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Adrian Belew – “Inner Revolution”

Pop Rock

22 ABRIL 1992

Adrian Belew
Inner Revolution

LP/CD, Anxious Records, distri. BMG

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Adrian Belew tocou com Frank Zappa, David Bowie, King Crimson, Talking Heads e Laurie Anderson. Um génio? A folha promocional diz que sim e chama-lhe “visionário”, mas deve ser por o músico ter participado na digressão de Bowie, “Sound + Vision”.
Guitarrista de reconhecidos méritos, Adrian Belew viu-se a braços com um grave problema de identidade. Os seus álbuns anteriores reflectem bem a angústia que lhe ia na alma. Entre ser um experimentalista de segunda linha ou uma estrela pop de terceira, “Inner Revolution” mostra que preferiu ser estrela de terceira. Nos dois primeiros temas Adrian Belew sacode o capote dos resquícios eruditos e das remanescências Talking Heads/King Crimson. Depois, é pop até ao fim. Como referência escolheu a mais segura: os Beatles. Treinou mesmo uma voz de “falsetto” adequada ao empreendimento. O resultado soa não aos Beatles, como é evidente, mais à banda do mundo que mais se lhe assemelha, ou seja os XTC. Restava a Adrian Belew refugiar-se no papel de multi-instrumentista inspirado, mas ainda aqui faltou-lhe o golpe de asa capaz de o fazer voar acima da mediania. É caso para dizer que a “revolução interior” não terá dado os melhores frutos. (5)

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Kevin Ayers – “Still Life With Guitar”

Pop Rock

25 MARÇO 1992

SOL, CHAMPANHE E BLUES

KEVIN AYERS
Still Life with Guitar

LP/CD, Fnac Music, distri. Variodisc

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Depois de debilidades como “As Close as You Think” (1986) e “Falling Up” (1988), e a par de uma reconhecida tendência para deixar andar as coisas, é de todo inesperado este regresso em força de Kevin Ayers. “Still Life with Guitar” é “só” o melhor álbum de ex-Soft Machine da sua fase, digamos, “normal”, que inclui todos os discos posteriores à esquizofrenia genial de “Joy of a Toy” e “Shooting at the Moon” e o parênteses da sequência que ocupa todo o primeiro lado de “The Confessions of Dr. Dream”, com Nico e Brian Eno – fase de que fazem parte, portanto, os imprescindíveis “Whatevershebringswesing” e “Bananamour”.
É como se Kevin Ayers acordasse da longa letargia que o levou a estiolar ao sol e no lazer da Cote d’Azur e do Sul de Espanha, onde durante os últimos anos foi deixando secar a inspiração, para finalmente se lançar em busca do tempo perdido.
Diga-se desde já que o conseguiu. “Still Life with Guitar” tem todas as características da fase dourada: a excentricidade elegante, uma maneira de contar histórias capaz de transformar a frase mais vulgar numa peça de um “puzzle” montado por um internado do Rilhafoles, os balanços rítmicos empurrados pelo álcool e, sobretudo, a inconfundível voz de barítono, mais “blasée” e profunda do que nunca. Num total de dez temas que compõem “Still Life with Guitar”, pela menos metade vai direita á galeria dos clássicos do autor: “Something in between”, “Thank You Very Much”, “Fhost Train”, “I don’t depend on you” e “M 16”. Os outros cinco estão em fila de espera. Desde a abertura – que, nas primeiras notas, remete para Lou Reed – de “Feeling this way” ao tradicional que encerra o disco “Irene good night”, escreve-se, à luz branca da Lua (a luz que enlouquece no “Lunatic’s lament” de “Shooting at the Moon”), um compêndio de canções fora de moda, fora do tempo, mas mesmo a tempo de nos desintoxicar do verniz tóxico com a maioria da actual produção pop nos envenena.
Não falta nenhum capítulo: a balada estelar e pianística de “Something in between”, o regresso ao café surrealista de “May I”, com mesa reservada em “Thank you very much”. Novos uivares à Lua em “Ghost train”, depois do comboio-fantasma não ter parado ao sinal de “Stop this Train” (do álbum “Joy of a Toy”, a rádio sintonizada nos “blues” etilizados pelos vapores de um vibrafone em “I don’t depend on you” (os conhecedores saberão reconhecer e apreciar, neste e noutros temas, a construção de frases e as rimas típicas do compositor), as ondulações vocais do “crooner” à beira do naufrágio em “M 16”. Mas há mais: as aventuras de Johnny, o mentecapto romântico, ao ritmo “zydeco” de um acordeão rural em “There goes Johnny”, o retorno do “cowboy que gosta de champanhe” em “When your parents go to sleep”, sem esquecer o diálogo instrumental “cool” entre a guitarra de Ollie Halsall (há muito companheiro habitual de Ayers), o contrabaixo de Danny Thompson e a bateria de Roy Dadds ou a personificação de Georges Moustaki em jeito de “country blues” no tradicional “Irene good night”. Uma referência especial a dois dos convidados: Mike Oldfield, num regresso em força desde os bons velhos tempos em que integrava a Whole World, de “Shooting at the Moon”, e Anthony Moore – ex-Slapp Happy, eventual desestabilizador nos Henry Cow e autor de uma das obras-primas mais menosprezadas de sempre da música popular, “Flying doesn’t Help”. A surpresa do ano. (9)

