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Diamanda Galas – “Sacerdotiza Da Praga”

pop rock >> quarta-feira, 01.12.1993

SACERDOTIZA DA PRAGA

“O diabo programou a minha morte e espera para ter a certeza de que muitas das suas ovelhas negras morram antes de ser descoberta a cura”. Diamanda Galas em “Let my people go”



No dia 10 de Dezembro de 1989, Diamanda Galas foi presa em plena catedral de S. Patrício, emm Nova Iorque, acusada de conduta desordeira, interrupção de um serviço religioso, resistência à autoridade e violação de propriedade alheia. Seguiu-se, emm Agosto de 1990, a acusação, por membros do Governo italiano, de heresia contra a igreja católica, durante uma apresentação de “Plague Mass” no palácio dos Medici, em Florença. A 12 e 13 de Dezembro do mesmo ano, a cantora celebrou a mesma “Plague Mass” na catedral de S. João, o divino, também em Nova Iorque, com a autorização do clero, apresentando-se com o tronco nu banhado de sangue e iluminada por luzes vermelhas.
No centro desta “missa” – por muitos considerada negra e por outros apenas como um grito contra todos os poderes e opressões – está o tema da sida. Diamanda Galas, autora da trilogia “The Masque of the Red Death” (dividida em três volumes: “The Divine Punishment”, “Saint of the Pit” e “You Must be Certain of the Devil”), que dedicou a todos os doentes seropositivos que “lutam para se manter vivos num ambiente hostil onde se lhes diz constantemente que vão morrer e se lhes oferece uma piedade revoltante e mentiras pacificadoras para os convencer a desistirem de lutar e a prepararem o próprio funeral” revolve tão fundo quanto lhe é permitido na chaga aberta na nossa sociedade. E fá-lo da maneira mais controversa. Transpondo a problemática da sida para um contexto religioso.
Parte-se da luta contra o preconceito de que a sida não passaria de uma praga purificadora, sinónimo da justiça divina, de castigo aos pecadores. Diamanda Galas, é preciso dizê-lo, viu o seu irmão e alguns dos seus amigos morrerem da terrível doença. A sida tornou-se, para ele, uma obsessão, ao ponto de se considerar uma personificação do mal, vírus propagador de dor e morte.
Nesta estratégia de denúncia, intervenção e flagelação, em que a inversão de valores opera como vector fundamental, de acordo com uma das polaridades presentemente em acção no desenrolar do tempo que se aproxima do fim, os significados das palavras confundem-se e as acções revestem-se de ambiguidade. Os extremos tocam-se. Chamam satânica a Diamanda Gals. Ela admite ser uma espécie de anticristo mas responde alegando que Satã, na tradição judaica, era sinónimo de “acusador” e “adversário”. Nesta acepção ela é verdadeiramente “o inimigo”, outra das designações do malévolo, de Deus, enquanto autoridade que julga e castiga. Contra a tirania deste Deus que não perdoa, ergue-se Diamanda Galas como porta-voz dos oprimidos e sofredores, das próprias almas dos mortos pela sida que vagueiam pelo limbo sem descanso nem perdão – uma visão que acaba por radicar noutro preconceito, fruto de uma visão falsa de Deus, divulgada em parte pela própria igreja, também ela afinal infiltrada pelo demónio.
Diamanda Galas vai mais longe e utiliza para ilustrar os seus cânticos de morte, o texto dos evangelhos ou do Velho Testamento, baseando-se, por exemplo, no “Leviticus”, a velha lei cristã conotada com a ideia de uma sociedade regida pelo princípio do “julgamento”, em lugar dos de “compaixão” e “salvação”: “Esta é a lei da praga, ensinar a distinguir o puro do impuro.”
Num quadro tenebroso em que, só nos Estados Unidos o número de vítimas da sida ultrapassou já o da Primeira Grande Guerra (havendo já quem considere “Plague Mass” o equivalente para a sida do “War Requiem”, de Benjamin Britten), faz sentido a cruzada empreendida por Diamanda Galas contra a hipocrisia e a cobardia de quantos insistem em ignorar e segregar aqueles que padecem da doença em que ao corpo são recusados todas as defesas. Seria, contudo, necessário avançar ainda um pouco mais. Onde hoje a voz de Diamanda Galas se agita em corações dominados pela raiva, poderá amanhã acontecer que a luta seja conduzida, não apenas por uma reacção visceral de revolta mas por uma verdadeira interiorização de valores como o amor e a fraternidade. Diamanda Galas grita e faz seu o grito cego dos “danados” que ecoa em “Blind man’s cry”, uma das faixas de “Plague Mass”. Enquanto a luz fria da morgue não for vencida por um raio de sol através de um vitral.

Einstürzende Neubauten – “Einstürzende Neubauten ‘Arrasam’ Voz Do Operário – Orgasmo De Metal”

cultura >> segunda-feira, 13.09.1993


Einstürzende Neubauten “Arrasam” Voz Do Operário
Orgasmo De Metal


Saltaram as hormonas e as líbidos despedaçaram-se em estilhas de metal. Música, ou antimúsica, a prestação dos Einstürzende Neubauten em Lisboa foi qualquer coisa de esmagador e, para muitos, ensurdecedor. Mistura de êxtase e de medo. Orgia de ruído, de corpos em sintonia convulsiva com o inferno.

