Arquivo mensal: Janeiro 2015

Maio Moço – “Histórias De Portugal, de Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião”

Pop Rock

1 MAIO 1991

MAIO MOÇO
Histórias de Portugal, de Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião
LP e MC Discossete

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Chapéus há muitos. Bons músicos portugueses já há menos. Bons músicos portugueses a trabalhar na área da música popular contam-se pelos dedos. Faz pois muita pena ver Vítor Reino, um dos principais nomes da MPP, fundador da seminal Ronda dos Quatro Caminhos, perder-se pelo caminho, preso nas armadilhas da facilidade e do sucesso. A estas “Histórias de Portugal” aconteceu o mesmo que à Nação após a gesta dos Descobrimentos, ou seja, à aventura e glória sucederam o novo-riquismo e a decadência. É uma espécie de cartilha para o povo, contando episódios da vida dos nossos heróis, desde a fundação até à perda da independência. Musicalmente são dados vários passos atrás, mais parecendo ter-se voltado aos tempos de Pedro Homem de Mello e aos ranchinhos de acordeão e vozes esganiçadas para turista ouvir e comprar. Poder-se-ia falar de um “regresso à pureza das origens”, mas nem isso. Essa pureza e riqueza originais encontram-se bem mais fundo, nas sonoridades medievais que António Tentúgal, com os seus Vai de Roda, tão bem soube recuperar e recriar no “Terreiro das Bruxas”. Arranjos desinspirados, fracas vocalizações e composições vulgares são o preço a pagar pelos discos de ouro e platina? Vítor Reino vendeu a alma ao diabo. História triste. *



Vários – “Vidya”

Pop Rock

 

13 MARÇO 1991

 

VÁRIOS

Vidya

LP, Potlatch

vidya

 

Projecto de Vítor Rua, dos Telectu, gravado entre os meses de Janeiro de 1990 e 1991, no estúdio caseiro de Nuno Rebelo, e que inclui praticamente todos os músicos de algum modo conotados com aquilo a que poderíamos chamar “cena ‘underground’ lusitana”. 19 temas, sem título, organizam-se numa montagem em que sucessivamente vão intervindo os diversos participantes: Vítor Rua, Jorge Lima Barreto, Elliott Sharp (num excerto gravado ao vivo na sua recente actuação ao lado dos Telectu), Carlos Zíngaro, Saheb Sarbib, Miguel Azguime, D.W.Art, Sei Miguel, João Peste, Nuno Rebelo, Luís Desirat, Rodrigo Amado, Rafael Toral, dois Osso Exótico, Tó Zé Ferreira, Rui Azul, Miguel Megre, Fala Miriam, Bruno Rascão, João Paulo Feliciano, Paulo Eno e o duo Duplex Longa. Música experimental, ambiental, industrial, numa colagem de géneros e estilos que tem pelo menos a virtude de lutar, em termos estéticos, contra a normalização vigente. Há momentos excelentes, outros nem tanto. Dos primeiros, realce para: a “raga” electrónico-industrial dos Telectu, no tema nº5; os ambientes muito jon-hasselianos do tema seguinte, como suporte para as divagações violinísticas de Carlos Zíngaro, o solo percussivo de Miguel Azguime, no tema nº8; os zumbidos eléctricos de Paulo Eno, controlados por Rua num encosto aos Nurse With Wound no tema nº9; a dança das vocalizações fantasmagóricas de João Peste com o computador de Rua, no nº11; os ambientalismos obscuros e estruturais de Rua, Tó Zé Ferreira e Nuno Rebelo, nos temas nº14 e 15; o breve caos controlado que alia os King Crimson de “Red” à vertigem Naked City do tema nº17, pelos Duplex Longa; a apropriação das Frippertronics por Vítor Rua, que encerra o disco. Para o fim, o momento mais brilhante, aquele que abre o segundo lado – cruzamento dos Residents com fragmentos melódicos de “Strangers in the Night”, tocados por um Rua que soube aprender os ensinamentos do malogrado Snakefinger, valorizado pelas notáveis prestações de Rui Azul, na electrónica e no solo de sax tenor. A vanguarda começa a organizar-se em Portugal. ****



Leo Ferré – “Les Loubards” + Sérgio Godinho – “Canto da Boca” (reedições)

Pop Rock

6 MARÇO 1991
REEDIÇÕES

LEO FERRÉ
Les Loubards **
LP, MC e CD, EPM, distri. Dargil

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SÉRGIO GODINHO
Canto da Boca ***
LP / MC / CD, Philips, distri. Polygram port.

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Editados respectivamente em 1986 e 1981, os discos de Leo Ferre e Sérgio Godinho voltam a surgir no mercado, acompanhando a actual tendência para recuperar tudo o que é antigo. Ambos os artistas partilham o prazer da palavra – Leo Ferre canta neste disco textos de Jean-Roger Caussimon; Sérgio Godinho escreve ele próprio todas as palavras que aqui se pronunciam pelo canto da boca, mostrando que já vem de trás o gosto pelo trocadilho. O disco de Ferre não é famoso – para além das valsas “J’ entends passer le temps” e “Les Drapeaux merveilleux”, fica a usual torrente de palavras, ditas com raiva, ternura ou amargura pelo velho poeta anarquista. “Canto da Boca” inclui, ao contrário do que acontece com o álbum do francês (de quem Sérgio Godinho se afirma incondicional admirador), alguns clássicos: Com um Brilhozinho nos Olhos”, “É Terça-feira” e “O Porto aqui tão perto”. Sabe bem recordá-los e de novo enternecer-nos com o intimismo sentido de “Já Joguei ao Boxe, já Toquei Bateria”, “Eu Contigo” e “Sempre foi assim”. O regresso dos poetas.

Leo Ferré em torrent
Sérgio Godinho – Canto da Boca, a partir daqui