Arquivo da Categoria: Rock Psicadélico

BBM – “Around The Next Dream”

pop rock >> quarta-feira >> 06.07.1994


BBM
Around The Next Dream
Virgin, distri. EMI – VC



“B” é Bruce, Jack, “B” é Baker, Ginger, “M” é Moore, Gary. Ou seja os Cream em segunda edição com um novo guitarrista a substituir Eric Clapton. Ainda e sempre o regresso ou a ressurreição dos dinossáurios. Segundo parece, havia uma questão de “cheques volumosos envolvidos” que ameaçava deixar “agarrado” Jack Bruce. Fizeram-se uns telefonemas, Gary Moore estava disponível (já ouvia os Cream desde os 13 anos) e a coisa até nem custou a chegar a vias de facto. E terá valido a pena? Bom, os nostálgicos e saudosistas devem esfregar as mãos. “Around the Next Dream” não ofende. Mas às vezes é preferível que um disco ofenda em vez de provocar a indiferença. E é isto que acontece com esta nova saída do túmulo dos velhotes. O fantasma dos Cream paira, como é evidente, do primeiro ao último minuto do disco. Os “blues”, bem servidos em “Can’t Fool the blues”, os slows, apontados à mira das FM americanas no caso de “Naked flame” e coberto de nicotina o muito “cool” em “Wrong side of town”, são pausas de descanso entre o emaranhado de teias de guitarra e a rítmica cavalgante decalcada – e envernizada – dos Cream. E então? Então, se já havia os ELP, com Powell em vez de Palmer, porque não os BBM, sem Clapton? É tudo uma questão de iniciais e de jogar forte nas recordações. (5)

Nick Drake – “Way To Blue – An Introduction To Nick Drake”

