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Vários – “Cuecas” (televisão)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 18 MAIO 1990 >> local


Cuecas

MANUEL JORGE ROQUE prossegue corajosamente a sua cruzada em prol da música portuguesa, não sabemos se de algum modo instigado pela severa e sapiente mão legislativa de defesa da mesma. Seja como for, a divulgação da música portuguesa não é, por si só, negativa. A música portuguesa, em geral, é que é negativa. Em termos qualitativos quase sempre não passa de cópia, mais ou menos fiel, de correntes e estilos estrangeiros. Quantitativamente também não estamos melhor. Para além dos intérpretes que realmente vendem e cujo número se conta pelos dedos, existe realmente um lote um pouco maior de aspirantes a figurar nas páginas de mexericos da “Nova Gente”, receber cartas de adolescentes apaixonados ou a ser inflamadamente defendidos ou atacados nos “pregões” do Blitz, sinais inconfundíveis de glória. Felizmente que alguma vergonha ainda impede a mediocridade ou simples nulidade da maioria de tais “projetos” de se estender à vergonha maior do espetáculo televisivo. Assim não causa estranheza o facto de esta semana os nomes em destaque serem Lena d’Água, Xutos e Pontapés e UHF (estes na rubrica “Perfil”), os mesmos de sempre. Não se estranhe pois também que, para variar um pouco, o programa se socorra de estratagemas como os desta semana em que será apresentada uma coleção de cuecas americanas para esta estação. Entre Xutos e cuecas importadas, vive apertada a “nova” música, a muito custo, portuguesa.

Canal 2 às 24h00

Vários – “Haja Festa” (TV | RTP)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 4 MAIO 1990 >> Local


Haja Festa

O “HAJA MÚSICA” faz hoje um ano de emissões. Haja alegria e vontade de fazer melhor. Em dia de festividades, o destaque vai para os nacionais Xutos e Pontapés e para o seu mais recente disco “Gritos Mudos”. Os Xutos interpretarão o tema “Pêndulo”, não sabemos se ao vivo se em “clip” – o Manuel esqueceu-se, esta semana, de nos contar… Em pessoa, no estúdio, vão estar Luís Represas, dos Trovante, João Peste, provocador-mor da nossa praça, e Jorge Palma, eterno vagabundo das cantigas. Foi o que conseguimos apurar da consulta às páginas de um colega. O resto da lista dos nomes presentes, bem adjetivados para compensar com palha a falta de informação, é o seguinte: Afonsinhos do Condado, tontos, broncos e engraçados; Rádio Macau, “rockers” de Xana e de sucesso; Adelaide Ferreira, hoje também “rocker”, amanhã talvez fadista, mas não faz mal, enquanto o resto se mantiver a alturas aceitáveis; Ritual Tejo, novos, desconhecidos, digam qualquer coisa; Lobo Meigo, vencedores do último concurso RRV; UHF, “alter ego” de António Manuel Ribeiro, o papa. Todos em “playback” – que desilusão! Parece que vai haver um cenário especial de aniversário. Parabéns a você, etc.

Canal 2, às 24h00

Vários – “Festival de Bourges – Até O Canário Canta A ‘Marselhesa'” (festivais)

PÚBLICO DOMINGO, 15 ABRIL 1990 >> Cultura


Festival de Bourges

Até o canário canta a “Marselhesa”


ÁFRICA ELÉTRICA, ciganos jugoslavos, trompas de caça, percussionistas embuçados, rock texano, espanhol e português, formaram um conjunto de concorrentes pouco habitual neste tipo de concursos. Sexta-feira Santa, dia 13, Ray Lema, Dadadang e os Brave Combo foram os três primeiros no pódio de Printemps.
A chuva chegou a Bourges, mas a cidade aquece de entusiasmo. A música instalou-se definitivamente no seu quotidiano. Nas discotecas (poucas) praticamente só se vendem discos dos artistas do festival. Não há loja que não ostente na montra qualquer referência ao acontecimento. É tal a loucura pela música que até no “bistrot” onde almocei havia um pássaro que cantava a “Marselhesa”.

Lema de sucesso

Da programação de sexta-feira constava uma espécie de mini-gala de músicas do mundo. Ray Lema, chamado à última hora para substituir Kid Creole and the Coconuts, fez questão de presentear o numeroso público presente com um super concerto. Sete músicos e duas bailarinas funcionaram sobre o palco com a precisão e intensidade de uma máquina perfeitamente afinada, fazendo uma demonstração exemplar de como as sonoridades africanas se podem casar harmonicamente com as técnicas ocidentais. Foi uma hora de emoção e virtuosismo suportados por um espetacular jogo de luzes. O baterista e o percussionista ofereceram um bónus suplementar, alinhando uma sequência de solos de cortar a respiração.
Ainda as luzes não se tinham acendido e já a assistência era surpreendida pela orquestra cigana jugoslava “Besir”, liderada por Jova Stojiljkovic, tocando e desfilando por vários pontos da sala até se ficar finalmente no meio da plateia. Um tambor, três trompetes e cinco trompas embrenharam-se por sons algures entre a Arábia e a típica música eslava cigana.

