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Sérigio Godinho – “Pano-cru” (OS MELHORES DE SEMPRE | MÚSICA PORTUGUESA)

pop rock >> quarta-feira, 15.11.1995


OS MELHORES DE SEMPRE

MÚSICA PORTUGUESA
Esta selecção dos melhores álbuns de sempre da música produzida em Portugal até aos anos 90, resulta de uma votação feita pela equipa do suplemento Pop/Rock. São privilegiados os trabalhos concebidos sob a forma de álbum, mas também sendo aceites compilações e mini-álbuns quando estes forem os melhores ou únicas edições dos respectivos autores. A ordem de publicação é aleatória.

Sérgio Godinho Pano-cru

como foi



“é um disco em que – à excepção de um trecho, ‘O homem-fantasma’, com arranjo do Zíngaro – os arranjos são consequência da contribuição dos outros músicos”. Sérgio Godinho, naquele que para muitos é o seu melhor disco de sempre, prefere repartir responsabilidades e dividir os louros por toda a equipa. “Foi um método de trabalho em que peguei numa série de pessoas, nomeadamente o Guilherme Inês, o Zíngaro, o meu irmão Paulo, ou o Pedro Osório, e trabalhámos até encontrar soluções que me conviessem. De uma maneira informal e sem arranjos pré-escritos”. Uma opção “que vinha um bocado de trás” e “consequência de um trabalho que nunca deixou de acontecer mas foi talvez assumido de uma maneira mais funda neste disco”. Desta união de esforços resultaram uma “simplicidade instrumental e arranjos bastante básicos”, mas que o autor considera “bastante eficazes”. “Tem um som, agora com a história do CD, que eu ouvi e achei muito límpido. O próprio som do Moreno Pinto, um técnico que na altura fazia trabalhos muto bons, agrada-me muito”.
Disco de clássicos, “Pano-Cru” corresponde a um pico de inspiração na carreira discográfica de Sérgio Godinho. “Tínhamos saído um pouco da ressaca pós-PREC. Estava-se num período de mudança muito rápido e havia uma energia criativa que sentia à minha volta. A minha energia estava então mais virada para o futuro do que para lamentar o passado. Não gosto de chorar sobre o leite derramado. Havia coisas que se tinham perdido, mas, por outro lado, estavam em elaboração outras que, para mim, eram exaltantes, como o facto de poder trabalhar ao vivo com os músicos que eu queria, algo que na altura do PREC não era possível. Nessa altura, por exemplo, o Zíngaro tocava muitas vezes comigo. Tudo isto se reflecte no disco que foi imediatamente testado ao vivo numa digressão que fiz, de genérico, ‘Sete anos de canções’, correspondente à aparição de uma cooperativa, a Era Nova. Onde estavam o Zeca, o Fausto, o Vitorino, e da qual a primeira iniciativa foi esta digressão, um pouco por inspiração do Camilo Mortágua, que era um bocado a ‘alma pater’ desta cooperativa. Foram 24 espectáculos em 20 capitais de distrito. De uma maneira, para a altura, heroica, e da qual saímos com magros resultados financeiros. Fomos a sítios onde não havia nada e nos chegavam a perguntar se íamos tocar ‘variedades’”.
Entre todas as canções de “Pano-Cru” há uma que permanece, de uma maneira quase obsessiva na memória: ‘O primeiro dia’. “Curiosamente, não começou por ser um ‘hit’ evidente. Demorou até ser interiorizada”. Sérgio Godinho define-a como “uma canção de ruptura, de repensar as coisas e encontrar uma certa sabedoria para o futuro”. “Nesse aspecto”, diz, “é uma canção que me persegue. No espectáculo ‘Escritor de Canções’ fiz questão de não a cantar, para a deixar repousar um bocado.” [Sérgio Godinho abriu aqui um parênteses para anunciar a edição, já no princípio de Dezembro, de um disco ao vivo, com o título “Noites Passadas”, registando os espectáculos no Coliseu e no S. Luiz, em Lisboa, e no Rivoli, no Porto, do ano passado, e no qual se inclui uma versão, ‘muito boa’, de “O primeiro dia”.]
“Balada da Rita”, do filme “Kilas, o Mau da Fita”, é outro momento inesquecível de “Pano-Cru”. Uma canção “assumida no feminino”, e “cantada por um homem”. “Foi composta para ser cantada por uma mulher, a Lia Gama, aliás, como acontece na primeira versão, numa edição raríssima, da banda-sonora, e no próprio filme”. Sérgio Godinho deixou, no entanto, sempre no ar a possibilidade de ser ele a cantá-la. “Agrada-me essa ambiguidade de cantar na primeira pessoa do feminino, uma coisa que, curiosamente, foram sobretudo os brasileiros a fazer, o Caetano, o Chico, mas que não existe muito na música americana ou na francesa. Há uma espécie de pudor em relação a isso”. Uma canção, ainda, que o músico considera de “difícil versificação, porque tem três rimas seguidas diferentes que têm que rimar com as outras três”. “Lá isso é”, retomada recentemente pelos Sitiados, é apontada como uma das canções que Sérgio Godinho deixou de cantar. “Há coisas na letra que perderam actualidade, mas isso pareceu não os incomodar muito. Coisas de pormenor, como uma quadra que diz ‘Há partidos de direita que põem sempre a bola ao centro, mas quem melhor os fintar é que vai marcar o tento’. Eles nem tinham percebido que a bola ao centro era a do CDS”.
Outra canção que Sérgio Godinho nunca cantou ao vivo é “2º andar direito”, a conversa nocturna entre dois amantes que se tornou um dos temas mais apreciados pelos admiradores deste compositor-intérprete. “É uma canção de frases, de diálogo, que curiosamente foi objecto de um exercício na Escola de Cinema, quando o Ricardo Pais era lá professor. Ele propôs aos alunos fazer uma planificação, um ‘script’ a partir dela. Há uma sugestão de diálogo permanente, de situações imagéticas. Houve mesmo um filme de dez minutos feito com esses ‘scripts’ para a televisão, pelo Ricardo Nogueira, que nunca mais vi”.
É a vertente cinematográfica da obra de Sérgio Godinho aqui já a fazer-se sentir e que o autor mais tarde viria a desenvolver através da sua linguagem própria. Como um realizador que planifica a vida em ‘sketches’, Sérgio Godinho observa do exterior, através da lente ou, neste caso, do vizinho que vive no apartamento ao lado do dos amantes. “Aliás, nesse tal filme de dez minutos, eu fazia precisamente de vizinho. Há um volte-face nessa canção. Está a ser contada por um narrador que depois se descobre ser um terceiro personagem. A partir daí o narrador passa a ser eu, eu compositor, eu autor da canção. A introdução de um elemento inesperado, uma nova personagem, rouba o protagonismo ao casal. Existe uma lado ficcional que pode ser cinematográfico”. Um “exercício de ficção”, ao contrário de “O primeiro dia”, que tem “algo de autobiográfico”.

