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Vitorino – “Vitorino Derrete Gelo No Centro Cultural De Belém – Por Este Frio Acima”

cultura >> sábado, 09.12.1995


Vitorino Derrete Gelo No Centro Cultural De Belém
Por Este Frio Acima


Nove meses depois das “Vozes do Sul”, Vitorino regressou ao CCB, a “sala assassina”. Mas se a frieza e as dimensões do recinto de Belém, sobretudo quando não enche, e foi o caso, são de meter medo a muita gente, desta vez a vitória pertenceu ao cantor do Redondo. Com a “Canção do Bandido” e alguns percalços à mistura.



O Grande Auditório de Belém é demasiado grande e frio. Fica longe das emoções, o público. Quinta-feira à noite, no primeiro de dois concertos em dias seguidos nesta sala, Vitorino começou por não responder da melhor maneira ao ambiente, capaz de enregelar o próprio diabo. Dez dos 13 temas de “A Canção do Bandido”, o novo álbum, preencheram a actuação de Vitorino até ao intervalo. As canções são excelentes, o registo vocal explodiu para alturas mais vibrantes, por vezes a roçar i épico – como “Cruel Vento”, um dos grandes momentos da noite -, do que as que por norma povoam o universo intimista do cantor alentejano. Este alto nível do reportório foi todavia ensombrado, nalguns casos, pela ainda deficiente memorização das letras que, à semelhança de “Eu Que Me Comovo Por Tudo e Por Nada”, voltam a levar a assinatura de António Lobo Antunes.
Vitorino está em grande forma, este concerto provou-o, mas o facto de ter que se socorrer de cábulas, afectou o seu desempenho. Aconteceu por isso, uma ou outra vez, um desfasamento entre o ritmo das palavras e o ritmo das emoções. As segundas andaram a reboque das primeiras. As guitarras de Ricardo Rocha e Mário Delgado, o baixo de Paulo Jorge Ferreira, a bateria de Rui Alves e o piano de Vasco Gil supriram na perfeição esta ocasional discrepância entre o vigor e expressividade da interpretação e o suporte da gramática. O som, muito bom, ajudou.
A temperatura subiu uma mão cheia de graus no último tema antes do intervalo, com as vozes de Filipa Pais, Mísia e Janita Salomé juntando-se à de Vitorino no “Rigoroso do Pescador da Marginal”, um fado de palavras fundas e negras, para as quais o cantor chamou, aliás, a atenção: “Meu rio tão negro e tão fundo / bacia do Mar da Palha / quero lá saber do mundo / quero lá saber do peixe / quem me ame que me deixe / ficar aqui na muralha.

O Vermelho Da Comoção

Depois do intervalo, as paredes do CCB coloriram-se com o vermelho da comoção. E, já agora, dos metais. Após nova citação à “Canção do Bandido”, com “Fado Triste” e “Sul”, já no domínio pleno dos textos, de canções mais antigas, Vitorino contou com a valiosa contribuição de um naipe de metais – Tomás Pimentel, trompete, Edgar Caramelo, sax alto, Jacinto Ramos, tuba, Daniel Salomé, clarinete e sax tenor, Sérgio Mestre, flauta – que metamorfoseou clássicos como “Negro Fado”, “Ana II”, “Laurinda” e “Queda do Império” em quadros de vida ora calorosos ora incandescentes. Em “Ó Rama ó que Linda Rama”, tradicional alentejano, a plateia, bem afinada, acompanhou Vitorino, em cumplicidade total. “Queda do Império”, a fechar, deu aso a um equívoco. Vitorino voltou a chamar ao palco os três cantores convidados mas apenas o seu irmão Janita compareceu à chamada, ambos na expectativa das senhoras irem aparecer ou não. Não apareceram. Já nos bastidores, Filipa Pais garantia que não ouvira ninguém chamá-la. Estava numa sala dos fundos a trocar de sapatos.
Nada de grave. Aplaudido de pé, Vitorino regressou para dois merecidos “encores”, “Tocador de Concertina”, derradeira “canção do bandido”, com Vasco Gil no acordeão e Carlos Salomé no piano, e o inevitável “Menina Estás à Janela”, aqui sim na companhia dos convidados todos. Entre estes, salientava-se Paula Guedes que, chamada à pressa, apenas teve tempo para vestir um “blaser” sobre o que, observado da plateia, parecia nada. Mal abriu a boca, mas fez um dos sucessos da noite. E foi neste ambiente de apoteose e alguns olhos em bico que Vitorino deu a volta ao círculo polar do CCB. Para tanto bastou-lhe cantar a “canção do bandido”.

