Arquivo da Categoria: Industrial

Brion Gysin – “Self-Portrait Jumping”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
NOVOS LANÇAMENTOS


Brion Gysin
Self-Portrait Jumping
CD Made To Measure, import. Megamúsica



Bryon Gysin, teórico, pintor e poeta, falecido recentemente, é um nome bastante apreciado em certos meios vanguardistas, que nele vêem um percursor de algumas técnicas e conceitos actualmente em voga, como o ‘cut up’ e o estudo das relações emissor-receptor ao nível dos efeitos da obra de arte sobre os órgãos de percepção. Uma das suas descobertas mais populares foi a “dream machine”, um cilindro de luz estroboscópica cuja frequência rotativa específica parece ser capaz de provocar, num sujeito de olhos fechados, a “visão” de padrões alucinatórios. Genesis P. Orridge, dos Psychic TV, e os Hafler Trio já dedicaram um disco inteiro ao assunto. Agora chegou a vez de Ramuntcho Matta repescar os conceitos de Gysin segundo uma óptica substancialmente diferente. Não se pode dizer que o resultado seja brilhante, apesar da presença de convidados como Don Cherry, Steve Lacy, Elli Medeiros e Lizzt Mercier Descloux.
Matta (autor de um espantoso “Domino One”, gravado nesta mesma editora) pegou em textos e registos antigos efectuados em conjunto com o autor e deu-lhes música. Mas quando seria de esperar que à estranheza do objecto em causa correspondessem sons no mínimo originais, acontece, pelo contrário, a falta de ousadia formal e uma repescagem de ideias alheias. Assim, as vocalizações, a cargo do próprio Bryon Gysin, ora remetem de imediato para os Talking Heads, em cadência calipso (“Kick”, “Junk”) ou da fase “Remain in Light” (“Sham pain”), ora mimam com bastante aproximação as chiadeiras de David Thomas, dos Pere Ubu (“Baboon”). Mas o pior são os 30 e tal minutos de “Dreamachine” durante os quais Bryon Gysin despeja a teoria completa a um ritmo igual do princípio ao fim. Uma oportunidade desperdiçada e um dos discos mais decepcionantes de uma série, nos últimos tempos, com tendência para tropeçar. (4)

Subterfúgio – “Subterfúgio Em Cassete”

pop rock >> quarta-feira, 24.02.1993


SUBTERFÚGIO EM CASSETE



Os Subterfúgio são mais uma banda portuguesa à procura de furar o esquema. O que, à partida, significa que a música que fazem não se adequa aos imperativos comerciais. Lançaram agora uma cassete no circuito alternativo, intitulada simplesmente “Subterfúgio” e que reúne nove temas da sua autoria, mais um original dos Hüsker Dü”, “Never talking to you again”. Dois sobre textos de Herberto Helder; um com a assinatura de Jak Kerouak; outro, finalmente, da autoria do escritor de ficção científica J. G. Ballard.
A actual formação dos Subterfúgio é constituída por três ex-Melleril de Nembutal – Jorge Pinheiro, guitarras e sintetizador, A. Y. T. P. , bateria, baixo, voz e xilofone, e Delfim Paulo, baixo, guitarra, clarinete, voz, “walkie-talkie” -, mais U.P.S., voz principal, José Simão, baixo sintetizador, e J. Jacinto, voz, “walkie-Talkie”, guitarra. Rafael Toral, guitarra, e A. Garcia, baixo, aparecem como músicos convidados.
“Sons do Diabo” foi a cassete de compilação que os deu a conhecer. Fica-se logo com uma ideia da música que praticam: industrial, obscura, provocatória. A principal influência parece ser a dos Cabaret Voltaire, de “Mix Up”, “Voice of America” e “Red Mecca”. O lado A é mais suave.
Cada exemplar da cassete “Subterfúgio” custa 500 escudos e é vendida em conjunto com o fanzine “A Keda de Um Anjo”. Enquanto não chega às discotecas Audio e Tubitek, ambas do Porto, e Fuga, de Coimbra, os pedidos podem ser enviados a K7 Pirata, apartado 2076, Oliveira do Douro, 4403 Vila Nova de Gaia.

Roberto Musci & Giovanni Venosta – “A Noise, A Sound”

pop rock >> quarta-feira, 13.01.1993


FORA DE SÉRIE
ALDEIA GLOBAL

ROBERTO MUSCI & GIOVANNI VENOSTA
A Noise, A Sound
CD Recommended, import. Contraverso



Em música, nem tudo afinal está inventado. Roberto Musci e Giovanni Venosta possuem a faculdade de, a cada novo disco, nos surpreenderem. Com ideias impensáveis e sínteses de elementos recolhidos de toda a parte, como se o universo fosse (e é, de facto) uma fonte inesgotável de sons. “Water Messages on Desert Sand” e “Urban and Tribal Portraits”, os dois trabalhos prévios da dupla (aos quais se poderá juntar o álbum a solo de Musci, “The Loa of Music”), são dois clássicos da música de fusão, no significado mais nobre que o termo pode ter. Musci e Venosta recolhem, cortam, colam, alteram e descontextualizam os sons (todos os sons), manipulando-os de forma a criar o que se poderá classificar de música absoluta – concordância plena da tecnologia com as sonoridades étnicas.
Neste novo álbum, havia a curiosidade de saber se a dupla cederia à tentação de se limitar a reproduzir os mesmos esquemas, que tão bons resultados tinham produzido nas obras atrás citadas. Se é certo que os dois fazem gala em exibir a lista, cada vez mais extensa, das gravações sampladas, a verdade é que tal táctica serve desta vez objectivos diferentes. O próprio conceito de “aldeia musical global” (utilizando uma aproximação ao enunciado de MacLuhan) sofreu desvios e novas enunciações. Onde se poderia esperar uma espécie de “world music” mutante, à imagem dos álbuns prévios, surge em vez disso uma construção mais abstracta, como se os elementos folclóricos utilizados não passassem agora de peças de um novo “puzzle”, ainda mais complexo e apontado a um tipo inteiramente novo de referências. Neste aspecto, “A Noise, A Sound” aproxima-se por vezes da estética de ruído harmonizado dos Biota ou da violência sónica das duas obras capitais (de síntese / mistura / delírio) de Fred Frith, “Gravity” e “Speechless”.
Como tudo o que estes italianos produziram até à data, trata-se de um objecto que reivindica uma sistemática própria, único na forma como idealiza, organiza e reproduz os sons. Desde o primeiro tema, no qual sons de macacos, um jaguar e um clarinete da Amazónia são manipulados pelos “samplers” até soarem a um “blues” dos confins da galáxia. De surpresa em surpresa, avança-se através de um túnel de harmonias bizarras e jogos de contrários, em que nada é o que aparenta ser, jogo de espelhos deformantes, fábrica de realidade fractal, que se auto-reproduz até ao infinito. Actualização plena da mónada primordial que o título refere: um ruído, um som. Música em estado puro. (10)