pop rock >> quarta-feira >> 29.06.1994
REEDIÇÕES


De Costas Para A Luz

Nick Drake
Way To Blue – An Introduction To Nick Drake (8)
Island, distri. BMG



Nick Drake pertence à categoria dos mártires que se foram discretamente. Não se pode alinhá-lo ao lado dos monstros que morreram, ou se deixaram morrer, com pompa e clamor, como Jim Morrison, Hendrix ou Janis Joplin. O seu caso tem a mais a ver com Nico e Ian Curtis, com os criadores supliciados pela sua própria inspiração, inacapazes de suportar o fardo da vida, da música, da vida “on the road”, da sua própria condição enquanto criadores, enfim. Nick Drake levou ainda mais longe a recusa aos padrões do “show business”. Uma timidez quase esquizofrénica fazia dele uma personagem fugidia, uma sombra de contornos indefinidos. Por ocasião do seu terceiro e último álbum, “Pink Moon”, nem sequer apareceu no estúdio, enviando as fitas pré-gravadas pelo correio.
Sabe-se pouco da vida de Nick Drake. Surgiu a cantar quase por acaso no meio da vaga de folk rock que rebentou em finais dos anos 60 nas ilhas britânicas, ao lado de figuras como Ashley Hutchings e Fairport Convention. Foi Joe Boyd, produtor e empresário dos Fairport e “descobridor” oficial de talentos para a editora Island quem o descobriu e lhe proporcionou o primeiro contrato de gravação. “Five Leaves Left”, de 1969, integra-se perfeitamente no som acústico da época, revelando um cantor/compositor de veia nostálgica com tendência para a depressão.
Na altura houve quem comparasse este disco a “Astral Weeks”, de Van Morrison, mas, se há que fazer comparações, sobretudo ao nível das vocalizações, invariavelmente no limite do equilíbrio emocional e da lucidez, estas deverão ser encontradas em John Martyn, por sinal também agenciado por Boyd na Island e por coincidência autor de um tema, “Solid air”, incluído no álbum do mesmo nome, dedicado a Nick Drake. A presente colectânea reúne cinco temas deste álbum maioritariamente composto por solilóquios de Drake sobre a guitarra acústica, com ocasionais contribuições de uma orquestra de cordas, do violoncelo de Clare Lowther (no maravilhoso tema de abertura “Cello song”) ou do contrabaixo de Danny Thompson.
“Bryter Layter”, o álbum seguinte, de 1970, apresenta um leque maior ao nível dos arranjos, para tal contando com as presenças de John Cale e de três membros dos Fairport Convention, Dave Pegg, Dave Mattacks e Richard Thompson. A depressão intensificava-se e com ela a solidão. Amontoavam-se os despojos de uma alma em conflito perpétuo e à deriva dentro de si própria, cujas canções cada vez mais se assemelhavam ao murmúrio de uma criança precocemente envelhecida a quem tivessem arrancado à força a inocência. Nick Drake abandonou em definitivo os espectáculos ao vivo dando início a um tratamento psiquiátrico, que pelos vistos não surtiu efeito.
Paris acolheu-o, como sempre acolhe os foragidos da “normalidade”. Na cidade-luz, Drake – há nome mais romântico do que este? – compôs canções para Françoise Hardy que, conta a lenda, chegaram a ser gravadas mas nunca editadas em disco. As cinco canções de “Bryter Layter” incluídas nesta introdução à “loucura suave” inflectem no jazz, oferecendo à voz o amparo de um piano cheio de nostalgia ou o embalo de um vibrafone que tiveram o condão de manter intacta durante mais algum tempo a ilusão.
Volvidos dois anos, em 1972, data da edição de “Pink Moon”, o desabamento psíquico era já irreversível. Depois do abandono dos palcos seguiu-se o abandono do canto. A Island recebeu as fitas do disco pelo correio. Drake fechara-se já no quarto escuro e deitara fora a chave. Era a retirada definitiva. Primeiro da arte e, pouco tempo depois, da vida. Quatro temas de “Pink Moon” marcam o retorno à conversa a dois (ou de um só, cindido em dois) com a guitarra. Drake cantava cada vez mais baixo, para si, contra o vento. Canções desarmantes de simplicidade, de alguém já sem nada a esconder. O resto de “Way To Blue” é preenchido com dois temas de “Time of no Reply”, uma edição póstuma de “takes” alternativos e alguns originais, semelhante a outra, “In a Wild Flower”, realizada no ano anterior. Finalmente, em 1986, foi editada a caixa de quatro discos com a obra completa de Nick Drake, de genérico “Fruit Tree”.
Nick Drake morreu a 25 de Novembro de 1974, em casa dos pais, vítima de uma “overdose” de antidepressivos. A capa de “Way To Blue – Na Introduction to Nick Drake” capta de maneira sublime a essência da personalidade musical de Nick Drake, uma figura franzina, de olheiras enormes, envolto numa manta, perdido numa floresta. Ao fundo, uma luz branca. A luz era ofuscante, mas ele não a podia ver porque estava de costas.

Yosure Yamashita & Bill Laswell – “Asian Games”

pop rock >> quarta-feira >> 08.06.1994


Yosure Yamashita & Bill Laswell
Asian Games
Verve XXX, distri. Polygram



Gravado em 1988, “Asian Games” acabou por ser editado apenas no ano passado mas nem por isso perdeu uma parcela do seu interesse. O projecto resultou de uma sessão de estúdio de Yamashita, pianista de jazz, com Ryuichi Sakamoto, na altura ocupado com a banda sonora de “The Last Emperor”. Avesso à utilização de samplers e sintetizadores, Yamashita cedeu, por fim, a manipular toda a tecnologia digital posta à sua disposição pelo ex-Yellow Magic Orchestra com a ajuda de Bill Laswell, cuja marca em “Asian Games” é determinante. O cruzamento da techno japonesa dos YMO com o etno-funk dos Material serve de base às divagações jazzísticas do pianista, em trabalho improvisacional e exploratório, como acontece em “Napping on the bamboo” ou, simplesmente, como em “Melting pot”, fazendo ornamentações enquanto a enxurrada de ritmo o empurra para as pistas de dança do quarto mundo. No horizonte, avista-se a metrópole híbrida dos The President, de Bobby Previte e Wayne Horvitz. “Asian Games” é notoriamente um álbum feito, antes de mais, pelo prazer do diálogo e do risco partilhado. Receptáculo de cumplicidades a que se juntaram outros dois nomes da “downtown” nova-iorquina e companheiros de luta de Laswell, Nicky Skopelitis e Alyb Dieng. Jogos asiáticos, lúdicos não tanto por constituírem um manancial de descobertas mas, acima de tudo, como lugar de encontro de sensibilidades que souberam ultrapassar as divergências. (7)