Arquivo mensal: Maio 2015

Magma – “Magma Live”

Pop Rock

29 ABRIL 1992

A SAGA DE KOBAÏA

Magma
Magma Live

2xCD, Seventh, distri. Megamúsica

“Louco”, “megalómano”, “fascista”, “génio”, de tudo chamaram a Christian Vander, uma das personagens mais fascinantes e que melhor música produziu durante os anos 70. Os Magma nasceram de uma visão sua, desmesurada, de um universo paralelo, o “Uniweria Zëkt”, centrado no planeta Kabaia. A partir desse delírio central, Vander edificou uma construção musical imensa, até hoje sem paralelo nos anais da música popular, inspirada em doutrinas místicas obscuras e na noção wagneriana de “obra” como um todo. Chegou ao ponto de inventar sozinho uma língua, o kobaiano, com gramática própria (parece que o músico chegou a pôr a hipótese de escrever um dicionário de francês-kobaiano…).
A música dos Magma narra a saga do encontro entre Kobaia e a Terra e cada disco funciona como um capítulo inseparável dos restantes, desde o duplo-estreia intitulado simplesmente “Magma” até ao epílogo “Attahk”, passando por “1001º Centigrades”, “Mekanik Destruktiw Kommandoh”, “Kohntarkosz” e “Udu Wudu” (as vogais levam geralmente tremas ou outras pontuações bizarras). A capa do primeiro mostra uma garra gigantesca esmagando a mole humana e numa das faixas Vander grita um discurso em voz histérica, à maneira de Hitler, o que desde logo lhe valeu a acusação de “fascista”. Pelos Magma passaram músicos como Klaus Blasquiz, Didier Lockwood, François Cahen, Gérard Bikialo e Michel Graillier, entre outros, todos eles senhores de capacidades técnicas notáveis e todos eles incapazes de aguentar o total empenhamento exigido por Vander, para quem os Magma, mais do que um simples grupo, foram uma filosofia de vida. Na capa de “Magma Live” lê-se o seguinte: “A música dos Magma é como um espelho onde cada um pode ver o reflexo de si próprio.” Ao vivo, a banda tinha por hábito dar concertos com cinco ou mais horas de duração. Autênticos rituais de fogo em que a bateria marcial de Christian Vander se desmultiplicava no comando das operações, servindo de maestro às litanias operáticas da sua irmã Stella e às labaredas do baixo de Jannik Top, único adepto convicto das doutrinas do mestre, capaz, a seu lado, de viver a aventura até ao fim. “Magam Live”, capítulo seguinte a “Kohntarkosz” na odisseia de Kobaia, inclui a variante “Kohntark” e os originais “Ëmëhntëht-Rê”, “Hhaї”, “Lїhns” e “Mëkanїk zaїn”. Sem atingir a teatralidade dos primeiros álbuns, a tensão levada ao limite de “Kohntarkosz” ou o ponto de combustão de “Udu Wudu”, e incorrendo por vezes em lugares-comuns do jazz-rock, “Magma Live” é, anda assim, um dos grandes discos da década de 70, nascido do coração, do cérebro e das entranhas de um peregrino do absoluto. (7)



Nick Cave & The Bad Seeds – “Henry’s Dream”