como é

O que distingue um disco bom de um disco mágico é esse pequeno nada capaz de desencadear emoções, de acionar maquinismos escondidos da imaginação, de estabelecer, enfim, cumplicidades várias com o auditor. “Pano-Cru” é um disco mágico.
Equilibrado, sem custo aparente, o registo popular (“O galo é o dono dos ovos”, “Venho aqui falar”, “Lá isso é”) com o intimismo (”O primeiro dia”, “2º andar, direito”), a sátira de costumes (2ª vida é feita de pequenos nadas”, “O homem-fantasma”) e a crónica de amores ou de personagens (“Feiticeira”, “Balada da Rita”), sente-se nele o domínio da arte da narração, o casamento perfeito entre a intenção, o som e a palavra. Gerado num período conturbado da nossa História, três anos passados sobre o golpe de Abril, a densidade e a tensão presentes em cada canção ocultam-se por detrás da fluência e facilidade com que se desenrola esta espécie de “thriller” psicológico do português ainda tonto da revolução. Se o microcosmos de “2º andar, direito” – reflectindo as preocupações e dúvidas existenciais de quem acordara estremunhado da opressão dos corpos e dos sentimentos e redescobrira a liberdade e o prazer da fala – desencadeia de imediato um “feedback” emocional em todos os que acompanharam de perto esses tempos de mudança. “O primeiro dia”, uma das melhores canções de sempre da música popular portuguesa, é o tema intemporal por excelência, relógio implacável da nossa própria existência, “Pano-Cru” é ainda a confirmação de Sérgio Godinho como organizador não só de palavras, como de imagens. Aqui realizador de um filme em corrida eterna contra o tempo. Um filme, como se pode escutar no genérico final, ainda e sempre “por acabar”.

