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Ensemble J.E.R. – “Concerto Dos Ensemble J.E.R. Nos ‘Mistérios De Lisboa’ – Strauss Era Um Boneco De Plástico”

cultura >> quinta-feira, 15.06.1995


Concerto Dos Ensemble J.E.R. Nos “Mistérios De Lisboa”
Strauss Era Um Boneco De Plástico



NA ERA do plástico, música de plástico. Da teoria à prática ainda vai um passo. Os Ensemble J.E.R. não recearam dá-lo. Deram o passo e deram uma lição. De humor, de colorido, de seriedade, de música. Os Ensemble J.E.R. (José Eduardo Rocha, mentor do projecto) tocam instrumentos de plástico. Cornetas, apitos, tambores, sirenes, até um violino. De todas as cores e feitios. Os “Mistérios de Lisboa” abriram na terça-feira à noite um sorriso largo e a sala de cima do Monumental quase encheu para ouvir música como se fosse a primeira vez.
“O mapa cor-de-rosa” abriu o programa. Um “pot-pourri” de temas clássicos para “Orquestra Nacional de Plástico”. Para mostrar que as cornetas de brincar também podem ser sisudas. O público riu. Aqui era para rir, embora, se pensarmos bem, a coisa seja séria. Música erudita a qual os J.E.R. retiraram o objectivo. Só a apresentação dos músicos é um achado. Camisolas às riscas azuis e verdes, depois brancas com bolas pretas, capacetes romanos – de plástico – na cabeça. No tema seguinte, “Futebol”, entraram em trote no palco, armados de escudos e lanças, imitando uma situação dos Monty Python na “A Vida de Brian”. “Futebol”, tocado pela primeira vez ao vivo, é uma composição do próprio grupo, dividida em nove andamentos: “No campo”, “Parodos”, “Jogo”, “Livre”, “Canto”, “Stázima”, “Falta”, “Grande penalidade” e “Exodus”. Criatividade e originalidade totais. Sobre uma declamação de textos de Virgílio, para um microfone de plástico, claro, pelo convidado Rui Pisco, e o suporte tímbrico de um sintetizador Korg, a loucura de pequenos megafones e sereias com ruídos de multidão, polifonias vocais entre os Residents e Frank Zappa. Excelente.
Seguiu-se uma peça curta, “Madrigal Nº 2”, com solo de José Eduardo Rocha na clarina “Hohner” ao qual se veio acrescentar o “coro ornitológico” feito com apitos pelos restantes elementos. Aqui tornaram-se inevitáveis as comparações com Pascal Comelade, outro indefectível das músicas feitas com instrumentos de brinquedo. O último tema da noite, “Mezcal”, “um episódio lírico”, também da autoria do grupo, é excepcional. Após uma explicação introdutória – delirante – dada por um dos músicos, seguiu-se uma orgia de sonhos plastificados. Se o termo “música surreal” faz algum sentido, ele aplica-se na perfeição a “Mezcal”. De novo com um convidado, neste caso Paula Rocha, vestida a preceito com o capacete e a roupa às bolinhas, no sintetizador, as notas dispararam para universos paralelos, derrubando preconceitos e inventando novos ouvidos, culminando num “rap” do planeta de Mr. Mxzptlk. Para os anais da música como saudável exercício de humor e desconstrução, ficará a introdução de “Mezcal”, a abertura tonitruante do “Assim Falava Zaratustra” de Richard Strauss, onde, com toda a convicção, os J.E.R. trocaram os trovões orquestrais que todos conhecem do início de “2001 Odisseia no Espaço”, pelos “puehs” e “puohs” das cornetas de plástico.
Dois “encores” recompensaram a actuação do grupo, a repetição do “Zaratustra” e “Cantigas do Maio”, de José Afonso, precedido pela “afinação” do instrumento solista, um violino minúsculo de plástico. Nos planos do Ensemble J.E.R. está a adaptação sinfónica para instrumentos de plástico de uma ópera completa de Wagner.

Carmel – “Servir Quente” (concertos)

pop rock >> quarta-feira >> 24.05.1995


SERVIR QUENTE

CARMEL
Aula Magna (Lisboa) – Sexta – 26 – Maio
Teatro Circo (Braga) – Sábado – 27 – Maio