Pop Rock

22 ABRIL 1992

PESADELOS DE UM COWBOY ESPIRITUAL

NICK CAVE & THE BAD SEEDS
Henry’s Dream

LP/CD, Mute, distri. Edisom

nc

Nick Cave agora é um artista. Nos Birthday Party era mais um arruaceiro, um espinho cravado no cérebro da pop. Mas depois Nick conheceu Berlim, explicou o fim do mundo a Wim Wenders – ele que tão bem sabe cantar o fim – e por fim realizou o seu próprio filme, “Ghosts of the Civil Dead”, e escreveu o seu próprio livro, “And the Ass saw the Angel”, ambos os títulos, sobretudo o último, significativos da visão muito especial que o autor tem do mundo.
Os artistas, a dada altura, costumam voltar-se para as coisas espirituais e Nick Cave não foi excepção. “Tender Prey” e “The Good Son” recuperam as orações murmuradas em “Kicking against the Pricks” que finalmente explodem em espirituais e “gospels” enegrecidos, com Cave a sair da cave e a levantar os olhos para a divindade, ou pelo menos para aquilo que ele julga ser a divindade.
“Henry’s Dream” continua a ser religioso, à sua maneira. É um álbum conceptual sobre o tema da “fuga”, um disco em que as orações se confundem com imprecações. No argumento de “Ghosts of the Civil Dead”, Nick Cave escreveu sobre um assassino profissional, Jack Henry Abbott. Henry, um “serial killer” que aqui vê transcritos os seus pesadelos em forma de canções.
Espiritualidade, para Nick Cave, é sinónimo de violência. Interior e exterior. Em “Henry’s Dream” assiste-se à deambulação infinita pelos pântanos da alma empreendida por um “cowboy” do inferno. O céu de Cave é, apesar de tudo, diferente do de Wenders. Tem a cor da carne e o sabor do sangue. Nick Cave procura refúgio no amor. Todos os fazem quando se sentem perdidos. “Straight to You” e “Jack the Ripper”, as duas canções incluídas no “single”, são canções de amor, no vórtice do holocausto: “Now that heaven has denied us its kingdom, and the seas are all drunk and howling, this is the time that I’ll come running straight to you, for I am captured”. “Jack the Ripper” agride de outro modo, entre o coro dos danados e descargas contínuas de electricidade: “I got a woman, she rules my house with an Iron fist.” O amor dói.
O universo de Nick Cave só encontra paralelo no de Clint Ruin. Mas enquanto este procura a salvação na autoflagelação, na tortura e, amiúde, na reclusão no quarto fechado da esquizofrenia, para o ex-Birthday Party, ainda é possível abrir portas que dão para o outro lado, seja ele qual for – o movimento é sempre em frente: “Oh sweet Jesus, there is no turning back”, canta Cave em “When I first came to town”. “Henry’s Dream” oscila entre as chicotadas de “Papa won’t leave you Henry” e a derrocada emocional de “Brother my cup is empty”; entre o momento de encantamento de “Christina the astonishing” e o caos celestial de “When I first came to town” a galope numa harmónica de “cowboy” na direcção do pôr-do-sol.
Do lado de lá, a noite, os seus fantasmas e os seus rituais, em “John Finn’s wife” – “the night was deep, and the night was dark and I (aqui não se percebe, ele come as palavras) qualquer coisa dance home on the edge of town/ some big ceremony is going down”. Bruce Springsteen numa “bad trip”, povoado por imagens de carnificina, tesouras, facas de carniceiro e um seio tatuado. Cavalgada de pesadelo, sempre em crescendo, através da escuridão, que finalmente atinge o auge e o firmamento num fabuloso clímax orquestral, antes do derradeiro apaziguamento em forma de “gospel” declamado. Em “Loom of the Land” Elvis sai de um casino em Las Vegas e encontra Johnny Nash numa “no man’s land” imaginária, do lado escuro da “country”. Nick Cave é o verdadeiro “cowboy” espiritual. (8)

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Gavin Friday – “Adam ‘N’ Eve”

Pop Rock

22 ABRIL 1992

O FRUTO PROIBIDO

GAVIN FRIDAY
Adam ‘N’ Eve

LP/CD, Island, distri. BMG

gf

Inclui-se na elite dos “malditos”, dos “loucos”, enfim, dos que se insurgem contra o sistema, se integram nele para melhor o destruir e por fim o sistema é que dá cabo deles. Uma velha história, mil vezes contada pelos bons “maus rapazes” como Gavin Friday, que durante anos fez o elogio da loucura no seio dos Virgin Prunes, uma banda tão dramática, errática e sinistra quanto um circo após a meia-noite. Depois, como acontece sempre, por qualquer razão, fartou-se e fez contas à vida, enveredando a solo por uma vida de pecados solitários.
Gavin Friday não perdeu o gosto pelo fruto proibido, agora mais carnudo do que nunca. O Adão e Eva de que fala são os de antes ou depois do pecado, antes ou depois da queda? Leia-se a resposta num verso de uma das faixas, “Saint Divine”: “Aquele que para uns é pecador, para outros é santo”…
Há dois anos Friday gravou um disco estranho, no qual afirmava que “cada homem destrói aquilo que ama”, com a ajuda de Maurice Seezer, velho amigo que na sombra ou fora dela lhe ia apontando o melhor/pior caminho a seguir. Assim volta a acontecer em “Adam ‘n’ Eve”, disco de canções de amor, daquele amor levado ao extremo em que passa a confundir-se com a loucura. Textos, então como agora, de amor e morte, escritos por Friday sobre música composta de parceria com Seezer, envolvente e falsamente romântica.
“Adam ‘n’ Eve” é um disco de “music hall” para mentes doentes, cheio de suaves mentiras, quando um “amo-te” quer dizer “odeio-te”, e de melodias e coros que parecem cheios de sol (Maria McKee, ex-Lone Justice, pinta de laranja os dois primeiros temas), mas no instante seguinte são obscurecidos pelo eclipse.
Quando Gavin Friday canta “these lies do more than kill… I want to live”, este “live” não rima com o verso anterior que termina em “lie”. Gavin corre num carrossel mágico ao som de um realejo partido, entre amores perdidos e declamados à maneira de Momus e uma luxúria instrumental que recorda aquela, não menos decadente, dos Associates. Em “Falling off the edge of the world” e “Melancholy baby” evoca-se, respectivamente, a América carregada de símbolos que a transformam em cinema, e o amor sem esperança, que a noite escurece e embala. À maneira de Tom Waits a quem Gavin Friday parece ter pedido emprestado os óculos escuros e a garrafa de “bourbon”. Ouça-se o registo rouco e grave da voz, a lassidão estilizada, a musicalidade de versos como “Come a change of weather, comes a change of heart, who will knlow when the raisn will start”, tão próximas das luzes nocturnas, das estradas e dos bares de “Blue Valentine”.
“Adam ‘n’ Eve” lida afinal com as heresias habituais deste “pierrot” louco. “A igreja do amor é lei e desordem, onde os corações impostores podem ajoelhar e rezar”, canta Gavin Friday em “Where in the world”. Verdade ou mentira, o último e obsessivo tema tem por título “Eden”. O paraíso perdido ou reencontrado? (7)

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