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Fausto – “Crónica Do Espírito, Da Terra Ardente E De Um Papagaio Filósofo – (Do nosso enviado especial Fernando Magalhães, Em S. Miguel)” (reportagem) + Fausto – “Por Toda Aquela Terra Adentro” (crítica de discos)

pop rock >> quarta-feira >> 30.11.1994


Crónica Do Espírito, Da Terra Ardente E De Um Papagaio Filósofo
(Do nosso enviado especial Fernando Magalhães, Em S. Miguel)



Açores. Ilha do Espírito Santo. De fogo e abandono. Local escolhido por Fausto para o lançamento da segunda parte de uma trilogia sobre a diáspora e a colonização portuguesa nos séculos XV, XVI e XVII, iniciada há doze anos com “Por Este Rio Acima” e que agora se prolonga em “Crónicas da Terra Ardente” – uma obra de fôlego, com raízes fundas na música tradicional portuguesa. Depois de uma visão, “do mar para a terra”, em “Por Este Rio Acima”, um rosto que “olha da terra para o mar”. Viagem iniciática de ida e, quem abe, sem volta. Pelos quatro elementos, pelo continente africano, pelo sonho e sofrimento das gentes anónimas que edificaram o Império. Pela memória de um Portugal que, à distância de quatro séculos, se confunde com as chagas de um país adiado no presente. E do Portugal do Quinto Império, de Vieira e de Pessoa. Com Fausto, circundámos as águas, santas ou ardentes, calcorreámos o verde dos montes e dos pastos, sentimos a pulsação, misto de proximidade e distância, das gentes e provámos as comidas. Sonhámos os sete céus sobre uma povoação múltipla e receámos os segredos subterrâneos que, a cada segundo, ameaçam a revelação do dilúvio. Na Ilha de S. Miguel, berço apropriado para uma música que, ancorada com força no tempo, do tempo se procura libertar. Onde as coisas simples e a gesta épica, a solidão e a descoberta colectiva se erguem a desafiar o (ainda) desconhecido mar.

Terça-feira, dia 22
Partimos de Lisboa ao fim do dia, no único voo diário para os Açores. Quase sem história, não fossem alguns receios provocados por uma aterragem na Terceira – onde o avião fez escala antes de seguir para S. Miguel -, algo agitada pelos ventos fortes a chuva que se faziam sentir nessa altura na ilha. Depois do susto, os trinta minutos em marcha atrás até S. Miguel foram uma brincadeira. À chegada a Ponta Delgada, esperav-nos ângela de Almeida, directora e proprietária da editora açoriana Jornal de Cultura, fantástica anfitriã e guia de viagem ao longo de toda a estada. Repousados os corpos e as bagaens no simpático e acolhedor Hotel Açores Atlântico, situado em frente ao porto da cidade, partimos para casa de amigos. Ao passarmos pelo jardim onde um dos naturais mais ilustres de Ponta Delgada, Antero de Quental – o poeta e filósofo que de si mesmo dizia “De plano em plano e de desejo em desejo vou descendo lentamente a espiral dos desenganos” e, já perto do fim, exclamava: “Isto ainda acaba com uma corda na garganta ou uma bala na cabeça!” -, se suicidou (no dia 11 de Setembro de 1891), Fausto referiu a impressão que sempre lhe causaram os pormenores finais daquela data fatídica. Contou ele que alguém, observando uma vez as dimensões mínimas da arma com que o poeta tencionava já pôr termo à vida, comentara: “É uma pistola de matar pardais” – ao que o escritor, com impressionate humildade, lhe respondera: “É isso mesmo!” Sobre o banco onde Quental disparou contra si próprio, conta ainda Fausto, entre tantas outras, uma inscrição apenas se erguia, em suprema ironia: “Esperança”.
Já no conforto lo lar da Marina e do Mariano, onde o jantar foi de comer e chorar por mais, a conversa prosseguiu em tom menos dramático. Em discussão esteve a actualidade conturbada do Sporting (clube da simpatia do cantor, do anfitrião e do repórter, o que deixou desamaprado o único “lampião” presente, João Afonso, da Sony, de quem não sabemos se é mais fanático do Benfica ou das maravilhas do arquipélado) e pormenores da vida do intelectual do papagaio filósofo de Fausto, chamado Zé, que gosta de proferir máximas como “Só sei que nada sei”, “Penso, logo existo” e “Ser ou não ser, eis a questão”, concluídas ocasionalmente com a não menos sábia e avisada “Ai, ai, ai, ainda vou para à panela!”