Os Carmel, com a voz tipo massagem de Carmel McCourt, regressam aos palcos portugueses, dosi anos depois de se terem apresentado em Braga, Lisboa e Aveiro. As duas primeiras cidades voltam a receber o trio, ainda e sempre composto pela cantora, o baixista Jim Parris e o baterista Gerry Darby, pouco tempo depois de ter sido editado em Portugal o seu último álbum, “Worlds Gone Crazy”.
Caso raro de unidade e persistência, os Carmel levam já doze anos de existência e fidelidade a um estilo que junta o swing, o reggae, os rhythm ‘n’ blues, o jazz, os blues e a música latina. É uma mistura tórrida, mas os Carmel não carregam demasiadamente nas cores. Em Inglaterra, depois de em 1983 terem chegado aos primeiros vinte dio top, com os singles “Bad day” e “More, more, more”, passaram um pouco de moda, mas em França, por exemplo, a sua música tem sido recebida com entusiasmo. Em casa de ferreiro espeto de pau, não é? Seja como for, é boa música para se ouvir tanto entre os fumos e copos de um bar como numa praia ao pôr-do-sol de frente para o mar. Pode funcionar bem a aquecer corações ou mesmo alevar a enlaces de maior profundidade. Pelo menos é o que se diz.
Ao vivo, dizem os próprios, a coisa funciona melhor do que em disco. Há mais “feeling” e tudo pode acontecer a meio de uma improvisação, algo que os Carmel não dispensam e de onde extraem, inclusive, novas ideias para os discos. “Quando se começa a improvisar”, explica a cantora, “sente-se uma magia no ar, é incrivelmente excitante!” Onde é que já ouvimos isto? Então já sabem: quem quiser também sentir um pouco dessa magia no ar, é favor dirigir-se a Braga ou Lisboa, o que estiver mais perto, e abrir bem o coração e os ouvidos. Os Carmel andam nisto há uma dúzia de anos, e se a sua música não mudou muito é porque eles acreditam mesmo nela. Acreditamos que sim.

Lautari – “‘Como Uma Guerrilha'” (banda nova)

pop rock >> quarta-feira >> 03.05.1995
banda nova


“COMO UMA GUERRILHA”



“Lautari” designa, na terminologia dos ciganos da Roménia, “aquele que improvisa”, o músico ambulante que aprende escutando os mestres. É também a designação escolhida por este trio de Lisboa, que escolheu, entre todas as formas musicais disponíveis, aquela que, pelo menos em Portugal, se afigura como a de maiores dificuldades, tanto em termos de prática como de aceitação junto do grande público. Formado no ano passado, em Lisboa, o grupo encontra-se neste momento na fase de procura de plataformas de trabalho viáveis e que se coadunem com as respectivas personalidades, necessariamente diferentes e, por vezes, contraditória entre si. Num campo de manobra cheio de minas e na mira de não poucos preconceitos auditivos, os Lautari conseguiram para já assegurar a sua subsistência como grupo, não abdicando das suas convicções a favor de um impacte mais imediato no consumidor médio. Escolheram a improvisação, “pelo risco” e “por uma necessidade de comunicação”, como acontece com José Oliveira, que afirma “não ter tempo, nem jeito, nem pachorra, para dizer alguma coisa enquanto na simples posição de intérprete”. José Oliveira, que, no passado, já tocou com o trompetista Sei Miguel e com Celso de Carvalho, faz suas as palavras do percussionista inglês Roger Turner, quando este diz que a música é “uma forma de guerrilha”, embora faça questão de frisar que, “já na música barroca, se incluía uma margem significativa de improvisação”.
A audição de nomes como Evan Parker, Barry Guy, Paul Lytton, Paul Lovens, Derek Bailey, representantes da free music inglesa dos anos 60 e 70, mas também Archie Shepp, Ornette Coleman ou Eric Dolphy, foram determinantes na génese da estética perfilhada pelos Lautari.
“A persistência em fazer este género de música”, diz Carlos Bechegas, que, entre outros, já tocou com Carlos Zíngaro e numa das derradeiras formações dos Plexus, “deve-se a uma certa impaciência de alguns músicos para se relacionarem com as partituras”, a par da exigência de “uma criatividade específica”, que dá para conseguir “uma certa dinâmica de resultados, impossível de obter por outros meios”: “Se se faz uma improvisação que a seguir é escrita, mesmo se os ‘virtuoses’ forem tocar aquilo – que são as mesmas notas -, não resulta da mesma maneira do ponto de vista dinâmico. Quando se improvisa, tem-se a sensação de encontrar uma coisa pela primeira vez.”
Uma opção que acarreta uma enorme dose de responsabilidade e de entrega total à música, já que a espontaneidade absoluta e a sintonia perfeita entre os instrumentistas nem sempre acontecem quando se quer e nos locais programados. José Ernesto, que ainda há pouco tempo acompanhou Jorge Palma no “concerto íntimo” que este músico deu no Casino Estoril, fala nos ensaios como “’ateliers’ da improvisação”, ideiais para desenvolver a linguagem colectiva e os métodos de execução instrumentais do grupo. Depois, no palco, o que é preciso, diz, “é esquecer tudo isso” e entregar-se por inteiro à inspiração do momento. Em nome de uma certa virgindade, como se cada nova apresentação fosse sempre uma primeira vez.
“O que define, entre outras coisas um bom improvisador”, conclui José Oliveira, “é a sua capacidade de reacção, em tempo real, no instante, e de forma adequada e criativa, aos estímulos que recebe de outrem. E isto é uma outra forma de composição, composição instantânea.”

NOME Lautari
FORMAÇÃO Carlos Bechegas (flauta),
José Ernesto (violino),
José Oliveira (percussões)
ORIGEM Lisboa
PONTO ALTO Concerto na galeria Monumental, a 10 de Março deste ano.