Trompas e batuque

Depois dos Besir, trompas de caça soaram do alto de um andaime junto ao teto, sopradas por dez músicos trajados a preceito. Frank Na dirigia as operações ao mesmo tempo que também soprava.
E de repente, o espanto com a entrada triunfal na sala das percussões apocalípticas dos italianos Dadadang. Vestidos de branco, envergando máscaras antinucleares, encheram o Palácio dos Congressos com um rufar dos tambores assustador. Os Dadadang são o equivalente dos Urban Sax, com percussões em vez de saxofones. Os quinze músicos que integram o coletivo evoluíram igualmente ao longo de vários pontos do recinto, marchando em passo maquinal para um público completamente fascinado. O batuque urbano dos Dadadang ora ameaçava fazer desabar as estruturas do edifício, ora se desdobrava em subtis polirritmias. Inesquecível e emocionante a presença destas personagens, a um tempo hiper-reais e fantasmáticas, tocaram uma peça banhados por luz negra, empunhando baquetas fluorescentes e movimentando-se ao ritmo das perturbadoras coreografias.
Depois de terem, na véspera, inquietado os pacatos habitantes da cidade, estes humanoides da era nuclear bateram, desta feita ainda com mais força, na cabeça do pessoal festivaleiro.

Salada de gringos

Depois dos tambores, uma curta intervenção a solo de Pierre Bastien. De novo a trompa, agora acompanhada de percussões sintéticas pré-gravadas, num registo entre John Surman e Jon Hassell, fazendo a passagem para os texanos Brave Combo.
Os americanos entraram a matar para mais um excecional concerto. O conceito de Tex-Mex com que se auto-definem é insuficiente para abarcar a diversidade de estilos de que se valem. Os Brave Combo tocam um rock híbrido, onde cabem sem esforço música árabe, polcas, tangos, o “Danúbio Azul”, Jim Morrison, Frank Sinatra, Mike Oldfield ou o genérico musical da “Missão Impossível”.
Utilizando uma instrumentação variada com saxofone, clarinete, flauta, teclas, acordeão e tuba, para além das guitarras e bateria, este gringos bem-humorados deram uma lição na arte de ser eclético sem perder a identidade própria. Bravo para os Brave Combo.

Lança em França

Na sala do pavilhão, uns metros mais acima, estava tudo preparado para uma noite de rock latino. Abriram os espanhóis La Busqueda. Rock com pouco “salero” e um trompetista procurando abrilhantar canções apenas competentes. Além disso, por melhor que seja a música, mal aparece uma voz a cantar em espanhol, fica logo o caldo entornado. Será preconceito? Talvez seja, mas após mais de cinco horas consecutivas de música, há a natural tendência para se ficar um tudo nada mais suscetível.
A banda seguinte chamava-se Xutos e Pontapés e, segundo o programa, era portuguesa. Arrancaram cheios de garra, levando até ao fim um rock duríssimo, altíssimo e, por vezes, à beira do “feed-back”. O grupo apostou, mais do que nunca, na linha dura. A aposta, pelo menos aqui em Bourges, foi ganha. O público saltou e vibrou com os Xutos e, no final, pediu mais. Os franceses “Noir Désir” cumpriram o seu papel fechando o espetáculo com um rock vulgar.
Os Xutos e Pontapés deram, de tarde, no Palácio dos Congressos, uma conferência de imprensa, em conjunto com os espanhóis “La Busqueda” e os franceses “Noir Désir”. O porta-voz foi Tim, respondendo às perguntas e ao interesse pela banda manifestado pelos jornalistas presentes, na maioria espanhóis e franceses.
Entretanto, a Polygram Internacional parece empenhada em promover os Xutos no estrangeiro, começando pela França onde foi já editado na segunda-feira passada, com o selo Phonogram, o álbum “88”, reintitulado “90” para o efeito.
Depois do Printemps de Bourges, a banda regressa a Portugal para apresentar, a 5 de maio, em Barcelos, o novo álbum “Gritos Mudos”. A 9 do mesmo mês está confirmada uma atuação na 1ª Bienal Europeia de Rock, que terá lugar na cidade de Toulouse. Na revista “Actuel” deste mês já saiu a notícia. A França é, decididamente, a segunda pátria dos Xutos e Pontapés.
A partir da meia noite começou a segunda jornada, dedicada ao cinema publicitário, prevendo-se a exibição de cerca de 500 filmes, numa maratona que durou até de manhã, com pequeno-almoço incluído.