Quarta-feira, 23
De manhã, tempo de entrevistas para as rádios locais. Por nós, quisemos saber a razão, ou razões, que levaram ao lançamento de “Crónicas da Terra Ardente”, nos Açores. Além do convite da Jornal de Cultura, também porque os Açores são, segundo Fausto, “ilhas de músicos”, de pessoas que tocam, uma escola onde têm sido feitos belíssimos trabalhos, não só de música tradicional” – em suma, “uma alternativa ideal” a Lisboa. Por outro lado, a própria temática do álbum harmoniza-se bastante bem com o arquipélago. “Há, de facto, uma coincidência feliz”, embora Fausto reconheça não ter “pensado deliberadamente” nisso. “Na primeira parte do disco, o barcmuito perto dos Açores. Os marinheiros, inclusive, dizem que não tinham conseguido abordar as ilhas Terceiras, como naquela altura se chamavam.”



Almoço no restaurante Remédio d’Alma – designação perfeita para um local de repasto mas que, para falar verdade, fez menos sentido quando se chegou a vias de facto. Sobre o novo álbum, a explicação, dada pelo próprio, de um ciclo ideal. Doze anos separam “Por Este Rio Acima” de “Crónicas da Terra Ardente”. “Dez anos são a marcação de um tempo suficientemente distante e, ao mesmo tempo, acessível para elaborar a trilogia, uma ideia que expus pela primeira vez à editora em 1985. Se eu a fizesse de seguida, correria o perigo de parecer que estava a falar sempre da mesma coisa.” Acabaram por ser doze em vez de dez anos de intervalo, “devido a este álbum ter sido pensado para ser um triplo, cerca de trinta e tal canções” e, por fim, Fausto ter chegado à conclusão de “que era longo demais”. Punha-se um problema: “Onde suspender a viagem? Suspendi-a precisamente no tema ‘Ao longo de um claro rio de água doce’, para que não terminasse com a tragédia dos Sepúlvedas, um episódio pesadíssimo. Deste modo, há uma retoma da esperança. Nas suas dimensões oníricas de fantástico. O texto fala em alecrim, que é a flor da esperança”.
“Mas ao proceder deste modo”, continua o músico, “verifiquei ao mesmo tempo que tinha deixado espaços em aberto, que a viagem deixara de ter alguma lógica, quando os temas subsequentes deixaram de existir. Por isso, tive que repensar certos temas e refazer outros, e daí o atraso de dois anos”. “Ao contrário do que acontece em “Por Este Rio Acima”, onde há um regresso ao Continente, neste novo disco há uma viagem suspensa, uma nova partida, no fundo, o sentido da di´spora, de ir e vir, o mesmo movimento da saudade.” “Com hipotética chevista, daqui a dez anos, na terceira e última parte da trilogia, à casa de Silva Porto,”’o homem das barbas”, em Bié (Angola), de onde Fausto é natural e onde passou a infância e a adolescência.