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O Lugar Dos Mortos

Pop Rock

8 JANEIRO 1992

O LUGAR DOS MORTOS

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Tem-se insistido muito na tese de que 1991 terá sido um ano negro no que diz respeito à elevada percentagem de passamentos no campo da música rock. Visão pessimista que peca por falta de rigor. As estatísticas não mentem: durante o ano que findou há a contabilizar – e estamos a referir-nos apenas aos dados relativos à Europa – 675.341 artistas vivos (incluindo 388 nacionais) e em actividade, contra 17 mortos (nenhum nacional) com nenhuma ou quase nenhuma actividade. Convenhamos que o balanço é positivo.
1991 não passou afinal de mais um ano como qualquer outro, tendo-se procedido ao cíclico reajustamento de forças. E, depois, há aquele fascínio mórbido dos “media” pela morte, que nos leva a encher páginas de necrologia. Alguém se lembrou de apontar as datas de nascimento das celebridades vindas ao mundo o ano passado? Costuma dizer-se que os heróis, como as árvores, morrem de pé. Não foi bem o caso. Proceda-se então à cronologia dos principais óbitos.

Buck Ram
1 de Janeiro (84 anos)

Morreu velhinho o fundador de uma das bandas mais célebres dos anos 50, os Platters. É o autor de “Only you”, o tema imortal dos namorados, bem como “The great pretender” que Freddy Mercury recuperou no álbum de estreia dos Queen. Bryan Ferry fez o mesmo com “Smoke gets in your eyes”. “Rock around the clock” – nunca mais.

Steve Clark
8 de Janeiro

A ingestão de uma mistura de álcool, morfina e Valium liquidou o guitarrista da banda de heavy metal Def Leppard, que, como quase todas do género, se notabilizou pelo elevado teor decibélico que conseguia produzir. Não há organismo que resista.

Serge Gainsbourg
2 de Março (62)

O PÚBLICO chamou-lhe o “homem com cabeça de couve”, título de um dos seus álbuns. Foi encontrado morto em casa, de morte natural. É pouco provável. Seria o maior paradoxo para quem, como ele, fumava cinco maços de tabaco por dia e que dos suspiros de uma sessão amorosa fez um êxito de vendas, com Jane Birkin, em “Je t’aime, moi non plus”, o disco proibido que todos os adolescentes queriam ouvir. Escreveu canções para Bardot, Gréco, Petula Clark e para a “poupée de cire” France Gall. Contracenou com Joe Dalessandro, um dos “queridos” de Andy Warhol, e poucos anos antes de morrer dirigiu a filha Charlotte, em “Charlotte for ever”, num filme sobre o incesto. Fez da sua vida um escândalo constante e dizia “não pertencer a este mundo”, ele, um “poeta assassinado pela sociedade de consumo” que detestava a lucidez. Por isso Boris Vian gostava dele. A cabeça de couve era por ter as orelhas muito separadas. Serge Gainsbourg foi tudo menos um vegetal.

Doc Pomus & Mort Shuman
29Março (66)/ 2 de Novembro (52)

Formaram durante anos uma parelha inseparável de autores de rhythm’n’blues. Nem a morte conseguiu separar a dupla rival de Leiber & Stoller, com os quais aliás por diversas vezes chegaram a colaborar. Morreram no mesmo ano, ambos vítimas de cancro. São da sua autoria clássicos como “Save the last dance for me” (interpretada pelos Drifters), “Sweets for my sweet” (The Searchers) e “His latest flame” (Elvis Presley). A morte de Pomus motivou Lou Reed, de quem era amigo, para a gravação do recente “Magic and loss”. Quanto a Shuman nem o apelido conseguiu evitar que escrevesse as canções “cor-de-rosa” sopeira que o celebrizavam.

Martin Hannett
18 de Abril (42)

Produtor dos Joy Division, Durutti Column e Cabaret Voltaire. Um dos homens fortes da Factory. Ajudou a criar o som e o estilo depressivos da escola de Manchester e a moda das olheiras e gabardinas negras. Antigo estudante de Química, talvez por isso passou a vida a experimentar os efeitos das mais variadas substâncias alucinogéneas, experiências que não terão servido para aumentar os seus conhecimentos de farmacologia, mas que transformaram a sua vida num inferno. Nunca se libertou do complexo de culpa motivado pela morte, por enforcamento de Ian Curtis, ao qual ficou para sempre ligado desde o trágico “Closer”. Morreu de um ataque cardíaco, durante o sono.