José Peixoto – “BENJAMIM, DE MANHÃ AO DEITAR” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 29.11.1995


BENJAMIM, DE MANHÃ AO DEITAR

Benjamim é uma criança de seis anos, igual a tantas outras da sua idade. Embora curta, já tem uma história para contar. José Peixoto, “El Fad”, como era conhecido antes de se tornar guitarrista nos Madredeus, teve a ideia de fazer um disco “adulto” para crianças, “Bom Dia, Benjamim”.




Com a ajuda de músicos como Maria João, José Mário Branco, José Salgueiro, Paulo Curado, Nuno Artur Silva e João Paulo Martins e artistas plásticos como Cristina Sampaio e Vasco Colombo, nasceu um disco, um livro e um desenho animado que contam um dia na vida de Benjamim. José Peixoto contou ao PÚBLICO a história deste projecto.
PÚBLICO – Como é que nasceu a ideia de “Bom Dia Benjamim”?
JOSÉ PEIXOTO – A ideia não é nova nem original. A diferença está em que não é um disco infantil para crianças, mas sim um disco adulto dirigido a um público infantil. Surgiu a partir do momento em que comecei a ter esse problema em casa. Tenho uma filha de nove anos, não sabia que música é que havia disponível para ela. Há música clássica, que pode suprir uma série de problemas, mas música específica para crianças…
P. – A ideia foi só sua?
R. – Nasceu de uma prenda de anos que eu dei à minha filha quando ela fez seis anos. Fiz-lhe uma canção, a “Canção de embalar”, que vem no fim do disco. Percebi que poderia estar ali a génese de algo mais. Juntei uma equipa com as pessoas que julguei serem as certas. Primeiro falei com o Paulo Curado e o Nuno Artur Silva. Arquitectámos a ideia que a partir daí se foi deenvolvendo.
P. – O que é que a sua filha costuma ouvir?
R. – Habituou-se a adormecer com a Antena 2. Ouve também Bach, essencialmente.
P. – Digamos que a maioria dos miúdos de hoje não ouve esse tipo de música…
R. – Pois não. Mas isso é outro problema. É muito fácil para o imaginário de uma criança que vê os filmes do Walt Disney, das fadas, princípes e princesas agarrar, por exemplo, num “Concerto Brandeburguês”, de Bach, dotado de personagens e transformado numa história.
P. – Então não ouvem “heavy metal” nem a música dos tops?
R. – É o que lhes põem à frente. É um bombardeamento diário. Há música a mais, se calhar, sem grandes critérios. As pessoas sujeitam-se a isso passivamente. Agora se nós quisermos intervir…
P. – Há portanto uma forte componente didáctica neste projecto?
R. – Sim, claro. Daí eu ter falado numa música adulta. Às vezes parte-se do princípio de que, se o público é infantil, então tudo é infantil. Música onfantil, ideias infantis…
P. – A cantora Maria João não parece, desde logo, uma escolha óbvia?
R. – É uma mãe jovem, o que lhe garante o complemento afectivo necessário para uma pessoa se envolver num projecto deste tipo.
P. – Joasé Mário Branco, autor dos arranjos e director musical, também não é propriamente sinónimo de acessibilidade imediata…
R. – É um pai mais velho e um avô recente. E uma pessoa capaz de dominar uma linguagem musical específica, neste caso que não fosse simplória. Tem a mestria de tornar as coisas simples com uma linguagem elaborada.
P. – Como é que se compõe música para crianças?
R. – Parti da relação com a minha filha. Ou seja, da minha experiência enquanto pai, e de outras pessoas que acho que têm uma óptima relação com os filhos. Não é necessário, nesta relação, ser também criança, ter aquela tendência para falar à bebé.
P. – Na criança existe pureza no acto de ouvir, enquanto o adulto o faz já com uma carga cultural em cima…
R. – Pois, mas também quando falamos com uma criança fazemo-lo com essa carga toda. Temos é que tomar o nosso discurso transparente e simples, o mais inteligível possível. Falar com ela “à bebé” não leva a lado nenhum. Nem a criança aprende nem é estimulada para outros universos mais evoluídos. Quando falo num disco adulto, é nessa base.
P. – Qual é a história de Benjamim?
R. – Não há um enredo. São doze situações na vida de uma criança à volta dos cinco, seis anos. O disco conta o seu dia, desde que se levanta até ir para a cama, passando pela escola, a família, os amigos, as brincadeiras, a relação com o tempo, até com a morte, no episódio de um animal de estimação que morre. Cada situação é introduzida por um pequeno diálogo falado. As canções propriamente ditas são sempre na perspectiva do Benjamim.
P. – Atendendo à tal massificação de que se falou há pouco, haverá disponibilidade do público infantil para ouvir uma história desse tipo?
R. – Espero que as nossas crianças, com a idade de cinco, seis anos, não estejam já tão condicionadas que não consigam ouvir uma coisa destas de uma maneira saudável. Vejo a audição de um disco destes, naquela perspectiva dos pais que o ouvem com os filhos, lhes explicam o livro. Pode ser o lado mais positivo e bonito disto.
P. – Como é o livro? Faço a pergunta à Crsitina Sampaio, autora das ilustrações.
CRISTINA SAMPAIO – É um livro grande, muito maior que o tamanho do CD. Tem grandes ilustrações, uma por canção, com as respectivas letras nas páginas pares.
P. – Sei que existe também um desenho animado. Uma concessão à tendência das crianças para consumir imagens?
C.S. – Não, tem apenas intenções promocionais.
J.P. – Mas há outros projectos que estão a ser pensados. Pode ser que se faça uma série de televisão à volta das canções.
C.S. – Os desenhos foram feitos no computador, que uso como se fosse um lápis. Há várias versões do Benjamim. Discutimos as suas características psicológicas, se casariam bem com a sua figura, enquanto boneco.
J.P. – É um dos gozos que se podem ter a ouvir o CD, procurar perceber quem é o Benjamim.