E de viagem em viagem se passou pela poesia. De Natália Correia, profetiza do Espírito Santo, À veia popular, fruto da emotividade do momento. Um exemplo, contou Fausto, que o leu com os próprios olhos, algures numa dessas academias da arte de versejar que são os sanitários dos cafés e resraurantes. Aconteceu que, no lado de dentro de uma porta de um restaurante, garatujada até à exaustão com aquel género de “grafitti” literários onde o dichote obsceno e as alusões sexuais constituem a temática dominante, alguém, num lampejo de génio, redigiu, no derradeiro espaço deixado livre, a seguinte pérola: “Estes grandes filhos da puta / que de tesão se consomem / não tendo com quem foder / foderam a porta ao homem” (repare-se na métrica da quadra e, em particular, na musicalidade e subtileza do segundo verso) – o génio poético português, na sua expressão mais moralista.
De tarde, as águas. Lagoa das Sete Cidades, antes do poente. A RTP dos Açores deslocou-se ao local para captar imagens do cantor, transmitidas nessa mesma noite no noticiário da hora do jantar. Impressionante o silêncio. Um silêncio que, aliado á beleza grandiosa esculpida pela natureza numa cratera de vulcão, levou certa vez uma criança a perguntar aos pais: “Foi aqu que Deus nasceu?” Um silêncio musical, murmúrio das águas que o vento empurra suavemente contra as margens, cantando pela eternidade o princípio e o fim dos dias. O poeta Eugénio de Andrade costuma sentar-se na beira da lagoa, cadinho do alto pensamento, à conversa com as águas.
Subitamente, acordámos das Sete Cidades – sete níveis, um físico mais seis sobrepostos e ocultos – como de um sonho. Após um jnatar onde o estômago sofreu mais do que rejubilou, seguimos para o lançamento oficial de “Crónicas da Terra Ardente”, no John’s Pub, situado na zona mundana de Ponta Delgada. “Uma leitura actual”, sintetizara já antes o seu autor, “onde, indo ao fundo da história, se procura provar que os problemas do homem permanecem praticamente os mesmos em termos de atitude, comportamentos e valores. Problemas como o racismo e a xenofobia, encarados na sua plenitude – como agressão mútua resultante de um etnocentrismo excessivo – ou a guerra e a violência, a droga e a toxicodependência, como no tema ‘À deriva Porto Rico’.”
José Medeiros – “Zeca” para os amigos, realizador da já lendária série televisiva sobre os Açores, “Xailes Negros” – teceu alguns comentários sobre o autor e a sua obra, recordando, a propósito, o impacto que a música de Fausto tivera, durante um concerto, sobre um músico de “blues” norte-americano, positivamente siderado com o “beat” dos ritmos tradicionais portugueses, no modo como o cantor português os trabalha. Algo que pode ser apreciado em profundidade tanto em “Por Este Rio Acima” como em “Crónicas da Terra Ardente”, residindo as diferenças entre ambos, em termos de perspectiva, no facto de, no primeiro, “o cenário ser, de facto, o mar: o ponto de vista é do mar para a terra”, enquanto, no segundo, “o cenário muda, representando sobretudo a entrada dos portugueses pelo continente dentro e a sua dramatização, em particular na tragédia dos Sepúlvedas. O ponto de observação alterou-se, passando a ser da terra para o mar”.
A capa do Vítor Belém é, neste aspecto, para Fausto, “muito sugestiva”. “O disco avança até um tema chamado ‘O mar’ e, a partir daí, o mar começa a funcionar como uma memória, desaparecendo como elemento da Natureza, iniciando-se a caminhada.”

