Arquivo mensal: Março 2015

F. M. Einheit – “Stein”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

CORAÇÃO DE PEDRA

F. M. EINHEIT
Stein

LP e CD, Some Bizarre, import. Contraverso/Bimotor

fmeinheit

“Vamos acabar com isto de vez”, era até há bem pouco tempo o lema dos niilistas berlinenses Einstuerzende Neubauten. “Isto” significa o mundo e a sociedade em geral, e a música em particular, que a banda de Blixa Bargeld parecia especialmente empenhada em destruir, à custa de golpes de serra eléctrica e martelo-pilão. A música resistiu estoicamente aos ataques destes assassinos em potência que, pelo meio, gravaram discos excelentes, como recente “Haus der Luege” faz questão de provar. Menos radical que Blixa parece ser F. M. Einheit, um dos pilares da banda germânica, decidido a experimentar novos caminhos e sonoridades menos próximos do apocalipse sónico característico do colectivo.
Não que Einheit se mostre interessado em investir no campo oposto, em suavidades ou tentações melódicas, aqui de todo ausentes. Pelo contrário, é ainda e sempre a violência que faz valer os seus direitos, apoiada no ritmo, por vezes avassalador, ou nas potencialidades tímbricas do ruído, às vezes mesmo na exploração do espectro sonoro, como as frequências de “Hafen”, vibrando nos limites do audível.
Onde “Stein” (pedra) se afasta da estética Neubauten é na recusa da carnificina, do caos, da pistola encostada à testa, tão ao gosto de Blixa, o perverso, optando em vez disso por registos mais controlados mas não menos perturbantes. A própria panóplia percussiva geralmente utilizada pela banda (bidões, peças de metal, objectos vários) desvaloriza-se em detrimento das programações rítmicas do computador – maquinismos automáticos implacáveis que alguém se esqueceu de desligar.
“Stein” começa por surpreender: “Educação” (cantado em português sem sotaque abrasileirado, por uma tal Katharina Franck que ou nos enganamos muito, ou terá uma costela lusitana) pretende ser um exercício de funk com botas marciais a que as palavras estrangeiras acrescentam um toque de exotismo. Para nós, “portugas”, soa mais a Adelaide Ferreira numa “soirée” ao lado dos DAF. No capítulo das (escassas) participações vocais, registam-se ainda as presenças da fantasma da ópera Diamanda Galas, em “Hymne (Witch burn)” e de Blixa Bargeld, em “Homeless”.
O resto de “Stein” desenvolve-se em sombrias incursões por universos rítmicos computorizados onde as únicas vozes que se fazem ouvir são as dos samplers, sejam as de multidões fanáticas urrando ao apelo hitleriano (“Das Ende einer Diskussion”), ou de uma criança balbuciando que “Batman brät Fische”.
Caspar Brӧtzmann (filho do expoente do free jazz Peter Brӧtzmann) e Alexander Hacke (dos Neubauten), ambos na guitarra, Ulrike Haage (acordeão) e Jan Schade (violoncelo) acrescentam um pouco de calor a uma música por essência e vocação pouco preocupada com a vil condição humana. O disco inclui uma espécie de homenagem, “Tribute to Cheb Mani”, dentro da mesma estética de aço inoxidável e do já citado “Das Ende Einer Diskussion”, “suite” que até ao fim se ocupa em exorcizar mais meia dúzia de fantasmas herdados do nazismo. F. M. Einheit tem um coração de pedra. À semelhança de “Wild at heart” – de novo o horror que nos fascina. ****

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The Rolling Stones – “Flashpoint”

Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

PORQUE ROLAM AS PEDRAS ?

THE ROLLING STONES
Flashpoint

LP / MC / CD, Promotone, distri. Sony Music port.

rollingStones

Quem são? De onde vêm? Para onde vão? Rolling Stones – a maior banda de rock’n’roll do Universo? A ser verdade, passados estes anos todos, tal facto não abona muito em favor do universo. Tão pouco do rock’n’roll. Quem são e quantos são? São cinco, dois Micks, um Bill, um Keith e um Charlie. Todos juntos, perfazem a bonita idade de 244 anos. Difícil é compreender como conseguem manter-se ainda juntos, ao fim de tantos anos. Vêm dos blues e do início da música pop em Inglaterra. Pretendem ultrapassar os Beatles sem perceberem que as duas bandas seguiram sempre por estradas diferentes, em direcções opostas, que nunca se cruzaram. Para onde vão ninguém sabe. Nem os próprios. Enquanto tiverem força para se aguentarem de pé, segurar nas guitarras e cantar, e a família deixar, hão-de continuar na estrada e a gravar discos que sonham deixar para a posteridade.
“Flashpoint” recorta os melhores momentos da tournée de 1989/90, “Steel wheels – Urban jungle tour”, procurando fazer passar a excitação que a banda alegadamente provoca ao vivo (no Estádio de Alvalade não tanto como isso) e chegar às gerações mais novas para as quais o nome “Rolling Stone” se reveste de uma aura quase mística, de tanto o ouvirem mencionar da boca dos pais ou dos avós, com um brilhozinho nos olhos. A lista de temas aqui incluídos é um autêntico “best of” da carreira do grupo: “Start me up”, “Miss you”, “Ruby Tuesday”, “You can’t always get what you want”, “Little red rooster”, “Paint it black”, “Sympathy for the devil”, “Brown sugar”, “Jumpin’ Jack flash” e “Satisfaction” recuperam a melhor fase do grupo, constituindo uma óptima oportunidade para pais e filhos encostarem as cabeças e trautearem os velhos êxitos em conjunto. Que diria que os Stones se tornariam num modelo de consenso capaz de juntar as gerações? Com os Stones, na “Urban Jungle tour”, esteve um dia, entre mais de uma dezena de músicos escolhidos para disfarçar os momentos de maior cansaço das estrelas, Eric Clapton, para ressuscitar “Little red rooster”. No fim, a questão principal dos últimos anos permanece sem resposta: o que faz correr ainda os Stones, a maior banda de rock’n’roll do Universo? **

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Sara Hickman – “Shortstop”

Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

SARA HICKMAN
Shortstop

LP / CD, Elektra, distri. Warner port.

shickman

David Thomas, o excêntrico e anafado vocalista dos Pere Ubu, tinha razão quando, há tempos, afirmava existir hoje em dia música “a mais”. Com a expressão “a mais” queria ele dizer “desnecessária”. Vêm estas palavras a propósito do segundo disco da senhora Hickman, cheio de louváveis intenções mas, que ela nos perdoe, perfeitamente dispensável. Sabemos que a democracia passa pela possibilidade de cada um gravar, desde que lhe sejam facultados os meios necessários, o que bem entender. Infelizmente, em casos como este, antidemocrata é o que apetece ser.
Não que a música de Sara seja má ou sequer medíocre. Limita-se a ser suficiente e a engrossar as fileiras dos “passados à justa”.
“Shortstop”, feminista q.b., preocupa-se com graves problemas actuais: o terrorismo internacional, a pena de morte, a sida, os deficientes. A cantora considera-se mesmo a porta-voz das minorias sofredoras e oprimidas, em canções como “If we Sent our Hearts over now”, “Salvador” ou “Aurora”. Não são postas em causa as intenções, mas a música em si, anódina e presa a lugares-comuns de que é exemplo a própria voz, buscando constantemente o seio protector das regras impostas pelas omnipresentes Suzanne Vega e Joni Mitchell. Disco para arquivar, ao lado de outros milhares, com o carimbo de “agradável”. Não chega. À música pede-se mais. **