Steve Marriott
20 de Abril (44)

Diz-se que o tabaco pode ser prejudicial à saúde e é verdade. Um cigarro bastou para provocar a morte do antigo vocalista e guitarrista da banda “mod” dos anos 60 Small Faces e, anos mais tarde, dos Humble Pie. Um simples cigarro que incendiou a “cottage” do séc. XVI onde vivia, retirado e de forma pacata, com a esposa. Alguém ainda se lembra de “Tin soldier” e “Lazy Sunday”? Eram os tempos da “Swingin London”, psicadélico e vibrante.

Johnny Thunders
23 de Abril (38)

A morte clássica: “overdose” – provocada pela mistura de cocaína e metadona. O cenário da morte, também clássico: um quarto de hotel, perdido na noite de Nova Orleães. E os rumores, como já acontecera com Jim Morrison, de que teria morrido assassinado ou de ataque cardíaco. Foi dos que levou a imagem mítica do “rock & roll hero” até ao fim. Antes de formar a sua própria banda, Heartbreakers, fez parte das “bonecas” New York Dolls, uma mistura de rock, “punk”, “thrash” e “glamour” que Malcolm McLaren apadrinhou e dos quais viria a nascer o conceito e a bomba Sex Pistols.

Gene Clarck
24 de Maio (49)

Era considerado o compositor mais interessante dos Byrds, inventores, nos anos 60, da country espacial. Os R.E.M., como toda a gente sabe, devem-lhes muito, em particular aquela maneira especial de tocar guitarra, capaz de fazer subir cada um “8 miles high”.

Vince Taylor
27 de Agosto

“Rocker” francês, alucinado e decadente. Viveu no excesso e do excesso, entre a companhia do álcool, os medalhões foleiros, periódicas crises de misticismo e a paranóia. Quis ser uma grande estrela do rock’n’roll. Em França é difícil. Chamaram-lhe o “Satã do Rock”. Costumavam encontrá-lo morto de bêbedo, em caixotes do lixo. “Le rock c’est ça” – cantava. Morreu na Suíça, o país mais limpo do mundo.

Rob Tyner
17 de Setembro (46)

Mais um ataque de coração. O coração dos “rockers” parece ser fraco e, portanto, convém não abusar. Tyner, como tantos outros, não ligou aos conselhos de Fernando Pádua – de levar uma vida regrada – e isso foi-lhe fatal. Embora neste caso a autópsia não revelasse vestígios no organismo das substâncias do costume. Rob Tyner integrou, no início dos anos 70, os MC (Motor City 5), banda de Detroit, precursora do heavy que aliava a linguagem revolucionária à brutalidade sonora, que, em álbuns como “Kick out the Jams” ou “Back in the USA”, provocaram, à época, na América, algyma confusão.

Bill Graham
25 de Outubro (60)

Lendário promotor de concertos. Morreu de uma queda de helicóptero provocada pelo embate com um cabo de electricidade, quando regressava da Califórnia, onde assistira a um espectáculo de Huey Lewis. Promoveu, ao longo dos anos 60 e 70, concertos dos Grateful Dead, Doors, Jefferson Airplane, Jimi Hendrix, Rolling Stones, The Who e Bob Dylan. Criou em São Francisco o célebre Fillmore West e, pouco tempo depois, o Fillmore East, em Manhattan, ambos encerrados em 1971. J+a na década seguinte esteve ligado à organização do Live Aid em Filadélfia e a alguns megaconcertos de apoio à Amnistia Internacional, realizados nos Estados Unidos. Devia ser boa pessoa.

Freddy Mercury
24 de Novembro (45)

Só na véspera da morte o vocalista dos Queen reconheceu publicamente sofrer de sida. Vinte e quatro horas depois, numa noite de domingo, a “rainha” morria como uma sombra de si própria, de uma bronco-pneumonia. Aquela “crazy little thing called love” foi-lhe fatal. A “rapsódia da boémia” – uma vez organizou uma festa com bailarinas nuas, dançando em recipientes cheios de bocado de fígado, e cocaína servida em bandejas de prata, debaixo de fogo-de-artifício – chegava ao fim. Freddie tinha sentido de humor: gostava dos irmãos Marx (dois dos álbuns dos Queen têm por títulos “A Night at the Opera” e “A Day at the Races”) e convidou a “primadonna” Monserrat Caballé para cantarem juntos. Disse um dia que os Queen haviam de ser os Cecil B. de Mille do rock. No último teledisco fazia de louco.