Quinta-feira, 24
Chuva. A cair pela primeira vez desde que chegáramos. Apóso almoço, no restaurante do hotel das furnas – one o célebre cozido, cuja cozedura é feita no forno natural proporcionado pela própria terra desta zona vulcânica, deixou mais uma vez o estômago em trabalhos de parto – um arco-íris formou-se entre o azul e as nuvens, como que a confirmar a aliança do céu com a natureza. O destino da viagem apontava obviamente para as caldeiras. Impressionante o primeiro contacto com a voz da terra e da água ferventes, na maneira brutal como abrem caminho a golpes de lava e vapor para a superfície, por onde menos se espera, furando muros, escavando poços para o inferno ou dando-se em bênção curativa nas dezenas de bicas que jorram da pedra.



Uma força telúrica que encontra parceiro à altura na música de “Crónicas da Terra Ardente”, cujo título bem se poderia aplicar a este local que alguns autores julgam ser a parte emersa da Atlântida. Já no percurso de regresso ao aeroporto (Fausto permaneceu na ilha por mais um dia), despedimo-nos da lagoa crepuscular, invadidos pela sensação de termos pisado um lugar onde a terra faz fronteira com o Céu e o Inferno.


CAIXA

Por Toda Aquela Terra Adentro
Fausto
Crónicas Da Terra Ardente
2xCD Columbia, distri. Sony Music



Mais de uma década volvida sobre o mítico “Por Este Rio Acima”, Fausto abre o jogo e propõe um período de vinte anos para a construção de um trabalho desmesurado sobre a diáspora portuguesa no Renascimento, com implicações e leituras que se prolongam pela sociedade actual. Segunda etapa de uma viagem que, segundo o seu autor, começou por ser, em “Por Este Rio Acima”, uma visão do mar para a terra, “Crónicas da Terra Ardente” espraia-se por “contos dos matagais, dos rios e das serras, de vales e quebradas, lugares e caminhos por toda aquela terra adentro…”, ou seja, uma visão essencialmente terrena pelo interior do continente africano.
Depois da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, são agora os relatos da “História Trágico-Marítima”, reunidos por Bernardo Gomes de Brito que servem de material de inspiração para as letras e música de “Crónicas da Terra Ardente”. Este novo disco de Fausto revela em primeiro lugar um trabalho excepcional ao nível da escrita dos textos. Mas esta riqueza poética acaba por ter efeitos nefastos sobre a música. De tal forma as palavras possuem as suas melodias, ritmo e harmonia próprios que a música se deixa ir atrás delas, incapaz de se libertar do seu fascínio. De resto constitui um exercício curioso ler a totalidade dos textos sem o apoio musical. É todo um mundo de sons e imagens, de sensações quase sinestésicas, que se desvela numa sinfonia de sentimentos e significados que dispensam o acompanhamento das notas! Por outro lado, se a genuína e profunda ligação da música de Fausto com os ritmos tradicionais portugueses confere a “Crónicas da Terra Ardente” uma unidade formal forte, essa mesma ligação acaba por ter igualmente um efeito perverso, ao condicionar grande parte dos temas ao espartilho das chulas ou dos corridinhos (e também das batidas africanas), por mais voltas que as vozes e os arranjos lhes dêem.
Fausto criou um universo musical único e original onde tudo se movimenta dentro de parâmetros e regras determinados. É evidente que as diferenças em relação a “Por Este Rio Acima” são perceptíveis, na utilização da bateria e das percussões, na maior insistência nos coros ou na preocupação com a dinâmica intrínseca e extrínseca dos sons. Mas no essencial os contornos que delimitam a composição permanecem idênticos. Assim acabam por ser os temas onde a fuga ao império instituído é mais evidente aquelas onde o prazer da descoberta é maior, fazendo passar para segundo plano a euforia rítmica da maior parte deles e, inclusive, estabelecendo outras e estimulantes pontes com as palavras. Exemplo disto é logo o tema de abertura, “Travessia”, com um arranjo fora de série onde, por esta ordem, a percussão (por Fernando Molina, dos Romanças), a gaita-de-foles (por Ricardo Dias, da Brigada Victor Jara, também o autor do arranjo), a sanfona (por Fernando Meireles, dos Realejo) e o piano (ainda por Ricardo Dias) projectam com enorme violência expressiva a música tradicional do futuro. A chula é vencida em “Ao som do mar e do vento” e impressiva é a utilização do coro e dos efeitos de estúdio em “Na ponta do cabo”, um dos momentos de carga emotiva – quase sensível, no modo como é descrita a luta do homem contra a fúria dos elementos – mais forte de todo o álbum. No segundo disco sobressaem “Diluídos numa luz”, ondulante sobre sintetizadores, vozes que se entrelaçam em eco e o tom espectral das palavras e “Pela fome comidos”, onde de novo Fausto explora as possibilidades de estúdio numa singular manipulação dos registos corais. Por fim, o libelo acusatório “Manuel de Sousa Sepúlveda” surge desde já como uma das canções da música popular portuguesa onde de forma mais crua é exposta a miséria, a tragédia e a dimensão humana das gentes que edificaram o império. Depois dele, a terminar o disco, é de descompressão a subida “Ao longo de um claro rio de água doce”. Em direcção a uma eterna nascente. (7)