Gaiteiros De Lisboa – “Gaiteiros De Lisboa ‘Arrasam’ CCB – Forçar As Portas Do Céu”

cultura >> domingo, 26.11.1995


Gaiteiros De Lisboa “Arrasam” CCB
Forçar As Portas Do Céu


REVOLUÇÃO! O grito de guerra foi solto pelos Gaiteiros de Lisboa no pequeno auditório do Centro Cultural de Belém. Sexta e sábado, para uma plateia entusiasta que não regateou aplausos ao agora sexteto formado por Carlos Guerreiro, José Manuel David, Paulo Marinho, Rui Vaz e os novos recrutas José Salgueiro e Pedro Casais. Esqueçam-se as falinhas mansas e os paninhos quentes com que a música portuguesa se vem aconchegando nos últimos tempos, com o beneplácito de uma Europa ávida de folclore terceiro-mundista. Os Gaiteiros são originais. Portugueses até à medula, cidadãos do universo, anarquistas do espírito. Verdadeira e orgulhosamente originais. A sua música mergulha no Passado mais remoto da nossa Tradição e dispara à descoberta do desconhecido. Bastaram doze temas, todos os que compõem “Invasões Bárbaras” – álbum de estreia do grupo – dois repetidos nos “encores” para confirmar ao vivo que a proposta dos Gaiteiros não se parece com nada. No início o grunhido telúrico modulado por José Salgueiro, de um estranho monstro tubular que poderíamos designar por “roncofone”, deu o mote para uma actuação de grande nível.
Os Gaiteiros manipulam o som como alquimistas. Manejam-lhe a matéria, o feitio, a poesia. Usaram instrumentos como a sanfona, o “kissange” e o balafone africanos, flautas várias, trompa, ponteiras, as gaitas-de-foles e tambores, muitos e furiosos tambores, a forçar as portas do céu. José Manuel David, Carlos Guerreiro e José Salgueiro assumiram a maior dose de protagonismo. O primeiro nos sopros (incluindo a trompa, ou “french horn”), na delicadeza de cristal do “kissange”, em “Se eu soubesse que voando”, e no canto; o segundo cantando, percutindo e girando a manivela da sanfona como um verdadeiro guerreiro. Quanto a José Salgueiro é o novo maestro das percussões. Dirigiu as marcações, dramatizou os acentos e as respirações, solou num tambor japonês, caminhou nos trópicos do balafone. Salgueiro deu aos Gaiteiros a disciplina necessária quando, como é o caso, se ensaiam os primeiros passos em palco.
Houve momentos exaltantes na noite de sexta-feira. Entre o terramoto dos bombos espancados em uníssono e as vibrações de terra das gaitas-de-foles destacaria a interpretação, quase sobrenatural, de “La sarandillera”, polifonia de vozes, ao centro do palco, em dança secreta com as flautas de Pã sopradas por quatro dos gaiteiros e o “french horn” de David.
“Talvez que sonhando”, outra prestação de antologia, incluiu uma dedicatória ao autor, Sérgio Godinho, “outro bárbaro”, como lhe chamou Carlos Guerreiro, enquanto “Marcha” e “O menino está na neve” tiveram a participação, no tambor e na voz, de José Mário Branco.
Os Gaiteiros escancararam as portas do Futuro. No jardim de delícias de plástico em que se compraz a música portuguesa com nota alta em bom comportamento, apetece dizer: Bem-vinda seja a barbárie!