ALINHAMENTO
Lado 1
1. A vida é feita de pequenos nadas
2. O primeiro dia
3. O galo é o dono dos ovos
4. Balada da Rita
5. Venho aqui falar

Lado 2
1. Lá isso é
2. Feiticeira
3. O homem-fantasma
4. 2º andar direito
5. Pano-cru

LETRAS E MÚSICAS
Sérgio Godinho
Arranjo de “O homem-fantasma” de Carlos Zíngaro
Restantes arranjos da responsabilidade de Sérgio Godinho com a colaboração dos músicos presentes

MÚSICOS
Sérgio Godinho (guitarra, percussões, coros), Paulo Godinho (baixo), Carlos Zíngaro (violino, cavaquinho), Guilherme Scarpa – Guilherme Inês (bateria, percussões), Shila (coros, galinhas, percussões), Eugénia Melo e Castro (coros, galinhas), Cara d’Anjo (coros), Pedro Osório (piano, acordeão), Carlinhos Tumbadoura (ferrinhos), Carlos Vaz (galo), Fausto (coros), Hermínio (coros), Grupo Coral Lá Isso São (coro da multidão), Armindo Neves (guitarra-solo), José Custódio (trombone), Fernando de Sousa (clarinete), Fernandes dos Santos (clarinete-baixo), Manuel Cachão (trompete), Moreno Pinto (ferrinhos), Raul Mendes (harmónica), Hugo Lourenço (locutor)

GRAVAÇÃO
Estúdios Arnaldo Trindade, durante os meses de Março e Abril de 1978
Técnico de som: Moreno Pinto

CAPA
José Brandão
Fotos: Nadia Feres Vilela

EDIÇÃO
Arnaldo Trindade & Cº Ldª, Orfeu, STAT 062
Reeditado em compacto, em 1991, pela Movieplay

Frei Fado D’El Rei – “Danças No Tempo” (crítica + entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 25.10.1995


TROVAS ANTIGAS

FREI FADO D’EL REI
Danças No Tempo
Columbia, distri. Sont Music



Oremos para que, um dia, os Madredeus sejam deixados em paz pelos jovens músicos portugueses. Para ver se nós próprios temos algum sossego. É que Portugal já não tem mar nem fado nem saudade que chegue para tanta gente. Os Frei Fado são discípulos confessos da Madredeus. Contudo, fazem questão de apresentar algumas diferenças. Temos, então, que o grupo cultiva o gosto pela música medieval – evidente em temas como “Rabelo” e “Dança dos jograis” – e renascentista, em “Trova sagrada” e “Deusa de azul”, e uma certa jovialidade que, nos últimos tempos, tem andado arredada da banda de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres de Magalhães. A voz de Carla Lopes, embora beba as inflexões vocais da vocalista dos Madredeus, desce com maior frequência aos baixos e aparece mais limpa de vibratos. Mas queiram fazer o favor de ouvir temas como “Amor popular”, “Amores do Douro”, “Memórias de um trovador” ou “A meu amado” e digam lá se não parece mesmo que são irmãs… E “Donzela” não poderia estar mais imbuído do espírito da paz… Ricardo Costa, na guitarra clássica, também não é Pedro Ayres mas deve existir algum parentesco escondido. Esgotam-se aqui as semelhanças com os Madredeus se descontarmos ainda a mesma insistência nas temáticas nacionalistas e místicas. “Perdi meu amor no mar” deve ensinamentos à música tradicional portuguesa e “Zaragoza” viaja até ao país vizinho. Caminho relativamente virgem, a pedir exploração e coragem, encontra-se em “Jóias da Índia”, um possível bilhete de identidade futuro para os Frei Fado d’El Rei. Por agora, fica a certeza de um “cocktail” de sabor agradável mas sobre o qual pairam dúvidas quanto a quem o desejará saborear. Dissidentes dos Madredeus? Os filhos dos “habitués” da Gulbenkian? O duque de Bragança? Com um disco bonito, os Frei Fado arranjaram-na bonita… (6)