Há compadrios com Nietzsche, Wilhelm Reich, Foucault e Lautréaumont na estética desta banda berlinense que liberta cargas monstruosas de energia sexual. Em batimentos no metal, na electricidade em fúria, no grito orgástico do corpo enleado em maquinismos infernais. Os Einstürzende Neubauten praticam o culto do disforme, da brutalidade sonora, envolta numa aura de incompreensibilidade que a utilização da língua alemã torna em absoluto impenetrável. Mas se os cérebros não compreenderam, os corpos captaram a mensgame, e de que maneira! Só lhes restando aceitar ou repelir, com intensidade equivalente à da música, o ritual de horror que lhes foi proposto.
Os portugueses Lucretia Divina prepararam o cenário de pesadelo, na noite de sábado, no alto do salão-sótão da Voz do Operário, em Lisboa, pejado de um público maioritariamente vestido de negro que antecipava já o gozo das torturas que lhes seriam infligidas pelos alemães.
Teclados electrónicos e uma batida hipnótica, dois vocalistas – ele em tronco nu e calças de napa à Iggy Pop, ela de bruxa. Ele em frequente agonia rojando-se pelo chão, ela soltando risadas demoníacas – mostraram uma música provocatória onde cabem influências tão díspares como a teatralidade de um Marc Almond, danças tradicionais irlandesas, marteladas industriais, lenga-lengas de embalar infantis, culminando com uma versão do clássico-chique-decadentista “Lili Marlene”.
Depois deles veio o caos. Os Neubauten começaram devagar, passando em revista, numa questão de segundos, a violência pioneira dos Velvet Underground e o lirismo dilacerado de Nick Cave, para partirem em seguida numa cavalgada em direcção às profundezas. Impressionante a figura do colosso N. U. Unruh, exibindo o tronco nu de ogre, a percutir com ferocidade uma variedade de objectos de metal, como Thor, quando fazia soltar raios da bigorna.
A “performance” dos Neubauten, arrancada sobretudo dos álbuns “Hause de Luege” e “Tabula Rasa”, funcionou à maneira de um acumulador de energia sexual que periodicamente era ejectada em orgasmos de metal incandescente. Uma orgia báquica de ruído, domado com mão de ferro pelos cinco manipuladores, que convocou o instinto, as pulsações do corpo, fazendo-o estremecer, batendo-lhe sem dó nem piedade até o fazer gritar de dor – ou de prazer. Blixa Bargeld berrou como um danado, F. M. Einheit arrancou dos sintetizadores frequências sonoras no limite do suportável. De clímax em clímax o espectáculo evoluiu até ao transe. Os músicos resolveram lançar-se, desamparados, para o meio das primeiras filas da plateia em delírio, membros da assistência subiram por sua vez ao palco para mergulhar no mar humano. Uma rapariga, de longo vestido, ousou mesmo um salto mortal, iluminada pelos holofotes, boneca de trapos animada por forças Às quais não conseguiu resistir. O “show” (não era disso que se tratava?…) passou a ser total, impossível saber quem era quem, entre o magma humano, de corpos anónimos que se atiravam ao ar, à carne, à vertigem.
Sucederam-se os batuques – fábricas em plena laboração -, pontuados por uivos que se transformavam em hinos em louvor a divindades pagãs. No final, já em “encore” furiosamente exigido pela assistência, os cinco Neubauten edificaram o templo invertido, banhados por uma luz verde intensa, de algas. A Voz do Operário transformou-se em santuário do mal.


IWT


Non – “In The Sahdow Of The Sword”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
NOVOS LANÇAMENTOS


Non
In The Sahdow Of The Sword
CD Mute, distri. Edisom



Boyd Rice tem cara de poucos amigos e humores ainda com pior aspecto. É um niilista capaz das maiores perversidades, enfim, alguém que não gostaríamos de ter como nosso barbeiro. Além do mais diz sempre que “non”, a fingir-se de grupo, e como símbolo da perpétua negação. Gravou um disco decadente-furioso com Frank Tovey, “easy Listening for the Hard of Hearing”, com algum interesse, mais cinco a solo, de onde se destacam “Music, Martinis & Misanthropy” e “Blood and Flame”. Tem especial consideração pelos tubarões e muito pouca pela música, que encara como uma série de ruídos industriais, estilo limalha de ferro e botas da tropa, sobre os quais lança as suas imprecações. Um perigo.
O menu temático consta do habitual entre os seus colegas de ofício: dias negros que se avizinham, atrocidades, ameaças, degenerescências filosóficas de índole nietzschiana (além do bem e do mal, não é verdade? Deviam ler com mais atenção o livro), uma dose reforçada de paganismo e tempo ainda para a descoberta de uma divindade (de ódio, obviamente) chamada Abraxas. Em termos de som predominam as batidas militaristas, naipes de electrónica dura e a voz de Boyd em tom declamatório a anunciar o descalabro. O som, talvez para ficar de acordo com o resto, é péssimo, ao nível de uma cassete analógica da pior qualidade. Será que o fim dos tempos também chegou ao digital? (3)