Arquivo mensal: Janeiro 2015

Raízes – “Caminho D’Água”

Pop Rock

2 OUTUBRO 1991

Raízes
Caminho d’Água
LP, distri. Euro cartel

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Tempo das vacas magras na música popular portuguesa de raiz tradicional. Escasseiam os grupos e, pior que isso, escasseiam as ideias. Depois da desilusão do novo Maio Moço, afundados no lodo da folclorite mais comercial, os Raízes elevam-se um pouco mais alto, incorrendo embora no mal que parece estar a afectar, pelo menos em disco, os (poucos) representantes do género actualmente no activo – a normalização em termos de produção, a “limpeza” anti-séptica do som, neste caso determinado em parte (em temas como “Caminho d’água”, a “Quadrilha” dos cavaquinhos ou a desolação da “Ilha dos amores” pelo dedo, na consola, de Júlio Pereira.
Desistindo, até ver, do tratamento sistemático de temas exclusivamente tradicionais, como acontecia no excelente “Diabo Do Belho!…”, os Raízes parecem hesitar entre essa via e uma percentagem mais alargada de composições do grupo. Opção a que não serão alheias as alterações entretanto registadas no seio da formação e as prováveis imposições da entidade que patrocinou e editou todo o projecto. Dom tom “bonitinho” predominante (o título-tema é neste aspecto elucidativo quanto á sonoridade geral), destacam-se a força de “Tim-Tim por Tim-Tim”, curiosamente evocativo das toadas bretãs, o ribombar poderoso e o picaresco de “Quando o meu compadre”, o original “De Bayona a Santa Tecla”, peregrinação aos lugares mágicos onde a alma se queda encantada nas veredas abertas entre a terra e o mar e a cadência despojada e nostálgica de um “S. Miguel” apaixonado. ***



UHF – “Comédia Humana”

Pop Rock

25 SETEMBRO 1991

IMPOSSÍVEL MUDAR DE VIDA

UHF
Comédia Humana
LP/MC/CD, BMG

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Observemos o objecto em questão de uma dupla perspectiva. De um ponto de vista objectivo (admitindo que a objectividade é possível em crítica), o novo álbum dos UHF pouco ou nada adianta em relação a obras anteriores, por muito que os próprios músicos ou os representantes da editora queiram fazer crer o contrário. Dito de outra maneira, António Manuel Ribeiro e os seus pares (mesmo que estes últimos constantemente se renovem) criaram um estilo definido, emblemático de um certo rock português, que persiste me ver o mundo atrás de barricadas e em cultivar, na figura do líder, a imagem do rebelde incompreendido ou do mártir crucificado. Tudo bem. A imagem do rocker de barba rija que vive na estrada e recolhe ocasionalmente ao estúdio para contar as histórias, boas ou más, dessa vida, vale como qualquer outra. O problema reside em que este acaba por ser um mundo fechado, um contar de experiências tornadas excessivamente familiares e repetitivas – falar do “Manel das Mãozinhas” que “anda solto pela cidade” e “aperta a veia que sangra” ou fazer o rescaldo atrasado da guerra do Golfo, em “Comédia Humana”, acaba por soar redundante, sobretudo se tais temáticas forem, como é o caso, tratadas pelo lado mais imediatista. Dizer, por exemplo, que os “homens em armas são a guerra” não abona, com efeito, a favor da imaginação.
Por outro lado, e este é o outro lado da questão, convirá não esquecer qual o destinatário da mensagem e da música da banda almadense. Os UHF são hoje uma banda de massas, com uma faixa de público espalhada pela província (são constantes os apelos de António Manuel Ribeiro a uma distribuição maciça dos discos da banda por todo o território nacional, até à mais ínfima banca de feira), sensível ao toque populista e ao “discurso do herói”, porta-voz dos mundos de aventura suburbanos. Para toda esta imensa multidão de consumidores, a imagem, a música e as palavras directas dos UHF e do “mito nacional” António Manuel Ribeiro constituem como que um cerrar fileiras, um “bunker” onde se abrigam mil ilusões e anseios.
Qualquer mudança, no estilo e ou na atitude, torna-se difícil. Condescende-se e mudar o acessório, no caso de “Comédia Humana”, uma acentuação mais forte em arranjos pop, para que, no fim, tudo fique igual. Eis o drama, dos UHF ou de outras bandas que, tendo vencido à custa de um projecto talvez demasiado personalizado, não conseguem, não podem ou não querem arriscar a “fuga para a frente”. Para além de todas as teorizações, permanece a energia de sempre e o empenhamento sincero de AMR, o tal Jim Morrison português que, no título-tema, não se coíbe em demonstrar o seu afecto pelos Doors, na repetição enfática de “n’America” (alusão explícita a “L’America”, de “L. A. Woman”) ou na citação de “o Oeste é o melhor” (“West is the best”, em “The end”). “É do zero que eu vou partir”, canta AMR, em “Do zero”. Custa a acreditar. ***



