Arquivo da Categoria: Noise

Cassiber – “Live in Tokyo”

Sons

19 de Fevereiro 1999
DISCOS – POP ROCK


Cassiber
Live in Tokyo (7)
2xCD Recommended, distri. Ananana


cassiber

Os Cassiber, um dos múltiplos projectos do músico/teórico Chris Cutler – aqui um trio com Christoph Andres e Heiner Goebbels, mais o saxofonista convidado Shinoda Masami –, gravaram o presente registo numa das suas derradeiras apresentações ao vivo, em dois concertos consecutivos em Outubro de 1992, em Tóquio, os únicos realizados pela banda no Japão. Depois, disso, os Cassiber deram por extinta a sua actividade em Dezembro desse ano, na Gulbenkian, em Lisboa. O primeiro álbum contém, além de originais, temas de álbuns comprometidos estética e ideologicamente, como “Perfect Worlds” e “A Face We all Know”, demonstrativos do manifesto musical da banda, uma síntese de mensagem política, tendência de esquerda hermética, samplers enfurecidos e um anarco-jazz com raízes no movimento “RIO” (“Rock in Opposition”). As versões tanto podem ser bastante fiéis aos originais como afastar-se completamente deles, como é o caso de “Todo o dia”, um dos muitos temas com base em samples de “Perfect Worlds”. Mais interessante acaba por ser o segundo disco, composto por remisturas, samplagens e colagens das gravações dos dois espectáculos dos Cassiber em Tóquio pelo grupo japonês Ground Zero, com Otomo Yoshihide. Também neste caso se tratou do último trabalho desta banda e de uma homenagem ao saxofonista Shinoda Masami, que viria a falecer pouco depois destas gravações, aos 34 anos.



Jim O’Rourke – “Eureka”

Sons

26 de Março 1999
DISCOS – POP ROCK


Ideia luminosa

Jim O’Rourke
Eureka (8)
Domino, distri. Música Alternativa


jor

Em Chicago recicla-se até ao infinito a espiral das últimas quatro décadas de música pop. Nos comandos desta linha de montagem encontra-se Jim O’Rourke, patriarca do pós-rock, erudito de reconhecidos méritos (acertou em todos os nomes com que a revista “The Wire” o desafiou numa das suas últimas Invisible Jukebox), divulgador de novos talentos (entre os quais Nuno Canavarro, que Jim descobriu através de “Plux Quba”, gravada pelo músico português em 1988, editando o disco na sua própria editora Moikai) e amigo (por vezes até demais) dos seus amigos.
Depois da reconversão dos Gastr del Sol de discípulos heterodoxos dos Faust (com um álbum novo disponível em Portugal em finais do próximo mês) em neuróticos da pop, no álbum do ano passado, “Camoufleur”, também na sua obra a solo o conceptualista de Chicago se vem emaranhando cada vez mais nas malhas de um passado tão diversificado quanto sedutor nas margens do mainstream. E se, neste particular, o seu anterior trabalho, “Bad Timing”, cultivava ainda o gosto por um certo desequilíbrio estrutural e por heranças estéticas politicamente incorrectas – como as dos Faust ou de um dos seus heróis, John Fahey –, neste novo “Eureka” a ideia luminosa passa pela rendição à luxúria dos meios técnicos facultados pelo estúdio e às doçuras da pop encarada como arquitectura orquestral, numa profusão de sopros, cordas, piano classicizante, subtilezas pontilhísticas e toda a espécie de ornamentações electrónicas que não deixam de evocar a obra de Van Dyke Parks.
“Eureka” flutua num limbo de lembranças e sonoridades embelezadas pela “patine” do anacronismo, remetendo canções como “Prelude to 110 ou 120/Women of the world” e “Movie on the way down” para o trabalho de trovadores dos anos 70 como Roy Harper e Neil Young (o mais doce, de “After the Gold Rush”, “Harvest” ou da recente revisitação a este último disco, “Harvest Moon”), respectivamente, enquanto “Through the night slowly” transporta reminiscências de Robert Wyatt em “Ruth is Stranger than Richard” somadas ao easy listening de luxo dos High Llamas e Stereolab. “Eureka”, o título-tema, desliza, por sua vez, pelas alamedas povoadas de répteis sombrios que Brian Eno destapou em “Another Green World” (aparentemente uma das redescobertas mais recentes dos pós-rockers). O easy listening (e as referências, tornadas já um pouco fastidiosas à bossa-nova) instala-se, de resto, na versão de um tema de Burt Bacharach, “Something big”, ao mesmo tempo uma demonstração da fixação do músico de Chicago no legado deixado pelos grupos ingleses de Canterbury, também eles fascinados pelas melodias e nostalgia da bossa-nova.
“Eureka”, pese embora a diversidade de influências em jogo, inevitáveis em alguém com a cultura musical de Jim O’Rourke, consegue, todavia, provocar o efeito de verosimilhança, indispensável em qualquer boa obra de ficção. Porque, se, para o compositor, a causa se encontra nos livros de História, o objectivo, esse aponta para o futuro. Mesmo quando o futuro passa por adquirir a forma, ou a quintessência, de uma visão perdida algures nas catacumbas da alma, como um anjo decaído que procurasse acima das nuvens o elo perdido da sua identidade celeste.



Pan Sonic – “A”

Sons

14 de Maio 1999
POP ROCK


Pan Sonic
A (8)
Blast First, distri. Symbiose


a

Depois de Matilde Santing ter perdido o “h” de Mathilde é a vez de os Panasonic deixarem cair o “A” e passarem a chamar-se Pan Sonic. Guardaram a letra para o título e lançaram já um maxi que carimbaram com um rotundo “B”. Um abecedário que promete. A dupla dos noruegueses Mika Vainio e Ilpo Väisänen, depois de no ano passado terem recriado em conjunto com Alan Vega o som dos Suicide, em “Endless”, voltaram a recolher-se ao quarto escuro dos primeiros tempos. Um quarto fechado e sem móveis, penetrado durante 24 horas por dia pelos ruídos da monotonia e da alienação. “A” tem a subtileza de uma esfera de chumbo e o apelo de uma sala de operações a funcionar no vazio. É a máquina de tortura inventada por uma das personagens de Kafka e uma cápsula de transcendência para tomar entre dois acesos de paranóia. A música dos Pan Sonic detesta o romantismo e as cores do arco-íris. Mas nutre toda a simpatia pelas linhas de montagem dos primeiros Cluster e Kraftwerk e pelas chagas de metal da música industrial. O metal de “A” não tem ferrugem, é metal vivo, como uma criatura saída da imaginação de um cientista louco. “A” é bom para meditar desde que seja sobre o nada. “A” é um afrodisíaco desde que o parceiro(a) seja um boneco(a) insuflável. “A” é música ambiente da cidade do futuro que todos desejamos que nunca venha a existir. “A” é a primeira letra do fim. “A” é “endless”, não tem fim. “The torture never stops” cantava Frank Zappa no álbum “Zoot Allures”. Mas o que provoca dor no humano dá prazer à máquina. Uma máquina programada para castigar o homem e para se masturbar até ao infinito.