Arquivo da Categoria: Progressivo

Heiner Goebbels – “Shadow / Landscape With Argonauts”

pop rock >> quarta-feira >> 19.05.1993


Heiner Goebbels
Shadow / Landscape With Argonauts
CD ECM, distri. Dargil



Heiner Goebbels gravou há alguns anos, na editora ECM, as estranhas aventuras de “Um homem no elevador”, sobre “libreto” do seu habitual colaborador Heiner Müller (que recentemente trabalhou com um dos elementos dos Einsturzende Neubauten, na ópera “Hamplet Maschinen”).
Neste seu novo trabalho, o antigo companheiro do saxofonista Alfred Harth mantém-se fiel ao estilo de “Der Mann im Fahrstuhl”, alternando numa única sequência, separada por indezes, textos declamados (de Heiner Müller e do escritor inglês Edgar Allan Poe), sobre uma base musical acusmática, com temas instrumentais / vocalizados, bastante mais acessíveis que os do elevador.
O assunto gira de novo em torno de um pesadelo, dos muitos que Poe idealizou e que os apontamentos de Müller reenviam, de um contexto simbolista, para uma cacofonia de referências disparadas ao caos da sociedade actual. Curioso, o núcleo de músicos convidados: René Lussier (Conventum, guitarrista-mor canadiano da Recommended e das Ambiances Magnétiques, parceiro habitual de Fred Frith), Charles Hayward (percussionista e conceptualista, This Heat, The Camberwell Now), Christos Govetas, nos sopros, e a cantora árabe Sussan Deihim (das “Desert Equations”, na Made to Measure), cujas inflexões vocais conduzem a música pela trela. Algures entre os mistérios proibidos de “Deadly Weapons” (Beresford, Zorn, etc.) e as gramáticas mais dançáveis de “Sahara Blue” (Hector Zazou) e dos Minimal Compact, estes argonautas da sombra poderiam mesmo assim ter navegado mais longe. (7)

Jethro Tull – “25 th Anniversary” (4XCD)

pop rock >> quarta-feira >> 28.04.1993
REEDIÇÕES


Jethro Tull
25 th Anniversary
4 x CD Chrysalis, distri. EMI-VC



Mais um tirinho, mais um aniversário, mais uma prenda com embalagem de luxo para encher o olho e oferecer aos paizinhos. As bodas de prata dos Jethro Tull vêm arrumadas na forma de quatro discos compactos, mais o livro da ordem (48 páginas, informação sobre a carreira e discografia completa do grupo), dentro de uma caixa a fingir de tabaco. O que difere, para melhor, de um objecto como o ultravistoso pacote dos Pink Floyd lançado recentemente é a ideia de fazer esta celebração de forma “subjectiva”, segundo expressão da editora. Por outras palavras, oferecer algo de novo de uma banda que, em meados da década de 60, começou por ser de blues, embarcou, na passagem para a década seguinte, no comboio da música progressiva, passou por fases acústicas de cara virada para a folk, pelo rock pesado, pelo sinfonismo, para finalmente se arrastar até aos dias de hoje na lama do “mainstream”.
Assim, o primeiro CD dos festejos apresenta novas misturas de canções clássicas: “A song for Jeffrey”, “Living in the past”, “The witch’s promise”, “Ministrel in the gallery” e “Songs from the wood”, entre outras. O segundo é a gravação ao vivo de um concerto na Carnegie Hall de Nova Iorque, de 1970. O terceiro, de genérico “The Beacons Bottom”, alterna solos dos vários músicos com versões alternativas de temas como “Thick as a brick” (abreviado), “My god” e “Aqualung”. Finalmente, o quarto CD regressa aos registos ao vivo, desta feita recolhidos entre 1969 e 1992.
Um conjunto estranho de opções, como se vê, de interesse sobretudo para os admiradores de longa data de uma banda que se pode orgulhar de contar no seu currículo com obras da envergadura de “Aqualung”, “Thick as a Brick”, “A Passion Play”, “Songs from the Wood”, “Heavy Horses” e “Minstrel in the Gallery”, aquelas em que ficou mais vincada a visão do seu líder Ian Anderson, o trovador / flautista / cantor que se aguentava a tocar numa perna só. (6)

Chris Cutler & Lutz Glenadien – “Domestic Stories” + Fred Frith & François-Michel Pesenti – “Helter Skelter”

pop rock >> quarta-feira >> 21.04.1993


Chris Cutler & Lutz Glenadien
Domestic Stories (8)
CD Recommended, import. Contraverso
Fred Frith & François-Michel Pesenti
Helter Skelter (6)
CD Rec Rec, import. Contraverso



Em pleno período dourado da música progressiva, um grupo inglês lançava as bases de um movimento que influenciou o panorama da música alternativa feita na Europa nas duas décadas seguintes: Henry Cow. Dele faziam parte um guitarrista de génio, Fred Frith, e um percussionista-teórico alucinado, Chris Cutler. Na editora-distribuidora Recommended, que o segundo dirige actualmente, desenvolveram uma atitude e uma estética de ruptura que aliava a revolta (e a politização) do “free” à música de câmara europeia e ao dodecafonismo, cedo perfilhadas por um número razoável de outros grupos que até hoje vêm enxertando novos ramos no tronco original.
Posteriormente aos Cow, Chris Cutler tomaria a liderança, estética e teórica (sobretudo a partir de “Winter Songs”), no projecto consequente, Art Bears. A partir daí e até hoje, os dois não cessaram de cruzar os respectivos caminhos. Fred Frith, um pouco perdido após a debilidade da banda sonora “The Top of his Head” e desde que alinhou ao lado de John Zorn nos Naked City. “Helter Skelter”, um bom esforço de recuperação, embora longe das obras capitais “Gravity”, “Speechless” e “The Technology of Tears”, é a partitura adaptada de uma ópera de François-Michel Pesenti sobre a violência urbana, a alienação e o fim dos tempos. Dividida em duas partes distintas, “Qui peut m’aider?” e “La salle des adieux”, conta com a prestação instrumental do grupo francês Que D’la Gueule. Da colaboração nasceu um híbrido Henry Cow mais This Heat mais Diamanda Galas acorrentada que radica sem grandes rasgos no típico som Recommended. Radical para os que o desconhecem. Trivial e um pouco maçudo para os “habitués”.
“Domestic Stories” é outra história. Na boa companhia de Frith, o anarco-saxofonista Alfred Harthd e da cantora Dagmar Krause, Cutler volta a embrenhar-se em textos herméticos, entre a mitologia, a catarse mágica e a descrição do vazio existencial dos tempos modernos, em múltiplos diálogos/enredos com as sequências musicais compostas por Lutz Glandien que privilegiam o contraste e a alternância de linguagens. “Free rock”, jazz mutante, alucinação conceptual, pouco importam as definições. Chris Cutler, a cada novo projecto em que se envolve, insite em desestabilizar, contornar o óbvio e avançar perspectivas inusitadas. “Domestic Stories”, parecendo impenetrável a uma leitura racional, obedece contudo a uma estratégia definida desde cedo por Cutler, de redescoberta e codificação de lógicas outras. Simultaneamente ancestrais e revolucionárias.