MAR DA TRANQUILIDADE
Num mercado que começa a ficar saturado com um som cuja matriz pertence aos Madredeus, os Frei Fado d’el Rei arriscaram jogar nesse mesmo tabuleiro. Atirando para a mesa o trunfo da música antiga e uma voz, de Carla Lopes, que ameaça fazer sombra a Teresa Salgueiro.



Cristina Bacelar, guitarrista, e José Flávio Martins, baixista, assumem essa influência, que justificam com preocupações de ordem espiritual e o refúgio num imaginário, da Idade Média, com o qual o grupo se identifica.
PÚBLICO – Onde é que os Frei Fado d’el Rei pretendem chegar?
CRISTINA BACELAR – Entre outros, com uma abordagem muito leve da música medieval.
JOSÉ FLÁVIO MARTINS – É uma paixão que não conseguimos explicar. Tem todo um ambiente que encerra muita magia e todos nós partilhamos esse fascínio. Agora, não temos, obviamente, só essa influência. Fundimos, digamos, uma série de estilos.
C.B. – Aliás, o título do álbum significa exactamente essa viagem.
P. – Que música antiga costumam ouvir?
J:F.M. – Pedro Caldeira Cabral, Paul Van Nevel e os Huelgas Ensamble, Dead Can Dance…
P. – Questão delicada. Ao ouvir a vossa música é impossível não pensar nos Madredeus…
C.B. – Nunca negámos a influência que os Madredeus tiveram para podermos arrancar com este projecto. Mas acho que estamos cada vez mais a distanciar-nos dessa imagem, sobretudo ao nível rítmico.
P. – A vocalista Carla Lopes pode rivalizar com a Teresa Salgueiro?
C.B. – A Teresa Salgueiro é soprano e a Carla é contralto.
P. – E as semelhanças na maneira de cantar?
C.B. – Pronto, lá está. Aí há realmente uma influência, que é um certo intimismo. Exteriormente, se calhar, as pessoas podem sentir isso.
P. – Não se dará o caso de os Madredeus ocuparem um lugar onde já não cabe mais ninguém?
C.B. – Por essa ordem de ideias também não havia espaço para muitos grupos de rock…
J.F.M – Aliás, com os Madredeus há uma recepção muito grande de outros povos pela música que eles fazem. Quanto a nós, tentamos transmitir a música que se faz por cá, a música de raiz tradicional, também.
C.B. – A característica comum entre as duas bandas é esse intimismo. Mas nós temos o outro lado, que é, tanto em disco como ao vivo, em que há mais ritmo, mais movimento.
P. – O que é que vos aconteceu no espectáculo que deram nos Encontros Musicais da Tradição Europeia deste ano? Foi quase um desastre…
C.B. – O que aconteceu foi que se atrasou tudo, tornou-se stressante…
J.F.M. – Sem culpar ninguém, obviamente, mas nem sequer havia luz, o que é fundamental…
C.B. – À hora do espectáculo ainda estávamos a fazer o “sound check”. E ainda tínhamso que ir trocar de roupa. Foi um esforço terrível.
J.F.M. – Aliás, um dos cavalos de batalha era precisamente transmitir, neste disco, toda a vivacidade que temos ao vivo. Desde, é claro, que sejam criadas condições técnicas para o fazermos. Porque há muito movimento, apesar de estarmos sentados.
C.B. – É incrível, mas nos nossos espectáculos as pessoas acabam muitas vezes a dançar. Para nós é óptimo, cinco pessoas sentadas conseguirem pôr toda a gente a dançar.
P. – “Danças no Tempo” é o que se pode chamar um disco bonito. São tudo rosas na vossa sensibilidade musical? São mesmo tão calmos como aparentam?
J.F.M. – Tem mesmo que ver com a nossa maneira de ser.
C.B. – A música reflecte um bocado o lado espiritual, sem esquecer, claro, o corpo, o lado rítmico. Tentamos transmitir isso às pessoas, e poder emabalá-las. Não há violência.
P. – Que lado espiritual é esse?
C.B. – A calma que a própria música transmite, a sua magia. Uma tranquilidade espiritual.
P. – [Com ironia.] O espírito da paz?
C.B. – [Risos.] Sim, mas há um espírito da paz que pode ser clamo e outro que pode ser mais acelerado.
J.F.M – Embora, obviamente, não sejamos um grupo de rock.