Vários – “Strauss Edita Arquivos Dos Anos 20 e 30 – Abandonandos Do Amor” (editora | discos antigos)

pop rock >> quarta-feira >> 30.11.1994


Strauss Edita Arquivos Dos Anos 20 e 30
Abandonandos Do Amor


Arquivos do Fado é uma série de compactos que recupera gravações históricas do fado de Lisboa e Coimbra dos anos 20 e 30 de artistas como Armandinho, Maria Emília Ferreira, Madalena de Melo, José Porfírio, Alfredo Marceneiro, Ermelinda Vitória, Dina Teresa, dr. António Batoque, dr. Edmundo de Bettancourt e Artur Paredes, entre outros. Um documento fundamental cujos primeiros quatro volumes já se encontram no mercado, com distribuição Strauss. A que se juntam as colectâneas “Músicas do Fado” e “Biografia do Fado”, lançadas em paralelo pela EMI-VC. O fado, revisto segundo uma metodologia arqueológica, a devolver-nos as vozes e memórias de um tempo em que lhe chamavam a “música dos abandonados do amor”.



O som é péssimo, os ruídos sobrepõem-se às vozes e guitarras, mas nem uma coisa nem outra obstam ao fascínio extraordinário que estas gravações exercem sobre o estudioso ou simplesmente o amante do fado. É o contacto directo com a história e com os nomes míticos, desconhecidos das gerações mais novas, mas que contribuíram para a edificação da Lisboa e Coimbra fadistas, das noites vadias ou das serenatas ao luar.
O material de base é constituído por gravações dos anos 20 e 30 de discos de 78 rotações com os selos Columbia e His Master’s Voice e foi reeditado pela primeira vez em 1992 pela Interstate inglesa, pertencendo a licença para a edição portuguesa à Tradisom, de Macau, que por sua vez é distribuída no continente pela Strauss.
Há mais de 150 anos que o fado se canta nas tabernas e cafés de Lisboa, remontando as memórias ao tempo em que a lendária Maria Severa cantava o fado para o seu amante, o conde de Vimioso. Nessa altura, o fado, a “música dos abandonados do amor”, como então lhe chamavam, era cantado por pessoas tidas por “marginais”: “proscritos, vagabundos de hábitos duvidosos, provavelmente perigosos e, no entanto, com uma intensa aura romântica”, como vem narrado nas excelenetes notas introdutórias assinadas por Paul Vernon que acompanham o primeiro volume da série, “Fado de Lisboa (1928-1936)”.
Datam de 1920 as primeiras gravações fonográficas nacionais, impressas em goma-laca. Em 1925, após uma pesquisa efectuada por D’Arcy-Evans, é autorizado o estabelecimento em Portugal de uma filial da Gramophone Company, na época representada por Valentim de Carvalho, “editor musical e vendedor de pianos”. No Norte, D’Arcy Evans escolhe o Grande Bazar do Porto, estabelecimento “especializado em equipamento eléctrico, brinquedos, novidades e perfumaria”. A competição instala-se. A Gramophone Company, com sede em Hayes, Middlesex, Inglaterra, fixa o selo His Master’s Voice (HMV) no Porto e a Columbia na loja da capital. Com orçamentos estipulados pela empresa-mãe – por exemplo 1460 libras esterlinas para as primeiras edições no Porto -, a HMV e a Columbia fazem deslocar a a Portugal um agente, tendo a seu cargo a direcção artística das edições, e engenheiros de som que se deslocavam, durante períodos normalmente de duas ou três semanas, às casas de fado para ouvir e gravar os artistas escolhidos.
Armandinho, primeiro grande guitarrista a entrar para a lenda do fado, e Alfredo Rodrigo Duarte, por alcunha “o Marceneiro”, são os dois nomes mais conhecidos do primeiro volume da série. O primeiro presente nos temas “Ciganita”, “Fado do Ciúme” e “Variações em lá menor”. Marceneiro numa gravação de 1936, com “Olhos fatais” e 2Cabelo branco”. Também presentes estão Maria Emília Ferreira, Madalena de Melo, José Porfírio, Maria Silva, Maria do Carmo Torres e Ermelinda Vitória.
“Fado de Coimbra (1926-1930)” inclui gravações do dr. Edmundo de Bettancourt e de Artur Paredes, além de outras personalidades do fado coimbrão, como dr. António Batoque, José Joaquim Cavalheiro Jr., dr. Lucas Rodrigues Junot e José Paradela d’ Oliveira. Vale a pena ler a deliciosa narrativa do encontro dos ingleses e americanos com os doutores, principalmente advogados, intérpretes do fado de Coimbra. “É doutorado em música?”, pergunta um americano a um tal dr. Serra sobre um determinado cantor coimbrão. “Não, é jurista”, responde o advogado. “Nós, na nossa profissão, gostamos de pensar que temos os melhores cantores e guitarristas.”
As mulheres ocupam a totalidade do volume III dos Arquivos do Fado, em “As Fadistas de Lisboa (1928-1931)”: Madalena de Melo, Celestina Luísa, Maria Silva, Adelina Fernandes; e Dina Tereza, voz do Solar da Alegria e a actriz que desempenhou a protagonista no primeiro filme sonoro português, “A Severa”. A presente edição inclui a gravação, primeira ao fim de 63 anos, do “Novo fado da Severa”, por Dina Tereza.
O quarto volume da série recupera as sessões do guitarrista Armandinho para a HMV, efectuadas em 1928 e 1929, estando previsto que os próximos volumes dos Arquivos do Fado incidam de igual modo num único artista.

