Vangelis
1492 – Conquest of Paradise
LP/MC/CD East West, distri. Warner Music
Apresentação exemplar: muitas gravuras (a cores) alusivas à descoberta da América e fotografias (a cores) retiradas do filme homónimo de Ridley Scott (com quem o grego volta a trabalhar, depois de “Blade Runner”). Uma tentação que quase leva a dispensar os sons… Vangelis é um dos autores de bandas sonoras mais requisitados do momento. A sua música presta-se a isso: é pomposa, grandiloquente, ocupa bem os espaços, não há buraco que as vagas épicas dos seus sintetizadores não tapem. O tema de “1492” não lhe poderia ser mais propício, de tão épico que é. Colombo, o herói descobridor. O paraíso desbravado à custa da matança dos nativos. Muitas caravelas. Lutas. Bandeiras. Vangelis agarra nos tópicos óbvios e sobre eles constrói uma catedral de sinfonismos electrónicos, enriquecidos de coros majestosos e toques ocasionais de “world music” (flamenco e africanismos sortidos). Não se pode negar a esta música a virtude de ser extremamente agradável de se ouvir. E não é afinal toda a obra do compositor uma demanda incansável de um outro paraíso? O paraíso, dizia David Byrne, “é um lugar onde nunca nada acontece”. Não é bem o caso. As cores são belíssimas. (6)
MIKE OLDFIELD
Tubular Bells II
LP/MC/CD Warner Bros., distri. Warner portuguesa
Negócio é a palavra-chave. Negócio de imagens, números, reciclagem, desenterrar o passado, polir o produto e apresentá-lo como uma “ideia original”, inteligente, um golpe de génio. É disso que trata “Tubular Bells II”, versão tardia, de 20 anos, do original que nos anos 70 “revolucionou” a música pop, nas palavras de Rob Dickins, presidente da Warner no Reino Unido. Ao ponto de, na campanha publicitária, o primeiro “Tubular Bells” ser referido como uma “prequel”, dando a entender que o novo produto é que é o genuíno, numa brincadeira sintomática que recupera o termo “sequel”, ou sequela, cada vez mais em voga no cinema.
Dickins fala, a propósito, num “mundo de ‘Alien III’, ‘Arma Mortífera III’ e ‘O Exterminador Implacável II’, um mundo de números, de exploração de fórmulas que deram frutos dourados. Se “’O Padrinho II’ era melhor que o primeiro”, diz ainda Dickins, porque não ver em “Tubular Bells II” apenas a “sequência lógica” daquela atitude transposta para a música? Porque é óbvio que não, respondemos nós.
Coincidindo com a edição do novo disco de Mike Oldfield para a Warner, pela primeira vez, Richard Branson da Virgin não auferirá de quaisquer proventos. O compositor, guitarrista e multi-instrumentista assegurou também um novo acordo com a EMI, que, recorde-se, adquiriu todos os seus direitos de autor, quando da compra do grupo Virgin. “Tubular Bells II” terá ainda direito a um “home video”, na Warner, consumada que está a apresentação ao vivo, com pompa e circunstância, num espectáculo realizado num castelo de Edimburgo, que os portugueses tiveram oportunidade de assistir, na sexta-feira, em directo pela televisão.
“Tubular Bells II” é a versão adocicada do original. Carregou-se nas tintas “new age” e na limagem de arestas. A estrutura é a mesma, respeitando as diversas partes onde nem sequer falta a sequência final do primeiro lado (no formato vinílico), com um “mestre de cerimónias” incumbido de apresentar os diversos instrumentos até ao momento apoteótico correspondente à entrada dos célebres “tubular bells”. Mas como os tempos mudam, apesar de tudo, ouve-se uma introdução a “two sampled guitars” e a outros artefactos electrónicos que, diga-se de passagem, são muito menos românticos que os “mandolins” e “glockenspiels” do disco antigo. Não faltam a voz feminina à beira do desfalecimento de Sally Bradshaw e as gaitas-de-foles, aqui entregues aos P. D. Scots Pipe Band e aos Celtic Bevy Band. Mike Oldfield toca o esperado estendal de instrumentos, incluindo os sinos, e Trevor Horn assegura a produção, ele que foi um dos grandes impulsionadores do projecto e a quem, por tal motivo, devem ser assacadas responsabilidades. Nunca há só um culpado.
