, mas bom. Depois mais uma dose de 18 minutos: “Sanctus” – “quatro estudos para orquestra electrónica escritos para a Warsaw Dance Company”. Nada a apontar.
John Cale precisa de facto de estudar melhor as lições de piano e viola de arco. Em “Sanctus” não se percebe bem o que é “electrónico”, se o oboé, os “tubular bells”, os timbalões e a trompete solistas, que são sintéticos, se os músicos, que são ligados à corrente. Outro bom tema. Chato, mas bom. “Animals at night”, “Pizzicato cantabile” encomendado pela Ralph Lemon Dance, e “Primary Motive”, composto para uma fita de Dan Adams, são na mesma ambientais, sérios, lentos, graves, grandiloquentes e chatos. Mas bons, sem dúvida.
Restam 12 minutos nos quais John Cale manda às urtigas a seriedade: “The cowboy laughs at the round-up”, piada em sequenciador, na linha da colaboração com Eno, “Wrong Way Up”, “Booker T.”, registo inédito dos Velvet Underground gravado em 1965, ao melhor estilo “de garagem”, com a respectiva péssima, e aqui excitante, qualidade sonora, disponível apenas em CD, e “Antárctica starts here” que transforma os sussurros ameaçadores de “Paris 1919” em algo não menos perturbante, mas banhado por uma luminosidade mais forte. Como uma ameaça velada que de súbito irrompe à luz do dia. Ou um “iceberg” prestes a encontrar o alvo. (6)

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John O’Kane – “Solid”

Pop Rock

29 JANEIRO 1992

JOHN O’KANE
Solid

LP/CD, Circa, distri. Edisom

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John O’Kane deve agradecer a Peter Gabriel por este, além de lhe ter cedido o estúdio Real World, ainda lhe ter emprestado o baterista Manu Katché e lhe ter sugerido o título (um portento de originalidade) para o álbum. Depois da audição de “Solid”, ficamos a gostar um bocado menos de Peter Gabriel, por ter contribuído para a feitura de semelhante horror. John O’Kane lembra o pior de Phil Collins e Steve Winwood. Se consideramos que o lado “melhor” destes dois autores se aproxima, não poucas vezes, do execrável, temos todas as razões para fugir a sete pés deste escocês radicado em Londres que “acordou um dia decidido a fazer carreira como cantor”. Dia fatídico em que alguém deveria tê-lo impedido de acordar. “Solid” é aquilo que os ingleses e americanos chamam MOR (“middle of the road”) quando querem dizer que “não é nada”. Dizem que John O’Kane “chegou para ficar”. Se assim for, o melhor é nós começarmos já a fazer as malas. (2)



Cranes – “Wings Of Joy”

Pop Rock

29 JANEIRO 1992

O REGRESSO DOS MORTOS-VIVOS

CRANES
Wings of Joy

LP/CD, Dedicated, distri. BM

cranes

Confirma-se que estamos a entrar numa nova idade das trevas. Não há “rave parties” que resistam, nem “ecstasy” que consiga atenuar a grande depressão. É o regresso das gabardinas negras e dos “periquitos belgas”, na pele dos Cranes, dois irmãos – Alison e Jim Shaw –, que, de novo, fazem reviver os fantasmas que se julgava enterrados com os desaparecimentos de Ian Curtis e de Marcelo Caetano. Mas não, a vaga fria regressa em força, com nova remessa de medos e ameaças, recheada de ambientes cavernosos e palavras dignas de figurar no “manual do suicida exemplar”.
Na voz e nos textos de Alison Shaw, na guitarra, no piano e nas batidas de pesadelo do mano Jim é toda a tradição das bandas “góticas” que reemerge, recuperada para novos dias (e sobretudo noites) de glória, passados entre cemitérios e declarações filosóficas sobre o fim dos tempos que se avizinha.
Não se pode dizer que os Cranes sejam optimistas: a sua música e a sua visão do mundo partilham os mesmos conceitos doentios acerca do “dark is beautiful” perfilhados por bandas como os Bauhaus, Siouxsee and the Banshees (Siouxsee parece ser uma das heroínas de Alison, a julgar por temas como “Leaves of Summer” e “Starblood”) ou os próprios Joy Division. É só angústia, terror, desgraças – vocês sabem lá!
Por outro lado, (em tudo há sempre um outro lado), verifica-se a existência, nos Cranes, de uma faceta angélica, sensível na voz da menina que, por vezes, parece confundir-se com as névoas de uns Cocteau Twins, como em “Tomorrow’s tears”, ou com as inflexões de “falsa ingénua” de Claire Grogan, ex-vocalista dos Altered Images. Afinal não era Lúcifer o anjo mais belo que, ainda por cima, tem a tendência para aparecer vestido de mulher? E, na capa do disco, lá está ele, um anjo – se não é, parece (pelo menos tem asas) – em tons rosa e de expressão cândida, para melhor nos enganar e perder. O universo surreal e as sombras dos This Mortal Coil também não andam longe.
Alison Shaw, nota-se à distância, tem prazer e jeito para criar mal-estar. Vê-se que se compraz com a infelicidade, um pouco à maneira dos românticos (para quem não havia melhor companhia nem amiga do que a morte). Títulos como “Beautiful sadness” não enganam. Os Cranes não andam cá para se divertirem, mas para fazerem a vida negra, a eles e – o que é mais grave – a nós.
“Wings of Joy” (tanto cinismo, meu Deus) tem os ingredientes certos para criar o tal mau ambiente e dar cabo do dia logo pela manhã, o que, para muita gente, se confunde com a própria essência da vida humana: caspa, mau hálito, guitarras sulfurosas, como em “Starblood” e “Wish” – um verdadeiro inferno –, pianos tétricos e vocalizações de além-túmulo. Enfim, a audição de “Wings of Joy” provoca desconforto e calafrios metafísicos tão do agrado dos apreciadores de David Lynch e de Schoppenhauer. Alison diz que não, que os Cranes não pretendem “assustar ninguém” e que a sua música é “divertida”. Pois sim Alison, cantas bem mas não me alegras. Só podem achar os cranes divertidos as mentes pervertidas que lêem os “120 dias de Sodoma” às criancinhas, para as adormecer.
Descontando o facto de “Wings of Joy” poder contribuir para aumentar o número da população portuguesa não activa, já que nada vale a pena e alma – como a mulher e a sardinha – quer-se é pequena, os Cranes até conseguem ser bastante eficazes e bem sucedidos na via e na tarefa que escolheram: de fazer andar os mortos. Esqueceram-se foi de os ressuscitar. Se calhar não faz mal. Já são menos os vivos do que os “zombies”. (6)

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