Né Ladeiras e Vini Reilly – “Ser Maior (Uma História Sobrenatural)” (artigo de opinião) + Durutti Column “Sex And Death” (crítica de discos)

pop rock >> quarta-feira >> 23.11.1994


Ser Maior (Uma História Sobrenatural)

Existirá uma ligação entre o misticismo e a depressão? E o que é que isso tem a ver com o sentido português lançamento simultâneo de novos álbuns de Né Ladeiras e Vini Reilly vem repor a questão.



Procurar no sobrenatural uma explicação para certas idiossincrasias do próprio acto criativo tem sido desde sempre uma constante de nomes importantes da música popular. Em Hendrix como em Dylan, em John McLaughlin como em Carlos Santana, em Jim Morrison como em Julian Cope, em Sun Ra como nos Earth, Wind And Fire, em Cat Stevens como Venâncio Castro, “o outro lado” tem servido de justificativa para divagações existenciais e musicais que escapam a classificações mais taxativas.
Os OVNI, a magia (branca e negra), deuses com bom ou mau feitio provenientes de todos os mitos e religiões – com uma certa preponderância, nos anos 70, de “Krishna”, com quem os Beatles, entre outros, aprenderam a maneira de atingir o nirvana ou, pelo menos, onde comprar incenso ou uma “sitar” a preços mais em conta -, o próprio diabo (seria fastidioso enumerar a horda de bandas “heavy metal” ou da corrente negra tecno-satanista seguidoras do demónio), as formas cósmicas em geral e todas as formas de espiritualismo disponíveis contam-se entre as fontes esotéricas onde quem quiser, e a tais práticas for dado, pode ir buscar alguma inspiração e uns quantos adereços, sempre úteis no caso de se querer causar boa impressão.
Claro que boas leituras, uma estada num mosteiro qualquer (em Portugal, Sintra será sempre uma opção preferível à Ladeira do Pinheiro) e a ingestão de drogas, bastantes drogas, sobretudo as alucinogénias, contribuem para fazer aparecer com maior facilidade as portas de acesso aos outros mundos. Mesmo aos de onde não se regressa.
Né Ladeiras é um bom exemplo lusitano desta tendência, ou não fossem os portugueses muito dados ao misticismo. No seu caso, é uma espiritualidade suave, feminina, com raízes na d´erva, do ácido e dos cogumelos. Aquela questão dos signos, das linhas da mão, das boas ou más vibrações, do Yin e do Yang, das entidades protectoras, neste caso as Mães de Santo e os orixás, estes últimos divindades protectoras muito requisitadas no Brasil. Não há mal nenhum nisto desde que contribua para o equilíbrio interior do indivíduo ou, noutro âmbito, para melhorar as suas “performances” musicais, como parece ser o caso da autora do recente “Traz os Montes”.
Já o caso de Vini Reilly não se poderá incluir com a mesma certeza no cabaz dos místicos. No passado correram rumores, é certo, que davam conta do seu interesse pelos cemitérios, lugares que, bem vistas as coisas, e caso não se aprofunde muito, sobretudo debaixo da terra, serão tão inspiradores como quaisquer outros. Boato ou não, certo é que o guitarrista e mentor dos Durutti Column não é o que se pode chamar uma pessoa certinha, daquelas que dobram o pijaminha e dividem a conta pelos dois. O seu caso, porém, tem mais a ver com uma depressão crónica, de um tipo provavelmente idêntico àquele de que padecia gente tão diferente como Fernando Pessoa ou Ian Curtis, e que o leva a compor uma música invariavelmente triste e a refugiar-se num mundo de imagens e referências localizadas na margem mais desolada da personalidade e dos sons.
Vini Reilly, que se saiba, não invoca deuses nem demónios, não entrou para nenhum “ashram” nem alguma vez foi visto vestido com uma túnica branca e o cabelo rapado. Até porque não ligaria bem com a sua figura franzina de rapaz enfezado que se entregou de corpo inteiro à sua arte. É evidente que o título do seu novo álbum, “Sex and Death”, não pressagia nada de bom, na medida em que vem escarafunchar num assunto tão incómodo como é o desta relação entre duas realidades que de facto se entrelaçam como o dia e a noite.
Pulsação de vida contra pulsação de morte, eis a dialéctica de guerra, nunca santa entre duas tendências na aparência contrárias, o que de imediato convida a buscar na transcendência uma maneira, o mais possível cómoda e indolor, para a ultrapassar. Vini lá vai conseguindo, gravando discos e tocando guitarra como quem se despede em cada uma das vezes.
Né Ladeiras sabe que não há necessidade de tanto dramatismo e que, sexo por sexo, antes o seguro – até para evitar surpresas desagradáveis – e aquele que não necessita de varinhas de condão. Há o tantrismo, é verdade, que basicamente procura reter e reconduzir a energia do orgasmo para áreas não genitais, pela coluna acima até se acender uma claridade na nuca, embora segundo cremos, nem Né nem Vini sejam adeptos desta técnica.
Concluindo, para os não iniciados nos mistérios dos orixás nem nas delícias do auto-supliciamento voluntário, a música é que conta. Tanto no caso de Né Ladeiras como no de Vini Reilly, os seus novos discos merecem ser ouvidos e o espírito bem abertos. E, afinal de contas, é um facto que tocar música é em primeiro lugar ser-se tocado.