Jorge Palma – “Só”

Pop Rock

22 MAIO 1991

MAIS VALE SÓ…

JORGE PALMA

LP/MC/CD, Philips, ed. Polygram

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“Só” recupera canções espalhadas ao longo da discografia do autor, aqui interpretadas “ao vivo” em estúdio, sem quaisquer disfarces de produção. Apenas a voz e um piano. E a força das canções. Das horas de estúdio, “demasiado íntimas, intensas, inefáveis”, recorda Jorge Palma uma frase do Zé Fortes, engenheiro de som: “Há duas maneiras de fazer isto – assim, ou então por quem sabe.” Jorge Palma optou por fazer “assim”. Opção que de imediato recorda aquela, semelhante, utilizada por Sérgio Godinho no duplo “Escritor de Canções”, em que também as canções eram revistas e reinterpretadas a partir de uma “redução” ao esqueleto melódico essencial, revalorizando a interpretação em detrimento da composição. As comparações com Sérgio Godinho são, de resto, inevitáveis. Não ao nível de analogias formais, antes no modo como ambos recuperam o estatuto de “contadores de histórias”.
Obviamente diferentes nas vozes e nos métodos, assemelham-se contudo no gosto pela palavra, na importância concedida ao verso, à rima, ao som da linguagem falada.
Sérgio parte sempre de uma situação de jogo, digamos, teatral, na construção de cadências linguísticas carregadas de sinais, fortemente sensíveis ao tecido imaginário social, porque firmemente ancoradas na linguagem comum, nas frases feitas, na poesia popular. Jorge Palma, embora não desdenhe o trocadilho nem o prazer da manipulação poética, mergulha um pouco mais fundo, privilegiando o diálogo com o espelho. Se as situações narradas pelo autor de “Pré-Histórias” acabam por ser de todos, vividas por personagens (reais ou não, é o que menos importa) perdidas entre misérias e alegrias que cada um de nós também viveu ou julga viver, Jorge Palma conta fundamentalmente a sua própria história, seja através de interiorizações metafísicas (características de toda a sua obra, desde os tempos em que a “trip” começava na palma da mão), ou na projecção de lugares ou situações aparentemente ligadas à “vida real”. Perspectiva que, em última análise, permite considerar “Frágil” ou o “Bairro do Amor” como metáforas geográficas dessa “Terra dos Sonhos” a que o compositor alude. O amor, a mulher, seja na figura de “Essa Miúda”, “feiticeira que prende a mente/fogueira que se acende em qualquer lugar”, ou personificada na “Estrela do Mar”, para quem “mil anos são pouco ou nada”, são mitificados – arquétipos do “eterno feminino”, demandado desde os tempos da gnose cátara pelos cavaleiros da “religião do amor”, da dama possível de encontrar no ovo alquímico da solidão. “O meu amor ensinou-me a partir/nalguma noite triste/mas antes, ensinou-me/a não esquecer que o meu amor existe.” Evidentemente, a música de Jorge Palma sempre teve que ver com a noção de “viagem” e com tudo aquilo que o termo sugere. Em “Só”, a viagem passa por algumas das maiores canções de sempre da música popular portuguesa – “Canção de Lisboa”, “Só”, “Bairro do Amor”, “À Espera do Fim” –, por uma maneira ímpar de cantar a solidão e os universos a que acede aquele que por ela se deixa enfeitiçar. Canções como “Frágil” ou “Deixa-me Rir” sobem momentaneamente à superfície, mais do agrado dos receosos que se recusam descer às profundidades interiores. Como pianista, Jorge Palma não parou de evoluir (a esse nível o disco constitui num prazer, a cada faixa renovado). Como cantor, soube conferir a “velhas” canções um toque de superior intimismo. “Só” revela, de forma luminosa, um dos poucos trovadores dos tempos modernos que atingiu a plena maturidade, sem perder aquele espírito juvenil que, ao longo da vida, concede o dom e a liberdade de saber voar. ****