Ainda segundo Rob Dickins, “Tubular Bells” dirige-se a uma “subgeração de jovens fartos de música minimalista, à base de ritmos computorizados e ‘samples’” que procuram “outra coisa qualquer, próxima da música clássica”.Essa coisa é um híbrido mole e requentado, um golpe oportunista, pese embora os argumentos em contrário avançados por todos os envolvidos, com a agravante de minimizar e conseguir apagar as virtudes, que as havia, da versão original. Os tubos, depois de cornucópia de divisas, mesmo se a nova capa os mostra dourados, passaram a canos de esgoto. Não por acaso, sempre se foi lembrando que “Tubular Bells II” já vendeu, 20 anos passados sobre a sua edição, mais de 16 milhões de cópias em todo o mundo, mantendo uma média de vendas anual na ordem dos cem mil exemplares. É obra. Mas não de arte. (3)
Magma
Magma Live
2xCD, Seventh, distri. Megamúsica
“Louco”, “megalómano”, “fascista”, “génio”, de tudo chamaram a Christian Vander, uma das personagens mais fascinantes e que melhor música produziu durante os anos 70. Os Magma nasceram de uma visão sua, desmesurada, de um universo paralelo, o “Uniweria Zëkt”, centrado no planeta Kabaia. A partir desse delírio central, Vander edificou uma construção musical imensa, até hoje sem paralelo nos anais da música popular, inspirada em doutrinas místicas obscuras e na noção wagneriana de “obra” como um todo. Chegou ao ponto de inventar sozinho uma língua, o kobaiano, com gramática própria (parece que o músico chegou a pôr a hipótese de escrever um dicionário de francês-kobaiano…).
A música dos Magma narra a saga do encontro entre Kobaia e a Terra e cada disco funciona como um capítulo inseparável dos restantes, desde o duplo-estreia intitulado simplesmente “Magma” até ao epílogo “Attahk”, passando por “1001º Centigrades”, “Mekanik Destruktiw Kommandoh”, “Kohntarkosz” e “Udu Wudu” (as vogais levam geralmente tremas ou outras pontuações bizarras). A capa do primeiro mostra uma garra gigantesca esmagando a mole humana e numa das faixas Vander grita um discurso em voz histérica, à maneira de Hitler, o que desde logo lhe valeu a acusação de “fascista”. Pelos Magma passaram músicos como Klaus Blasquiz, Didier Lockwood, François Cahen, Gérard Bikialo e Michel Graillier, entre outros, todos eles senhores de capacidades técnicas notáveis e todos eles incapazes de aguentar o total empenhamento exigido por Vander, para quem os Magma, mais do que um simples grupo, foram uma filosofia de vida. Na capa de “Magma Live” lê-se o seguinte: “A música dos Magma é como um espelho onde cada um pode ver o reflexo de si próprio.” Ao vivo, a banda tinha por hábito dar concertos com cinco ou mais horas de duração. Autênticos rituais de fogo em que a bateria marcial de Christian Vander se desmultiplicava no comando das operações, servindo de maestro às litanias operáticas da sua irmã Stella e às labaredas do baixo de Jannik Top, único adepto convicto das doutrinas do mestre, capaz, a seu lado, de viver a aventura até ao fim. “Magam Live”, capítulo seguinte a “Kohntarkosz” na odisseia de Kobaia, inclui a variante “Kohntark” e os originais “Ëmëhntëht-Rê”, “Hhaї”, “Lїhns” e “Mëkanїk zaїn”. Sem atingir a teatralidade dos primeiros álbuns, a tensão levada ao limite de “Kohntarkosz” ou o ponto de combustão de “Udu Wudu”, e incorrendo por vezes em lugares-comuns do jazz-rock, “Magma Live” é, anda assim, um dos grandes discos da década de 70, nascido do coração, do cérebro e das entranhas de um peregrino do absoluto. (7)