Durutti Column
Sex And Death (6)
Factory Too, distri. Polygram


A ligação do sexo com a morte pode ser encarada neste álbum de duas formas distintas. Por um lado, em relação directa com a sida. Por outro, com uma conexão mais literária, aquela dos artistas românticos para quem a morte era o corolário natural da paixão. Refira-se a propósito uma canção de Mary Coughlan onde esta cantora irlandesa refere os orgasmos como “Little deaths”.
Depois há o azul, na falsa pintura a óleo da capa e em “Blue period”, faixa que encerra o disco, curiosamente um “blues” à maneira de Vini Reilly, mas também um possível jogo com o “período azul” de Picasso, numa referência à pintura que nos Durutti Column remonta a “Without Mercy”. Ou ainda o azul que Derek Jarman associou à sida no terrível libelo que deixou em filme e em disco antes de morrer, vítima desta doença.
“Sex and Death” tem a mesma tristeza e o mesmo som de fundo dos discos anteriores de Reilly. Canções em forma de dedicatória a amigos, a utilização de escalas chinesas, ecos de vozes que nascem e morrem, vestígios de lugares e personagens desaparecidos, citações de música de câmara a quebrarem o ascetismo da guitarra refractada de Vini, ainda e sempre apoiada na carne percussiva do baterista Bruce Mitchell.
Dando mostras de não ter esquecido os seus amigos de Portugal, o computador chamou “Fado” a uma das suas canções, mas, mesmo com esforço e muita imaginação, é difícil descortinar nela qualquer semelhança com o fado português. Só de for pelo estado de epírito, porque, mesmo a letra – “falo contigo por imagens, tu respondes-me com histórias…” -, nem com a maior das boas vontades poderá alguma vez ser cantada na Mouraria ou em Alfama. Nada de novo, portanto, neste vale de lágrimas.