Vários (Folclore Português) – “Hora do Rancho” (opinião)

pop rock >> quarta-feira >> 25.10.1995
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HORA DO RANCHO



a Movieplay está a postos para reeditar muito em breve uma série de gravações de ranchos folclóricos. Para tal, inventou um novo selo subsidiário, denominado Folclore Português. Trata-se de gravações dos anos 60, 70 e 80 originalmente lançados pela Alvorada, Tecla, Orfeu e Riso e Ritmo. Os ranchos, agora arrancados do seu justo descanso, dão pelos nomes de Grupo Folclórico de S. Miguel, Grupo Folclórico da Região do Vouga, Grupo Folclórico de Cidacos, Rancho Folclórico da Casa do Povo de Maiorca, Rancho Folclórico de Castelo de Vide ou Rancho Folclórico de Torredeita. As regiões do país contempaldas são, como se depreende, todas.
Numa altura em que se julgavam enterrados para sempre os fantasmas do passado e irradiado o espectro da “folclorite”, dos maus velhos tempos do Estado Novo e do grande “educador” Pedro Homem de Mello, eis que a Movieplay lança a sua estocada mortífera e a sua viagem para trás no tempo. Percebe-se a jogada. O panorama editorial português, nesta área, mexe como nunca mexeu antes. Lá fora, a “folk”, a “world music”, as alamedas étnicas de tudo o que é música estão de feição. Logo, é preciso lançar a rede ao mar enquanto houver peixe. Não se vislumbra, neste lance editorial, uma afeição real pela nossa tradição nem uma aposta na sua renovação mas tão só uma atitude mercantil.
O conceito-base é simples: “Se a ‘folk’ é o que está a dar, vamos lá buscar as “origens” ao fundo do bau!”. O problema está em que a estratégia parte de pressupostos errados. A música dos ranchos folclóricos não é nem se pode considerar, de forma alguma, esse repositório antigo de tradições que se pretende que seja, mas antes a sua adulteração. É, sem dúvida, uma emanação da cultura popular e, como tal, merecedora de atenção. Como cultural e popular é a atitude do emigrante que regressa para poluir a paisagem com a construção da sua “maison” toda em azulejos e cores berrantes. Os ranchso, na maioria constituídos para turista ver, representam o lado pindérico da nossa música tradicional. O “Portugal dos Pequeninos”, inculto e maneirinho, que Salazar tratava como seu jardim particular.
A reedição que a Movieplay se propõe levar a cabo é, para todos os efeitos, um acto reacionário. Um apsso atrás na reavaliação, renovação e evolução da nossa música tradicional e de raiz tradicional. Já para não falar do interesse, muito relativo, que tem escutar um rancho folclórico em versão digital… Tanto mais lamentável quando se sabe que no fundo de catálogo da editora repousam algumas preciosidades – álbuns antigos da Ronda dos Quatro Caminhos, Vai de Roda ou Terra a Terra – à espera que alguém lhes deite a mão. O que, tanto quanto sabemos, a Movieplay tem inteções de fazer. Honra lhe seja feita…
Fernando Magalhães
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